Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
11.7.03  
UM LUGAR PARISIENSE

1. A data: 30 de Junho de 2003. A hora: 11h00. O local: Café de la Mairie (Place Saint Sulpice). O tempo: nuvens baixas, escuras. Abro o caderno preto e escrevo o que vejo: a fachada da igreja de Saint Sulpice, em obras (há andaimes do lado esquerdo); o homem que entra no café, com fato verde marinho, barbas brancas, anéis bizarros em todos os dedos da mão direita; o autocarro 70 e as três pessoas que ainda ficaram na paragem, depois dele passar; toda a sorte de chapéus-de-chuva, fechados agora que já não chove; a rapariga que veste uma camisola angora, de cor púrpura; o autocarro 96, seguido pelo 63; os stands verdes do Marché de la Bibliophilie, montados no centro da praça (escondendo a fonte); o balão de hélio que ficou preso entre os ramos de uma árvore, talvez fugido das mãos de uma criança incauta; o mendigo que carrega uma pilha de jornais ainda húmidos; uma camioneta da empresa Dupont – Sanitaire et Chauffage; o rapaz que fala ao telemóvel encostado a um plátano; o 87; a senhora com um top de padrão leopardo; a equipa de televisão italiana que entrevista um transeunte e lhe ensina um truque com cartas; a Renault Kangoo azul, com atrelado, vinda da Rue des Canettes; o par de «amoureux» que se beija cinematograficamente (comemorando talvez uma boa notícia, ou um mês de namoro); o homem que leva uma baguete na mão esquerda e uma embalagem de bolos, piramidal, na direita; o 96 e o 70; o bando de pombos que dá duas voltas à praça (dois círculos perfeitos) e depois pousa num friso da igreja, acima das colunas; o 63; a paragem de autocarro momentaneamente vazia; o rapaz de t-shirt verde oliva que está sentado noutra mesa da esplanada e toma notas num caderno preto parecido com o meu; os sinos da igreja que tocam as badaladas do meio-dia, no exacto instante em que todos os pombos da praça levantam voo e eu peço a conta.

2. Eu lembro-me de não saber ainda da existência de um escritor chamado Georges Perec (por exemplo, quando ele morreu, a 3 de Março de 1982, dez anos e um dia após o meu nascimento). Eu lembro-me das primeiras leituras dos seus livros («A Vida, Modo de Usar»; «La Disparition») e do arrepio que provoca a descoberta de um génio. Eu lembro-me das fotografias: o seu rosto vagamente mefistofélico, os gatos, as reuniões regulares da família OuLiPo (Raymond Queneau, Italo Calvino, François Le Lionnais, Jacques Roubaud, etc). Eu lembro-me das suas idiossincrasias: as palavras cruzadas, o xadrez, o hábito de prender o cigarro entre o dedo médio e o anelar. Eu lembro-me dos prodígios verbais, dos lipogramas, dos palíndromos, da capacidade de explorar até ao limite as potencialidades da língua francesa, sem se ficar nunca, ou apenas, pelo «tour de force». Eu lembro-me de ler as suas prosas com uma certa cobiça, invejoso desse cruzamento irrepetível de erudição e espírito lúdico. Eu lembro-me do livro «Je me souviens» («Eu lembro-me») em que todas as frases começam por «je me souviens». E lembro-me, agora, de um livro de capa cinzenta (editado por Christian Bourgois): «Tentative d’épuisement d’un lieu parisien».

3. O que Georges Perec procurou fazer, na sua «Tentative d’épuisement d’un lieu parisien» («Tentativa de esgotamento de um lugar parisiense»), era à partida impossível: registar tudo o que acontece num determinado local, durante uma hora, uma manhã, um dia inteiro. Ou, para usar as suas palavras, descrever «aquilo em que ninguém repara, o que não tem importância: o que se passa quando nada se passa, a não ser tempo, pessoas, automóveis e nuvens». Entre 18 e 20 de Outubro de 1974, Perec anotou meticulosamente (quase) tudo o que viu na Place Saint Sulpice. O livro resume-se, no fundo, à enumeração de pessoas, automóveis, pombos e autocarros; ao espanto diante das centenas de micro-histórias que acontecem, em simultâneo, na esplanada de um café; e a um olhar melancólico sobre o lento declínio da luz ou sobre a realidade que se escapa, fugidia, à nossa frente. Quase 30 anos depois, algumas coisas permanecem: a igreja, o quiosque, a agência de viagens, o hotel, a loja de artigos religiosos ou os autocarros, todos ainda com os mesmos números e destinos (o 96 para Montparnasse, o 63 para a Porte de la Muette, o 86 para Saint-Germain-des-Prés...). Mas muitas outras coisas desapareceram: o homem que fazia entregas de Tonygencyl, o instituto de beleza ou os Citroën 2CV de cor verde maçã. Sobretudo, eclipsaram-se dois dos três cafés em que Perec se sentava, com uma garrafa de água Vittel, a contemplar aquele pequeno cosmos. Foi por isso no único café ainda aberto, talvez muito diferente (talvez igual) ao daquela época, que me sentei em duas manhãs seguidas, para chegar à mesma conclusão do autor de «53 Jours»: Saint Sulpice, como outro lugar qualquer, é inesgotável.

4. A data: 1 de Julho de 2003. A hora: 11h00. O local: Café de la Mairie (Place Saint Sulpice). O tempo: 1/5 de céu azul, algumas nuvens ameaçadoras, um princípio de ventania. Como não chove, sento-me no canto menos protegido da esplanada e peço um café. Em cima da mesa, o caderninho preto onde anoto (quase) tudo o que vou observando: uma Toyota Hiace a entrar, de marcha-atrás, na Rue des Canettes; o autocarro 96; a senhora que está sentada à minha esquerda e fuma compulsivamente um maço de Camel, cabeça para trás, argolas de fumo saindo da boca em O; o autocarro 63 e logo depois o 87; o camião laranja da Rapid’ Meubles Demenagements; um rapaz de vinte e tal anos que escreve postais (para a namorada?) na mesa ao lado da minha; o 70; a rapariga que entra no café com um livro de 500 páginas na mão e cara de pouco sono; as pessoas na paragem de autocarro (sete, impacientes); as buzinadelas e imprecações na esquina da Rue Napoleon com a Rue du Vieux Colombier; o homem de muletas e «Le Figaro» debaixo do braço; a mulher de cabelo vermelho e saco da loja «Votre nom...»; o senhor de meia-idade que veste um casaco de camurça e tenta acender, sem sucesso, o seu cachimbo; o chapéu de marinheiro visto ao longe, junto ao quiosque (Corto Maltese?); o homem em fato-macaco azul, com manchas de tinta branca; o vento que amaina no preciso instante em que uma velhota baixinha e enrugada olha para o céu, para a nuvem negra que paira sobre a torre de Montparnasse, e diz que vai chover «trés fort»; o homem dos sacos transparentes (uma meloa, cenouras, iogurtes, latas de conservas); os operários que desarmam, no centro da praça, os stands verdes do Marché de la Bibliophilie; o balão de hélio que continua preso entre os ramos da árvore; o 63; o pombo que debica migalhas aos meus pés; as oito motas estacionadas no passeio; o vento que sopra agora com mais força e desalinha os cabelos de quem passa; as folhas verdes dos plátanos que caem como se fosse Outono; o lugar vazio onde ontem escrevia furiosamente o outro rapaz observador; o relógio que marca 11h52 quando a chuva desaba torrencial (tinha razão, a velhota) e decido ir embora, com o caderno cheio de aproximações inconsequentes, palavras perdidas, contabilidades inúteis e nem uma sombra, uma única sombra, de Perec.

(esta crónica foi publicada no DNA de 12/07/2003)

18:11 28.6.03  
NOTÍCIAS DA BLOGOSFERA

Há cerca de seis meses, precisamente no primeiro dia do ano, eu criei um blogue com o meu irmão. Na altura, contavam-se pelos dedos as pessoas que sabiam o que isso era. Um blogue. Hoje, provavelmente, contam-se pelos dedos as pessoas que não sabem. Em pouco tempo, a blogosfera (como é comum chamar-se ao universo dos blogues) passou de uma espécie de clandestinidade obscura para a mais iluminada das ribaltas, sem meio termo, à semelhança de tantas outras coisas em Portugal. Se de início houve uma desconfiança porventura excessiva dos media tradicionais em relação ao fenómeno, agora acontece precisamente o contrário. Estamos em plena blogomania: os jornais de referência citam os blogues e dedicam-lhes editoriais; há destaques, reportagens e perfis de «bloggers» a aparecer por todo o lado; entrevistas em programas de rádio; o diabo a sete. De repente, ter um blogue ficou «in», é giro, é moderno, confere estatuto, «está a dar». Toda a gente opina sobre a questão, mesmo quem visivelmente desconhece os meandros da blogosfera. E as polémicas sucedem-se, dos blogues contra os jornais e também, desde a semana passada, dos jornais contra os blogues (veja-se a última crónica de Pedro Rolo Duarte neste suplemento).
O clima, convenhamos, é de alguma efervescência, para não dizer histeria. E talvez seja altura de fazer um primeiro balanço, começando por constatar que o número de blogues portugueses continua a crescer de forma quase exponencial. Se no princípio do ano, quando escrevi nesta mesma página uma crónica didáctica sobre o assunto, existiam pouco mais de 100, agora já ultrapassam os 700 (conferir em http://blogsempt.blogspot.com/ e http://blogo.no.sapo.pt/), havendo quem preveja para as próximas semanas a entrada na casa dos milhares. A esta explosão quantitativa correspondeu também, como seria de esperar, uma especialização qualitativa. Se de início predominavam os blogues pessoais (diários íntimos), seguiu-se uma vaga de blogues de reflexão essencialmente política e cultural, para desembocarmos agora num leque quase ilimitado de tendências. Há, literalmente, blogues para todos os gostos: humorísticos, regionalistas, bibliófilos, de arquitectura, futebolísticos, eróticos, religiosos, gastronómicos, apócrifos, académicos, literários, rascas, eruditos, «you name it». Alguns são excelentes (sendo que a palavra «alguns» equivale, neste universo, a umas boas dezenas), outros são apenas razoáveis e muitos não têm qualquer interesse. A blogosfera, no fundo, limita-se a reflectir o que acontece em qualquer outra actividade humana. É a velha história da curva de Gauss: impera a mediania, rareia a excelência. Como em tudo. Sejamos honestos: ninguém deixa de ouvir os cantores de qualidade só porque sabe que existem os pimbas, pois não?
Uma coisa é certa: a blogosfera, com todas as suas potencialidades e limitações, veio para ficar. Talvez ainda não justifique tanta exposição mediática (sobretudo se tivermos em conta que os blogues mais frequentados registam uma média de apenas 500 visitas diárias), mas a verdade é que está a nascer ali qualquer coisa radicalmente nova, entusiasmante, criativa, paradoxal, livre e (talvez por isso) muitíssimo bela. Essa «coisa» nova, ainda em construção, ainda a emergir do magma mais ou menos caótico de centenas de vozes que se sobrepõem e contradizem, essa «coisa» nova é preciosa. Quem não perceber isto, não percebeu nada.
Devemos então glorificar acriticamente a blogosfera, como se fosse o El Dorado redentor da mediocridade geral? É claro que não. Mas devemos discuti-la com seriedade, porque é de um fenómeno sério que se trata. Pela primeira vez, a internet perfila-se como um complemento válido à imprensa clássica. Falo de complemento, sublinhe-se; não de alternativa. Ao contrário do que muita gente insinua, a blogosfera não é um «lugar» (se é que podemos falar de «lugar» na imaterialidade do ciberespaço) onde se faça jornalismo, pelo menos nos moldes tradicionais. A blogosfera é outra coisa. Umas vezes segue os temas e o «modus operandi» do jornalismo (nomeadamente nas críticas a acontecimentos culturais ou no comentário político), mas na maior parte dos casos não. Nos blogues, as notícias e as crónicas cruzam-se com apontamentos do quotidiano, divagações filosóficas, «private jokes», poemas, gestos de amizade, desabafos e toda a sorte de pequenas referências que nunca teriam lugar num jornal, embora se enquadrem perfeitamente no espírito heterodoxo e multiforme desta nova forma de comunicar. A blogosfera não é a continuação do jornalismo por outros meios (ou sequer por outro meio). A blogosfera é o que é, passe a tautologia. Ou melhor, é o que ainda não é. É o que há-de ser.
Separadas as águas entre a blogosfera e o jornalismo (por muito que aparentem ser, nos tempos que correm, irmãos siameses), levanta-se uma magna questão: devem os jornalistas profissionais escrever nos blogues? Para o director deste suplemento, a resposta só pode ser negativa porque «quando os profissionais do jornalismo se envolvem em “blogues”, estão a negar a essência do seu trabalho e a viciar o jogo da liberdade», além de embarcarem em exercícios «de vaidade pura» e de «presunção sem pai nem mãe». Depois de muito pensar sobre o assunto, e de reler os blogues escritos por jornalistas (Francisco José Viegas foi uma das últimas «aquisições»), continuo sem perceber em que medida há naqueles textos, geralmente mais espontâneos e sem as limitações editoriais que nascem do facto da imprensa ser «finita no espaço e no tempo», qualquer negação da «essência» do jornalismo. O que se passa, muito simplesmente, é que alguns jornalistas não se esgotam na sua crónica semanal e têm, na internet, um meio de publicarem tudo aquilo que lhes interessa escrever, mas que não cabe (por razões de tamanho ou temática) na lógica própria da imprensa. Será isto «viciar o jogo da liberdade»? Porquê? Como? O jogo da liberdade ficará viciado, isso sim, no dia em que se decretem quaisquer limitações no acesso à blogosfera. Quem é que estabeleceria o «numerus clausus»? E com que critérios? Na realidade, nada disto faz sentido, porque a blogosfera é virtualmente infinita. Ninguém «ocupa» o lugar de ninguém. Há espaço para toda a gente, até para os que assumidamente não gostam de blogues (esses podem escrever sobre a sua aversão, por exemplo). No limite, chegado o dia em que todos os portugueses tenham acesso à internet e saibam escrever duas frases seguidas, cada habitante deste país pode manter o seu blogue. Mas isso, claro está, é entrar no domínio das distopias.
Quanto à vaidade e presunção, o que se passa é precisamente o inverso. Entrar na blogosfera, onde não existem hierarquias e todos os «bloggers» estão em pé de igualdade, exige coragem e humildade. Coragem porque não é fácil sobreviver num meio em que as polémicas são permanentes e agressivas, a troca de argumentos exige boa preparação teórica e o nível médio da escrita é francamente elevado (já para não para falar do escrutínio apertadíssimo feito pelos leitores, nas áreas de comentário). Humildade porque nos apercebemos todos os dias que há pessoas, nomeadamente as que não têm acesso aos jornais, que sabem mais do que nós, são mais cultas do que nós, estão mais bem informadas do que nós e escrevem melhor do que nós. De resto, essa foi uma das principais lições que aprendi nestes seis meses de blogosfera, juntamente com a constatação de uma inesperada generosidade «inter pares». Mas isso já seria matéria para outra crónica.

(esta crónica foi publicada no DNA de 28/06/2003)


23:13  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «O ÚLTIMO OLHAR».
23:09  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «A GUERRA SEM ARGUMENTOS».
23:08  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «CONVERSA INACABADA».
23:08 25.5.03  
OS LIVROS À SOLTA

Em frente ao edifício da Escola Superior de Educação, em Benfica, estão umas trinta pessoas, todas com livros na mão e uma espécie de alegria contagiante. É sábado à tarde, o sol deixou-se de meias tintas e o céu muito azul dá pela primeira vez sentido, este ano, à palavra primavera. Ficar debaixo de um tecto, com um dia assim, seria criminoso, por isso o grupo escolhe uma sombra, estende mantas na relva e pousa os muitos livros trazidos de casa no centro de um círculo. Pessoas e livros. Pessoas que gostam de livros. Conversas sobre o que se leu e também sobre o que não se leu mas vai ser lido, mais tarde ou mais cedo. São assim os encontros dos membros do BookCrossing, realizados mensalmente em Lisboa e em todas as cidades portuguesas (Porto, Coimbra e Braga, por exemplo) onde já existem núcleos de entusiastas desta espécie de «corrente de leitura».
Para quem nunca tenha ouvido a palavra inglesa, ou desconheça o seu significado, talvez seja melhor explicar de que falamos quando falamos de BookCrossing. A história começa em Abril de 2001, quando o informático americano Ron Hornbaker consegue, em 28 dias, programar um novo site, construído em torno de uma ideia ambiciosa: «fazer do mundo inteiro uma biblioteca». E como é que isso se consegue? Simples: incentivando as pessoas a cederem «ao mundo» alguns dos seus livros, em vez de os guardarem durante anos a fio, intocados, na ordem geométrica (ou caótica) das prateleiras. Qualquer pessoa que deseje passar a outrém um livro já lido, inscreve-se no site, regista o exemplar com um número e «liberta-o» – uma bela expressão – onde muito bem entender: ao acaso (no café, num banco de autocarro, junto a um monumento) ou em locais previamente combinados, onde os leitores que procuram aquela obra em concreto sabem que a vão encontrar. O benemérito pode depois seguir o percurso do livro libertado e saber o que dele acharam os seus sucessivos e provisórios donos, porque os comentários escritos no site são enviados, por e-mail, ao «libertador». Como é óbvio, ao acompanhar o que se passa no site e no seu virtualmente infinito sistema de partilha, quem dá livros também aprende onde e como receber outros, que depois de lidos serão novamente libertados, numa espécie de trânsito babélico que tem começo mas pode não ter fim.
Neste momento, no mundo todo, existem mais de 355 mil obras inscritas e o número de membros do site não pára de aumentar. Em Portugal, a comunidade de BookCrossing nasceu em Julho de 2002, mas o crescimento exponencial só se deu após a publicação de diversos artigos sobre o tema em alguns órgãos de Comunicação Social. Se no fim de Janeiro de 2003 existiam 100 membros, em Março eram 500 e neste momento ultrapassou-se já a barreira do milhar. Além do efeito habitual do «boca a orelha», algumas pessoas aderem porque tiveram a sorte de descobrir um livro aparentemente abandonado, mas com um autocolante lá dentro (onde consta o tal número de registo e o endereço do site). Depois, uma vez compreendida a lógica deste autêntico ovo de Colombo bibliófilo, o difícil é pensar noutras coisas. Mais do que um divertimento ou uma boa acção, o BookCrossing pode rapidamente transformar-se num vício.
É o que me diz uma das participantes no encontro solarengo de Benfica, enquanto examina os livros que as outras pessoas trouxeram para esta sessão de troca directa. «O problema é parar. Eu, por exemplo, hoje não vou levar nada. Não posso. Estou de "dieta" até dar conta dos livros todos que tenho numa pilha, ainda por ler, no meu quarto». Se a maior parte destas pessoas já tinha bons hábitos de leitura, agora admitem que lêem ainda mais, até porque existe uma pressão inconsciente no sentido de «libertar» os livros o mais depressa possível, para que possam ser lidos por outras pessoas que estão, algures, à espera.
De início, havia no projecto BookCrossing uma atracção pela ideia de acaso. Era suposto largar os livros aleatoriamente, muitas vezes em locais inesperados, para que fossem descobertos, também aleatoriamente, pelo tipo de pessoas que nunca entra numa livraria. Mas a margem de risco era considerável: quem apanha o livro pode arrancar-lhe a etiqueta e juntá-lo à sua coleccção, como pode deitá-lo para o lixo ou mesmo entregá-lo nos Perdidos e Achados (já aconteceu). Além disso, os livros que saão deixados na rua, expostos aos elementos, nem sempre sobrevivem a uma noite de vendaval ou a uma bátega. E é por isso que a percentagem de livros efectivamente recolhidos ainda não ultrapassou, até agora, os 25%. Para aumentar a probabilidade de sucesso, surgiram entretanto as chamadas Crossing Zones, ou seja, locais seguros onde os cúmplices deste movimento sabem que podem deixar e levantar livros. Em Lisboa, há pelo menos duas Crossing Zones: o restaurante/bar Agito (no Bairro Alto) e a livraria Clepsidra (junto às Picoas).
Como seria de esperar, houve muita gente que não gostou do carácter comunitário do BookCrossing e menos ainda da sua estratégia de partilha, claramente nos antípodas do consumismo desenfreado que marca o nosso tempo. Em vez de um sistema assente na compra e na posse dos objectos (tantas vezes sem usufruto), propõe-se uma rede imensa de livros gratuitos, que andam por todo o lado e não pertencem a ninguém. Quer isto dizer que o negócio dos escritores e das editoras fica ameaçado, como garantem as cassandras do costume? Nem por sombras. A prática demonstra que as pessoas que aderem ao BookkCrossing tendem a adquirir mais livros do que adquiriam antes. E há mesmo quem compre em duplicado, para guardar um dos exemplares, «libertando» o outro.
É o caso da leitora compulsiva que está sentada ao meu lado e que já se candidatou, com os olhos, à volumosa e cobiçadíssima autobiografia de Gabriel García Márquez. O economista que trouxe «Viver para Contá-la», desde Setúbal, vai agora explicando a estrutura narrativa das outras duas magníficas obras que decidiu oferecer: «Desgraça», de J. M. Coetzee, e «Expiação», de Ian McEwan. E na outra ponta da roda que fizemos, sentados na relva, Luís Filipe Silva aprova a escolha daquele que é conhecido na Net pelo seu «nickname»: Prytzkov.
O Luís, além de ser um dos melhores autores portugueses de Ficção Científica, é considerado o primeiro «bookcrossista» nacional. Diz-me: «O que me atrai nisto, Zé Mário, é o sonho de uma biblioteca global, parecida com a do Borges». Eu percebo o que ele quer dizer. E concordo. No último sábado, dia de sol e cumplicidades, o BookCrossing ganhou um novo membro.

(esta crónica foi publicada no DNA de 24/05/2003)


20:53 17.5.03  


SEXO NA CIDADE (DE PROVÍNCIA)

Há umas semanas, ao rever na SIC Mulher um dos episódios de «Sex in the City» – uma série sobre quatro sofisticadas nova-iorquinas que procuram, na grande cidade, todo o tipo de aventuras sexuais – pus-me a imaginar como seria uma eventual adaptação portuguesa deste «conceito», inventado pela romancista Candice Bushnell. Quem seriam as actrizes? Haveria também um Mr. Big (ou melhor, um Sr. Grande)? Por onde andariam elas à procura do homem perfeito, entendido como um sinónimo de amante belo, atlético, carinhoso e rico (sobretudo rico)?
Imaginei cenas nas Docas, no Lux, nos restaurantes do Parque das Nações, nas lojas mais caras da Avenida da Liberdade e em dois bares da moda. Lisboa não é Manhattan, mas sempre se arranja qualquer coisinha. Já o elenco, necessariamente heterogéneo, levantava mais dificuldades. E daí... Que tal juntar Alexandra Lencastre, Margarida Marinho, Fernanda Serrano e a «não-alinhada» Rita Blanco? Se calhar até funcionava, nunca se sabe. Depois era só encomendar um argumento às Produções Fictícias e o resultado até podia tornar-se melhor do que a versão original – useira e vezeira num registo de humor muito americano e «trendy»; ou seja, pouco acessível a quem não tenha o privilégio de viver no Upper East Side.
Andava eu nestas congeminações um pouco frívolas, admito, quando a realidade portuguesa me caiu em cima, pronta a destruir de um só golpe tão irreais extravagâncias. Qual Docas, qual Expo, qual Alexandra Lencastre. A versão nacional do «Sexo na Cidade» não fica em Lisboa. Fica em Trás-os-Montes. E se também tem quatro protagonistas, o certo é que estas não usam rimel, não bebem Chianti e nunca sequer sonharam em usar lingerie Victoria’s Secret. Refiro-me, como é óbvio, às celebérrimas «Mães de Bragança», o grande fenómeno mediático dos últimos tempos, juntamente com a fuga de Fátima Felgueiras. Não por acaso, duas histórias ideais para colmatar, neste período de pós-guerra, a súbita baixa nos níveis da adrenalina noticiosa.
Tudo começou, se bem se recordam, com um abaixo-assinado/manifesto contra uma «onda de loucura» que se teria abatido sobre a pacata cidade transmontana, desviando os homens bragantinos dos seus lares, directamente para os braços de pérfidas prostitutas brasileiras. Segundo as quatro corajosas signatárias do documento, as raparigas de sotaque doce teriam recorrido a todo o tipo de macumbas (com pétalas de rosa, raízes de amor-perfeito, etc) para enfeitiçar os legítimos maridos. Ou, como resumiu uma das despeitadas, para lhes darem «a volta à cabeça». Solução para o problema? As bravas «Mães» nem hesitam: alguém tem que fazer alguma coisa por elas, vítimas não só de uma humilhação amorosa e sexual, mas também de outros danos irreversíveis: as poupanças que voaram, os esposos que lhes batem e «partem tudo», as famílias desfeitas. Alguém – Estado, polícia, Governo Civil – tem que repor a ordem. E, já agora, os bons costumes. Com muito menos, convenhamos, haveria quem fizesse uma telenovela de 200 episódios.
Mas se não tivemos (ainda) direito à telenovela pura e dura, a verdade é que a «informação espectáculo» revelou-se um bom sucedâneo, com o seu despudorado empolamento das notícias e a atracção incontrolável por cenas de faca e alguidar. Previsivelmente, em Bragança ergueu-se de novo o circo mediático, com dezenas de jornalistas à caça do melhor «soundbyte» ou da história mais bizarra – tudo complementado pela presença em estúdio de um investigador das Ciências Sociais, capaz de explicar, em três minutos, antes do próximo directo, as razões profundas desta «ruptura sociológica».
No meu modesto ponto de vista, o busílis da questão está na forma como se encara a sexualidade (e, já agora, as relações de poder dentro do casal). Como referiu Eduardo Prado Coelho, é sintomático que o movimento se auto-denomine «Mães de Bragança» e não «Esposas de Bragança». Ao colocarem-se no papel de mães, elas não estão apenas a negar (ou a reprimir) o seu desejo erótico. Estão a colocar-se moralmente acima das suas rivais. Elas são mães (também dos maridos?), as outras apenas mulheres. E elas são puras enquanto as outras são putas.
O mais extraordinário, porém, é que os maridos, indecisos entre os dois pólos antagónicos, nem precisam de se redimir. Eles nunca têm culpa. As «Mães» perdoam-lhes os desvarios – porque «um homem não é de ferro» – e preferem ignorar o óbvio: são os seus homens que procuram aquelas mulheres, não o contrário. Por que é que isto acontece? Não sei. Mas a persistência deste tipo de valores machistas, alimentados pelas próprias mulheres que os sofrem na pele, é no mínimo preocupante.
Além disso, as «Mães» de Bragança tendem a escamotear as suas responsabilidades no desastre. Sejamos lúcidos: se os homens fogem, em busca do «mimo» e dos «carinhos» das brasileiras, é porque certamente isso lhes faltou lá em casa. Muita gente insinua que as bragantinas ficaram para trás porque não se cuidam, porque se deixam engordar e não sabem seduzir. Talvez. Para mim, a culpa é antes da televisão. Elas obrigaram os maridos a ver, durante anos a fio, as telenovelas da Globo, não foi? Então não se queixem. Tenho a certeza que foi em frente da TV que eles começaram a fantasiar com as «garotas»...
Depois de todo o alarido, o que subsiste é um problema económico. Com as rusgas policiais e a atenção da imprensa, algumas prostitutas retiraram-se da actividade ou reduziram-na. Por arrasto, foi afectado o comércio, sobretudo o das floristas, cabeleireiras e taxistas. Há menos dinheiro a circular, menos negócio. As pessoas estão descontentes. Quando as «Mães» exigem o regresso à pátria das brasileiras, há mesmo quem sugira que se podiam juntar, umas e outras, no mesmo avião. Era da maneira que deixavam Bragança finalmente em paz. E sempre faziam companhia à desterrada Fátima Felgueiras.

(esta crónica foi publicada no DNA de 17/05/2003)


19:12 16.5.03  


SUPERMERCADO

1. Na secção de frutas, duas mulheres. Uma mais velha, outra mais nova, a mesma curva do queixo, os mesmos olhos. Vê-se logo que são mãe e filha, às compras num fim de tarde lisboeta, antes do regresso a casa. O «generation gap» é isto: saia casaco e pulseira de ouro versus jeans de marca e relógio Swatch. Agora andam as duas com sacos de plástico transparente, de um lado para o outro, a escolher as melhores peças. Arrumadas as laranjas espanholas no carrinho, a mãe insiste em levar papaias. «Olha que se faz bem ao Papa, a nós não nos há-de fazer mal». A filha encolhe os ombros, «está bem, OK, tu é que sabes», e nesse preciso instante tocam, quase em uníssono, os dois telemóveis. Seguem-se conversas paralelas: de um lado, tapetes de Arraiolos e begónias («São lindas, Carmen, são lindas»); do outro, a frequência de quinta-feira e o amuo do namorado («Não sei o que é que ele tem, Patrícia, anda esquisito»). Cinco minutos mais tarde, com os telemóveis de regresso às malinhas minúsculas, enchem-se de novo sacos de plástico transparente, agora com pêras vermelhas e bananas. A mulher mais nova murmura qualquer coisa à mais velha. Riem muito, as duas. De onde me encontro, não dá para perceber se estão a rir de uma das amigas que ligou há pouco, se das notícias sobre as «mães de Bragança» – essas vítimas do alvoroço que as prostitutas brasileiras provocaram nos homens transmontanos. É então que a filha pára, indecisa: kiwi ou abacate? (O dilema repetir-se-á, diante dos iogurtes magros: frutos do bosque ou müesli?) «Leva antes umas uvinhas», diz-lhe a mãe.

2. No balcão das carnes, as embalagens parecem todas iguais. Um rectângulo de esferovite, um bife avermelhado e uma película plástica com o autocolante que informa sobre o peso e o preço. Estão ali ao monte, às carradas, à espera de alguém que as apanhe e as coloque no carrinho, e depois em sacos com o logótipo do supermercado, e depois no porta-bagagens de um automóvel utilitário pago em 36 prestações, e depois no elevador do prédio sem jardim à porta, num subúrbio feito de betão, e finalmente numa frigideira já muito usada, com margarina, dois alhos e uma pitada de sal. Este percurso pode ser iniciado por aquela mulher que se aproxima dos expositores, como uma criança de cinco ou seis anos pela mão. Pega num naco de vitela, olha-a de vários ângulos, volta a pousar. Aproxima-se dos frangos e vira a cara. Espreita as costoletas de porco e hesita. Não é difícil imaginar as palavras que a assustam: vacas loucas, nitrofuranos, hormonas. Olha para a cabeça e abana a cabeça. A banca do peixe é já ali: robalos, linguados, raia, pargo. Mas depois aproxima-se, vê bem os preços, confirma com a empregada, abana de novo a cabeça e volta para trás.

3. O meu carrinho guina para a direita. Eu bem tento manter uma rota, tirar azimutes, seguir um rumo certo. Mas o carrinho tem vontade própria, atira-se contra as embalagens de massa italiana, contra os pacotes de detergente, contra os garrafões de água mineral e contra as pernas das outras pessoas. Pessoas que também têm, desconfio, carrinhos que guinam sempre para a direita. E se fossem só os carrinhos...

4. Há uns tempos, ouvi dizer que a secção dos congelados é um excelente local de engate. A lógica do raciocínio parece-me cristalina: 1) quem vive sozinho não tem paciência para cozinhar; 2) quem não tem paciência para cozinhar procura refeições rápidas (tipo lasanha em cinco minutos; bacalhau à Brás em sete); e 3) quem procura refeições rápidas deambula frequentemente junto às arcas frigoríficas – na mira talvez de uns douradinhos, de uns rissóis prontos a fritar ou mesmo de uma pizza esbranquiçada que fará «plop» no microondas. Corolário: é muito mais provável um solitário chocar com uma solitária, ou vice-versa, naquela zona do supermercado do que, por exemplo, na área em que se vendem hortaliças e coentros frescos. A teoria, porém, não parece aplicar-se ao dia de hoje, em que junto às arcas só vejo casais (será que os solitários saem mais tarde?), casais novos, todos ostensivamente sub-30. Um deles, então, parece saído de uma revista. Muito estilo, bronze impecável (das férias na montanha ou do solário), óculos escuros. Enchem o carrinho de couves de Bruxelas e macedónia, avançam para os gelados mais caros, escolhem filetes de maruca sem olhar ao preço. De longe, apercebo-me de um pormenor sintomático: os dois são com certeza recém-licenciados, provavelmente bem pagos (ele pode ser corretor da bolsa; ela, médica), não parecem ter angústias com a taxa de crédito à habitação nem com o pagamento mensal dos cartões, mas já não falam um com o outro. Coisa trágica, esta. Ser sexagenário com vinte e poucos anos.

5. «Então, sempre vais a Sevilha?» Quem pergunta é um homem de barriga proeminente, cabelo todo branco (o que lhe sobra), bigode à Nietsche e cachucho na mão sapuda. O amigo, apenas um pouco mais alto e sem bigode, abana a cabeça afirmativamente. «Podia lá perder uma coisa destas». Estão os dois na secção das bebidas alcoólicas, departamento dos whiskys velhos. Falam do FCP, do José Mourinho e das maravilhas que o Deco faz com uma bola de futebol. «O homem é um artista», diz o pseudo-Nietsche, com o tom de quem trata por tu as bancadas das Antas. Eu estou de passagem e finjo procurar uma garrafa de vinho moscatel, a uns dez metros de distância. Os dois amigos falam mais baixo. – Então quer dizer que ficou tudo resolvido? – Tudinho. – E o homem é mesmo de confiança? – Já te disse que a coisa está encaminhada, não temos que nos preocupar. – ’Tá bem, mas... aquilo fica mesmo para nós, não fica? – Fica, fica, garanto-te. – Então ’tá bem. Trata do cheque que eu trato do whisky. – Assim mesmo é que é falar. De pomadas percebes tu... – Pois é. E olha lá, damos o quê, afinal? Uma garrada de 12 anos? Ou de 15?

6. O meu avô materno costumava dizer que a melhor forma de conhecer um país, uma região ou uma cidade, era visitar um mercado. Na forma como se dispõem os alimentos, na frescura dos legumes, na limpeza do recinto, na cortesia ou nos maus modos dos vendedores (e dos clientes) estariam todos os indícios de como funciona uma sociedade. As suas virtudes mas também os seus defeitos. E por isso ele gostava de sair, manhã cedo, para ler um país, uma região ou uma cidade no torvelinho confuso de uma praça atravessada pelos gritos das peixeiras. Hoje, existem centros comerciais e grandes hipermercados, lugares que ele não viu e não imaginou sequer. Na fila para a caixa registadora, atrás da mãe e da filha, novamente ao telemóvel («querido, levamos uvas para o jantar»), voltei a lembrar-me do meu avô. Talvez porque continua, no fundo, a ter razão.

(esta crónica foi publicada no DNA de 10/05/2003)


22:55 12.5.03  

CONCERTO PARA TOSSE E ORQUESTRA

No passado fim-de-semana, os melómanos portugueses puderam tirar a barriga de misérias. Durante três dias, nas muitas salas do Centro Cultural de Belém, houve autênticas maratonas musicais, integradas nessa celebração cultural mais ou menos caótica, mas sempre exaltante, que é a Festa da Música. À falta do divino dom da ubiquidade, era ver as pessoas a correrem de um lado para o outro, da sala Tintoretto para a sala Caravaggio e da sala Caravaggio para a sala Tiziano, tentando encaixar numa agenda apertadíssima o máximo de concertos. Quatro por dia foi a minha dose, quase no limite do cansaço, mas acredito que outros espectadores, habituados aos grandes festivais de ópera (Bayreuth e Salzburg), tenham ido ainda mais longe, até porque o programa – com obras de compositores italianos do período que vai «de Monteverdi a Vivaldi», interpretados por músicos excepcionais (como o conjunto La Venexiana, os Tallis Scholars ou o contra-tenor espanhol Carlos Mena) – era tão bom que seria um crime desperdiçá-lo.
Pela minha parte, lá fui correndo entre as salas com nomes de pintores, atrás das melodias de Corelli ou dos cromatismos de Gesualdo. Ao longo dos 12 espectáculos, houve de tudo: interpretações sublimes e outras que nem por isso; momentos de êxtase e períodos de tédio. Constante mesmo, só a tosse. Sim, essa mesmo, a famosa «tosse dos concertos» – a mais persistente e universal das pragas culturais da humanidade.
Como diria um amigo meu, «é matemático». Assim que os músicos entram na sala e abrem as partituras, começa o cof, cof, cof. A tosse espalha-se pela plateia, numa bizarra polifonia de sons guturais, acalma depois um pouco com a subida do maestro ao palanque, mas logo retoma o seu trabalho de sapa e começa a sabotar, aqui e ali, os alicerces da peça musical que é suposto ouvir em silêncio. Claro que o silêncio absoluto não passa de uma abstracção, mas a tosse – esse pérfido animal colectivo – encarregar-se-ia de o destruir, caso por milagre ele um dia acontecesse. Basta ver a sorte normalmente reservada a esse momento mágico de suspensão que é um pianissimo. O maestro põe um dedo à frente da boca, a orquestra abranda, os arcos dos violinos mal tocam nas cordas, os dedos do pianista acariciam as teclas como se fossem flocos de neve, há um quase silêncio, um sussurro, um murmúrio e então... então lá no fundo da sala alguém pigarreia como se tivesse os brônquios em fogo, o som cavernoso sobrevoa as cabeças e assassina a sangue-frio, sem contemplações, aquele tão delicado prodígio, conseguido ao fim de infinitas horas de ensaio.
Para arruinar um andamento, uma sinfonia, às vezes todo um recital, não é preciso mais do que um primeiro ataque incontrolado. Porque uma das características da «tosse de concerto» é o seu efeito multiplicador. Se começa nas primeiras filas, rapidamente alastra pelas outras todas, como um incêndio. E não há quem a controle. Nos casos mais graves, chega mesmo a provocar a saída intempestiva dos músicos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o maestro Kurt Masur, quando dirigia há uns tempos a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque. Ou com o pianista Andras Schiff. Ao ser interrompido durante a interpretação da última sonata de Schubert (a D. 960), levantou-se calmamente e disse, em inglês, ao espectador ruidoso: «Se quiser, fazemos agora um intervalo para tossir (“coughing break”, trocadilho com “coffee break”), esteja à vontade». O homem em causa corou e saiu da sala envergonhadíssimo, enquanto Schiff voltou a sentar-se ao piano, terminando o concerto de forma triunfal.
A questão que se põe, a quem como eu nunca tosse, é esta: por que é que isto acontece? Haverá alguma explicação física, química, biológica? Será da alcatifa, do pó, de alguma bactéria que se desenvolve no veludo das cadeiras? Ou então dos próprios instrumentos, dos sons que emitem, das ondas sonoras capazes de irritar – vá-se lá saber porquê – a mucosa do sistema respiratório? Na internet, ao investigar o assunto, o máximo que encontrei foi uma elaboradíssima teoria estatística que desembocava, acreditem, no «processo homogéneo de Poisson». Não me peçam para explicar os detalhes, por favor, mas a conclusão era clara. Numa assistência de 200 pessoas, a probabilidade de que todas elas consigam manter o silêncio durante pelo menos cinco minutos é muito baixa: 0,00022. Ou seja, há uma certeza quase absoluta (99%) de que durante aquele período de cinco minutos alguém vai tossir, nem que seja uma vez.
Quer isto dizer que a tosse é uma fatalidade, contra a qual não podemos lutar? Não. Aliás, acho que há causas muito concretas que explicam o fenómeno e que podem dar-nos pistas para redução deste problema. Uma dessas causas tem a ver com o estaturo social dos concertos de música erudita. Preocupadas com o que os outros pensam e com as regras de etiqueta (não bater palmas entre os andamentos é uma delas), algumas pessoas ficam tensas, o que facilita o aparecimento da tosse nervosa. Pior ainda, o receio de tossir cria ansiedade e a ansiedade provoca a tosse que justamente se pretendia evitar. Além disso, quanto mais elitista for o meio ambiente, pior. A tosse do Scala de Milão é mais cavernosa que a do S. Carlos, a do S. Carlos é mais profunda que a da Gulbenkian, a da Gulbenkian mais cerrada que a do CCB.
A principal causa, porém, é mesmo a falta de atenção. Uma parte considerável dos espectadores nem sequer gosta daquela música – escuta Beethoven por delicadeza ou por obrigação, mas está a pensar na lista do supermercado ou no jogo do Benfica. Outra parte gosta da música mas cansa-se, distrai-se, perde o fio à meada. E tosse. Tosse porque se aborrece. A verdade, nua e crua, é esta: há uma correlação entre o grau de interesse numa dada obra e o volume de tosse que provoca. É só fazer a experiência. Depois da mozartiana «Eine Kleine Nachtmusik», ofereça-se ao público uma obra de Stockhausen. Aposto em como vai parecer que surgiu na plateia, durante a audição da segunda peça, um surto de pneumonia atípica.
A conclusão é óbvia: quem está concentrado, só tosse se estiver mesmo doente. Alguma vez viram um músico tossir em palco? Eu não.

(esta crónica foi publicada no DNA de 03/05/2003)


03:14 28.4.03  


HISTÓRIAS DA MAFIA PÓS-MODERNA

Comecemos por uma evidência: «Os Sopranos» é o melhor programa que se pode ver, actualmente, na televisão portuguesa (segundas-feiras, às 23 horas, na RTP2). Dito por mim, que passo cada vez menos tempo em frente do pequeno ecrã da TV e cada vez mais horas diante do computador (fazendo da internet a minha segunda casa), o juízo vale o que vale. Mas pelo que oiço nos cafés e nas conversas de amigos, não devo andar muito longe da verdade. Cinco minutos de zapping chegam para perceber que a TV dos nossos dias é composta por 95% de lixo, 4% de programas razoáveis e umas quantas pérolas tresmalhadas (como o documentário sobre Francis Bacon exibido pelo «Artes e Letras» há duas semanas, algumas séries humorísticas da BBC – sobretudo «The Office» – ou o brilhante «Daily Show», com Jon Stewart, na SIC Radical). No entanto, capaz de me fazer ficar em casa, de propósito, à hora marcada – como em tempos a «Balada de Hill Street», o «Cosmos» de Carl Sagan ou a melhor sitcom de sempre («Seinfeld», claro) – só mesmo «Os Sopranos».
Para ser sincero, devo dizer que quando ouvi falar deles pela primeira vez, a propósito de uns Emmys ganhos na categoria de melhor série dramática, fiquei de pé atrás. «Os Sopranos»? Imaginei logo senhoras gordas que cantam notas sobreagudas e morrem, tragicamente, no fim das óperas de Puccini. Quando percebi que a intriga não se passa nos bastidores do Met, antes nos arrabaldes de New Jersey, entre famílias da mafia, foi pior ainda. A mafia, outra vez? Será que ainda é possível ficcionar a mafia, dissecar a mafia, descodificar a mafia, depois de tudo o que Coppola fez com «O Padrinho» (esse arquétipo mil vezes imitado)?
A resposta, recebi-a com o primeiro episódio. Sim, é possível. Mais ainda: é possível não só reiventar a forma como vemos a mafia, mas humanizá-la. Nesse fabuloso primeiro episódio, Tony Soprano (James Gandolfini), o pater familias, homem duro e capaz de assassinar um adversário (ou um traidor) à queima-roupa, sem a mínima hesitação, revela desde logo uma natureza surpreendentemente frágil. Perturbado com uma ocorrência menor da vida quotidiana (a súbita partida dos patos que tinham «invadido» a sua piscina), Tony cai num estado de profunda melancolia, pontuada por ataques de ansiedade. Não há segundas leituras possíveis: o que nos espera, ficamos a saber desde o princípio, é a história de uma família mafiosa liderada por um homem depressivo. Um homem atormentado pela mãe e pela mulher, que toma Prozac e visita a psiquiatra todas as semanas.
Como espectador, rendi-me (sem oferecer resistência) à subtil rede narrativa de David Chase, o criador da série. E tive logo a sensação, confirmada em quase todos os episódios subsequentes, de que a estrutura dramática, os movimentos de câmara, a fotografia e os diálogos – os espantosos diálogos – estão ao nível do que de melhor se faz, hoje em dia, no cinema americano. Aliás, a forma como a violência emerge, entre uma rodada de whisky no Bada Bing! e um jantar de negócios no restaurante Vesuvio, com piadas pelo meio e um jeitinho dado ao nó da gravata de seda italiana, faz por vezes lembrar os assassinos de Quentin Tarantino, capazes de discutir a diferença entre os hambúrgueres americanos e europeus, antes de mais um «serviço». E se na argúcia dos guiões, bem como no profissionalismo algo trapalhão dos «killers», há qualquer coisa de tarantinesco, o resto, salvaguardadas as devidas distâncias, é mais Scorsese.
Porque esse resto – feito de pequenos detalhes, frases soltas, atmosferas, indícios – é de certa forma um espelho da comunidade italo-americana. Melhor dizendo, da América tout court. O que torna «Os Sopranos» uma série única é essa capacidade de circunscrever um universo muito concreto e quase claustrofóbico, não deixando de mostrar como ele vai sendo contaminado pelo aparentemente longínquo mundo «normal». Veja-se, por exemplo, como na quarta temporada (a que está em curso) surgem marcas subtis do 11 de Setembro e das suas consequências, nomeadamente quando Tony percebe que pode investir, com a ajuda de um vereador corrupto, nos novos projectos imobiliários previstos para Manhattan.
Tony Soprano não é apenas o líder da famiglia, é também o chefe do clã, o eixo em torno do qual se definem complexas hierarquias e jogos de poder. Para analisar com o mínimo de rigor a galáxia de extraordinárias personagens que gravitam em torno do «boss», precisaria do espaço de que não disponho nesta crónica. Mas sempre posso dizer que o Tio Junior (Dominic Chianese), os «braços direitos» Silvio (Steve van Zandt) e Paulie (Tony Sirico), o sobrinho Christopher Moltisanti (Michael Imperioli) ou o ingénuo Bobby “Bacala” (Steven R. Schirripa) formam a mais notável galeria de figuras secundárias que me lembro de ver numa saga mafiosa.
Do lado oposto, na vida deste Al Capone dos subúrbios, estão as mulheres. E que mulheres. Livia (Nancy Marchand), a mãe terrivelmente dominadora. A quase etérea Dra. Melfi (Lorraine Bracco), que cria no seu gabinete uma espécie de ilha, onde vai crescendo um fascínio mútuo e uma tensão sexual fortíssima. E Carmela (Edie Falco), a esposa fiel mas exigente, personagem que vai ganhando, com o tempo, uma espessura que não se lhe adivinhava no início.
Mas além deste labirinto psicológico e moral, só por si merecedor de todos os encómios, há um aspecto n’«Os Sopranos» que me atrai particularmente: é a forma como estes novos mafiosos lidam com as imagens e estereótipos associados à Cosa Nostra. Isto é, riem-se deles, integrando-os na sua linguagem, numa espécie de distanciamento pós-moderno que abre infinitas possibilidades irónicas. Estes são, talvez, os primeiros mafiosos que sabem que são mafiosos e não se importam. Continuam a manter as aparências mas, lá no fundo, até se orgulham do que fazem à margem da lei. E agora que o FBI lhes montou o cerco, eu, correndo o risco de ser politicamente incorrecto, só desejo que eles, os peculiares elementos da família Soprano, nunca sejam apanhados.

(esta crónica foi publicada no DNA de 26/04/2003)


00:05 20.4.03  


JEREMIAS & OUTRAS LAMENTAÇÕES

1. É uma visão terrível: um homem prostrado, mordendo o pó, chorando inconsolável. O seu nome é Jeremias. Profeta na terra em escombros, figura recortada nesse passado que parece maior (ou mais intenso, ou mais antigo) só porque é bíblico, só porque a sua luz é a luz do Antigo Testamento, só porque a sua dor é a dor do Livro das Lamentações. Com humildade e pavor, temendo sempre a ira divina, Jeremias narra nos seus poemas a destruição de Jerusalém, a agonia da cidade às mãos de Nabucodonosor, o rei estrangeiro que a subjugou em 586 AC. A queda da cidade, o seu estertor, é um castigo de Deus. O pecado tornou-a «vagabunda», diz Jeremias. A punição chega e os inimigos aproveitam-se: caem muralhas, escancaram-se as entradas («omnes portae eius destructae»), morre gente nas praças, incluindo crianças pequenas e bebés em idade de mamar. As lágrimas nada conseguem impedir, os olhos fecham-se dentro das trevas, há apenas uma voz que grita o seu lamento. São palavras de Jeremias perdendo-se no ar: «Como é que uma cidade tão populosa pode estar agora tão vazia e desolada?»; «Tudo o que a filha de Sião tinha de belo foi-lhe retirado. Os seus príncipes são carneiros tresmalhados que fogem, já muito fracos e sem coragem, do inimigo que os persegue»; «O seu povo geme e procura pão»; «Do alto dos céus, o Senhor lançou fogo que me penetrou até aos ossos e me fez cair na mais completa desolação». Jeremias chora diante da ignomínia, da ruína, do opróbrio. «Ó vós que passais no caminho, considerai se há tormento maior do que o meu». Foi há 25 séculos, em Jerusalém. Podia ser hoje, em Bagdad.

2. Há uns anos, numas Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian, assisti a um desses pequenos milagres que nos reconciliam com a vida e com o mundo. Na Igreja do Loreto – salvo erro numa noite de chuva – o contra-tenor Gérard Lesne começou a cantar e de repente houve como que um clarão. Era a voz dele que ardia, nas sombras acústicas daquela bela igreja do Chiado. Uma voz que era fogo e depois cinza e depois fogo outra vez. Uma voz que ardia por dentro de uma música capaz de comover o mais cruel dos esbirros. Eu, muito dado a melancolias e ao carácter introspectivo dos adagios, fiquei de boca aberta, rendido. Naquela noite, ouvira pela primeira vez as «Leçons de Ténèbres» (creio que as «du Mercredy»), escritas há três séculos por François Couperin, a partir do texto latino das «Lamentatio Jeremiae Prophetae». Depois, estes ofícios de «Tenebrae», tocados tradicionalmente de quarta a sexta-feira, na celebração litúrgica da semana santa, passaram a ser uma das minhas obsessões estéticas – equivalente musical das nuvens (de que falei na crónica da semana passada). Aos poucos, fui descobrindo o vasto reportório inspirado pelas lamentações do profeta: de Thomas Tallis a Carlo Gesualdo, passando por Marc-Antoine Charpentier. Mas em nenhum destes compositores a beleza é tão desesperada como em Emilio de’ Cavalieri (1550-1602). As suas «Lamentationes» – única obra sacra que sobreviveu até aos nossos dias – foram ouvidas pela primeira vez em Pisa (1599). Chegaram agora até mim num disco premiadíssimo da editora Alpha, com uma interpretação estratosférica do ensemble Le Poème Harmonique, dirigido por Vincent Dumestre. Ouvi-o no dia em que a estátua de Saddam tombou.

3. Uma horas mais tarde, decidi pegar num livro de capa azul que já levara, há umas semanas, para o monte periclitante da minha mesa de cabeceira. «Lições de Trevas» (Quasi), de Fernando Guimarães, atraiu-me tanto pelo título como pelo que já conhecia do autor (por exemplo «O Anel Débil», na Afrontamento). Mas não farei comentário à obra, até porque o Pedro Mexia, aqui ao lado, se encarrega disso mesmo. Pretendo apenas partilhar com o leitor um poema, um só poema, lido na mesma noite em que escutei a voz trágica de Jeremias, elevando-se das partituras de Cavalieri, e vi as ruas de Bagdad, uma vez derrubada a estátua do ditador, mergulharem no caos e na anarquia: «Estão separadas de tudo as lágrimas. Vê-las-emos/ longe da nossa face, para que finalmente se conservem/ vazias, sem qualquer imagem reflectida. São as flores/ que não têm pétalas. Um leve caule as vem unir/ à terra que fica sob os nossos passos. Conseguimos/ encontrá-las? Sabemos que não são nossas, afastadas/ de qualquer dor, porque nada é capaz de receber/ este silêncio que se transforma na mesma água».

4. As lágrimas são as flores que não têm pétalas. Foi assim para Jeremias. É assim para a directora do Museu Arqueológico do Iraque. Vejo-a na televisão, caminhando pelas salas e confrontando-se com o saque – vitrinas partidas, portas arrombadas e a memória do país (melhor dizendo, a memória da nossa civilização) reduzida a cacos. O desespero é total. Por isso aquela mulher grita, bate com os punhos na cabeça, chora de raiva e lamenta-se amargamente. Em vão. O que não podia ter acontecido, aconteceu.

5. Já aqui escrevi o que pensei desta guerra antes de ela começar. Ao invadir o Iraque sem o aval da ONU e sem um motivo de forla maior (como foi a tragédia humanitária no Kosovo, por exemplo), os EUA e os seus aliados corriam o risco de abrir um precedente gravíssimo. Pois bem, após uma guerra muito rápida (cerca de um mês), esse precedente gravíssimo está de facto aberto, até porque não se verificou a única atenuante possível: isto é, a confirmação da «ameaça global» do Iraque. As célebres armas de destruição maciça não chegaram a aparecer (pelo menos até ao momento em que escrevo este texto) e, mesmo que apareçam, o certo é que não foram usadas.
Que fique bem claro: eu, como qualquer pessoa de bom senso, exultei com a queda de Saddam e do seu regime despótico (embora considere que as comparações com o 25 de Abril, por parte de alguns comentadores portugueses, foram no mínimo infelizes). Mas ninguém deve ter ilusões sobre o que está em causa no pós-guerra. A democracia não nasce por geração espontânea e a estratégia da Administração Bush já começa a apontar para outros países do chamado «eixo do Mal». O que está a acontecer no Afeganistão (um país ainda em ruínas e instável) pode repetir-se no Iraque.
Entretanto, a coberto da desordem que se instalou no país, sucedem-se os crimes mais impensáveis, como o saque do Museu ou o incêndio da Biblioteca Nacional. De um só golpe, o Iraque perdeu a sua identidade. Viu as «provas de que houve um dia, aqui, uma civilização» destruídas, vandalizadas ou roubadas. Viu todos os tesouros bibliográficos (incluindo preciosíssimos documentos históricos) reduzidos a cinzas. E viu os soldados americanos, tão lestos a vencer uma guerra que estava ganha à partida, assistindo a tudo de braços cruzados. Numa qualquer esquina de Bagdad, Jeremias voltou a chorar.

(esta crónica foi publicada no DNA de 19/04/2003)


19:25 14.4.03  


A FORMA DAS NUVENS

Ao começar esta crónica, feita de palavras que são como gotas de água em suspensão, imagino o texto a erguer-se nos ares, transformado em nuvem. Em nuvem, sim, coisa difusa e precária, um castelo imaterial – aéreo – levado pelo vento, essa «arquitectura do acaso» de que falava Borges num dos seus últimos poemas. Imagino o texto a fugir pela janela, heróico, mas é claro que nada disso acontece porque estas palavras nunca chegaram a ser gotas de água em suspensão, estas palavras têm raízes, o texto é matéria terrestre e as letras negras agarram-se à página, teimosas, nada querendo saber do mais alto azul.
Espero que os leitores (habituados porventura a encontrar nestas prosas uma certa ordem, uma certa lógica) me perdoem o devaneio nefelibata. Acontece que ainda não recuperei da leitura sôfrega de um voluminho de capa cinzenta, editado pela Assírio & Alvim na mítica colecção Gato Maltês. A obra, que acaba de chegar às livrarias, é «O Jogo das Nuvens» de Johann Wolfgang Goethe (com selecção, tradução e prefácio de João Barrento, o nosso germanista preferido). Mas, perguntarão os leitores, já de pé atrás com tantas delongas, o que há assim de tão espantoso neste livro? Pois bem: a prova de que não estou fora do mundo. A prova de que outros, antes de mim, partilharam o que julgava ser a mais ridícula das obsessões. A prova de que outros, antes de mim, também alimentaram uma atracção visceral pelas tais aéreas «arquitecturas do acaso».
Não sei dizer exactamente quando começou, mas foi na infância. É normal. Toda a gente passa por uma fase em que as tardes de Verão se ampliam até ao infinito e se descobre o prazer de estar deitado na relva, olhando para o céu e vendo nas nuvens as formas mais diversas: animais, muralhas, dragões, caravelas. O tempo encarrega-se de arruinar esse olhar poético sobre as coisas. Deixamos de procurar o vulto negro dos melros por entre os ramos de uma figueira. Deixamos de esconder pequenos tesouros (cromos raros, esferas de vidro) dentro de um lenço enterrado junto ao bosque, por baixo de uma pilha de seixos brancos. E deixamos de olhar para cima, deixamos de entrever nas nuvens uma impossível zoologia ou os abstractos contornos de um rosto que julgámos ter amado.
Hoje já não procuro melros, nem escondo esferas de vidro, nem sei se haverá ainda o bosque (ou mesmo a infância). Mas continuo a observar, quase em segredo, as nuvens. Tiro-lhes fotografias, dedico-lhes o meu espanto, guardo-as na memória. Colecciono-as. Assim de repente, sou capaz de recordar uma série delas, quase sempre cumulo-nimbos majestosos – a pairar sobre a linha do horizonte – ou cirrus avermelhando-se na última luz do crepúsculo. Dêem-me um desconto se acharem que exagero, mas para mim não existem, na natureza, visões mais belas do que estas.
E não apenas na natureza. Também na arte. Gosto muito de «westerns» não só por causa do andar gingão de John Wayne ou das cavalgadas loucas do mestre Ford, mas também por causa da nuvens que pairam sobre o Death Valley, reais ou pintadas no cenário. Ainda recentemente, em Paris, visitei uma exposição de John Constable, o paisagista inglês por antonomásia. Só não morri de tédio, por entre as aguarelas de Hampstead e dezenas de óleos gigantescos, com moinhos de água, carroças e montes de feno, porque havia nuvens perfeitíssimas pairando sobre todas aquelas monótonas paisagens campestres. Ou sobre o mar, na desolada visão da praia de Brighton.
Antes de continuar por aí fora, falando das nuvens com que Turner coroa os seus naufrágios (alguns ainda podem ser vistos na Fundação Gulbenkian, até 18 de Maio), o melhor é regressar a Goethe, mais concretamente ao seu interesse científico pela meteorologia. Um interesse tardio, refira-se, que surge por volta de 1815, muito depois dos estudos feitos, nas últimas décadas do séc. XVIII, sobre óptica, química, mineralogia, botânica, anatomia, etc. Embora já existissem referências aos fenómenos atmosféricos na sua «Viagem a Itália», a fascinação por este assunto só se revelou mais séria depois do Grão-Duque Carlos Augusto lhe ter dado a conhecer, em Ettersberg, o trabalho de Luke Howard – um farmacêutico inglês, meteorologista amador, que sugeriu a primeira classificação das nuvens segundo a sua forma (stratus, cumulus, cirrus e nimbus).
Para Goethe, a natureza não era um sistema fixo ou determinado, mas antes «um organismo em permanente mutação» e por isso inesgotável para quem o «observa», como nota Barrento no prefácio. As nuvens, enquanto matéria instável sujeita ao domínio de Camarupa (a divindade indiana que altera a seu bel-prazer a forma das coisas visíveis), surgem assim como uma oportunidade única de tentar compreender o que é informe e estabelecer uma ordem no que é puramente acidental.
Sublinhe-se que Goethe, embora entusiasmado com a teoria de Howard, não deixou de aplicar esta última ciência – ciência do que se perde e desfaz (da «matéria» em constante metamorfose) – os princípios básicos da sua filosofia e da sua estética, nomeadamente a ideia de um «nobre impulso» para o alto. Na «luta» entre as regiões superiores e inferiores da atmosfera, há um óbvio gradiente de pureza que vai dos baixos «stratus» (influenciados pela terra) aos altos «cirrus» (mais próximos do éter infinito, do céu puro e redentor).
Além de um «Diário das Nuvens», em que Goethe descreve minuciosamente as suas observações durante a viagem para as termas de Karlsbad (entre Abril e Maio de 1820), o livro reúne ainda uma série de textos dispersos e fragmentos, em que as nuvens servem de mote ou ilustração simbólica. Destaco os poemas dedicados a Luke Howard («Já o fiel arauto da nuvem se dissipa,/ Seu fito é o horizonte, mas aqui abdica»), além dos versos escritos para a sua derradeira e fugidia miragem: «Ulrike, então com 17 anos, nuvem diáfana que foge a Goethe, agora com 74, como um cirro-stratus translúcido subindo para as regiões mais altas da atmosfera». Cumpre-se assim a tragédia íntima: o amor, como a natureza, a escapar-lhe das mãos.

(esta crónica foi publicada no DNA de 12/04/2003)


12:36 4.4.03  


OS UCRANIANOS

Eu cruzo-me com eles nas ruas de Lisboa, oiço no metro a sua língua cheia de «k’s» e de «y’s», reconheço na fila do supermercado o seu sorriso onde às vezes brilham dentes de ouro, vejo-os pendurados nos andaimes com o olhar melancólico de quem estudou para ser engenheiro de minas ou médico ortopedista, mas agora se descobre numa terra estranha, a assentar tijolos dias a fio, sem papéis e sem futuro.
Eu sei que eles estão para nós como nós estivemos para os franceses, nos anos 60. São gente trabalhadora que ergue Expos e constrói estádios, uma mão-de-obra baratíssima, sempre disponível e pouco conflituosa, que só quer receber o magro salário ao fim do mês para enviá-lo, quase por inteiro, às famílias que em Kiev anseiam pelos euros, como Portugal ansiava pelas remessas dos homens e mulheres que atravessavam os Pirenéus em busca de uma vida melhor. A diferença é que os portugueses tinham em geral uma educação limitada (muitos eram mesmo analfabetos), enquanto os novos imigrantes de Leste só não apresentam os diplomas universitários porque ninguém lhos pede.
Pelo que leio nos jornais, sei também que os ucranianos já são mais numerosos no território português do que os angolanos e guineenses, por exemplo. Sei que há redes mafiosas que controlam o «negócio» (esta forma encapotada de escravatura), cobrando-lhes um balúrdio à vinda e outro balúrdio à ida. Sei que existe um submundo de empreiteiros sem escrúpulos a enriquecer à custa deles, por não pagarem horas extraordinárias nem descontos para a Segurança Social. Sei que há alguns casos notáveis de integração: alunos com resultados brilhantes e pessoas de todas as idades que revelam uma extraordinária fluência na nossa língua. Sei igualmente que há casos de desespero, de suicídio, de mortes criminosas em noites de álcool e navalhas.
Sei tudo isto. Mas, ao mesmo tempo, não sei nada. Porque os textos dos jornais, as reportagens da televisão, só mostram uma parte da realidade. Nunca nos mostram como eles vivem mesmo, no quotidiano, quando a câmara se desliga e já ninguém lhes pede depoimentos, dramas existenciais ou demonstrações de apego à pátria distante. Isso que nunca nos mostram – a vida como ela é, sem «voz off» – foi o que João Ribeiro e José Filipe Costa quiseram fixar num documentário, «Entre Muros», gravado em vídeo durante seis meses (Novembro de 2000 a Abril de 2001). Produzido pela Laranja Azul, o filme estreia hoje no Cine Paraíso (sito na R. do Loreto, perto do Largo Camões, em Lisboa) e pode ser visto todos os sábados, até ao fim deste mês, em três sessões (16h30; 19h00 e 21h30).
O que torna «Entre Muros» uma obra fascinante é, desde logo, a sua «perspectiva cinematográfica». Ou seja, a forma como o documentário foi pensado enquanto corpo de imagens. Os autores, em vez de ensaiarem uma qualquer abordagem sociológica do fenómeno da imigração de Leste, preferiram focar a sua câmara na experiência de dois homens, dois imigrantes que partilham a solidão e o cansaço, algures nos arredores de Lisboa. A estratégia parece-me correcta, porque através das acções, desabafos e silêncios destes homens concretos, vai sendo contada, em surdina, a história da maioria dos ucranianos que atravessaram um continente, milhares de quilómetros, para procurar a sorte no país mais ocidental da Europa (facto que é sublinhado por uma das poucas cenas de exterior, junto ao Cabo da Roca).
João Ribeiro e José Filipe Costa resumem o seu projecto de forma muito clara: «O que queríamos era construir em forma de sons e imagens este encontro, entre "eles" e "nós", fazer sentir o estado de suspensão numa terra estrangeira, à espera que venham melhores dias. A descoberta, a pausa, a dúvida, a privação, estar cá e lá ao mesmo tempo». E é isso precisamente que acontece no ecrã. Acompanhamos Serguei e Edvard no espaço que partilham: uma garagem cheia de humidade, com um frigorífico decrépito, roupa estendida e posters com mulheres nuas na parede. Se não vemos quase nada do que se passa fora daquelas quatro paredes, é porque não se passa quase nada fora daquelas quatro paredes. Eles são clandestinos, trabalhadores ilegais, devem por isso esconder-se tanto quanto possível. O único caminho que existe, fora da casa, é o que vai dar ao estaleiro de construção civil ou ao supermercado.
Há mais três compatriotas que partilham a garagem, mas o filme centra-se em Serguei Rodikov, 31 anos, ex-engenheiro numa central telefónica, e no seu primo, Edvard Onichuk, 24 anos, electricista e «disk-jockey» nas horas vagas. Ao fim de uns minutos, não é difícil perceber que são homens com motivações muito diferentes. Serguei trabalha como servente para juntar o dinheiro que lhe permita, lá na aldeia-natal, concluir as obras na sua casa (falta rebocar as paredes e pôr os azulejos). Edvard, pelo seu lado, não tem poupanças em vista e por isso pode render-se aos encantos da sociedade de consumo. Compra uma câmara de vídeo e um telemóvel.
O que vemos neste documentário começa por ser isto: as pequenas alegrias e irritações quotidianas, o jantar feito num tacho velho, a TV ligada, um telefonema rápido para os pais («pergunta como é que está o tempo!»). Mas depois há uma densidade que se instala, uma melancolia que já nos fora sugerida pelas imagens iniciais, esses planos magníficos em que um dos homens deambula frente às montras de Lisboa, enquanto ouvimos uma canção muito triste, sobre uma menina que o amor abandona pela primeira vez. A melancolia regressa com a evocação dos mortos («Quantos ucranianos já morreram em Portugal?», pergunta um dos amigos; mas ninguém sabe responder) e prolonga-se na sequência da passagem de ano, da entrada em 2001, quando a rolha do espumante salta às 22 horas portuguesas, meia-noite americana.
Importa ainda dizer que a câmara, neste filme, nunca é intrusa. É mais um corpo no meio dos corpos que se embebedam e dançam, trôpegos, no vazio. Um corpo tão cúmplice que no fim, quando os homens regressam à pátria, vai atrás deles. E então a estranheza inverte-se. Há agora amigos sorridentes, uma mesa farta e histórias do país onde os homens espetam ferros no lombo dos touros. Há imagens captadas por Edvard: casas, ruas, um homem de mão na anca que agradece os aplausos após a faena. Os familiares espantam-se, de olhos muito abertos. E alguém pergunta: «Lá as temperaturas nunca são negativas, pois não? Como é que eles aguentam?»

(esta crónica foi publicada no DNA de 05/04/03)



18:54 29.3.03  


O ANTIAMERICANISMO

É uma palavra forte, uma palavra cheia de picos, uma palavra que fica estendida na horizontal, à nossa frente, como uma cancela que nos proíbe de ir mais além. Antiamericanismo. Dezasseis letras que são uma espécie de sinal STOP, um aviso, quiçá uma ameaça. Quem condena esta guerra insensata – levada a cabo por uma coligação que espezinhou, não o esqueçamos, a ONU e o direito internacional (com o beneplácito do governo português, hospitaleiro organizador da lamentável Cimeira dos Açores) – está sujeito a dois tipos de críticas, por parte de uma feroz e cada vez mais activa opinião pública de direita: por um lado, a ideia peregrina de que a insistência numa solução pacífica sob a égide das Nações Unidas, com os inspectores a continuarem o seu trabalho no terreno, equivaleria a uma defesa implícita do regime de Saddam Hussein (argumento tão débil que nem merece resposta); e, por outro, a acusação pura e dura de antiamericanismo. A tal palavra a que se recorre para travar o debate, para esvaziar a indignação.
Parece-me que vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre esta questão semântica. Para começar, o antiamericanismo vem sempre associado à velha conversa da suposta inveja, e respectivo despeito, dos europeus (ou melhor, da rumsfeldiana «Velha Europa») perante o sucesso económico, geopolítico e militar da América – elevada, após o fim da Guerra Fria, ao estatuto de única hiperpotência. As coisas não são obviamente assim tão simples, mas a direita iracunda nunca quis saber da subtileza para nada. Se eu critico George W. Bush, pensam ele, é porque odeio visceralmente a América. Não há meio termo. Segundo esta tendência, inspirada pelos «think tanks» neo-conservadores e pelo inefável Jean-François Revel, o antiamericanismo dos europeus seria, no fundo, uma «obsessão» terrível. Terrível porque ingrata. Afinal de contas, eles sempre quiseram o nosso bem: «salvaram-nos» na II Guerra Mundial e «protegeram-nos», durante décadas, dos mísseis soviéticos. Acontece que a inocência americana, só a engole quem quer. Leiam «O Americano Tranquilo», de Graham Greene. Ou vejam o filme. Está lá tudo.
O mais curioso é que à hipotética «obsessão antiamericana» dos intelectuais europeus, há quem responda com uma nunca antes vista obsessão pró-americana. Mais papistas do que o Papa, certos cronistas defendem Bush para além de todos os limites razoáveis, como se o Presidente (eleito em circunstâncias mais do que duvidosas) fosse um profeta e a «falcoaria» de Washington o oráculo de Delfos. Ouvi-los chega a ser divertido, enquanto exemplo de uma forma distorcida de olhar para a realidade. Saem milhões de pessoas à rua em todo o mundo, manifestando-se contra a guerra? Eles apontam o dedo à multidão, vendo por toda a parte esquerdistas folclóricos, «intoxicados» pelos livros de Noam Chomsky. Alguém revela ligações perigosas entre a indústria de armamento americana e esta cada vez mais militarizada Administração? Logo respondem que são tudo calúnias, delírios, cabalas, teorias da conspiração. E que ninguém se atreva a sugerir que os EUA invadiram o Iraque também, ou sobretudo, por razões económicas (petrolíferas mas não só). Como toda a gente sabe, o impulso que move Bush é puramente filantrópico: derrubar o ditador sanguinário, reconstruir o país, implantar uma democracia e sair dali para fora. Recordo apenas que também houve quem acreditasse no «melhor dos mundos possíveis» do professor Pangloss e depois se arrependesse amargamente (interrompam o Graham Greene e leiam – com carácter de urgência – o «Candide», de Voltaire, prodigiosa história de alguém que finalmente abre os olhos e começa a ver).
Chegado aqui, tenho que vos confessar uma coisa. Se decidi abordar a questão do antiamericanismo, tema claramente empolado e que talvez nem merecesse uma crónica inteira, foi porque me dispararam as 16 letras, à queima-roupa, a propósito de um texto publicado neste mesmo espaço, sobre uma guerra que ainda não era, na altura, a triste certeza que hoje é. Reli várias vezes o e-mail mas a palavra continuou lá, cheia de picos, como uma cancela que nos proíbe de ir mais além. Antiamericanismo. Assim, sem margem para dúvidas. Segundo aquele leitor, eu sou antiamericano e não se fala mais no assunto.
Mas serei mesmo? Pior: serei antiamericano sem me dar conta de que sou? Lamento desiludir os praticantes do maniqueísmo ideológico, mas a resposta é negativa. Depois de sair do jornal, ainda nos semáforos da Av. Duque de Loulé, comecei a escrever mentalmente uma série de listas com o que amo e detesto na América, os prós e os contras, as coisas boas versus as coisas más e até mesmo um «Gosto Não Gosto» à maneira da secção do DNA. Tentarei resumir agora uma parte dessas listas.
Nos EUA, o que me desagrada acima de tudo é o primado da economia, do dinheiro e do sucesso; é o contraste entre a mais descarada ostentação de alguns e a mais desamparada miséria de muitos; é o moralismo hipócrita e o patriotismo cego que são vistos como «pilares» da sociedade; é a atmosfera de forte vigilância policial e repressão; é o culto das armas de fogo alimentado por associações como a NRA; é a pena de morte; e é o fundamentalismo religioso que tem raízes profundas na cultura americana (do «In God we trust» das notas de dólar ao «God bless America» dos discursos políticos).
Não tenho problemas em admitir: se a América fosse apenas isto, eu seria furiosamente antiamericano. Acontece que há outras Américas para além desta: a América do pensamento e da ciência (Harvard, Stanford, Berkeley, o MIT, o CalTech, a NASA); a América da natureza bruta (as Montanhas Rochosas, Yellowstone, os vulcões do Hawaii); a América das bibliotecas infinitas e dos museus de sonho; a América de Thoreau, Hemingway, Hopper, Lloyd Wright, Copland, Faulkner, Orson Welles, Pollock, Eugene O’Neill, Philip Roth, Scorsese, tantos outros; a América que luta contra si mesma e se auto-critica.
Eu nunca fui, não sou, nem serei antiamericano porque dentro desta nação paradoxal haverá sempre uma América que reconheço e admiro. Mas nada disso me impede, ainda assim, de execrar os seus líderes actuais, a sua arrogância civilizacional e as suas mais do que óbvias tentações imperialistas.

(esta crónica foi publicada no DNA de 29/03/03)



19:56 22.3.03  


O GIOCONDOCLASTA

1. A minha primeira desilusão com a «grande arte» aconteceu aos dez anos, no Museu do Louvre. Numa sala apinhada de japoneses em êxtase, velhos guias repetiam, pela enésima vez, a mesma conversa sobre a delicadeza do «chiaroscuro» em Leonardo da Vinci – «talvez o maior génio de todos os tempos». Atrás da barreira nipónica, um amontoado compacto de corpos muito juntos a perfazer um semi-círculo perfeito, eu tentava, em bicos dos pés, vislumbrar o enigmático sorriso de Mona Lisa del Giocondo. Caramba, não é todos os dias que se vê, de perto, o mais famoso quadro do mundo. De perto é como quem diz. No meio de cabeças e braços e mochilas da Nike, o máximo que eu consegui vislumbrar foram reflexos na redoma anti-bala e um fragmento das mãos (a direita pousada, indolente, sobre a esquerda). Percebi então que muitas das pessoas que se acotelavam à minha frente tinham vindo a Paris só para isto: ver a «Gioconda». A «Gioconda» e a torre Eiffel. Riscados da lista estes items (ainda não havia, na altura, a EuroDisney), já poderiam passar o resto do tempo nas esplanadas e a fazer compras nas Galerias Lafayette, sem pesos na consciência de bom turista.
Ao fim de cinco minutos, houve um rasgo de esperança: a excursão japonesa batia em retirada. Mas foi sol de pouca dura. No momento em que me preparava para avançar, chegou-se à frente um grupo de adolescentes suecos. Nova barreira: mais alta, mais forte, loiríssima. Eu perdi a pouca paciência que me restava, saí dali para fora e deixei a misteriosa dama para trás. Deambulei o resto da tarde pela ala dos pintores flamengos, enormes salas cheias de naturezas mortas e quase vazias de gente.

2. Na segunda visita tive mais sorte. Não era verão. Havia uns quantos japoneses, claro, mas em número razoável – nada que impedisse o desfrute da obra-prima. E foi então que procurei a «aura» do quadro, a magia do olhar que nos «olha» de vários ângulos, o sorriso irradiante. Fiquei parado uns minutos, em frente ao quadro. À espera. Mas o quadro nada me disse. O quadro fechou-se sobre si mesmo, escondeu-se atrás do seu mito. Da grandeza anunciada, sobraram apenas as cinzas da expectativa.
Após o choque, tentei um exercício difícil: olhar para o retrato como se nunca o tivesse visto antes, como se não conhecesse a sua importância na História da Arte. Despido o olhar das referências culturais, o que é que eu via? Pois bem, via uma rapariga bonita mas com ar de sonsa, um verdadeiro pãozinho sem sal. O que salva o quadro é a paisagem por trás da moça: do lado esquerdo, a estrada que faz um «s» na terra vermelha; do lado direito, os penhascos e uma ponte romana. A verdadeira arte de Leonardo, os cumes da sua pintura, temos que os procurar noutras telas. Por exemplo, na perfeição absoluta da «Virgem nos Rochedos» (as quatro figuras iluminadas; o ermo que é uma lição de geologia) ou no espantoso «Retrato de Cecilia Gallerani (Senhora com Arminho)», em que a amante de Ludovico Sforza olha para um misterioso ponto fora do quadro, enquanto um estranho animal, de cabeça pequena e altiva, tenta escapar do seu colo e das suas mãos tão brancas.
Se tivesse vivido no final do séc. XV, era capaz de me apaixonar perdidamente por Cecilia Gallerani, escrever-lhe sonetos, bater-me em duelo por sua honra. Mas não faria nada disso por Mona Lisa, a burguesinha não-me-toques, afectada e fútil. Marcel Duchamp, o genial «blagueur», é que a topou bem. Aquele bigode ridículo, certeiro porque desmistificador, fica-lhe a matar.

3. Em meu entender, o bigode de Duchamp, acrescentado pelo artista a uma cópia perfeita do quadro de Leonardo, vai muito além da bravata artística. Acredito mesmo que é um gesto fundador de uma certa forma de iconoclastia, de resistência ao peso bruto (e tantas vezes acéfalo) da tradição. Mas não uma iconoclastia qualquer, antes uma iconoclastia dirigida a uma imagem determinada, a um alvo concreto. Chamemos-lhe, até porque já outros o fizeram antes, giocondoclastia. Quer dizer, a desmontagem sistemática da «Gioconda» – o mais totalitário dos ícones que ainda hoje assombram a nossa memória cultural.

4. Neste trabalho tão difícil quanto necessário, o principal herdeiro de Duchamp é um escritor chamado Hervé Le Tellier. Nascido em 1957, Le Tellier já foi matemático, jornalista do «L’Evénement du Jeudi» e autor de libretos. Membro do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle) desde 1992, é também colaborador de um programa de rádio («Des Papous dans la Tête», France Culture) que explora os jogos de palavras e as regras da escrita literária «oulipiana», imortalizada por figuras como Raymond Queneau, Italo Calvino, Georges Perec ou Jacques Roubaud.
Mestre do pastiche e da paródia, Le Tellier – autor de obras engraçadíssimas logo no título, como «Les amnésiques n’ont rien vécu d’ inoubliable» – instituiu para si mesmo um programa inspirado nos «Exercices de Style» de Queneau. A saber, a invenção de 100 «pontos de vista» sobre Mona Lisa, recorrendo a um mecanismo narrativo que está implícito numa das epígrafes: «São os observadores que fazem os quadros» (nem de propósito, uma frase de Duchamp).
A «Gioconda» dá assim origem a 100 quadros muito diferentes, porque as 100 personagens imaginadas por Le Tellier (ou melhor, 99, porque o último «ponto de vista» é o do leitor) nada têm a ver umas com as outras. O médico legista nunca poderia olhar para Mona Lisa da mesma forma que a cabeleireira: o primeiro vê um cadáver pronto para a autópsia; a segunda sugere os tratamentos a dar ao cabelo da cliente – madeixas? talvez um «brushing»? – enquanto actualiza os mexericos.
O resultado pode ser lido no livrinho «Joconde jusqu’à 100» (Le Castor Astral) – bem como na sequela «Joconde sur votre indulgence» – e é simplesmente brilhante. Atente-se, por exemplo, nas «Giocondas» de Marguerite Duras, do advogado, do cego, do comandante Cousteau, do charadista, do internauta, do tarado sexual, do detector de mentiras, de Bernard Pivot, do participante num concurso televisivo, do 007, do xadrezista, de Rabelais, da hospedeira ou – até – do atendedor de chamadas.
Giocondoclasta de primeira água, Le Tellier pode não converter à causa todos os seus leitores mas pelo menos diverte-os. Um divertimento que se prolonga no magnífico livro de contos eruditos publicado em 2002: «Encyclopaedia Inutilis» (Le Castor Astral). É bom não esquecer que um dos contributos mais importantes do OuLiPo foi este: mostrar que se pode fazer literatura séria com a atitude de quem está a brincar.

(esta crónica foi publicada no DNA de 22/03/2003)


19:41 14.3.03  


A GUERRA QUE AÍ VEM

Quando me sentei em frente do computador, para redigir esta crónica, já trazia na cabeça a primeira frase. Era qualquer coisa do género: «No momento em que escrevo (terça-feira, 11 de Março) a guerra no Iraque ainda não começou, mas nada me garante que no dia de publicação do DNA (sábado, 15 de Março) ela já não esteja em marcha». O que eu pretendia sublinhar com a frase, entretanto posta de parte, era um dos paradoxos desta guerra: desde Outubro do ano passado que o conflito no Golfo Pérsico está prestes a rebentar e não rebenta. A Administração Bush já fez vários ultimatos, já anunciou várias «últimas oportunidades», mas acaba por esticar sempre o prazo, uma e outra vez. Porquê? No meu entender, por duas razões essenciais.
Primeiro, esta guerra não será tão «fácil» como a de 1991, porque implica entrar em Bagdad, último reduto de Saddam e das suas tropas mais fiéis. Fazer uma tempestade no deserto, com caças último modelo e bombardeiros «invisíveis», é uma coisa; lutar rua a rua contra uma resistência urbana, tipo guerrilha, é muito mais complicado (ameaçando mesmo reavivar os fantasmas do Vietname). Sobretudo, a conquista de Bagdaad não poderá ser feita de forma «limpa», sem vítimas a abrir os telejornais. A segunda razão para a prudência dos americanos prende-se com a consciência de que a margem de erro é cada vez mais reduzida. Depois do sucesso no Afeganistão, o Iraque será provavelmente a segunda etapa de uma «Guerra Infinita» contra o «terrorismo internacional e os seus apoiantes». Há mais «Estados-pária» à espera de vez: a Coreia do Norte, a Síria, o Irão. Ao aplicarem a sua força esmagadora, os EUA têm que fazer jus ao estatuto de hiper-potência. Por isso, o ataque só será desferido quando houver a certeza de uma vitória fulminante e decisiva. Mais do que os impasses no Conselho de Segurança da ONU, ou as evoluções positivas do trabalho dos inspectores, o que está a atrasar a guerra é a impossibilidade de recorrer à Turquia (pelo menos por enquanto) como base para uma demolidora «frente Norte».
Com tudo isto passaram-se vários meses, durante os quais foi possível traçar infinitos cenários, imaginar o futuro desenho do Iraque e do Médio Oriente, equacionar os possíveis sucessores de Saddam e até os efeitos geoestratégicos deste conflito num mundo cada vez mais unipolar. A verdade é esta: a segunda guerra do Iraque já existe, já existiu, ainda antes de se disparar o primeiro tiro. Ela foi de tal maneira antecipada que acabou por ganhar uma aura de «acontecimento absoluto». Isto é, um acontecimento por acontecer que analisamos como se já tivesse acontecido.
No fundo, estamos perante a apoteose de um fenómeno que se acentuou após o 11 de Setembro: a aceleração da História. Com a mediatização extrema que a tecnologia vem permitindo (televisão global, internet, etc), anula-se a distância entre o facto histórico e a leitura que dele se pode fazer. A História tornou-se actualidade pura, instantânea, imediata. A História já não é contada por alguém, é vista em directo. Não se passou ontem, está a ser agora. E com tanta velocidade, às vezes chega mesmo a ultrapassar-se a si mesma. Uma prova: esta pré-guerra, esta ante-guerra. Quando os combates a sério tiverem início, vamos olhar para eles com uma estranha sensação de «déjà vu». E o pior é que esta memória por antecipação, construída a partir de indícios e sinais dispersos, não podia ser mais funesta.
Além de marcar aquele que será, com toda a certeza, o primeiro grande conflito do séc. XXI, esta guerra vai estilhaçar por completo a ordem mundial. Na sua luta contra o terrorismo – um inimigo volátil, imaterial, sem raízes (mais complexo e imprevisível, por isso, do que o clássico «perigo vermelho») – os EUA estão a ir, literalmente, longe demais. O conceito de «guerra preventiva», com a sua lógica retorcida, está a envenenar as relações internacionais e a pôr em causa equilíbrios frágeis, conseguidos à custa de muitas décadas de esforços diplomáticos. O estatuto de hiper-potência (militar e económica) alimentou os sonhos hegemónicos das alas mais conservadoras do partido republicano e o resultado está à vista: uma política externa de uma enorme arrogância («quem não está connosco, está contra nós») e um desejo de acção unilateral que ameaça esvaziar de sentido a ONU.
O mais grave é que estas fracturas se repercutem a muitos outros níveis (na NATO, na União Europeia) e podem conduzir o mundo para um período de grandes incertezas. O que surgirá depois destes sucessivos abanões? Uma «pax americana» ou o caos? A «pax americana» não será de certeza, porque já se percebeu que a opinião pública mundial (mesmo nos países aliados dos EUA) está maioritariamente contra a obsessão iraquiana da família Bush. E está contra, não por anti-americanismo primário, como muitos analistas querem fazer crer, mas porque esta guerra é claramente injusta. Não vou retomar aqui os muitos argumentos que desmascaram a pretensa legitimidade de uma intervenção armada, nem vou especular sobre as motivações secretas (petrolíferas ou outras) dos americanos. Relembro apenas quatro factos concretos. 1) Ao contrário do que se passou em 1991, o Iraque não invadiu nenhum país vizinho. 2) Há outros países que também violaram diversas resoluções da ONU e possuem armas de destruição maciça (Israel, Paquistão), com a subtil diferença de serem aliados estratégicos dos EUA. 3) O Iraque tem um exército enfraquecido, sofre há mais de uma década um rigoroso embargo económico, está sujeito a vigilância no seu espaço aéreo e vem colaborando, melhor ou pior, com as inspecções coordenadas pelo Sr. Blix. Ninguém duvida que Saddam é um déspota sanguinário, capaz de massacrar o seu próprio povo. Mas alguém acredita mesmo que ele é uma ameaça para o mundo? 4) Sem se ter provado a ligação do regime iraquiano à Al-Qaeda, o 11 de Setembro deixa de fazer sentido como álibi. Pior: ao produzir mártires muçulmanos, a guerra incendiará os países árabes e poderá dar origem a novas vagas de um terrorismo de grande escala.
Se bem se recordam, uns anos após o fim da primeira guerra do Golfo houve muitos segredos que vieram à tona: as armas experimentais, as doenças dos soldados, as manipulações gigantescas da comunicação social. Como será agora? De onde virão desta vez as cortinas de fumo da propaganda? Ninguém sabe ainda. Porque as verdadeiras razões e consequências de uma guerra descobrem-se sempre, infelizmente, «a posteriori». Isto é, tarde demais.

(esta crónica foi publicada no DNA de 15/03/2003)


21:36 28.2.03  
PENSO, BLOGO, EXISTO
Há uma revolução em curso na internet e tem um nome: blog. É provável que os menos atentos ao que se passa na Web só tenham ouvido a palavra esta semana, quando a imprensa clássica anunciou, com algum destaque, a compra pelo gigante Google – «rei» dos motores de busca – da pequena Pyra Labs, a empresa responsável pelo mais popular «interface» desta nova forma de comunicação: o Blogger. Mas em que se traduz afinal este conceito revolucionário, comparado por muitos analistas ao advento da TV?
O melhor é começar pelo princípio. De que falamos ao certo quando falamos de um blog? Dito da maneira mais simples, um blog – abreviatura de web-log – é uma página na internet onde se podem colocar facilmente mensagens escritas ou imagens, por ordem cronológica e com actualização regular (nos casos mais sérios, várias vezes por dia). Cada blogger que mantém um espaço destes pode fazer dele o que muito bem entender: um diário íntimo, um jornal de parede, um museu de glórias pessoais, uma tribuna para discussão de ideias, um púlpito para polémicas, um ponto de encontro ou um muro das lamentações. O blog molda-se à personalidade de quem o criou. E é aí que começa a revolução. Pela primeira vez, qualquer pessoa tem acesso a uma ferramenta informática simples que lhe permite comunicar ao resto do mundo o que quiser, como quiser e quando quiser. Até agora, a publicação de um texto escrito dependia sempre da existência de um jornal e da ultrapassagem de uma série de barreiras e filtros editoriais – que o digam os leitores opinativos habituados a enviar cartas para os jornais de referência. É essa distância, é esse Rubicão que desaparece com os blogs. Em teoria, cada pessoa pode fazer, para si ou para um público virtualmente infinito, o seu próprio jornal. Ou o seu próprio livro (disponível 24 horas por dia, on-line).
Claro que tudo isto já se fazia antes, mas a manutenção de sites pessoais era muitas vezes paga e nem sempre expedita. A grande vantagem deste novo sistema é a sua rapidez. Quem se dirigir à «home-page» do Blogger (www.blogger.com), sai de lá com uma página impecável em três minutos. Depois, a actualização é tão simples que até o mais inexperiente dos internautas consegue fazer um brilharete. Ninguém precisa de conhecer as subtilezas da linguagem HTML e mesmo o «design» da página pode ser escolhido, com um toque do rato, de um vasto catálogo de «roupagens» disponíveis. A bem dizer, só não cria o seu blog quem não quer.
Aliás, os números falam por si. Desde 1999, quando o software ficou disponível, já aderiram ao conceito 500.000 pessoas no mundo todo. A blogosfera, como alguns chamam à comunidade dos bloggers, está em plena expansão, tanto à escala planetária como no nosso país. Vale a pena consultar o index actualizado do «Blogs em Portugal» (http://blogsempt.blogspot.com) e verificar que surgem páginas todos os dias e para todos os gostos (da política à literatura, passando pelo cinema ou pelo desporto). Como seria de esperar, mais de 95% destes blogs têm um interesse muito reduzido. Abundam os devaneios poéticos (quase sempre assustadores), as «private jokes» e os corações destroçados carpindo as suas mágoas «no frio desta noite infinita». É tudo uma questão de procurar bem e não desistir dos 5% de blogs que merecem uma visita diária. O panorama nacional ainda é muito pobre mas já há várias páginas de referência (quase todas mantidas por jornalistas). E como remetem continuamente umas para as outras, seja pela via da polémica ou do elogio, não é difícil separá-las do joio da irrelevância umbiguista.
Interessa-me agora enumerar aqueles que são, no meu entender, os melhores atributos e os principais riscos deste novo «media». Do lado das vantagens, além das já referidas (o acesso rápido e a actualização simples), gostava de destacar a possibilidade que os blogs oferecem, aos cidadãos comuns, de exercerem o seu sentido crítico. Abolidos os intermediários, as opiniões passam a circular directamente do produtor para o consumidor e caberá a cada um escolher as «vozes» que deseja ouvir, ampliando-se assim consideravelmente uma oferta que estava limitada aos «opinion-makers» oficiais, com dia certo para publicarem a crónica no jornal. O trunfo dos bloggers é não terem «dead-lines». Podem escrever a qualquer hora e comentar, em directo (ou quase), o que se vai passando no mundo: um desastre, declarações de guerra, a morte de um escritor.
O problema é que esta capacidade de responder instantaneamente a um estímulo é uma faca de dois gumes. Por um lado, permite uma intervenção directa sobre a realidade em estado bruto, sem influências nem manipulações. Ao tomarmos uma posição, ao formularmos uma ideia, ainda não lemos nem ouvimos o que disse X ou Z. Estamos por isso mais perto de uma verdade pessoal, não formatada pelo pensamento alheio. Mas também mais perto do erro. Sem criar distâncias, olhando para a espuma dos dias quando as coisas «ainda fervem», é mais fácil sucumbir às precipitações e aos equívocos. Ainda assim, para os disparates imperdoáveis há sempre remédio, porque todos os textos podem ser editados em qualquer altura. Quanto ao resto, o tempo encarregar-se-á de fazer o seu papel de juiz.
Se é óbvio que uma certa impunidade pode conduzir a pontuais abusos de linguagem ou provocações gratuitas, não é menos certo que esses «danos colaterais» são um preço baixo que se paga pela liberdade de discutir e polemizar. Aliás, esses entusiasmos e eventuais excessos são perfeitamente compreensíveis e acabam por ser corrigidos pela própria lógica interna da blogosfera. O diálogo entre os blogs e os comentários que os leitores fazem aos textos são as formas ideais, porque não censórias, de auto-regulação.
Por fim, convém não esquecer que a característica fundamental dos blogs se prende com a possibilidade de fazer links para outras páginas (há mesmo blogs só com links). Na maioria dos casos, o link é uma sugestão comentada, uma pista para navegar na Web, muitas vezes de um blog para outro blog e deste segundo blog para um terceiro, etc. Cria-se assim um imenso ecossistema de páginas interligadas, onde a informação flui de uma forma imediata e extraordinariamente flexível.
Quer isto dizer que os blogs podem substituir os jornais? Não, pelo menos por enquanto. Mas podem perfilar-se, nalguns casos, como uma alternativa. Já há de resto quem leia certos blogs portugueses todas as manhãs, antes mesmo, por exemplo, das crónicas de Eduardo Prado Coelho (Público) e de Vasco Pulido Valente (DN).

(esta crónica foi publicada no DNA de 01/03/2003)



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O IRAQUE PONTO POR PONTO
O homem atravessou a pequena multidão – dezenas de pessoas acotovelando-se na sala principal da livraria Ler Devagar, na antevéspera da manif contra a guerra – e aproximou-se do ecrã. Tinha pinta de espião moderno (já formado na era da pós-Guerra Fria), ar solene e uma pasta a abarrotar de documentos. O rosto era pedra bruta. Gestos, só os estritamente necessários. Dado o sinal, as luzes do tecto decresceram e ele pousou um molho de folhas sobre a mesa, com o sorriso condescendente de quem pensa que a verdade (quando é a «nossa» verdade, claro) não precisa de ser explicada. O público, silencioso, aguardava a revelação.
Que revelação? Bom, talvez seja melhor voltar um pouco atrás, mais concretamente à mensagem que muitos dos espectadores acotovelados leram na Internet. E que dizia: «O governo norte-americano decidiram enviar agentes – que neste momento se encontram em várias capitais europeias – para esclarecer os sectores mais cépticos da opinião pública em relação às provas apresentadas por Colin Powell nas Nações Unidas. Esse cepticismo tem por base um mal-entendido. Apesar da advertência prévia, feita a partir das assessorias da Casa Branca, de que as imagens deveriam ser olhadas como se fossem quadros do pintor pontilhista Seurat, a desconfiança permaneceu. Depois de um estudo aturado, chegou-se à conclusão que, de facto, apenas alguns dirigentes do velho continente conhecem este pintor do séc. XIX. Os portugueses podem considerar-se com sorte: Mr. Barroso é um dos que mostrou compreender que estas imagens demonstram uma monstruosa conspiração em marcha.»
Se bem se recordam, as palavras e as fotos de satélite apresentadas por Powell – vagas e pouco conclusivas – só convenceram quem já estava convencido de que o regime de Saddam escondeu, não se sabe bem onde, armas de destruição maciça. Já as imagens exibidas pelo agente americano, tranquilo no manuseio do Powerpoint, revelaram uma outra realidade – avassaladora, brutal e capaz de transformar em «falcão» o mais pacifista dos pacifistas. Seguindo à letra o conselho das tais assessorias (personificadas por Richard Haass, director de estratégia política do Departamento de Estado americano), o homem fez-nos olhar para os dados recolhidos no terreno como se estivéssemos, de facto, a ver uma tela de Georges Seurat. O que no ecrã pareciam quadros do grande pintor que morreu cedo (31 anos), eram afinal mapas das instalações secretas de Hussein ou provas irrefutáveis das suas malfeitorias. Por exemplo, «La Grande Jatte», com aqueles burgueses todos sentados na relva junto ao rio, é de um bucolismo enganador. Círculos e rectângulos vermelhos, sobrepostos na imagem, mostraram claramente que por detrás das árvores se esconde uma fábrica de material químico. E a torre Eiffel? Nada menos do que uma rampa de lançamento de mísseis. E a rapariga que se maquilha nos bastidores de um teatro, com pó de arroz? Não é pó de arroz, é anthrax.
A sala desatou a rir, muitas vezes à gargalhada. O agente era um actor, claro. E toda a performance, que também parodiou a «conversa» entre os oficiais iraquianos (recorrendo a um dos mais absurdos diálogos dos irmãos Marx) só pretendia desmontar o esquema de justificação «culturalista» dos americanos, quando confrontados com a escassez material das suas provas. Na ausência da tão falada «smoking gun», Richard Haass decidiu reduzir desde logo as expectativas. Se comparou as «provas» aos quadros de Seurat foi porque, nas suas palavras, «o que nós vamos revelar são “pontos” de actividade dos iraquianos, a partir dos quais qualquer pessoa inteligente conseguirá deduzir que eles estão a esconder alguma coisa e a complicar o trabalho dos inspectores».
Dito por outras palavras, tal como num quadro pontilhista, a imagem não nasce aqui de uma realidade concreta (as linhas, os planos, os contornos; que é como quem diz as fábricas, as ogivas, os mísseis) mas sim de indícios que se vão associando uns aos outros. Ou seja, cada «prova» por si, como cada «ponto de cor» por si, nada vale. É a leitura do conjunto que lhes dá sentido, coerência, a sensação de um todo harmónico. De resto, foi o próprio Seurat que resumiu toda a sua teoria estética numa frase: «A Arte é Harmonia».
Mas o problema é que há nesta argumentação um tremendo equívoco. O trabalho sobre a cor, em Seurat, nasce da descoberta por parte de um químico, Chevreul, do princípio do «contraste simultâneo», segundo o qual duas cores complementares, se colocadas lado a lado, viam aumentada a sua «luminosidade». Seurat levou este princípio ainda mais longe ao estudar o efeito de «mistura óptica» («mélange optique») que está relacionado com a capacidade de resolução do olho humano. Se não forem demasiado pequenos ou distantes, dois pontos de tinta sobre uma tela são vistos como entidades separadas. No entanto, se os pontos forem mais reduzidos ou se a distância para eles aumentar, o olho do observador deixa de os distinguir e passa a ver uma mancha que é a soma das duas cores. Em vez de misturar pigmentos, Seurat juntava pontos de cores primárias e construía com eles mosaicos que, vistos de longe, sugerem paisagens ou corpos de pessoas e animais, mas não correspondem, na superfície da tela, a uma realidade inteligível (em «close up», tudo se reduz a um borrão destituído de forma ou significado, um caos de acumulações crómaticas sem «leitura»).
Resumindo, a arte de Seurat, em si mesma um prodígio, só resulta porque nos engana, porque ilude os nossos mecanismos de percepção. E o equívoco, a ironia, está aqui. De todos os exemplos que se podem ir buscar à História da Arte, Richard Haass escolheu precisamente o mais inadequado. Ao comparar as «provas» de Powell aos quadros do mestre pontilhista, o que Haass admitiu, involuntariamente, foi que o «mosaico» criado para encher o olho das opiniões públicas, por esse mundo fora, tem pouca, ou nenhuma, sustentação no terreno.
Ao aperceber-me deste «faux pas» do Tio Sam (e logo, «mon dieu», com um «comedor de queijo»), recordei de imediato, não sei porquê, uma das obras-primas do pobre Georges. É «Le Cirque», uma tela que está no museu de Orsay e mostra um palhaço, um acrobata e uma bailarina a cavalo – feéricos – tentando convencer uma plateia abúlica. Uma plateia que já viu, pressente-se, melhores espectáculos.
Não estou a sugerir, longe de mim tal ideia, que o palhaço de cabelo vermelho é Powell e a ONU um circo. Mas lá dizia o outro: a vida imita a arte. E vice-versa.

(esta crónica foi publicada no DNA de 22/02/2003)


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