Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
11.7.03  
UM LUGAR PARISIENSE

1. A data: 30 de Junho de 2003. A hora: 11h00. O local: Café de la Mairie (Place Saint Sulpice). O tempo: nuvens baixas, escuras. Abro o caderno preto e escrevo o que vejo: a fachada da igreja de Saint Sulpice, em obras (há andaimes do lado esquerdo); o homem que entra no café, com fato verde marinho, barbas brancas, anéis bizarros em todos os dedos da mão direita; o autocarro 70 e as três pessoas que ainda ficaram na paragem, depois dele passar; toda a sorte de chapéus-de-chuva, fechados agora que já não chove; a rapariga que veste uma camisola angora, de cor púrpura; o autocarro 96, seguido pelo 63; os stands verdes do Marché de la Bibliophilie, montados no centro da praça (escondendo a fonte); o balão de hélio que ficou preso entre os ramos de uma árvore, talvez fugido das mãos de uma criança incauta; o mendigo que carrega uma pilha de jornais ainda húmidos; uma camioneta da empresa Dupont – Sanitaire et Chauffage; o rapaz que fala ao telemóvel encostado a um plátano; o 87; a senhora com um top de padrão leopardo; a equipa de televisão italiana que entrevista um transeunte e lhe ensina um truque com cartas; a Renault Kangoo azul, com atrelado, vinda da Rue des Canettes; o par de «amoureux» que se beija cinematograficamente (comemorando talvez uma boa notícia, ou um mês de namoro); o homem que leva uma baguete na mão esquerda e uma embalagem de bolos, piramidal, na direita; o 96 e o 70; o bando de pombos que dá duas voltas à praça (dois círculos perfeitos) e depois pousa num friso da igreja, acima das colunas; o 63; a paragem de autocarro momentaneamente vazia; o rapaz de t-shirt verde oliva que está sentado noutra mesa da esplanada e toma notas num caderno preto parecido com o meu; os sinos da igreja que tocam as badaladas do meio-dia, no exacto instante em que todos os pombos da praça levantam voo e eu peço a conta.

2. Eu lembro-me de não saber ainda da existência de um escritor chamado Georges Perec (por exemplo, quando ele morreu, a 3 de Março de 1982, dez anos e um dia após o meu nascimento). Eu lembro-me das primeiras leituras dos seus livros («A Vida, Modo de Usar»; «La Disparition») e do arrepio que provoca a descoberta de um génio. Eu lembro-me das fotografias: o seu rosto vagamente mefistofélico, os gatos, as reuniões regulares da família OuLiPo (Raymond Queneau, Italo Calvino, François Le Lionnais, Jacques Roubaud, etc). Eu lembro-me das suas idiossincrasias: as palavras cruzadas, o xadrez, o hábito de prender o cigarro entre o dedo médio e o anelar. Eu lembro-me dos prodígios verbais, dos lipogramas, dos palíndromos, da capacidade de explorar até ao limite as potencialidades da língua francesa, sem se ficar nunca, ou apenas, pelo «tour de force». Eu lembro-me de ler as suas prosas com uma certa cobiça, invejoso desse cruzamento irrepetível de erudição e espírito lúdico. Eu lembro-me do livro «Je me souviens» («Eu lembro-me») em que todas as frases começam por «je me souviens». E lembro-me, agora, de um livro de capa cinzenta (editado por Christian Bourgois): «Tentative d’épuisement d’un lieu parisien».

3. O que Georges Perec procurou fazer, na sua «Tentative d’épuisement d’un lieu parisien» («Tentativa de esgotamento de um lugar parisiense»), era à partida impossível: registar tudo o que acontece num determinado local, durante uma hora, uma manhã, um dia inteiro. Ou, para usar as suas palavras, descrever «aquilo em que ninguém repara, o que não tem importância: o que se passa quando nada se passa, a não ser tempo, pessoas, automóveis e nuvens». Entre 18 e 20 de Outubro de 1974, Perec anotou meticulosamente (quase) tudo o que viu na Place Saint Sulpice. O livro resume-se, no fundo, à enumeração de pessoas, automóveis, pombos e autocarros; ao espanto diante das centenas de micro-histórias que acontecem, em simultâneo, na esplanada de um café; e a um olhar melancólico sobre o lento declínio da luz ou sobre a realidade que se escapa, fugidia, à nossa frente. Quase 30 anos depois, algumas coisas permanecem: a igreja, o quiosque, a agência de viagens, o hotel, a loja de artigos religiosos ou os autocarros, todos ainda com os mesmos números e destinos (o 96 para Montparnasse, o 63 para a Porte de la Muette, o 86 para Saint-Germain-des-Prés...). Mas muitas outras coisas desapareceram: o homem que fazia entregas de Tonygencyl, o instituto de beleza ou os Citroën 2CV de cor verde maçã. Sobretudo, eclipsaram-se dois dos três cafés em que Perec se sentava, com uma garrafa de água Vittel, a contemplar aquele pequeno cosmos. Foi por isso no único café ainda aberto, talvez muito diferente (talvez igual) ao daquela época, que me sentei em duas manhãs seguidas, para chegar à mesma conclusão do autor de «53 Jours»: Saint Sulpice, como outro lugar qualquer, é inesgotável.

4. A data: 1 de Julho de 2003. A hora: 11h00. O local: Café de la Mairie (Place Saint Sulpice). O tempo: 1/5 de céu azul, algumas nuvens ameaçadoras, um princípio de ventania. Como não chove, sento-me no canto menos protegido da esplanada e peço um café. Em cima da mesa, o caderninho preto onde anoto (quase) tudo o que vou observando: uma Toyota Hiace a entrar, de marcha-atrás, na Rue des Canettes; o autocarro 96; a senhora que está sentada à minha esquerda e fuma compulsivamente um maço de Camel, cabeça para trás, argolas de fumo saindo da boca em O; o autocarro 63 e logo depois o 87; o camião laranja da Rapid’ Meubles Demenagements; um rapaz de vinte e tal anos que escreve postais (para a namorada?) na mesa ao lado da minha; o 70; a rapariga que entra no café com um livro de 500 páginas na mão e cara de pouco sono; as pessoas na paragem de autocarro (sete, impacientes); as buzinadelas e imprecações na esquina da Rue Napoleon com a Rue du Vieux Colombier; o homem de muletas e «Le Figaro» debaixo do braço; a mulher de cabelo vermelho e saco da loja «Votre nom...»; o senhor de meia-idade que veste um casaco de camurça e tenta acender, sem sucesso, o seu cachimbo; o chapéu de marinheiro visto ao longe, junto ao quiosque (Corto Maltese?); o homem em fato-macaco azul, com manchas de tinta branca; o vento que amaina no preciso instante em que uma velhota baixinha e enrugada olha para o céu, para a nuvem negra que paira sobre a torre de Montparnasse, e diz que vai chover «trés fort»; o homem dos sacos transparentes (uma meloa, cenouras, iogurtes, latas de conservas); os operários que desarmam, no centro da praça, os stands verdes do Marché de la Bibliophilie; o balão de hélio que continua preso entre os ramos da árvore; o 63; o pombo que debica migalhas aos meus pés; as oito motas estacionadas no passeio; o vento que sopra agora com mais força e desalinha os cabelos de quem passa; as folhas verdes dos plátanos que caem como se fosse Outono; o lugar vazio onde ontem escrevia furiosamente o outro rapaz observador; o relógio que marca 11h52 quando a chuva desaba torrencial (tinha razão, a velhota) e decido ir embora, com o caderno cheio de aproximações inconsequentes, palavras perdidas, contabilidades inúteis e nem uma sombra, uma única sombra, de Perec.

(esta crónica foi publicada no DNA de 12/07/2003)

18:11 28.6.03  
NOTÍCIAS DA BLOGOSFERA

Há cerca de seis meses, precisamente no primeiro dia do ano, eu criei um blogue com o meu irmão. Na altura, contavam-se pelos dedos as pessoas que sabiam o que isso era. Um blogue. Hoje, provavelmente, contam-se pelos dedos as pessoas que não sabem. Em pouco tempo, a blogosfera (como é comum chamar-se ao universo dos blogues) passou de uma espécie de clandestinidade obscura para a mais iluminada das ribaltas, sem meio termo, à semelhança de tantas outras coisas em Portugal. Se de início houve uma desconfiança porventura excessiva dos media tradicionais em relação ao fenómeno, agora acontece precisamente o contrário. Estamos em plena blogomania: os jornais de referência citam os blogues e dedicam-lhes editoriais; há destaques, reportagens e perfis de «bloggers» a aparecer por todo o lado; entrevistas em programas de rádio; o diabo a sete. De repente, ter um blogue ficou «in», é giro, é moderno, confere estatuto, «está a dar». Toda a gente opina sobre a questão, mesmo quem visivelmente desconhece os meandros da blogosfera. E as polémicas sucedem-se, dos blogues contra os jornais e também, desde a semana passada, dos jornais contra os blogues (veja-se a última crónica de Pedro Rolo Duarte neste suplemento).
O clima, convenhamos, é de alguma efervescência, para não dizer histeria. E talvez seja altura de fazer um primeiro balanço, começando por constatar que o número de blogues portugueses continua a crescer de forma quase exponencial. Se no princípio do ano, quando escrevi nesta mesma página uma crónica didáctica sobre o assunto, existiam pouco mais de 100, agora já ultrapassam os 700 (conferir em http://blogsempt.blogspot.com/ e http://blogo.no.sapo.pt/), havendo quem preveja para as próximas semanas a entrada na casa dos milhares. A esta explosão quantitativa correspondeu também, como seria de esperar, uma especialização qualitativa. Se de início predominavam os blogues pessoais (diários íntimos), seguiu-se uma vaga de blogues de reflexão essencialmente política e cultural, para desembocarmos agora num leque quase ilimitado de tendências. Há, literalmente, blogues para todos os gostos: humorísticos, regionalistas, bibliófilos, de arquitectura, futebolísticos, eróticos, religiosos, gastronómicos, apócrifos, académicos, literários, rascas, eruditos, «you name it». Alguns são excelentes (sendo que a palavra «alguns» equivale, neste universo, a umas boas dezenas), outros são apenas razoáveis e muitos não têm qualquer interesse. A blogosfera, no fundo, limita-se a reflectir o que acontece em qualquer outra actividade humana. É a velha história da curva de Gauss: impera a mediania, rareia a excelência. Como em tudo. Sejamos honestos: ninguém deixa de ouvir os cantores de qualidade só porque sabe que existem os pimbas, pois não?
Uma coisa é certa: a blogosfera, com todas as suas potencialidades e limitações, veio para ficar. Talvez ainda não justifique tanta exposição mediática (sobretudo se tivermos em conta que os blogues mais frequentados registam uma média de apenas 500 visitas diárias), mas a verdade é que está a nascer ali qualquer coisa radicalmente nova, entusiasmante, criativa, paradoxal, livre e (talvez por isso) muitíssimo bela. Essa «coisa» nova, ainda em construção, ainda a emergir do magma mais ou menos caótico de centenas de vozes que se sobrepõem e contradizem, essa «coisa» nova é preciosa. Quem não perceber isto, não percebeu nada.
Devemos então glorificar acriticamente a blogosfera, como se fosse o El Dorado redentor da mediocridade geral? É claro que não. Mas devemos discuti-la com seriedade, porque é de um fenómeno sério que se trata. Pela primeira vez, a internet perfila-se como um complemento válido à imprensa clássica. Falo de complemento, sublinhe-se; não de alternativa. Ao contrário do que muita gente insinua, a blogosfera não é um «lugar» (se é que podemos falar de «lugar» na imaterialidade do ciberespaço) onde se faça jornalismo, pelo menos nos moldes tradicionais. A blogosfera é outra coisa. Umas vezes segue os temas e o «modus operandi» do jornalismo (nomeadamente nas críticas a acontecimentos culturais ou no comentário político), mas na maior parte dos casos não. Nos blogues, as notícias e as crónicas cruzam-se com apontamentos do quotidiano, divagações filosóficas, «private jokes», poemas, gestos de amizade, desabafos e toda a sorte de pequenas referências que nunca teriam lugar num jornal, embora se enquadrem perfeitamente no espírito heterodoxo e multiforme desta nova forma de comunicar. A blogosfera não é a continuação do jornalismo por outros meios (ou sequer por outro meio). A blogosfera é o que é, passe a tautologia. Ou melhor, é o que ainda não é. É o que há-de ser.
Separadas as águas entre a blogosfera e o jornalismo (por muito que aparentem ser, nos tempos que correm, irmãos siameses), levanta-se uma magna questão: devem os jornalistas profissionais escrever nos blogues? Para o director deste suplemento, a resposta só pode ser negativa porque «quando os profissionais do jornalismo se envolvem em “blogues”, estão a negar a essência do seu trabalho e a viciar o jogo da liberdade», além de embarcarem em exercícios «de vaidade pura» e de «presunção sem pai nem mãe». Depois de muito pensar sobre o assunto, e de reler os blogues escritos por jornalistas (Francisco José Viegas foi uma das últimas «aquisições»), continuo sem perceber em que medida há naqueles textos, geralmente mais espontâneos e sem as limitações editoriais que nascem do facto da imprensa ser «finita no espaço e no tempo», qualquer negação da «essência» do jornalismo. O que se passa, muito simplesmente, é que alguns jornalistas não se esgotam na sua crónica semanal e têm, na internet, um meio de publicarem tudo aquilo que lhes interessa escrever, mas que não cabe (por razões de tamanho ou temática) na lógica própria da imprensa. Será isto «viciar o jogo da liberdade»? Porquê? Como? O jogo da liberdade ficará viciado, isso sim, no dia em que se decretem quaisquer limitações no acesso à blogosfera. Quem é que estabeleceria o «numerus clausus»? E com que critérios? Na realidade, nada disto faz sentido, porque a blogosfera é virtualmente infinita. Ninguém «ocupa» o lugar de ninguém. Há espaço para toda a gente, até para os que assumidamente não gostam de blogues (esses podem escrever sobre a sua aversão, por exemplo). No limite, chegado o dia em que todos os portugueses tenham acesso à internet e saibam escrever duas frases seguidas, cada habitante deste país pode manter o seu blogue. Mas isso, claro está, é entrar no domínio das distopias.
Quanto à vaidade e presunção, o que se passa é precisamente o inverso. Entrar na blogosfera, onde não existem hierarquias e todos os «bloggers» estão em pé de igualdade, exige coragem e humildade. Coragem porque não é fácil sobreviver num meio em que as polémicas são permanentes e agressivas, a troca de argumentos exige boa preparação teórica e o nível médio da escrita é francamente elevado (já para não para falar do escrutínio apertadíssimo feito pelos leitores, nas áreas de comentário). Humildade porque nos apercebemos todos os dias que há pessoas, nomeadamente as que não têm acesso aos jornais, que sabem mais do que nós, são mais cultas do que nós, estão mais bem informadas do que nós e escrevem melhor do que nós. De resto, essa foi uma das principais lições que aprendi nestes seis meses de blogosfera, juntamente com a constatação de uma inesperada generosidade «inter pares». Mas isso já seria matéria para outra crónica.

(esta crónica foi publicada no DNA de 28/06/2003)


23:13  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «O ÚLTIMO OLHAR».
23:09  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «A GUERRA SEM ARGUMENTOS».
23:08  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «CONVERSA INACABADA».
23:08 25.5.03  
OS LIVROS À SOLTA

Em frente ao edifício da Escola Superior de Educação, em Benfica, estão umas trinta pessoas, todas com livros na mão e uma espécie de alegria contagiante. É sábado à tarde, o sol deixou-se de meias tintas e o céu muito azul dá pela primeira vez sentido, este ano, à palavra primavera. Ficar debaixo de um tecto, com um dia assim, seria criminoso, por isso o grupo escolhe uma sombra, estende mantas na relva e pousa os muitos livros trazidos de casa no centro de um círculo. Pessoas e livros. Pessoas que gostam de livros. Conversas sobre o que se leu e também sobre o que não se leu mas vai ser lido, mais tarde ou mais cedo. São assim os encontros dos membros do BookCrossing, realizados mensalmente em Lisboa e em todas as cidades portuguesas (Porto, Coimbra e Braga, por exemplo) onde já existem núcleos de entusiastas desta espécie de «corrente de leitura».
Para quem nunca tenha ouvido a palavra inglesa, ou desconheça o seu significado, talvez seja melhor explicar de que falamos quando falamos de BookCrossing. A história começa em Abril de 2001, quando o informático americano Ron Hornbaker consegue, em 28 dias, programar um novo site, construído em torno de uma ideia ambiciosa: «fazer do mundo inteiro uma biblioteca». E como é que isso se consegue? Simples: incentivando as pessoas a cederem «ao mundo» alguns dos seus livros, em vez de os guardarem durante anos a fio, intocados, na ordem geométrica (ou caótica) das prateleiras. Qualquer pessoa que deseje passar a outrém um livro já lido, inscreve-se no site, regista o exemplar com um número e «liberta-o» – uma bela expressão – onde muito bem entender: ao acaso (no café, num banco de autocarro, junto a um monumento) ou em locais previamente combinados, onde os leitores que procuram aquela obra em concreto sabem que a vão encontrar. O benemérito pode depois seguir o percurso do livro libertado e saber o que dele acharam os seus sucessivos e provisórios donos, porque os comentários escritos no site são enviados, por e-mail, ao «libertador». Como é óbvio, ao acompanhar o que se passa no site e no seu virtualmente infinito sistema de partilha, quem dá livros também aprende onde e como receber outros, que depois de lidos serão novamente libertados, numa espécie de trânsito babélico que tem começo mas pode não ter fim.
Neste momento, no mundo todo, existem mais de 355 mil obras inscritas e o número de membros do site não pára de aumentar. Em Portugal, a comunidade de BookCrossing nasceu em Julho de 2002, mas o crescimento exponencial só se deu após a publicação de diversos artigos sobre o tema em alguns órgãos de Comunicação Social. Se no fim de Janeiro de 2003 existiam 100 membros, em Março eram 500 e neste momento ultrapassou-se já a barreira do milhar. Além do efeito habitual do «boca a orelha», algumas pessoas aderem porque tiveram a sorte de descobrir um livro aparentemente abandonado, mas com um autocolante lá dentro (onde consta o tal número de registo e o endereço do site). Depois, uma vez compreendida a lógica deste autêntico ovo de Colombo bibliófilo, o difícil é pensar noutras coisas. Mais do que um divertimento ou uma boa acção, o BookCrossing pode rapidamente transformar-se num vício.
É o que me diz uma das participantes no encontro solarengo de Benfica, enquanto examina os livros que as outras pessoas trouxeram para esta sessão de troca directa. «O problema é parar. Eu, por exemplo, hoje não vou levar nada. Não posso. Estou de "dieta" até dar conta dos livros todos que tenho numa pilha, ainda por ler, no meu quarto». Se a maior parte destas pessoas já tinha bons hábitos de leitura, agora admitem que lêem ainda mais, até porque existe uma pressão inconsciente no sentido de «libertar» os livros o mais depressa possível, para que possam ser lidos por outras pessoas que estão, algures, à espera.
De início, havia no projecto BookCrossing uma atracção pela ideia de acaso. Era suposto largar os livros aleatoriamente, muitas vezes em locais inesperados, para que fossem descobertos, também aleatoriamente, pelo tipo de pessoas que nunca entra numa livraria. Mas a margem de risco era considerável: quem apanha o livro pode arrancar-lhe a etiqueta e juntá-lo à sua coleccção, como pode deitá-lo para o lixo ou mesmo entregá-lo nos Perdidos e Achados (já aconteceu). Além disso, os livros que saão deixados na rua, expostos aos elementos, nem sempre sobrevivem a uma noite de vendaval ou a uma bátega. E é por isso que a percentagem de livros efectivamente recolhidos ainda não ultrapassou, até agora, os 25%. Para aumentar a probabilidade de sucesso, surgiram entretanto as chamadas Crossing Zones, ou seja, locais seguros onde os cúmplices deste movimento sabem que podem deixar e levantar livros. Em Lisboa, há pelo menos duas Crossing Zones: o restaurante/bar Agito (no Bairro Alto) e a livraria Clepsidra (junto às Picoas).
Como seria de esperar, houve muita gente que não gostou do carácter comunitário do BookCrossing e menos ainda da sua estratégia de partilha, claramente nos antípodas do consumismo desenfreado que marca o nosso tempo. Em vez de um sistema assente na compra e na posse dos objectos (tantas vezes sem usufruto), propõe-se uma rede imensa de livros gratuitos, que andam por todo o lado e não pertencem a ninguém. Quer isto dizer que o negócio dos escritores e das editoras fica ameaçado, como garantem as cassandras do costume? Nem por sombras. A prática demonstra que as pessoas que aderem ao BookkCrossing tendem a adquirir mais livros do que adquiriam antes. E há mesmo quem compre em duplicado, para guardar um dos exemplares, «libertando» o outro.
É o caso da leitora compulsiva que está sentada ao meu lado e que já se candidatou, com os olhos, à volumosa e cobiçadíssima autobiografia de Gabriel García Márquez. O economista que trouxe «Viver para Contá-la», desde Setúbal, vai agora explicando a estrutura narrativa das outras duas magníficas obras que decidiu oferecer: «Desgraça», de J. M. Coetzee, e «Expiação», de Ian McEwan. E na outra ponta da roda que fizemos, sentados na relva, Luís Filipe Silva aprova a escolha daquele que é conhecido na Net pelo seu «nickname»: Prytzkov.
O Luís, além de ser um dos melhores autores portugueses de Ficção Científica, é considerado o primeiro «bookcrossista» nacional. Diz-me: «O que me atrai nisto, Zé Mário, é o sonho de uma biblioteca global, parecida com a do Borges». Eu percebo o que ele quer dizer. E concordo. No último sábado, dia de sol e cumplicidades, o BookCrossing ganhou um novo membro.

(esta crónica foi publicada no DNA de 24/05/2003)


20:53 17.5.03  


SEXO NA CIDADE (DE PROVÍNCIA)

Há umas semanas, ao rever na SIC Mulher um dos episódios de «Sex in the City» – uma série sobre quatro sofisticadas nova-iorquinas que procuram, na grande cidade, todo o tipo de aventuras sexuais – pus-me a imaginar como seria uma eventual adaptação portuguesa deste «conceito», inventado pela romancista Candice Bushnell. Quem seriam as actrizes? Haveria também um Mr. Big (ou melhor, um Sr. Grande)? Por onde andariam elas à procura do homem perfeito, entendido como um sinónimo de amante belo, atlético, carinhoso e rico (sobretudo rico)?
Imaginei cenas nas Docas, no Lux, nos restaurantes do Parque das Nações, nas lojas mais caras da Avenida da Liberdade e em dois bares da moda. Lisboa não é Manhattan, mas sempre se arranja qualquer coisinha. Já o elenco, necessariamente heterogéneo, levantava mais dificuldades. E daí... Que tal juntar Alexandra Lencastre, Margarida Marinho, Fernanda Serrano e a «não-alinhada» Rita Blanco? Se calhar até funcionava, nunca se sabe. Depois era só encomendar um argumento às Produções Fictícias e o resultado até podia tornar-se melhor do que a versão original – useira e vezeira num registo de humor muito americano e «trendy»; ou seja, pouco acessível a quem não tenha o privilégio de viver no Upper East Side.
Andava eu nestas congeminações um pouco frívolas, admito, quando a realidade portuguesa me caiu em cima, pronta a destruir de um só golpe tão irreais extravagâncias. Qual Docas, qual Expo, qual Alexandra Lencastre. A versão nacional do «Sexo na Cidade» não fica em Lisboa. Fica em Trás-os-Montes. E se também tem quatro protagonistas, o certo é que estas não usam rimel, não bebem Chianti e nunca sequer sonharam em usar lingerie Victoria’s Secret. Refiro-me, como é óbvio, às celebérrimas «Mães de Bragança», o grande fenómeno mediático dos últimos tempos, juntamente com a fuga de Fátima Felgueiras. Não por acaso, duas histórias ideais para colmatar, neste período de pós-guerra, a súbita baixa nos níveis da adrenalina noticiosa.
Tudo começou, se bem se recordam, com um abaixo-assinado/manifesto contra uma «onda de loucura» que se teria abatido sobre a pacata cidade transmontana, desviando os homens bragantinos dos seus lares, directamente para os braços de pérfidas prostitutas brasileiras. Segundo as quatro corajosas signatárias do documento, as raparigas de sotaque doce teriam recorrido a todo o tipo de macumbas (com pétalas de rosa, raízes de amor-perfeito, etc) para enfeitiçar os legítimos maridos. Ou, como resumiu uma das despeitadas, para lhes darem «a volta à cabeça». Solução para o problema? As bravas «Mães» nem hesitam: alguém tem que fazer alguma coisa por elas, vítimas não só de uma humilhação amorosa e sexual, mas também de outros danos irreversíveis: as poupanças que voaram, os esposos que lhes batem e «partem tudo», as famílias desfeitas. Alguém – Estado, polícia, Governo Civil – tem que repor a ordem. E, já agora, os bons costumes. Com muito menos, convenhamos, haveria quem fizesse uma telenovela de 200 episódios.
Mas se não tivemos (ainda) direito à telenovela pura e dura, a verdade é que a «informação espectáculo» revelou-se um bom sucedâneo, com o seu despudorado empolamento das notícias e a atracção incontrolável por cenas de faca e alguidar. Previsivelmente, em Bragança ergueu-se de novo o circo mediático, com dezenas de jornalistas à caça do melhor «soundbyte» ou da história mais bizarra – tudo complementado pela presença em estúdio de um investigador das Ciências Sociais, capaz de explicar, em três minutos, antes do próximo directo, as razões profundas desta «ruptura sociológica».
No meu modesto ponto de vista, o busílis da questão está na forma como se encara a sexualidade (e, já agora, as relações de poder dentro do casal). Como referiu Eduardo Prado Coelho, é sintomático que o movimento se auto-denomine «Mães de Bragança» e não «Esposas de Bragança». Ao colocarem-se no papel de mães, elas não estão apenas a negar (ou a reprimir) o seu desejo erótico. Estão a colocar-se moralmente acima das suas rivais. Elas são mães (também dos maridos?), as outras apenas mulheres. E elas são puras enquanto as outras são putas.
O mais extraordinário, porém, é que os maridos, indecisos entre os dois pólos antagónicos, nem precisam de se redimir. Eles nunca têm culpa. As «Mães» perdoam-lhes os desvarios – porque «um homem não é de ferro» – e preferem ignorar o óbvio: são os seus homens que procuram aquelas mulheres, não o contrário. Por que é que isto acontece? Não sei. Mas a persistência deste tipo de valores machistas, alimentados pelas próprias mulheres que os sofrem na pele, é no mínimo preocupante.
Além disso, as «Mães» de Bragança tendem a escamotear as suas responsabilidades no desastre. Sejamos lúcidos: se os homens fogem, em busca do «mimo» e dos «carinhos» das brasileiras, é porque certamente isso lhes faltou lá em casa. Muita gente insinua que as bragantinas ficaram para trás porque não se cuidam, porque se deixam engordar e não sabem seduzir. Talvez. Para mim, a culpa é antes da televisão. Elas obrigaram os maridos a ver, durante anos a fio, as telenovelas da Globo, não foi? Então não se queixem. Tenho a certeza que foi em frente da TV que eles começaram a fantasiar com as «garotas»...
Depois de todo o alarido, o que subsiste é um problema económico. Com as rusgas policiais e a atenção da imprensa, algumas prostitutas retiraram-se da actividade ou reduziram-na. Por arrasto, foi afectado o comércio, sobretudo o das floristas, cabeleireiras e taxistas. Há menos dinheiro a circular, menos negócio. As pessoas estão descontentes. Quando as «Mães» exigem o regresso à pátria das brasileiras, há mesmo quem sugira que se podiam juntar, umas e outras, no mesmo avião. Era da maneira que deixavam Bragança finalmente em paz. E sempre faziam companhia à desterrada Fátima Felgueiras.

(esta crónica foi publicada no DNA de 17/05/2003)


19:12 16.5.03  


SUPERMERCADO

1. Na secção de frutas, duas mulheres. Uma mais velha, outra mais nova, a mesma curva do queixo, os mesmos olhos. Vê-se logo que são mãe e filha, às compras num fim de tarde lisboeta, antes do regresso a casa. O «generation gap» é isto: saia casaco e pulseira de ouro versus jeans de marca e relógio Swatch. Agora andam as duas com sacos de plástico transparente, de um lado para o outro, a escolher as melhores peças. Arrumadas as laranjas espanholas no carrinho, a mãe insiste em levar papaias. «Olha que se faz bem ao Papa, a nós não nos há-de fazer mal». A filha encolhe os ombros, «está bem, OK, tu é que sabes», e nesse preciso instante tocam, quase em uníssono, os dois telemóveis. Seguem-se conversas paralelas: de um lado, tapetes de Arraiolos e begónias («São lindas, Carmen, são lindas»); do outro, a frequência de quinta-feira e o amuo do namorado («Não sei o que é que ele tem, Patrícia, anda esquisito»). Cinco minutos mais tarde, com os telemóveis de regresso às malinhas minúsculas, enchem-se de novo sacos de plástico transparente, agora com pêras vermelhas e bananas. A mulher mais nova murmura qualquer coisa à mais velha. Riem muito, as duas. De onde me encontro, não dá para perceber se estão a rir de uma das amigas que ligou há pouco, se das notícias sobre as «mães de Bragança» – essas vítimas do alvoroço que as prostitutas brasileiras provocaram nos homens transmontanos. É então que a filha pára, indecisa: kiwi ou abacate? (O dilema repetir-se-á, diante dos iogurtes magros: frutos do bosque ou müesli?) «Leva antes umas uvinhas», diz-lhe a mãe.

2. No balcão das carnes, as embalagens parecem todas iguais. Um rectângulo de esferovite, um bife avermelhado e uma película plástica com o autocolante que informa sobre o peso e o preço. Estão ali ao monte, às carradas, à espera de alguém que as apanhe e as coloque no carrinho, e depois em sacos com o logótipo do supermercado, e depois no porta-bagagens de um automóvel utilitário pago em 36 prestações, e depois no elevador do prédio sem jardim à porta, num subúrbio feito de betão, e finalmente numa frigideira já muito usada, com margarina, dois alhos e uma pitada de sal. Este percurso pode ser iniciado por aquela mulher que se aproxima dos expositores, como uma criança de cinco ou seis anos pela mão. Pega num naco de vitela, olha-a de vários ângulos, volta a pousar. Aproxima-se dos frangos e vira a cara. Espreita as costoletas de porco e hesita. Não é difícil imaginar as palavras que a assustam: vacas loucas, nitrofuranos, hormonas. Olha para a cabeça e abana a cabeça. A banca do peixe é já ali: robalos, linguados, raia, pargo. Mas depois aproxima-se, vê bem os preços, confirma com a empregada, abana de novo a cabeça e volta para trás.

3. O meu carrinho guina para a direita. Eu bem tento manter uma rota, tirar azimutes, seguir um rumo certo. Mas o carrinho tem vontade própria, atira-se contra as embalagens de massa italiana, contra os pacotes de detergente, contra os garrafões de água mineral e contra as pernas das outras pessoas. Pessoas que também têm, desconfio, carrinhos que guinam sempre para a direita. E se fossem só os carrinhos...

4. Há uns tempos, ouvi dizer que a secção dos congelados é um excelente local de engate. A lógica do raciocínio parece-me cristalina: 1) quem vive sozinho não tem paciência para cozinhar; 2) quem não tem paciência para cozinhar procura refeições rápidas (tipo lasanha em cinco minutos; bacalhau à Brás em sete); e 3) quem procura refeições rápidas deambula frequentemente junto às arcas frigoríficas – na mira talvez de uns douradinhos, de uns rissóis prontos a fritar ou mesmo de uma pizza esbranquiçada que fará «plop» no microondas. Corolário: é muito mais provável um solitário chocar com uma solitária, ou vice-versa, naquela zona do supermercado do que, por exemplo, na área em que se vendem hortaliças e coentros frescos. A teoria, porém, não parece aplicar-se ao dia de hoje, em que junto às arcas só vejo casais (será que os solitários saem mais tarde?), casais novos, todos ostensivamente sub-30. Um deles, então, parece saído de uma revista. Muito estilo, bronze impecável (das férias na montanha ou do solário), óculos escuros. Enchem o carrinho de couves de Bruxelas e macedónia, avançam para os gelados mais caros, escolhem filetes de maruca sem olhar ao preço. De longe, apercebo-me de um pormenor sintomático: os dois são com certeza recém-licenciados, provavelmente bem pagos (ele pode ser corretor da bolsa; ela, médica), não parecem ter angústias com a taxa de crédito à habitação nem com o pagamento mensal dos cartões, mas já não falam um com o outro. Coisa trágica, esta. Ser sexagenário com vinte e poucos anos.

5. «Então, sempre vais a Sevilha?» Quem pergunta é um homem de barriga proeminente, cabelo todo branco (o que lhe sobra), bigode à Nietsche e cachucho na mão sapuda. O amigo, apenas um pouco mais alto e sem bigode, abana a cabeça afirmativamente. «Podia lá perder uma coisa destas». Estão os dois na secção das bebidas alcoólicas, departamento dos whiskys velhos. Falam do FCP, do José Mourinho e das maravilhas que o Deco faz com uma bola de futebol. «O homem é um artista», diz o pseudo-Nietsche, com o tom de quem trata por tu as bancadas das Antas. Eu estou de passagem e finjo procurar uma garrafa de vinho moscatel, a uns dez metros de distância. Os dois amigos falam mais baixo. – Então quer dizer que ficou tudo resolvido? – Tudinho. – E o homem é mesmo de confiança? – Já te disse que a coisa está encaminhada, não temos que nos preocupar. – ’Tá bem, mas... aquilo fica mesmo para nós, não fica? – Fica, fica, garanto-te. – Então ’tá bem. Trata do cheque que eu trato do whisky. – Assim mesmo é que é falar. De pomadas percebes tu... – Pois é. E olha lá, damos o quê, afinal? Uma garrada de 12 anos? Ou de 15?

6. O meu avô materno costumava dizer que a melhor forma de conhecer um país, uma região ou uma cidade, era visitar um mercado. Na forma como se dispõem os alimentos, na frescura dos legumes, na limpeza do recinto, na cortesia ou nos maus modos dos vendedores (e dos clientes) estariam todos os indícios de como funciona uma sociedade. As suas virtudes mas também os seus defeitos. E por isso ele gostava de sair, manhã cedo, para ler um país, uma região ou uma cidade no torvelinho confuso de uma praça atravessada pelos gritos das peixeiras. Hoje, existem centros comerciais e grandes hipermercados, lugares que ele não viu e não imaginou sequer. Na fila para a caixa registadora, atrás da mãe e da filha, novamente ao telemóvel («querido, levamos uvas para o jantar»), voltei a lembrar-me do meu avô. Talvez porque continua, no fundo, a ter razão.

(esta crónica foi publicada no DNA de 10/05/2003)


22:55 12.5.03  

CONCERTO PARA TOSSE E ORQUESTRA

No passado fim-de-semana, os melómanos portugueses puderam tirar a barriga de misérias. Durante três dias, nas muitas salas do Centro Cultural de Belém, houve autênticas maratonas musicais, integradas nessa celebração cultural mais ou menos caótica, mas sempre exaltante, que é a Festa da Música. À falta do divino dom da ubiquidade, era ver as pessoas a correrem de um lado para o outro, da sala Tintoretto para a sala Caravaggio e da sala Caravaggio para a sala Tiziano, tentando encaixar numa agenda apertadíssima o máximo de concertos. Quatro por dia foi a minha dose, quase no limite do cansaço, mas acredito que outros espectadores, habituados aos grandes festivais de ópera (Bayreuth e Salzburg), tenham ido ainda mais longe, até porque o programa – com obras de compositores italianos do período que vai «de Monteverdi a Vivaldi», interpretados por músicos excepcionais (como o conjunto La Venexiana, os Tallis Scholars ou o contra-tenor espanhol Carlos Mena) – era tão bom que seria um crime desperdiçá-lo.
Pela minha parte, lá fui correndo entre as salas com nomes de pintores, atrás das melodias de Corelli ou dos cromatismos de Gesualdo. Ao longo dos 12 espectáculos, houve de tudo: interpretações sublimes e outras que nem por isso; momentos de êxtase e períodos de tédio. Constante mesmo, só a tosse. Sim, essa mesmo, a famosa «tosse dos concertos» – a mais persistente e universal das pragas culturais da humanidade.
Como diria um amigo meu, «é matemático». Assim que os músicos entram na sala e abrem as partituras, começa o cof, cof, cof. A tosse espalha-se pela plateia, numa bizarra polifonia de sons guturais, acalma depois um pouco com a subida do maestro ao palanque, mas logo retoma o seu trabalho de sapa e começa a sabotar, aqui e ali, os alicerces da peça musical que é suposto ouvir em silêncio. Claro que o silêncio absoluto não passa de uma abstracção, mas a tosse – esse pérfido animal colectivo – encarregar-se-ia de o destruir, caso por milagre ele um dia acontecesse. Basta ver a sorte normalmente reservada a esse momento mágico de suspensão que é um pianissimo. O maestro põe um dedo à frente da boca, a orquestra abranda, os arcos dos violinos mal tocam nas cordas, os dedos do pianista acariciam as teclas como se fossem flocos de neve, há um quase silêncio, um sussurro, um murmúrio e então... então lá no fundo da sala alguém pigarreia como se tivesse os brônquios em fogo, o som cavernoso sobrevoa as cabeças e assassina a sangue-frio, sem contemplações, aquele tão delicado prodígio, conseguido ao fim de infinitas horas de ensaio.
Para arruinar um andamento, uma sinfonia, às vezes todo um recital, não é preciso mais do que um primeiro ataque incontrolado. Porque uma das características da «tosse de concerto» é o seu efeito multiplicador. Se começa nas primeiras filas, rapidamente alastra pelas outras todas, como um incêndio. E não há quem a controle. Nos casos mais graves, chega mesmo a provocar a saída intempestiva dos músicos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o maestro Kurt Masur, quando dirigia há uns tempos a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque. Ou com o pianista Andras Schiff. Ao ser interrompido durante a interpretação da última sonata de Schubert (a D. 960), levantou-se calmamente e disse, em inglês, ao espectador ruidoso: «Se quiser, fazemos agora um intervalo para tossir (“coughing break”, trocadilho com “coffee break”), esteja à vontade». O homem em causa corou e saiu da sala envergonhadíssimo, enquanto Schiff voltou a sentar-se ao piano, terminando o concerto de forma triunfal.
A questão que se põe, a quem como eu nunca tosse, é esta: por que é que isto acontece? Haverá alguma explicação física, química, biológica? Será da alcatifa, do pó, de alguma bactéria que se desenvolve no veludo das cadeiras? Ou então dos próprios instrumentos, dos sons que emitem, das ondas sonoras capazes de irritar – vá-se lá saber porquê – a mucosa do sistema respiratório? Na internet, ao investigar o assunto, o máximo que encontrei foi uma elaboradíssima teoria estatística que desembocava, acreditem, no «processo homogéneo de Poisson». Não me peçam para explicar os detalhes, por favor, mas a conclusão era clara. Numa assistência de 200 pessoas, a probabilidade de que todas elas consigam manter o silêncio durante pelo menos cinco minutos é muito baixa: 0,00022. Ou seja, há uma certeza quase absoluta (99%) de que durante aquele período de cinco minutos alguém vai tossir, nem que seja uma vez.
Quer isto dizer que a tosse é uma fatalidade, contra a qual não podemos lutar? Não. Aliás, acho que há causas muito concretas que explicam o fenómeno e que podem dar-nos pistas para redução deste problema. Uma dessas causas tem a ver com o estaturo social dos concertos de música erudita. Preocupadas com o que os outros pensam e com as regras de etiqueta (não bater palmas entre os andamentos é uma delas), algumas pessoas ficam tensas, o que facilita o aparecimento da tosse nervosa. Pior ainda, o receio de tossir cria ansiedade e a ansiedade provoca a tosse que justamente se pretendia evitar. Além disso, quanto mais elitista for o meio ambiente, pior. A tosse do Scala de Milão é mais cavernosa que a do S. Carlos, a do S. Carlos é mais profunda que a da Gulbenkian, a da Gulbenkian mais cerrada que a do CCB.
A principal causa, porém, é mesmo a falta de atenção. Uma parte considerável dos espectadores nem sequer gosta daquela música – escuta Beethoven por delicadeza ou por obrigação, mas está a pensar na lista do supermercado ou no jogo do Benfica. Outra parte gosta da música mas cansa-se, distrai-se, perde o fio à meada. E tosse. Tosse porque se aborrece. A verdade, nua e crua, é esta: há uma correlação entre o grau de interesse numa dada obra e o volume de tosse que provoca. É só fazer a experiência. Depois da mozartiana «Eine Kleine Nachtmusik», ofereça-se ao público uma obra de Stockhausen. Aposto em como vai parecer que surgiu na plateia, durante a audição da segunda peça, um surto de pneumonia atípica.
A conclusão é óbvia: quem está concentrado, só tosse se estiver mesmo doente. Alguma vez viram um músico tossir em palco? Eu não.

(esta crónica foi publicada no DNA de 03/05/2003)


03:14 28.4.03  


HISTÓRIAS DA MAFIA PÓS-MODERNA

Comecemos por uma evidência: «Os Sopranos» é o melhor programa que se pode ver, actualmente, na televisão portuguesa (segundas-feiras, às 23 horas, na RTP2). Dito por mim, que passo cada vez menos tempo em frente do pequeno ecrã da TV e cada vez mais horas diante do computador (fazendo da internet a minha segunda casa), o juízo vale o que vale. Mas pelo que oiço nos cafés e nas conversas de amigos, não devo andar muito longe da verdade. Cinco minutos de zapping chegam para perceber que a TV dos nossos dias é composta por 95% de lixo, 4% de programas razoáveis e umas quantas pérolas tresmalhadas (como o documentário sobre Francis Bacon exibido pelo «Artes e Letras» há duas semanas, algumas séries humorísticas da BBC – sobretudo «The Office» – ou o brilhante «Daily Show», com Jon Stewart, na SIC Radical). No entanto, capaz de me fazer ficar em casa, de propósito, à hora marcada – como em tempos a «Balada de Hill Street», o «Cosmos» de Carl Sagan ou a melhor sitcom de sempre («Seinfeld», claro) – só mesmo «Os Sopranos».
Para ser sincero, devo dizer que quando ouvi falar deles pela primeira vez, a propósito de uns Emmys ganhos na categoria de melhor série dramática, fiquei de pé atrás. «Os Sopranos»? Imaginei logo senhoras gordas que cantam notas sobreagudas e morrem, tragicamente, no fim das óperas de Puccini. Quando percebi que a intriga não se passa nos bastidores do Met, antes nos arrabaldes de New Jersey, entre famílias da mafia, foi pior ainda. A mafia, outra vez? Será que ainda é possível ficcionar a mafia, dissecar a mafia, descodificar a mafia, depois de tudo o que Coppola fez com «O Padrinho» (esse arquétipo mil vezes imitado)?
A resposta, recebi-a com o primeiro episódio. Sim, é possível. Mais ainda: é possível não só reiventar a forma como vemos a mafia, mas humanizá-la. Nesse fabuloso primeiro episódio, Tony Soprano (James Gandolfini), o pater familias, homem duro e capaz de assassinar um adversário (ou um traidor) à queima-roupa, sem a mínima hesitação, revela desde logo uma natureza surpreendentemente frágil. Perturbado com uma ocorrência menor da vida quotidiana (a súbita partida dos patos que tinham «invadido» a sua piscina), Tony cai num estado de profunda melancolia, pontuada por ataques de ansiedade. Não há segundas leituras possíveis: o que nos espera, ficamos a saber desde o princípio, é a história de uma família mafiosa liderada por um homem depressivo. Um homem atormentado pela mãe e pela mulher, que toma Prozac e visita a psiquiatra todas as semanas.
Como espectador, rendi-me (sem oferecer resistência) à subtil rede narrativa de David Chase, o criador da série. E tive logo a sensação, confirmada em quase todos os episódios subsequentes, de que a estrutura dramática, os movimentos de câmara, a fotografia e os diálogos – os espantosos diálogos – estão ao nível do que de melhor se faz, hoje em dia, no cinema americano. Aliás, a forma como a violência emerge, entre uma rodada de whisky no Bada Bing! e um jantar de negócios no restaurante Vesuvio, com piadas pelo meio e um jeitinho dado ao nó da gravata de seda italiana, faz por vezes lembrar os assassinos de Quentin Tarantino, capazes de discutir a diferença entre os hambúrgueres americanos e europeus, antes de mais um «serviço». E se na argúcia dos guiões, bem como no profissionalismo algo trapalhão dos «killers», há qualquer coisa de tarantinesco, o resto, salvaguardadas as devidas distâncias, é mais Scorsese.
Porque esse resto – feito de pequenos detalhes, frases soltas, atmosferas, indícios – é de certa forma um espelho da comunidade italo-americana. Melhor dizendo, da América tout court. O que torna «Os Sopranos» uma série única é essa capacidade de circunscrever um universo muito concreto e quase claustrofóbico, não deixando de mostrar como ele vai sendo contaminado pelo aparentemente longínquo mundo «normal». Veja-se, por exemplo, como na quarta temporada (a que está em curso) surgem marcas subtis do 11 de Setembro e das suas consequências, nomeadamente quando Tony percebe que pode investir, com a ajuda de um vereador corrupto, nos novos projectos imobiliários previstos para Manhattan.
Tony Soprano não é apenas o líder da famiglia, é também o chefe do clã, o eixo em torno do qual se definem complexas hierarquias e jogos de poder. Para analisar com o mínimo de rigor a galáxia de extraordinárias personagens que gravitam em torno do «boss», precisaria do espaço de que não disponho nesta crónica. Mas sempre posso dizer que o Tio Junior (Dominic Chianese), os «braços direitos» Silvio (Steve van Zandt) e Paulie (Tony Sirico), o sobrinho Christopher Moltisanti (Michael Imperioli) ou o ingénuo Bobby “Bacala” (Steven R. Schirripa) formam a mais notável galeria de figuras secundárias que me lembro de ver numa saga mafiosa.
Do lado oposto, na vida deste Al Capone dos subúrbios, estão as mulheres. E que mulheres. Livia (Nancy Marchand), a mãe terrivelmente dominadora. A quase etérea Dra. Melfi (Lorraine Bracco), que cria no seu gabinete uma espécie de ilha, onde vai crescendo um fascínio mútuo e uma tensão sexual fortíssima. E Carmela (Edie Falco), a esposa fiel mas exigente, personagem que vai ganhando, com o tempo, uma espessura que não se lhe adivinhava no início.
Mas além deste labirinto psicológico e moral, só por si merecedor de todos os encómios, há um aspecto n’«Os Sopranos» que me atrai particularmente: é a forma como estes novos mafiosos lidam com as imagens e estereótipos associados à Cosa Nostra. Isto é, riem-se deles, integrando-os na sua linguagem, numa espécie de distanciamento pós-moderno que abre infinitas possibilidades irónicas. Estes são, talvez, os primeiros mafiosos que sabem que são mafiosos e não se importam. Continuam a manter as aparências mas, lá no fundo, até se orgulham do que fazem à margem da lei. E agora que o FBI lhes montou o cerco, eu, correndo o risco de ser politicamente incorrecto, só desejo que eles, os peculiares elementos da família Soprano, nunca sejam apanhados.

(esta crónica foi publicada no DNA de 26/04/2003)


00:05 20.4.03  


JEREMIAS & OUTRAS LAMENTAÇÕES

1. É uma visão terrível: um homem prostrado, mordendo o pó, chorando inconsolável. O seu nome é Jeremias. Profeta na terra em escombros, figura recortada nesse passado que parece maior (ou mais intenso, ou mais antigo) só porque é bíblico, só porque a sua luz é a luz do Antigo Testamento, só porque a sua dor é a dor do Livro das Lamentações. Com humildade e pavor, temendo sempre a ira divina, Jeremias narra nos seus poemas a destruição de Jerusalém, a agonia da cidade às mãos de Nabucodonosor, o rei estrangeiro que a subjugou em 586 AC. A queda da cidade, o seu estertor, é um castigo de Deus. O pecado tornou-a «vagabunda», diz Jeremias. A punição chega e os inimigos aproveitam-se: caem muralhas, escancaram-se as entradas («omnes portae eius destructae»), morre gente nas praças, incluindo crianças pequenas e bebés em idade de mamar. As lágrimas nada conseguem impedir, os olhos fecham-se dentro das trevas, há apenas uma voz que grita o seu lamento. São palavras de Jeremias perdendo-se no ar: «Como é que uma cidade tão populosa pode estar agora tão vazia e desolada?»; «Tudo o que a filha de Sião tinha de belo foi-lhe retirado. Os seus príncipes são carneiros tresmalhados que fogem, já muito fracos e sem coragem, do inimigo que os persegue»; «O seu povo geme e procura pão»; «Do alto dos céus, o Senhor lançou fogo que me penetrou até aos ossos e me fez cair na mais completa desolação». Jeremias chora diante da ignomínia, da ruína, do opróbrio. «Ó vós que passais no caminho, considerai se há tormento maior do que o meu». Foi há 25 séculos, em Jerusalém. Podia ser hoje, em Bagdad.

2. Há uns anos, numas Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian, assisti a um desses pequenos milagres que nos reconciliam com a vida e com o mundo. Na Igreja do Loreto – salvo erro numa noite de chuva – o contra-tenor Gérard Lesne começou a cantar e de repente houve como que um clarão. Era a voz dele que ardia, nas sombras acústicas daquela bela igreja do Chiado. Uma voz que era fogo e depois cinza e depois fogo outra vez. Uma voz que ardia por dentro de uma música capaz de comover o mais cruel dos esbirros. Eu, muito dado a melancolias e ao carácter introspectivo dos adagios, fiquei de boca aberta, rendido. Naquela noite, ouvira pela primeira vez as «Leçons de Ténèbres» (creio que as «du Mercredy»), escritas há três séculos por François Couperin, a partir do texto latino das «Lamentatio Jeremiae Prophetae». Depois, estes ofícios de «Tenebrae», tocados tradicionalmente de quarta a sexta-feira, na celebração litúrgica da semana santa, passaram a ser uma das minhas obsessões estéticas – equivalente musical das nuvens (de que falei na crónica da semana passada). Aos poucos, fui descobrindo o vasto reportório inspirado pelas lamentações do profeta: de Thomas Tallis a Carlo Gesualdo, passando por Marc-Antoine Charpentier. Mas em nenhum destes compositores a beleza é tão desesperada como em Emilio de’ Cavalieri (1550-1602). As suas «Lamentationes» – única obra sacra que sobreviveu até aos nossos dias – foram ouvidas pela primeira vez em Pisa (1599). Chegaram agora até mim num disco premiadíssimo da editora Alpha, com uma interpretação estratosférica do ensemble Le Poème Harmonique, dirigido por Vincent Dumestre. Ouvi-o no dia em que a estátua de Saddam tombou.

3. Uma horas mais tarde, decidi pegar num livro de capa azul que já levara, há umas semanas, para o monte periclitante da minha mesa de cabeceira. «Lições de Trevas» (Quasi), de Fernando Guimarães, atraiu-me tanto pelo título como pelo que já conhecia do autor (por exemplo «O Anel Débil», na Afrontamento). Mas não farei comentário à obra, até porque o Pedro Mexia, aqui ao lado, se encarrega disso mesmo. Pretendo apenas partilhar com o leitor um poema, um só poema, lido na mesma noite em que escutei a voz trágica de Jeremias, elevando-se das partituras de Cavalieri, e vi as ruas de Bagdad, uma vez derrubada a estátua do ditador, mergulharem no caos e na anarquia: «Estão separadas de tudo as lágrimas. Vê-las-emos/ longe da nossa face, para que finalmente se conservem/ vazias, sem qualquer imagem reflectida. São as flores/ que não têm pétalas. Um leve caule as vem unir/ à terra que fica sob os nossos passos. Conseguimos/ encontrá-las? Sabemos que não são nossas, afastadas/ de qualquer dor, porque nada é capaz de receber/ este silêncio que se transforma na mesma água».

4. As lágrimas são as flores que não têm pétalas. Foi assim para Jeremias. É assim para a directora do Museu Arqueológico do Iraque. Vejo-a na televisão, caminhando pelas salas e confrontando-se com o saque – vitrinas partidas, portas arrombadas e a memória do país (melhor dizendo, a memória da nossa civilização) reduzida a cacos. O desespero é total. Por isso aquela mulher grita, bate com os punhos na cabeça, chora de raiva e lamenta-se amargamente. Em vão. O que não podia ter acontecido, aconteceu.

5. Já aqui escrevi o que pensei desta guerra antes de ela começar. Ao invadir o Iraque sem o aval da ONU e sem um motivo de forla maior (como foi a tragédia humanitária no Kosovo, por exemplo), os EUA e os seus aliados corriam o risco de abrir um precedente gravíssimo. Pois bem, após uma guerra muito rápida (cerca de um mês), esse precedente gravíssimo está de facto aberto, até porque não se verificou a única atenuante possível: isto é, a confirmação da «ameaça global» do Iraque. As célebres armas de destruição maciça não chegaram a aparecer (pelo menos até ao momento em que escrevo este texto) e, mesmo que apareçam, o certo é que não foram usadas.
Que fique bem claro: eu, como qualquer pessoa de bom senso, exultei com a queda de Saddam e do seu regime despótico (embora considere que as comparações com o 25 de Abril, por parte de alguns comentadores portugueses, foram no mínimo infelizes). Mas ninguém deve ter ilusões sobre o que está em causa no pós-guerra. A democracia não nasce por geração espontânea e a estratégia da Administração Bush já começa a apontar para outros países do chamado «eixo do Mal». O que está a acontecer no Afeganistão (um país ainda em ruínas e instável) pode repetir-se no Iraque.
Entretanto, a coberto da desordem que se instalou no país, sucedem-se os crimes mais impensáveis, como o saque do Museu ou o incêndio da Biblioteca Nacional. De um só golpe, o Iraque perdeu a sua identidade. Viu as «provas de que houve um dia, aqui, uma civilização» destruídas, vandalizadas ou roubadas. Viu todos os tesouros bibliográficos (incluindo preciosíssimos documentos históricos) reduzidos a cinzas. E viu os soldados americanos, tão lestos a vencer uma guerra que estava ganha à partida, assistindo a tudo de braços cruzados. Numa qualquer esquina de Bagdad, Jeremias voltou a chorar.

(esta crónica foi publicada no DNA de 19/04/2003)


19:25 14.4.03  


A FORMA DAS NUVENS

Ao começar esta crónica, feita de palavras que são como gotas de água em suspensão, imagino o texto a erguer-se nos ares, transformado em nuvem. Em nuvem, sim, coisa difusa e precária, um castelo imaterial – aéreo – levado pelo vento, essa «arquitectura do acaso» de que falava Borges num dos seus últimos poemas. Imagino o texto a fugir pela janela, heróico, mas é claro que nada disso acontece porque estas palavras nunca chegaram a ser gotas de água em suspensão, estas palavras têm raízes, o texto é matéria terrestre e as letras negras agarram-se à página, teimosas, nada querendo saber do mais alto azul.
Espero que os leitores (habituados porventura a encontrar nestas prosas uma certa ordem, uma certa lógica) me perdoem o devaneio nefelibata. Acontece que ainda não recuperei da leitura sôfrega de um voluminho de capa cinzenta, editado pela Assírio & Alvim na mítica colecção Gato Maltês. A obra, que acaba de chegar às livrarias, é «O Jogo das Nuvens» de Johann Wolfgang Goethe (com selecção, tradução e prefácio de João Barrento, o nosso germanista preferido). Mas, perguntarão os leitores, já de pé atrás com tantas delongas, o que há assim de tão espantoso neste livro? Pois bem: a prova de que não estou fora do mundo. A prova de que outros, antes de mim, partilharam o que julgava ser a mais ridícula das obsessões. A prova de que outros, antes de mim, também alimentaram uma atracção visceral pelas tais aéreas «arquitecturas do acaso».
Não sei dizer exactamente quando começou, mas foi na infância. É normal. Toda a gente passa por uma fase em que as tardes de Verão se ampliam até ao infinito e se descobre o prazer de estar deitado na relva, olhando para o céu e vendo nas nuvens as formas mais diversas: animais, muralhas, dragões, caravelas. O tempo encarrega-se de arruinar esse olhar poético sobre as coisas. Deixamos de procurar o vulto negro dos melros por entre os ramos de uma figueira. Deixamos de esconder pequenos tesouros (cromos raros, esferas de vidro) dentro de um lenço enterrado junto ao bosque, por baixo de uma pilha de seixos brancos. E deixamos de olhar para cima, deixamos de entrever nas nuvens uma impossível zoologia ou os abstractos contornos de um rosto que julgámos ter amado.
Hoje já não procuro melros, nem escondo esferas de vidro, nem sei se haverá ainda o bosque (ou mesmo a infância). Mas continuo a observar, quase em segredo, as nuvens. Tiro-lhes fotografias, dedico-lhes o meu espanto, guardo-as na memória. Colecciono-as. Assim de repente, sou capaz de recordar uma série delas, quase sempre cumulo-nimbos majestosos – a pairar sobre a linha do horizonte – ou cirrus avermelhando-se na última luz do crepúsculo. Dêem-me um desconto se acharem que exagero, mas para mim não existem, na natureza, visões mais belas do que estas.
E não apenas na natureza. Também na arte. Gosto muito de «westerns» não só por causa do andar gingão de John Wayne ou das cavalgadas loucas do mestre Ford, mas também por causa da nuvens que pairam sobre o Death Valley, reais ou pintadas no cenário. Ainda recentemente, em Paris, visitei uma exposição de John Constable, o paisagista inglês por antonomásia. Só não morri de tédio, por entre as aguarelas de Hampstead e dezenas de óleos gigantescos, com moinhos de água, carroças e montes de feno, porque havia nuvens perfeitíssimas pairando sobre todas aquelas monótonas paisagens campestres. Ou sobre o mar, na desolada visão da praia de Brighton.
Antes de continuar por aí fora, falando das nuvens com que Turner coroa os seus naufrágios (alguns ainda podem ser vistos na Fundação Gulbenkian, até 18 de Maio), o melhor é regressar a Goethe, mais concretamente ao seu interesse científico pela meteorologia. Um interesse tardio, refira-se, que surge por volta de 1815, muito depois dos estudos feitos, nas últimas décadas do séc. XVIII, sobre óptica, química, mineralogia, botânica, anatomia, etc. Embora já existissem referências aos fenómenos atmosféricos na sua «Viagem a Itália», a fascinação por este assunto só se revelou mais séria depois do Grão-Duque Carlos Augusto lhe ter dado a conhecer, em Ettersberg, o trabalho de Luke Howard – um farmacêutico inglês, meteorologista amador, que sugeriu a primeira classificação das nuvens segundo a sua forma (stratus, cumulus, cirrus e nimbus).
Para Goethe, a natureza não era um sistema fixo ou determinado, mas antes «um organismo em permanente mutação» e por isso inesgotável para quem o «observa», como nota Barrento no prefácio. As nuvens, enquanto matéria instável sujeita ao domínio de Camarupa (a divindade indiana que altera a seu bel-prazer a forma das coisas visíveis), surgem assim como uma oportunidade única de tentar compreender o que é informe e estabelecer uma ordem no que é puramente acidental.
Sublinhe-se que Goethe, embora entusiasmado com a teoria de Howard, não deixou de aplicar esta última ciência – ciência do que se perde e desfaz (da «matéria» em constante metamorfose) – os princípios básicos da sua filosofia e da sua estética, nomeadamente a ideia de um «nobre impulso» para o alto. Na «luta» entre as regiões superiores e inferiores da atmosfera, há um óbvio gradiente de pureza que vai dos baixos «stratus» (influenciados pela terra) aos altos «cirrus» (mais próximos do éter infinito, do céu puro e redentor).
Além de um «Diário das Nuvens», em que Goethe descreve minuciosamente as suas observações durante a viagem para as termas de Karlsbad (entre Abril e Maio de 1820), o livro reúne ainda uma série de textos dispersos e fragmentos, em que as nuvens servem de mote ou ilustração simbólica. Destaco os poemas dedicados a Luke Howard («Já o fiel arauto da nuvem se dissipa,/ Seu fito é o horizonte, mas aqui abdica»), além dos versos escritos para a sua derradeira e fugidia miragem: «Ulrike, então com 17 anos, nuvem diáfana que foge a Goethe, agora com 74, como um cirro-stratus translúcido subindo para as regiões mais altas da atmosfera». Cumpre-se assim a tragédia íntima: o amor, como a natureza, a escapar-lhe das mãos.

(esta crónica foi publicada no DNA de 12/04/2003)


12:36 4.4.03  


OS UCRANIANOS

Eu cruzo-me com eles nas ruas de Lisboa, oiço no metro a sua língua cheia de «k’s» e de «y’s», reconheço na fila do supermercado o seu sorriso onde às vezes brilham dentes de ouro, vejo-os pendurados nos andaimes com o olhar melancólico de quem estudou para ser engenheiro de minas ou médico ortopedista, mas agora se descobre numa terra estranha, a assentar tijolos dias a fio, sem papéis e sem futuro.
Eu sei que eles estão para nós como nós estivemos para os franceses, nos anos 60. São gente trabalhadora que ergue Expos e constrói estádios, uma mão-de-obra baratíssima, sempre disponível e pouco conflituosa, que só quer receber o magro salário ao fim do mês para enviá-lo, quase por inteiro, às famílias que em Kiev anseiam pelos euros, como Portugal ansiava pelas remessas dos homens e mulheres que atravessavam os Pirenéus em busca de uma vida melhor. A diferença é que os portugueses tinham em geral uma educação limitada (muitos eram mesmo analfabetos), enquanto os novos imigrantes de Leste só não apresentam os diplomas universitários porque ninguém lhos pede.
Pelo que leio nos jornais, sei também que os ucranianos já são mais numerosos no território português do que os angolanos e guineenses, por exemplo. Sei que há redes mafiosas que controlam o «negócio» (esta forma encapotada de escravatura), cobrando-lhes um balúrdio à vinda e outro balúrdio à ida. Sei que existe um submundo de empreiteiros sem escrúpulos a enriquecer à custa deles, por não pagarem horas extraordinárias nem descontos para a Segurança Social. Sei que há alguns casos notáveis de integração: alunos com resultados brilhantes e pessoas de todas as idades que revelam uma extraordinária fluência na nossa língua. Sei igualmente que há casos de desespero, de suicídio, de mortes criminosas em noites de álcool e navalhas.
Sei tudo isto. Mas, ao mesmo tempo, não sei nada. Porque os textos dos jornais, as reportagens da televisão, só mostram uma parte da realidade. Nunca nos mostram como eles vivem mesmo, no quotidiano, quando a câmara se desliga e já ninguém lhes pede depoimentos, dramas existenciais ou demonstrações de apego à pátria distante. Isso que nunca nos mostram – a vida como ela é, sem «voz off» – foi o que João Ribeiro e José Filipe Costa quiseram fixar num documentário, «Entre Muros», gravado em vídeo durante seis meses (Novembro de 2000 a Abril de 2001). Produzido pela Laranja Azul, o filme estreia hoje no Cine Paraíso (sito na R. do Loreto, perto do Largo Camões, em Lisboa) e pode ser visto todos os sábados, até ao fim deste mês, em três sessões (16h30; 19h00 e 21h30).
O que torna «Entre Muros» uma obra fascinante é, desde logo, a sua «perspectiva cinematográfica». Ou seja, a forma como o documentário foi pensado enquanto corpo de imagens. Os autores, em vez de ensaiarem uma qualquer abordagem sociológica do fenómeno da imigração de Leste, preferiram focar a sua câmara na experiência de dois homens, dois imigrantes que partilham a solidão e o cansaço, algures nos arredores de Lisboa. A estratégia parece-me correcta, porque através das acções, desabafos e silêncios destes homens concretos, vai sendo contada, em surdina, a história da maioria dos ucranianos que atravessaram um continente, milhares de quilómetros, para procurar a sorte no país mais ocidental da Europa (facto que é sublinhado por uma das poucas cenas de exterior, junto ao Cabo da Roca).
João Ribeiro e José Filipe Costa resumem o seu projecto de forma muito clara: «O que queríamos era construir em forma de sons e imagens este encontro, entre "eles" e "nós", fazer sentir o estado de suspensão numa terra estrangeira, à espera que venham melhores dias. A descoberta, a pausa, a dúvida, a privação, estar cá e lá ao mesmo tempo». E é isso precisamente que acontece no ecrã. Acompanhamos Serguei e Edvard no espaço que partilham: uma garagem cheia de humidade, com um frigorífico decrépito, roupa estendida e posters com mulheres nuas na parede. Se não vemos quase nada do que se passa fora daquelas quatro paredes, é porque não se passa quase nada fora daquelas quatro paredes. Eles são clandestinos, trabalhadores ilegais, devem por isso esconder-se tanto quanto possível. O único caminho que existe, fora da casa, é o que vai dar ao estaleiro de construção civil ou ao supermercado.
Há mais três compatriotas que partilham a garagem, mas o filme centra-se em Serguei Rodikov, 31 anos, ex-engenheiro numa central telefónica, e no seu primo, Edvard Onichuk, 24 anos, electricista e «disk-jockey» nas horas vagas. Ao fim de uns minutos, não é difícil perceber que são homens com motivações muito diferentes. Serguei trabalha como servente para juntar o dinheiro que lhe permita, lá na aldeia-natal, concluir as obras na sua casa (falta rebocar as paredes e pôr os azulejos). Edvard, pelo seu lado, não tem poupanças em vista e por isso pode render-se aos encantos da sociedade de consumo. Compra uma câmara de vídeo e um telemóvel.
O que vemos neste documentário começa por ser isto: as pequenas alegrias e irritações quotidianas, o jantar feito num tacho velho, a TV ligada, um telefonema rápido para os pais («pergunta como é que está o tempo!»). Mas depois há uma densidade que se instala, uma melancolia que já nos fora sugerida pelas imagens iniciais, esses planos magníficos em que um dos homens deambula frente às montras de Lisboa, enquanto ouvimos uma canção muito triste, sobre uma menina que o amor abandona pela primeira vez. A melancolia regressa com a evocação dos mortos («Quantos ucranianos já morreram em Portugal?», pergunta um dos amigos; mas ninguém sabe responder) e prolonga-se na sequência da passagem de ano, da entrada em 2001, quando a rolha do espumante salta às 22 horas portuguesas, meia-noite americana.
Importa ainda dizer que a câmara, neste filme, nunca é intrusa. É mais um corpo no meio dos corpos que se embebedam e dançam, trôpegos, no vazio. Um corpo tão cúmplice que no fim, quando os homens regressam à pátria, vai atrás deles. E então a estranheza inverte-se. Há agora amigos sorridentes, uma mesa farta e histórias do país onde os homens espetam ferros no lombo dos touros. Há imagens captadas por Edvard: casas, ruas, um homem de mão na anca que agradece os aplausos após a faena. Os familiares espantam-se, de olhos muito abertos. E alguém pergunta: «Lá as temperaturas nunca são negativas, pois não? Como é que eles aguentam?»

(esta crónica foi publicada no DNA de 05/04/03)



18:54 29.3.03  


O ANTIAMERICANISMO

É uma palavra forte, uma palavra cheia de picos, uma palavra que fica estendida na horizontal, à nossa frente, como uma cancela que nos proíbe de ir mais além. Antiamericanismo. Dezasseis letras que são uma espécie de sinal STOP, um aviso, quiçá uma ameaça. Quem condena esta guerra insensata – levada a cabo por uma coligação que espezinhou, não o esqueçamos, a ONU e o direito internacional (com o beneplácito do governo português, hospitaleiro organizador da lamentável Cimeira dos Açores) – está sujeito a dois tipos de críticas, por parte de uma feroz e cada vez mais activa opinião pública de direita: por um lado, a ideia peregrina de que a insistência numa solução pacífica sob a égide das Nações Unidas, com os inspectores a continuarem o seu trabalho no terreno, equivaleria a uma defesa implícita do regime de Saddam Hussein (argumento tão débil que nem merece resposta); e, por outro, a acusação pura e dura de antiamericanismo. A tal palavra a que se recorre para travar o debate, para esvaziar a indignação.
Parece-me que vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre esta questão semântica. Para começar, o antiamericanismo vem sempre associado à velha conversa da suposta inveja, e respectivo despeito, dos europeus (ou melhor, da rumsfeldiana «Velha Europa») perante o sucesso económico, geopolítico e militar da América – elevada, após o fim da Guerra Fria, ao estatuto de única hiperpotência. As coisas não são obviamente assim tão simples, mas a direita iracunda nunca quis saber da subtileza para nada. Se eu critico George W. Bush, pensam ele, é porque odeio visceralmente a América. Não há meio termo. Segundo esta tendência, inspirada pelos «think tanks» neo-conservadores e pelo inefável Jean-François Revel, o antiamericanismo dos europeus seria, no fundo, uma «obsessão» terrível. Terrível porque ingrata. Afinal de contas, eles sempre quiseram o nosso bem: «salvaram-nos» na II Guerra Mundial e «protegeram-nos», durante décadas, dos mísseis soviéticos. Acontece que a inocência americana, só a engole quem quer. Leiam «O Americano Tranquilo», de Graham Greene. Ou vejam o filme. Está lá tudo.
O mais curioso é que à hipotética «obsessão antiamericana» dos intelectuais europeus, há quem responda com uma nunca antes vista obsessão pró-americana. Mais papistas do que o Papa, certos cronistas defendem Bush para além de todos os limites razoáveis, como se o Presidente (eleito em circunstâncias mais do que duvidosas) fosse um profeta e a «falcoaria» de Washington o oráculo de Delfos. Ouvi-los chega a ser divertido, enquanto exemplo de uma forma distorcida de olhar para a realidade. Saem milhões de pessoas à rua em todo o mundo, manifestando-se contra a guerra? Eles apontam o dedo à multidão, vendo por toda a parte esquerdistas folclóricos, «intoxicados» pelos livros de Noam Chomsky. Alguém revela ligações perigosas entre a indústria de armamento americana e esta cada vez mais militarizada Administração? Logo respondem que são tudo calúnias, delírios, cabalas, teorias da conspiração. E que ninguém se atreva a sugerir que os EUA invadiram o Iraque também, ou sobretudo, por razões económicas (petrolíferas mas não só). Como toda a gente sabe, o impulso que move Bush é puramente filantrópico: derrubar o ditador sanguinário, reconstruir o país, implantar uma democracia e sair dali para fora. Recordo apenas que também houve quem acreditasse no «melhor dos mundos possíveis» do professor Pangloss e depois se arrependesse amargamente (interrompam o Graham Greene e leiam – com carácter de urgência – o «Candide», de Voltaire, prodigiosa história de alguém que finalmente abre os olhos e começa a ver).
Chegado aqui, tenho que vos confessar uma coisa. Se decidi abordar a questão do antiamericanismo, tema claramente empolado e que talvez nem merecesse uma crónica inteira, foi porque me dispararam as 16 letras, à queima-roupa, a propósito de um texto publicado neste mesmo espaço, sobre uma guerra que ainda não era, na altura, a triste certeza que hoje é. Reli várias vezes o e-mail mas a palavra continuou lá, cheia de picos, como uma cancela que nos proíbe de ir mais além. Antiamericanismo. Assim, sem margem para dúvidas. Segundo aquele leitor, eu sou antiamericano e não se fala mais no assunto.
Mas serei mesmo? Pior: serei antiamericano sem me dar conta de que sou? Lamento desiludir os praticantes do maniqueísmo ideológico, mas a resposta é negativa. Depois de sair do jornal, ainda nos semáforos da Av. Duque de Loulé, comecei a escrever mentalmente uma série de listas com o que amo e detesto na América, os prós e os contras, as coisas boas versus as coisas más e até mesmo um «Gosto Não Gosto» à maneira da secção do DNA. Tentarei resumir agora uma parte dessas listas.
Nos EUA, o que me desagrada acima de tudo é o primado da economia, do dinheiro e do sucesso; é o contraste entre a mais descarada ostentação de alguns e a mais desamparada miséria de muitos; é o moralismo hipócrita e o patriotismo cego que são vistos como «pilares» da sociedade; é a atmosfera de forte vigilância policial e repressão; é o culto das armas de fogo alimentado por associações como a NRA; é a pena de morte; e é o fundamentalismo religioso que tem raízes profundas na cultura americana (do «In God we trust» das notas de dólar ao «God bless America» dos discursos políticos).
Não tenho problemas em admitir: se a América fosse apenas isto, eu seria furiosamente antiamericano. Acontece que há outras Américas para além desta: a América do pensamento e da ciência (Harvard, Stanford, Berkeley, o MIT, o CalTech, a NASA); a América da natureza bruta (as Montanhas Rochosas, Yellowstone, os vulcões do Hawaii); a América das bibliotecas infinitas e dos museus de sonho; a América de Thoreau, Hemingway, Hopper, Lloyd Wright, Copland, Faulkner, Orson Welles, Pollock, Eugene O’Neill, Philip Roth, Scorsese, tantos outros; a América que luta contra si mesma e se auto-critica.
Eu nunca fui, não sou, nem serei antiamericano porque dentro desta nação paradoxal haverá sempre uma América que reconheço e admiro. Mas nada disso me impede, ainda assim, de execrar os seus líderes actuais, a sua arrogância civilizacional e as suas mais do que óbvias tentações imperialistas.

(esta crónica foi publicada no DNA de 29/03/03)



19:56 22.3.03  


O GIOCONDOCLASTA

1. A minha primeira desilusão com a «grande arte» aconteceu aos dez anos, no Museu do Louvre. Numa sala apinhada de japoneses em êxtase, velhos guias repetiam, pela enésima vez, a mesma conversa sobre a delicadeza do «chiaroscuro» em Leonardo da Vinci – «talvez o maior génio de todos os tempos». Atrás da barreira nipónica, um amontoado compacto de corpos muito juntos a perfazer um semi-círculo perfeito, eu tentava, em bicos dos pés, vislumbrar o enigmático sorriso de Mona Lisa del Giocondo. Caramba, não é todos os dias que se vê, de perto, o mais famoso quadro do mundo. De perto é como quem diz. No meio de cabeças e braços e mochilas da Nike, o máximo que eu consegui vislumbrar foram reflexos na redoma anti-bala e um fragmento das mãos (a direita pousada, indolente, sobre a esquerda). Percebi então que muitas das pessoas que se acotelavam à minha frente tinham vindo a Paris só para isto: ver a «Gioconda». A «Gioconda» e a torre Eiffel. Riscados da lista estes items (ainda não havia, na altura, a EuroDisney), já poderiam passar o resto do tempo nas esplanadas e a fazer compras nas Galerias Lafayette, sem pesos na consciência de bom turista.
Ao fim de cinco minutos, houve um rasgo de esperança: a excursão japonesa batia em retirada. Mas foi sol de pouca dura. No momento em que me preparava para avançar, chegou-se à frente um grupo de adolescentes suecos. Nova barreira: mais alta, mais forte, loiríssima. Eu perdi a pouca paciência que me restava, saí dali para fora e deixei a misteriosa dama para trás. Deambulei o resto da tarde pela ala dos pintores flamengos, enormes salas cheias de naturezas mortas e quase vazias de gente.

2. Na segunda visita tive mais sorte. Não era verão. Havia uns quantos japoneses, claro, mas em número razoável – nada que impedisse o desfrute da obra-prima. E foi então que procurei a «aura» do quadro, a magia do olhar que nos «olha» de vários ângulos, o sorriso irradiante. Fiquei parado uns minutos, em frente ao quadro. À espera. Mas o quadro nada me disse. O quadro fechou-se sobre si mesmo, escondeu-se atrás do seu mito. Da grandeza anunciada, sobraram apenas as cinzas da expectativa.
Após o choque, tentei um exercício difícil: olhar para o retrato como se nunca o tivesse visto antes, como se não conhecesse a sua importância na História da Arte. Despido o olhar das referências culturais, o que é que eu via? Pois bem, via uma rapariga bonita mas com ar de sonsa, um verdadeiro pãozinho sem sal. O que salva o quadro é a paisagem por trás da moça: do lado esquerdo, a estrada que faz um «s» na terra vermelha; do lado direito, os penhascos e uma ponte romana. A verdadeira arte de Leonardo, os cumes da sua pintura, temos que os procurar noutras telas. Por exemplo, na perfeição absoluta da «Virgem nos Rochedos» (as quatro figuras iluminadas; o ermo que é uma lição de geologia) ou no espantoso «Retrato de Cecilia Gallerani (Senhora com Arminho)», em que a amante de Ludovico Sforza olha para um misterioso ponto fora do quadro, enquanto um estranho animal, de cabeça pequena e altiva, tenta escapar do seu colo e das suas mãos tão brancas.
Se tivesse vivido no final do séc. XV, era capaz de me apaixonar perdidamente por Cecilia Gallerani, escrever-lhe sonetos, bater-me em duelo por sua honra. Mas não faria nada disso por Mona Lisa, a burguesinha não-me-toques, afectada e fútil. Marcel Duchamp, o genial «blagueur», é que a topou bem. Aquele bigode ridículo, certeiro porque desmistificador, fica-lhe a matar.

3. Em meu entender, o bigode de Duchamp, acrescentado pelo artista a uma cópia perfeita do quadro de Leonardo, vai muito além da bravata artística. Acredito mesmo que é um gesto fundador de uma certa forma de iconoclastia, de resistência ao peso bruto (e tantas vezes acéfalo) da tradição. Mas não uma iconoclastia qualquer, antes uma iconoclastia dirigida a uma imagem determinada, a um alvo concreto. Chamemos-lhe, até porque já outros o fizeram antes, giocondoclastia. Quer dizer, a desmontagem sistemática da «Gioconda» – o mais totalitário dos ícones que ainda hoje assombram a nossa memória cultural.

4. Neste trabalho tão difícil quanto necessário, o principal herdeiro de Duchamp é um escritor chamado Hervé Le Tellier. Nascido em 1957, Le Tellier já foi matemático, jornalista do «L’Evénement du Jeudi» e autor de libretos. Membro do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle) desde 1992, é também colaborador de um programa de rádio («Des Papous dans la Tête», France Culture) que explora os jogos de palavras e as regras da escrita literária «oulipiana», imortalizada por figuras como Raymond Queneau, Italo Calvino, Georges Perec ou Jacques Roubaud.
Mestre do pastiche e da paródia, Le Tellier – autor de obras engraçadíssimas logo no título, como «Les amnésiques n’ont rien vécu d’ inoubliable» – instituiu para si mesmo um programa inspirado nos «Exercices de Style» de Queneau. A saber, a invenção de 100 «pontos de vista» sobre Mona Lisa, recorrendo a um mecanismo narrativo que está implícito numa das epígrafes: «São os observadores que fazem os quadros» (nem de propósito, uma frase de Duchamp).
A «Gioconda» dá assim origem a 100 quadros muito diferentes, porque as 100 personagens imaginadas por Le Tellier (ou melhor, 99, porque o último «ponto de vista» é o do leitor) nada têm a ver umas com as outras. O médico legista nunca poderia olhar para Mona Lisa da mesma forma que a cabeleireira: o primeiro vê um cadáver pronto para a autópsia; a segunda sugere os tratamentos a dar ao cabelo da cliente – madeixas? talvez um «brushing»? – enquanto actualiza os mexericos.
O resultado pode ser lido no livrinho «Joconde jusqu’à 100» (Le Castor Astral) – bem como na sequela «Joconde sur votre indulgence» – e é simplesmente brilhante. Atente-se, por exemplo, nas «Giocondas» de Marguerite Duras, do advogado, do cego, do comandante Cousteau, do charadista, do internauta, do tarado sexual, do detector de mentiras, de Bernard Pivot, do participante num concurso televisivo, do 007, do xadrezista, de Rabelais, da hospedeira ou – até – do atendedor de chamadas.
Giocondoclasta de primeira água, Le Tellier pode não converter à causa todos os seus leitores mas pelo menos diverte-os. Um divertimento que se prolonga no magnífico livro de contos eruditos publicado em 2002: «Encyclopaedia Inutilis» (Le Castor Astral). É bom não esquecer que um dos contributos mais importantes do OuLiPo foi este: mostrar que se pode fazer literatura séria com a atitude de quem está a brincar.

(esta crónica foi publicada no DNA de 22/03/2003)


19:41 14.3.03  


A GUERRA QUE AÍ VEM

Quando me sentei em frente do computador, para redigir esta crónica, já trazia na cabeça a primeira frase. Era qualquer coisa do género: «No momento em que escrevo (terça-feira, 11 de Março) a guerra no Iraque ainda não começou, mas nada me garante que no dia de publicação do DNA (sábado, 15 de Março) ela já não esteja em marcha». O que eu pretendia sublinhar com a frase, entretanto posta de parte, era um dos paradoxos desta guerra: desde Outubro do ano passado que o conflito no Golfo Pérsico está prestes a rebentar e não rebenta. A Administração Bush já fez vários ultimatos, já anunciou várias «últimas oportunidades», mas acaba por esticar sempre o prazo, uma e outra vez. Porquê? No meu entender, por duas razões essenciais.
Primeiro, esta guerra não será tão «fácil» como a de 1991, porque implica entrar em Bagdad, último reduto de Saddam e das suas tropas mais fiéis. Fazer uma tempestade no deserto, com caças último modelo e bombardeiros «invisíveis», é uma coisa; lutar rua a rua contra uma resistência urbana, tipo guerrilha, é muito mais complicado (ameaçando mesmo reavivar os fantasmas do Vietname). Sobretudo, a conquista de Bagdaad não poderá ser feita de forma «limpa», sem vítimas a abrir os telejornais. A segunda razão para a prudência dos americanos prende-se com a consciência de que a margem de erro é cada vez mais reduzida. Depois do sucesso no Afeganistão, o Iraque será provavelmente a segunda etapa de uma «Guerra Infinita» contra o «terrorismo internacional e os seus apoiantes». Há mais «Estados-pária» à espera de vez: a Coreia do Norte, a Síria, o Irão. Ao aplicarem a sua força esmagadora, os EUA têm que fazer jus ao estatuto de hiper-potência. Por isso, o ataque só será desferido quando houver a certeza de uma vitória fulminante e decisiva. Mais do que os impasses no Conselho de Segurança da ONU, ou as evoluções positivas do trabalho dos inspectores, o que está a atrasar a guerra é a impossibilidade de recorrer à Turquia (pelo menos por enquanto) como base para uma demolidora «frente Norte».
Com tudo isto passaram-se vários meses, durante os quais foi possível traçar infinitos cenários, imaginar o futuro desenho do Iraque e do Médio Oriente, equacionar os possíveis sucessores de Saddam e até os efeitos geoestratégicos deste conflito num mundo cada vez mais unipolar. A verdade é esta: a segunda guerra do Iraque já existe, já existiu, ainda antes de se disparar o primeiro tiro. Ela foi de tal maneira antecipada que acabou por ganhar uma aura de «acontecimento absoluto». Isto é, um acontecimento por acontecer que analisamos como se já tivesse acontecido.
No fundo, estamos perante a apoteose de um fenómeno que se acentuou após o 11 de Setembro: a aceleração da História. Com a mediatização extrema que a tecnologia vem permitindo (televisão global, internet, etc), anula-se a distância entre o facto histórico e a leitura que dele se pode fazer. A História tornou-se actualidade pura, instantânea, imediata. A História já não é contada por alguém, é vista em directo. Não se passou ontem, está a ser agora. E com tanta velocidade, às vezes chega mesmo a ultrapassar-se a si mesma. Uma prova: esta pré-guerra, esta ante-guerra. Quando os combates a sério tiverem início, vamos olhar para eles com uma estranha sensação de «déjà vu». E o pior é que esta memória por antecipação, construída a partir de indícios e sinais dispersos, não podia ser mais funesta.
Além de marcar aquele que será, com toda a certeza, o primeiro grande conflito do séc. XXI, esta guerra vai estilhaçar por completo a ordem mundial. Na sua luta contra o terrorismo – um inimigo volátil, imaterial, sem raízes (mais complexo e imprevisível, por isso, do que o clássico «perigo vermelho») – os EUA estão a ir, literalmente, longe demais. O conceito de «guerra preventiva», com a sua lógica retorcida, está a envenenar as relações internacionais e a pôr em causa equilíbrios frágeis, conseguidos à custa de muitas décadas de esforços diplomáticos. O estatuto de hiper-potência (militar e económica) alimentou os sonhos hegemónicos das alas mais conservadoras do partido republicano e o resultado está à vista: uma política externa de uma enorme arrogância («quem não está connosco, está contra nós») e um desejo de acção unilateral que ameaça esvaziar de sentido a ONU.
O mais grave é que estas fracturas se repercutem a muitos outros níveis (na NATO, na União Europeia) e podem conduzir o mundo para um período de grandes incertezas. O que surgirá depois destes sucessivos abanões? Uma «pax americana» ou o caos? A «pax americana» não será de certeza, porque já se percebeu que a opinião pública mundial (mesmo nos países aliados dos EUA) está maioritariamente contra a obsessão iraquiana da família Bush. E está contra, não por anti-americanismo primário, como muitos analistas querem fazer crer, mas porque esta guerra é claramente injusta. Não vou retomar aqui os muitos argumentos que desmascaram a pretensa legitimidade de uma intervenção armada, nem vou especular sobre as motivações secretas (petrolíferas ou outras) dos americanos. Relembro apenas quatro factos concretos. 1) Ao contrário do que se passou em 1991, o Iraque não invadiu nenhum país vizinho. 2) Há outros países que também violaram diversas resoluções da ONU e possuem armas de destruição maciça (Israel, Paquistão), com a subtil diferença de serem aliados estratégicos dos EUA. 3) O Iraque tem um exército enfraquecido, sofre há mais de uma década um rigoroso embargo económico, está sujeito a vigilância no seu espaço aéreo e vem colaborando, melhor ou pior, com as inspecções coordenadas pelo Sr. Blix. Ninguém duvida que Saddam é um déspota sanguinário, capaz de massacrar o seu próprio povo. Mas alguém acredita mesmo que ele é uma ameaça para o mundo? 4) Sem se ter provado a ligação do regime iraquiano à Al-Qaeda, o 11 de Setembro deixa de fazer sentido como álibi. Pior: ao produzir mártires muçulmanos, a guerra incendiará os países árabes e poderá dar origem a novas vagas de um terrorismo de grande escala.
Se bem se recordam, uns anos após o fim da primeira guerra do Golfo houve muitos segredos que vieram à tona: as armas experimentais, as doenças dos soldados, as manipulações gigantescas da comunicação social. Como será agora? De onde virão desta vez as cortinas de fumo da propaganda? Ninguém sabe ainda. Porque as verdadeiras razões e consequências de uma guerra descobrem-se sempre, infelizmente, «a posteriori». Isto é, tarde demais.

(esta crónica foi publicada no DNA de 15/03/2003)


21:36 28.2.03  
PENSO, BLOGO, EXISTO
Há uma revolução em curso na internet e tem um nome: blog. É provável que os menos atentos ao que se passa na Web só tenham ouvido a palavra esta semana, quando a imprensa clássica anunciou, com algum destaque, a compra pelo gigante Google – «rei» dos motores de busca – da pequena Pyra Labs, a empresa responsável pelo mais popular «interface» desta nova forma de comunicação: o Blogger. Mas em que se traduz afinal este conceito revolucionário, comparado por muitos analistas ao advento da TV?
O melhor é começar pelo princípio. De que falamos ao certo quando falamos de um blog? Dito da maneira mais simples, um blog – abreviatura de web-log – é uma página na internet onde se podem colocar facilmente mensagens escritas ou imagens, por ordem cronológica e com actualização regular (nos casos mais sérios, várias vezes por dia). Cada blogger que mantém um espaço destes pode fazer dele o que muito bem entender: um diário íntimo, um jornal de parede, um museu de glórias pessoais, uma tribuna para discussão de ideias, um púlpito para polémicas, um ponto de encontro ou um muro das lamentações. O blog molda-se à personalidade de quem o criou. E é aí que começa a revolução. Pela primeira vez, qualquer pessoa tem acesso a uma ferramenta informática simples que lhe permite comunicar ao resto do mundo o que quiser, como quiser e quando quiser. Até agora, a publicação de um texto escrito dependia sempre da existência de um jornal e da ultrapassagem de uma série de barreiras e filtros editoriais – que o digam os leitores opinativos habituados a enviar cartas para os jornais de referência. É essa distância, é esse Rubicão que desaparece com os blogs. Em teoria, cada pessoa pode fazer, para si ou para um público virtualmente infinito, o seu próprio jornal. Ou o seu próprio livro (disponível 24 horas por dia, on-line).
Claro que tudo isto já se fazia antes, mas a manutenção de sites pessoais era muitas vezes paga e nem sempre expedita. A grande vantagem deste novo sistema é a sua rapidez. Quem se dirigir à «home-page» do Blogger (www.blogger.com), sai de lá com uma página impecável em três minutos. Depois, a actualização é tão simples que até o mais inexperiente dos internautas consegue fazer um brilharete. Ninguém precisa de conhecer as subtilezas da linguagem HTML e mesmo o «design» da página pode ser escolhido, com um toque do rato, de um vasto catálogo de «roupagens» disponíveis. A bem dizer, só não cria o seu blog quem não quer.
Aliás, os números falam por si. Desde 1999, quando o software ficou disponível, já aderiram ao conceito 500.000 pessoas no mundo todo. A blogosfera, como alguns chamam à comunidade dos bloggers, está em plena expansão, tanto à escala planetária como no nosso país. Vale a pena consultar o index actualizado do «Blogs em Portugal» (http://blogsempt.blogspot.com) e verificar que surgem páginas todos os dias e para todos os gostos (da política à literatura, passando pelo cinema ou pelo desporto). Como seria de esperar, mais de 95% destes blogs têm um interesse muito reduzido. Abundam os devaneios poéticos (quase sempre assustadores), as «private jokes» e os corações destroçados carpindo as suas mágoas «no frio desta noite infinita». É tudo uma questão de procurar bem e não desistir dos 5% de blogs que merecem uma visita diária. O panorama nacional ainda é muito pobre mas já há várias páginas de referência (quase todas mantidas por jornalistas). E como remetem continuamente umas para as outras, seja pela via da polémica ou do elogio, não é difícil separá-las do joio da irrelevância umbiguista.
Interessa-me agora enumerar aqueles que são, no meu entender, os melhores atributos e os principais riscos deste novo «media». Do lado das vantagens, além das já referidas (o acesso rápido e a actualização simples), gostava de destacar a possibilidade que os blogs oferecem, aos cidadãos comuns, de exercerem o seu sentido crítico. Abolidos os intermediários, as opiniões passam a circular directamente do produtor para o consumidor e caberá a cada um escolher as «vozes» que deseja ouvir, ampliando-se assim consideravelmente uma oferta que estava limitada aos «opinion-makers» oficiais, com dia certo para publicarem a crónica no jornal. O trunfo dos bloggers é não terem «dead-lines». Podem escrever a qualquer hora e comentar, em directo (ou quase), o que se vai passando no mundo: um desastre, declarações de guerra, a morte de um escritor.
O problema é que esta capacidade de responder instantaneamente a um estímulo é uma faca de dois gumes. Por um lado, permite uma intervenção directa sobre a realidade em estado bruto, sem influências nem manipulações. Ao tomarmos uma posição, ao formularmos uma ideia, ainda não lemos nem ouvimos o que disse X ou Z. Estamos por isso mais perto de uma verdade pessoal, não formatada pelo pensamento alheio. Mas também mais perto do erro. Sem criar distâncias, olhando para a espuma dos dias quando as coisas «ainda fervem», é mais fácil sucumbir às precipitações e aos equívocos. Ainda assim, para os disparates imperdoáveis há sempre remédio, porque todos os textos podem ser editados em qualquer altura. Quanto ao resto, o tempo encarregar-se-á de fazer o seu papel de juiz.
Se é óbvio que uma certa impunidade pode conduzir a pontuais abusos de linguagem ou provocações gratuitas, não é menos certo que esses «danos colaterais» são um preço baixo que se paga pela liberdade de discutir e polemizar. Aliás, esses entusiasmos e eventuais excessos são perfeitamente compreensíveis e acabam por ser corrigidos pela própria lógica interna da blogosfera. O diálogo entre os blogs e os comentários que os leitores fazem aos textos são as formas ideais, porque não censórias, de auto-regulação.
Por fim, convém não esquecer que a característica fundamental dos blogs se prende com a possibilidade de fazer links para outras páginas (há mesmo blogs só com links). Na maioria dos casos, o link é uma sugestão comentada, uma pista para navegar na Web, muitas vezes de um blog para outro blog e deste segundo blog para um terceiro, etc. Cria-se assim um imenso ecossistema de páginas interligadas, onde a informação flui de uma forma imediata e extraordinariamente flexível.
Quer isto dizer que os blogs podem substituir os jornais? Não, pelo menos por enquanto. Mas podem perfilar-se, nalguns casos, como uma alternativa. Já há de resto quem leia certos blogs portugueses todas as manhãs, antes mesmo, por exemplo, das crónicas de Eduardo Prado Coelho (Público) e de Vasco Pulido Valente (DN).

(esta crónica foi publicada no DNA de 01/03/2003)



21:57  


O IRAQUE PONTO POR PONTO
O homem atravessou a pequena multidão – dezenas de pessoas acotovelando-se na sala principal da livraria Ler Devagar, na antevéspera da manif contra a guerra – e aproximou-se do ecrã. Tinha pinta de espião moderno (já formado na era da pós-Guerra Fria), ar solene e uma pasta a abarrotar de documentos. O rosto era pedra bruta. Gestos, só os estritamente necessários. Dado o sinal, as luzes do tecto decresceram e ele pousou um molho de folhas sobre a mesa, com o sorriso condescendente de quem pensa que a verdade (quando é a «nossa» verdade, claro) não precisa de ser explicada. O público, silencioso, aguardava a revelação.
Que revelação? Bom, talvez seja melhor voltar um pouco atrás, mais concretamente à mensagem que muitos dos espectadores acotovelados leram na Internet. E que dizia: «O governo norte-americano decidiram enviar agentes – que neste momento se encontram em várias capitais europeias – para esclarecer os sectores mais cépticos da opinião pública em relação às provas apresentadas por Colin Powell nas Nações Unidas. Esse cepticismo tem por base um mal-entendido. Apesar da advertência prévia, feita a partir das assessorias da Casa Branca, de que as imagens deveriam ser olhadas como se fossem quadros do pintor pontilhista Seurat, a desconfiança permaneceu. Depois de um estudo aturado, chegou-se à conclusão que, de facto, apenas alguns dirigentes do velho continente conhecem este pintor do séc. XIX. Os portugueses podem considerar-se com sorte: Mr. Barroso é um dos que mostrou compreender que estas imagens demonstram uma monstruosa conspiração em marcha.»
Se bem se recordam, as palavras e as fotos de satélite apresentadas por Powell – vagas e pouco conclusivas – só convenceram quem já estava convencido de que o regime de Saddam escondeu, não se sabe bem onde, armas de destruição maciça. Já as imagens exibidas pelo agente americano, tranquilo no manuseio do Powerpoint, revelaram uma outra realidade – avassaladora, brutal e capaz de transformar em «falcão» o mais pacifista dos pacifistas. Seguindo à letra o conselho das tais assessorias (personificadas por Richard Haass, director de estratégia política do Departamento de Estado americano), o homem fez-nos olhar para os dados recolhidos no terreno como se estivéssemos, de facto, a ver uma tela de Georges Seurat. O que no ecrã pareciam quadros do grande pintor que morreu cedo (31 anos), eram afinal mapas das instalações secretas de Hussein ou provas irrefutáveis das suas malfeitorias. Por exemplo, «La Grande Jatte», com aqueles burgueses todos sentados na relva junto ao rio, é de um bucolismo enganador. Círculos e rectângulos vermelhos, sobrepostos na imagem, mostraram claramente que por detrás das árvores se esconde uma fábrica de material químico. E a torre Eiffel? Nada menos do que uma rampa de lançamento de mísseis. E a rapariga que se maquilha nos bastidores de um teatro, com pó de arroz? Não é pó de arroz, é anthrax.
A sala desatou a rir, muitas vezes à gargalhada. O agente era um actor, claro. E toda a performance, que também parodiou a «conversa» entre os oficiais iraquianos (recorrendo a um dos mais absurdos diálogos dos irmãos Marx) só pretendia desmontar o esquema de justificação «culturalista» dos americanos, quando confrontados com a escassez material das suas provas. Na ausência da tão falada «smoking gun», Richard Haass decidiu reduzir desde logo as expectativas. Se comparou as «provas» aos quadros de Seurat foi porque, nas suas palavras, «o que nós vamos revelar são “pontos” de actividade dos iraquianos, a partir dos quais qualquer pessoa inteligente conseguirá deduzir que eles estão a esconder alguma coisa e a complicar o trabalho dos inspectores».
Dito por outras palavras, tal como num quadro pontilhista, a imagem não nasce aqui de uma realidade concreta (as linhas, os planos, os contornos; que é como quem diz as fábricas, as ogivas, os mísseis) mas sim de indícios que se vão associando uns aos outros. Ou seja, cada «prova» por si, como cada «ponto de cor» por si, nada vale. É a leitura do conjunto que lhes dá sentido, coerência, a sensação de um todo harmónico. De resto, foi o próprio Seurat que resumiu toda a sua teoria estética numa frase: «A Arte é Harmonia».
Mas o problema é que há nesta argumentação um tremendo equívoco. O trabalho sobre a cor, em Seurat, nasce da descoberta por parte de um químico, Chevreul, do princípio do «contraste simultâneo», segundo o qual duas cores complementares, se colocadas lado a lado, viam aumentada a sua «luminosidade». Seurat levou este princípio ainda mais longe ao estudar o efeito de «mistura óptica» («mélange optique») que está relacionado com a capacidade de resolução do olho humano. Se não forem demasiado pequenos ou distantes, dois pontos de tinta sobre uma tela são vistos como entidades separadas. No entanto, se os pontos forem mais reduzidos ou se a distância para eles aumentar, o olho do observador deixa de os distinguir e passa a ver uma mancha que é a soma das duas cores. Em vez de misturar pigmentos, Seurat juntava pontos de cores primárias e construía com eles mosaicos que, vistos de longe, sugerem paisagens ou corpos de pessoas e animais, mas não correspondem, na superfície da tela, a uma realidade inteligível (em «close up», tudo se reduz a um borrão destituído de forma ou significado, um caos de acumulações crómaticas sem «leitura»).
Resumindo, a arte de Seurat, em si mesma um prodígio, só resulta porque nos engana, porque ilude os nossos mecanismos de percepção. E o equívoco, a ironia, está aqui. De todos os exemplos que se podem ir buscar à História da Arte, Richard Haass escolheu precisamente o mais inadequado. Ao comparar as «provas» de Powell aos quadros do mestre pontilhista, o que Haass admitiu, involuntariamente, foi que o «mosaico» criado para encher o olho das opiniões públicas, por esse mundo fora, tem pouca, ou nenhuma, sustentação no terreno.
Ao aperceber-me deste «faux pas» do Tio Sam (e logo, «mon dieu», com um «comedor de queijo»), recordei de imediato, não sei porquê, uma das obras-primas do pobre Georges. É «Le Cirque», uma tela que está no museu de Orsay e mostra um palhaço, um acrobata e uma bailarina a cavalo – feéricos – tentando convencer uma plateia abúlica. Uma plateia que já viu, pressente-se, melhores espectáculos.
Não estou a sugerir, longe de mim tal ideia, que o palhaço de cabelo vermelho é Powell e a ONU um circo. Mas lá dizia o outro: a vida imita a arte. E vice-versa.

(esta crónica foi publicada no DNA de 22/02/2003)


21:56 17.2.03  


O RISCO BRILHANTE
1. De repente fez-se silêncio. Calaram-se as conversas, as gargalhadas, o tilintar das chávenas, a correria das crianças, o som irritante do moinho de café, os toques dos telemóveis, as pancadas secas do empregado que deita fora as borras (tonc, tonc, tonc) antes de tirar mais uma bica para a mesa junto à janela, calaram-se todos aqueles sons amalgamados – um bruaá com estridências metálicas que as paredes de azulejo ampliam – e o silêncio foi tão completo que até as moscas tiveram pudor de morrer, electrocutadas, naquelas infernais maquinetas que emitem uma cor roxa e assassina. O café ficou mudo, suspenso, de olhos postos na TV. Alguém pediu que se aumentasse o som. Um homem ao balcão acendeu um cigarro e enquanto isso no ecrã azul, azul como o céu azul do Texas, um risco branco, muito brilhante, avançava com uma lentidão resignada. Era uma tarde de sábado e os olhos das pessoas só conseguiam ver aquele risco de fogo no céu. Não era preciso ouvir as vozes dos jornalistas, nem ler as palavras que passavam, rápidas, no rodapé da imagem, para perceber o horror que só a morte confere às coisas. Cinco minutos depois, começaram a renascer os ruídos, as conversas ainda em surdina, os pi-pi, pi-pi, pi-pi dos telemóveis («’tás a ver o acidente do vaivém?»), as correrias das crianças e as primeiras bicas para quem só agora chegou, lançando perguntas - «o que é que aconteceu?; «o que é aquela coisa a arder?»; «já estão em guerra no Iraque?» -, perguntas que fazem ricochete na indiferença do empregado que se encosta à máquina registadora, com o pano da loiça, ainda húmido, pendurado no ombro. Quem lhe responde é uma mulher que devorou dois pastéis de nata e uma meia-de-leite: «Está a ver o fumo branco? Pois, pois. Aquela nave dos americanos, shutle ou lá o que é, esmangaritou-se toda, veja bem, iam lá dentro sete pessoas, coitadas, não se salva nenhuma. É o que eu sempre digo: nós estamos muito bem aqui, não temos nada que ir lá para cima. Depois dá nisto. Quem os mandou sair cá da Terra?» E aquele «Terra» dito por uma mulher que não é de Lisboa (a pronúncia trai raízes nortenhas, talvez minhotas), aquele «Terra» dito assim, num tom próximo da censura, aquele «Terra» é como se não tivesse maiúscula.

2. Eu fiquei no meu canto, com a bica deixada a meio, já fria. O risco brilhante continuava a atravessar o céu azul, agora decomposto noutros riscos quase paralelos, deixados pelos pedaços da nave destruída que caem a uma velocidade espantosa e desenham, no céu azul do Texas, melancólicos rastos brancos como os que deixavam os foguetes rebentados cedo demais, nas férias da minha infância, em São Pedro do Sul, com o meu avô a levar-me pela mão junto ao rio Vouga e a proteger-me das canas que tombavam lá do alto, após o estrondo. Peço outro café e a memória rebobina-se, «fast forward», até 1986. Era no tempo em que as partidas do «space-shutle» ainda mereciam transmissões directas na RTP1 e comentários do Eurico da Fonseca. Eu já estava atrasado para uma aula na Alliance Française quando os motores projectaram a sua gigantesca cauda de chamas, o Challenger parecia uma aviãozinho de brincar às cavalitas de um foguetão imenso, 5, 4, 3, 2, 1, 0, e lá partiu ele rumo à estratosfera e mais além. Mas de repente a explosão, um silêncio e rastos brancos. O nó na garganta. Na aula da Alliance Française, por uma vez, não fizemos ditado, nem conjugámos verbos no «passé simple», nem cantámos (fraternalmente desafinados) «Ne me quitte pas», a mais triste da canções de Jacques Brel.

3. No mesmo ano, o ano em que Maradona reinventou o futebol no México, houve um nome que me fez olhar insistentemente para o céu: Halley. O mítico cometa Halley estava de regresso ao nosso canto do sistema solar, após uma visita (em 1910) que despertara toda a sorte de medos irracionais. Os cometas, já se sabe, nunca foram bem vistos, porque as crenças os associam a grandes tragédias. Em 1986, as pessoas sabiam que o cometa passaria longe da Terra e o pânico foi substituído pelo entusiasmo de assistir a um fenómeno raro, daqueles a que só se assiste uma vez na vida. Comprei vários números da «Science & Vie», cartas do céu, guias completos com as melhores áreas de observação e cheguei a «namorar» um telescópio que teria sido um desperdício nas mãos deste astrónomo amador - tão amador que mal sabia distinguir, numa noite estrelada, constelações tão óbvias como as Ursas (Maior e Menor). A verdade é esta: nunca vi o Halley, com a sua esplendorosa cabeleira de fogo, a não ser em fotografias. Recordo-me que certa tarde, quando atravessava com os meus pais os Pirenéus, , julguei ver, no céu vermelho do crepúsculo, o rasto do cometa. Foi um engano, uma ilusão provocada por um meteorito que entrava, naquele preciso instante, na atmosfera terrestre. Há duas semanas, no café que se calou de súbito, eu quis acreditar que aquele rasto branco também era um engano. Talvez um cometa inesperado, por qualquer razão saído das rotas habituais. Mas nunca uma nave em queda livre, desfazendo-se em mil pedaços, com sete astronautas lá dentro, sem direito à mínima esperança. Nos últimos minutos, ao perceberem a iminência do desastre, talvez tenham repetido as célebres palavras da Apollo 13: «Houston, we have a problem». Só que Houston, desta vez, nada podia fazer.

4. Se pensarmos objectivamente, o choque que estas tragédias espaciais produzem é sobretudo simbólico. A comoção colectiva não nasce do número de mortos, até porque só nas estradas dos EUA (e nas nossas...) morrem, todos os dias, muito mais do que sete pessoas. Acontece que a perda de alguém num acidente de viação, embora não menos terrível (em termos absolutos), tem um efeito limitado. Afecta a família da vítima, os seus amigos, alguns conhecidos, pouco mais. Quando homens e mulheres perdem a vida num desastre espacial, o cículo da dor amplia-se. Já não abrange apenas os seus familiares e amigos. O círculo da dor passa a abranger toda a Humanidade. Porque é em nosso nome que eles sobem até às esferas celestes, em máquinas infinitamente complexas e por isso infinitamente perigosas. Basta que uma coisa minúscula corra mal (uma fuga num depósito de combustível, uma placa reflectora que se solta) para que tudo corra mal. Na sua longa e exigente formação, os astronautas aprendem a viver com este risco imenso. Sempre que partem, eles sabem que podem não voltar. A equipagem do Columbia sabia isso. A do Challenger também. Como saberão, no futuro, as tripulações que prosseguirem esta aventura extraordinária. A aventura da espécie humana.

(esta crónica foi publicada no DNA de 15/02/2003)




21:34 11.2.03  


LEITURA FURIOSA
1. Eu estava à espera de outra reacção. Esperava que houvesse um primeiro momento de silêncio, de embaraço, aquele compreensível receio de quebrar o gelo. Mas não houve nada disso. Eles sentaram-se, apresentaram-se – eu sou o Francisco, eu sou o Raul, eu sou o Leonel, eu sou o Mário, eu sou o Serafim – e depois começaram a falar, palavras atrás de palavras, histórias ramificando-se noutras histórias, a vida de repente a revelar todas as suas faces: a tristeza, o desespero, a esperança, a dignidade. Eu perguntava pouco, ouvia tudo e enchia páginas com anotações rápidas. Do grupo, destacavam-se três vozes: o Francisco, nascido em Alcains, que veio novo para Lisboa, restaura móveis e sabe latim; o Leonel, que foi jogador de futebol (primeiro no Belenenses, depois no Estrela da Amadora) e mais tarde programador fabril na Sorefame; e o Serafim, que nasceu na Cedofeita, trabalhou no teatro em Évora, foi emigrante na Suíça e agora quer montar um espectáculo de fantoches, feitos por ele, à mão. Passaram as horas, passou o almoço servido ali mesmo, no Centro de Apoio Social de S. Bento, passaram os momentos em que cada um deles explicou o porquê da queda, quase sempre um desamor que os atirou para a miséria do álcool e para as noites sem tecto. Sabendo que eu escreveria, depois, um texto sobre eles, insistiram muito numa ideia: «a nossa vida pode ter descambado, mas nós não somos coitadinhos». Quem o disse foi Leonel – barba espessa, casaco, colete, gravata a preceito. O mesmo que no fim escreveu, com marcador roxo, numa página em branco: «as pessoas são aquilo que valem a cada instante e depois disso não valem para nada». Com letra tremida, Raul também quis resumir numa frase aquela sexta-feira: «é importante dar valor às pessoas que têm muitas estórias a contar». Nós damos valor, Raul, podes ficar descansado.

2. Este nós refere-se a todas as pessoas que participaram na «Leitura Furiosa», durante três dias – 31 de Janeiro, 1 e 2 de Fevereiro – em Lisboa (Abril em Maio) e Amiens (Associação Cardan). Convém talvez explicar, a quem não saiba, que a ideia nasceu há dez anos e pretende ser «um momento de encontro entre os zangados (com a leitura, a escrita, o mundo…) e os escritores». As coisas processam-se assim: na sexta-feira, as pessoas «zangadas» com a leitura – em Lisboa eram refugiados (africanos, da Mongólia, da Bielorrússia) e sem-abrigo portugueses – partilham experiências com cinco escritores que se comprometem a escrever, até à manhã do dia seguinte, um texto inspirado em tudo o que ouviram; no sábado, os textos são traduzidos e os escritores visitam, com os seus grupos, uma livraria e uma biblioteca; finalmente, no domingo, os textos são editados num jornal (em Lisboa foi o «Público») e lidos por actores numa sessão aberta (em Lisboa foi na Abril em Maio).

3. Depois de uns quantos e-mails e telefonemas da Eduarda Dionísio, ficou combinado que eu seria, em 2003, um dos cinco escribas. Na noite de sexta-feira, após mais de quatro horas a falar com o Serafim, o Mário, o Leonel, o Raul e o Francisco, escrevi «Uma coisa com arestas». O texto não podia ter mais de 3000 caracteres e cabe, completo, no interior desta crónica. Ei-lo: «A conversa é isto, o silêncio a partir-se dentro de um círculo, esta coisa com arestas, palavras a levantarem-se em remoinho, a saírem de cinco bocas, cinco vozes sentadas à volta de uma mesa, uma delas a dizer todas as pessoas aqui têm problemas, estamos sempre a um passo do abismo, por isso mais vale dar a cara, cada um por si não vale nada, zero vezes zero é zero, outra voz se levanta e diz já fomos todos sem-abrigo, já dormimos na rua, dentro de contentores e caixotes, debaixo de tílias que deixam cair uma espécie de visco que se agarra à roupa, outra voz diz já apanhámos beatas junto à paragem dos autocarros e perto dos elevadores, são os melhores sítios porque as pessoas com a pressa de partir deitam os cigarros para o chão, só meio fumados, outra voz diz eu já arrumei carros, eu já reguei flores no jardim da Casa Pia, na minha aldeia fui sacristão, tocava os sinos para a missa duas vezes por dia, depois vim para Lisboa trabalhar, aprendi um ofício, agora sou pintor dourador de móveis, faço restauros, vou à igreja mas primeiro passo pela «capela», a «capela» é a taberna, ri-se uma das primeiras vozes, e entra por dentro da conversa o álcool, a bebida, a voz que ria pára de rir, diz a bebida é um refúgio que arranjamos para esquecer uma dor, mas a dor não desaparece, aumenta, é construir uma infelicidade sobre outra infelicidade, às vezes as pessoas tentam desviar-se dos problemas mas os problemas vêm atrás delas, no meu caso foi a bebida que me afastou de tudo, eu lia muito, devorava livros, ia logo ver o fim para saber como as histórias acabavam, eu cá não leio porque fico com dores de cabeça, interrompe a voz mais calada de todas para logo voltar ao seu pousio, e ao lado a voz que tocava sinos a dizer que o livro foi sempre o Livro, eu quando lia a Bíblia era em latim, laudamus Te, glorificamus Te, olha-se para trás e o tempo vem a correr, do outro lado da mesa é já a infância, eu lembro-me de ter quatro anos e da minha mãe trabalhar num alfaiate e de me prenderem à máquina de costura com a linha de alinhavar, as outras vozes respondem, eu lembro-me de comer pão escuro, pão de centeio, eu lembro-me da fábrica do meu pai, uma ourivesaria com barras de ouro a fundir, eu lembro-me de uma fotografia com os meus dois irmãos, ao pé da árvore de Natal, tinha os dedos cruzados assim e pensava em como havia de ficar a imagem, eu lembro-me da minha mãe a sachar milho e agora de um saco saem fantoches, robertos cabeçudos, cabe tudo dentro de uma caixa, diz a voz que traz camisa de cerimónia, e os bonecos continuam a sair do saco, têm nomes, há o Patareco, o Patátá, o polícia e os três meninos que encontram um cigarro aceso e não sabem como apagá-lo, as suas cabeças duras são feitas de papel colado, os brincos são dobradiças pequenas, os olhos foram feitos com desperdícios de madeira, havia ainda tanto para dizer mas de cada vez que te lembras, esqueces-te, a conversa é isto, uma coisa com arestas, um círculo que se fecha.»

4. No domingo à tarde, estas palavras foram lidas na antiga biseladora dos Anjos, juntamente com as prosas de Filomena Barona Beja, Armando Silva Carvalho, Jacinto Lucas Pires, Miguel Castro Caldas e alguns dos textos redigidos, em Amiens, pelos autores franceses. No final, o Francisco, homem de meia-idade, baixo, corpulento, mãos de trabalho, sempre a tratar-me por «sr. professor», veio agradecer-me, com água nos olhos, a referência aos sinos da sua aldeia. «Ficou bonito, assim.» E eu, comovido com a comoção dele, não soube o que responder.

(esta crónica foi publicada no DNA de 08/02/2003)



01:23 4.2.03  


TEMA E VARIAÇÕES
1. Mãos; rosto. O homem coloca as mãos no piano como quem entra em água fria. Faz uma careta, retesa os músculos do pescoço, franze a testa, abana a cabeça. Os dedos são pequenos animais assustados, tocando nas teclas a medo, como se os sons fossem feitos de vidro ou houvesse dentro do piano uma caldeira prestes a explodir. O que se ouve é Schubert, uma peça pequena, pura, perfeita. As mãos etéreas; o rosto a contorcer-se na procura do pianissimo. São as mesmas mãos que depois se abatem sobre o teclado, imitando a tempestade de Liszt, os dedos agora acesos como relâmpagos. O que se ouve é a música no momento em que nasce, em que renasce, séculos depois de ter sido escrita, nas mãos e no rosto de Alfred Brendel, um dos maiores pianistas vivos, talvez o maior.

2. As mãos escondidas (fora do plano); no rosto um sorriso irónico. Brendel tenta explicar o inexplicável: «Na minha família não havia músicos nem interesses intelectuais, não fui uma criança prodígio, não leio bem à primeira vista, não toco tão depressa quanto outros pianistas, não tenho memória fotográfica e no entanto…» E no entanto é um dos maiores pianistas vivos, talvez o maior. Um pianista que foi progredindo lentamente, passo a passo, década a década, numa espécie de ascenção metódica, como se alcançar o cume onde só chegam uns quantos intérpretes (Rubinstein, Schnabel, Richter, Kempff, Benedetti-Michelangeli, Gieseking, Pollini, poucos mais) não fosse uma necessidade mas uma evidência. Vejam as suas mãos cheias de adesivos, pairando sobre o teclado como quem acaricia um gato. Vejam o seu rosto, a máscara de um júbilo secreto quando ouve uma gravação antiga de Cortot. Agora as mãos vagueiam (fora do plano) e ele mantém o sorriso enquanto recorda a infância no hotel da família, na ilha de Krk (Adriático), a ouvir discos na grafonola, a imitar os cantores de opereta, e depois em Zagreb, no cinema gerido pelo pai, onde eram projectados durante a guerra filmes da propaganda nazi. Brendel caminha agora pelas ruas da Zagreb de agora e numa praça aponta para uma janela de 1940, a janela onde um dia viu uma menina que dançava e depois escreveu-lhe uma música e ela dançou essa música e ele, 60 anos depois, ainda se recorda perfeitamente de cada gesto e nem tenta esconder que a memória pode ser assim, feliz.

3. As mãos arqueadas sobre as teclas; o rosto inclinado para a pauta. Schubert de novo, «Viagem de Inverno», a paisagem agreste de «Rast» na voz escura do barítono Matthias Goerne. Os dois ensaiam, experimentam, procuram o sentido profundo das frases, tanto as poéticas como as musicais. Tomam notas, Matthias repete a melodia que vai crescendo como uma espiral, Brendel tem os óculos de massa na ponta do nariz. Agora, o barítono fala do privilégio de trabalhar com um músico completo, em vez de um acompanhante. Goerne não o diz, mas fica implícito que também ele considera este homem – capaz de iluminar as canções de «Winterreise», como antes iluminou as sonatas do mesmo compositor (a D. 960, sobretudo) – um dos maiores pianistas vivos. Talvez o maior.

4. As mãos enérgicas; o rosto jovem, sem rugas. As imagens antigas mostram-nos um corpo que já não existe assim. Onde havia fogo, audácia, vitalidade, todos os caminhos por desbravar, existe agora uma sabedoria dos pequenos detalhes, uma forma de minúcia que não esquece, nunca, os contornos da estrutura maior. Vemos o cartaz do primeiro concerto, em Graz. Coisa arrojada: um programa sobre «A Fuga no repertório pianístico», de Bach a Liszt, incluindo uma sonata com dupla fuga, composta pelo próprio Brendel, na altura ainda um imberbe rapazito de 17 anos. Esse gosto pelas formas polifónicas, pela coexistência de várias vozes em simultâneo, permaneceu ao longo da sua vida. Ainda na juventude, arriscou a pintura. Mas agora, quando revê os seus quadros na galeria de um amigo que prometera destruí-los (promessa incumprida, como a de Max Brod a Kafka), fica horrorizado. Paisagens, o mar, crepúsculos. «São ainda piores do que eu imaginava.» Já na escrita, tem mais confiança. Começou pelo ensaísmo sobre música e descobriu, mais tarde, a poesia – por vezes satírica ou auto-irónica. Também se dedica ao estudo da arquitectura barroca e colecciona máscaras, em casa, junto às fotos dos seus ídolos musicais. Algumas são disformes e Brendel explica porquê: «Gosto dos monstros criados pela imaginação. Dos monstros reais, não. Desses tenho medo.»

5. As mãos fazem escalas, oitava acima, oitava abaixo; o rosto projecta-se todo na dança diabólica dos dedos. Estamos num palco, a plateia vazia, tempo de ensaio, véspera de grande concerto e Brendel avisa o afinador: «Tem aqui muito trabalho para fazer.» Há quem aprecie a luta contra um piano que não conhece, eventualmente mal afinado. Brendel, pelo contrário, aprecia o rigor. O piano tem que estar tão preparado para o concerto como ele está. Não pode haver falhas nem traições. Nada que altere a leitura que o pianista fez de uma dada obra, a leitura que respeita o seu carácter, a sua coerência estética, a sua «personalidade». E é justamente porque as obras têm uma vida própria que Brendel regressa ciclicamente às mesmas, como quem revê amigos (sabendo que hão-de estar diferentes, tantos anos depois). Foi assim com Beethoven, por exemplo, cuja integral das sonatas para piano (32) gravou três vezes. Mas, além dos regressos, há também novos caminhos que se abrem. Como Mozart: «Diz-se que as suas sonatas são demasiado difíceis para os adultos e demasiado fáceis para as crianças. Se não as tocasse agora (aos 70 anos), nunca mais as tocaria.» Antes, num café de Viena, já dissera a um amigo: «Continuarei a subir aos palcos enquanto puder. Até porque tenho a sensação de que ainda consigo, por vezes, ir mais longe do que alguma vez fui.»

Coda. O tema desta crónica – o mote das suas inábeis variações – é o que nasce das mãos (e se espelha no rosto) daquele que é considerado um dos maiores pianistas vivos, talvez o maior. Tudo o que aqui se escreveu foi visto e ouvido (sobretudo ouvido) no documentário «Alfred Brendel, Man and Mask», um retrato do artista e do homem que a RTP2 exibiu na noite do passado domingo. Numa altura em que o telelixo volta a estar em foco (por causa do «Bombástico» e de outros programas igualmente abjectos), talvez fosse bom, por uma questão de sanidade mental colectiva, reabrir o debate sobre o que é um verdadeiro serviço público. Por mim, depois de ver esta magnífica co-produção da BBC e da ZDF, não tenho dúvidas. É isto.

(esta crónica foi publicada no DNA de 01/02/2003)


03:30 27.1.03  
AS RUÍNAS (EM VOLUBILIS)
1. Saímos de Meknès a meio da manhã. Céu azul, sol branco e um autocarro barulhento, arrastando-se a passo de caracol, com receio dos polícias que esperam em cada curva, prontos para passar uma multa ou receber a nota da praxe. Ao fim de 30 quilómetros e uma hora de viagem, entrámos em Moulay Idriss, a mais importante cidade islâmica de Marrocos. Telhas verdes, o famoso minarete cilíndrico da medersa de Khiber e casas galopando colina acima, em equilíbrio precário, como se fossem mergulhar de repente no rio Khomane. Nem sequer parámos. O autocarro, ronceiro, limitou-se a abrandar (ainda mais) a marcha, permitindo duas ou três fotos em andamento («vamos lá ver se não sai tremida»), enquanto uma voz ia explicando que «neste mausoléu está enterrado Moulay Idriss, o santo mais venerado do país, que deu nome à cidade e era descendente do Profeta». De novo na estrada, mais quatro quilómetros, um pequeno vale, nuvens de poeira. E depois, Volubilis. Quarenta hectares de ruínas romanas, ainda em escavação, declaradas património mundial pela Unesco, em 1997. Fora do autocarro: grupos de turistas em calções, uma loja de «souvenirs» e vários homens solícitos a oferecerem, em francês, os seus préstimos. «Não vá com os outros, eu é que sou guia oficial» – diziam todos, apontando para o cartão pendurado na lapela. Não, obrigado, não queremos. Não, não queremos mesmo, obrigado. Não, já dissemos que não. Não, não, não. Não. O sol a pique, lá bem no zénite, queimava.

2. Volubilis foi construída no séc. III AC, no local onde já existia uma povoação cartaginesa. Centro administrativo da parte africana do império romano, a cidade exportava cereais para a metrópole e mantinha sob controlo as tribos berberes. Mas o período de crescimento e prosperidade «só» durou 600 anos. No final do terceiro século da nossa era, o imperador Diocletes ordenou que a administração e o exército abandonassem a zona e se deslocassem mais para norte. Foi o princípio do lento declínio de Volubilis. Lento porque a retirada dos romanos não significou o abandono completo da cidade. Muitos habitantes decidiram permanecer e o latim resistiu mais quatro séculos, até à invasão árabe do norte de África. Na verdade, o núcleo urbano só se desfez no séc. XVIII, quando o sultão Moulay Ismaïl mandou demolir muitos dos monumentos, para aproveitar o respectivo mármore na construção dos seus palácios em Meknès. Se este crime arqueológico não tivesse sido cometido, Volubilis seria provavelmente o mais bem preservado vestígio romano a chegar até nós. Mesmo assim, não é difícil reconhecer as estruturas da cidade, as villas, as ruas, os sítios públicos onde se tomavam as decisões políticas ou se celebravam os cultos religiosos. Andar por aqui, nestes caminhos de pedra, é uma experiência ao mesmo tempo exaltante e estranha. Porque esperamos sempre ouvir, na sombra de cada muro, uma voz perdida, um suspiro, uma respiração com dois mil anos.

3. Esta é a rua principal, a Decumanus Maximus, uma espécie de avenida, com pavimento de lages, que desemboca no magnífico Arco do Triunfo mandado construir, em 217 DC, para honra e glória do imperador Caracalla. É este o limite da cidade, a mais formosa das oito portas que ligavam Volubilis ao mundo exterior. Quase a medo, atravesso o Arco. Cada gesto, sem que o queira, ganha peso, ganha uma certa solenidade. E a cabeça, de repente, pesa-me. Deve ser da luz agreste do meio-dia. Procuro uma rocha plana. Sento-me. Recupero o fôlego. Respiro. Descanso. Observo. Fora das muralhas não há nada. À minha frente, ervas bravias. Ao fundo, a linha suave de uma montanha. Atrás de mim, o que sobrou de uma civilização. Penso: as civilizações são como os homens. Crescem, atingem o auge, depois a decadência (às vezes a agonia), morrem, são enterradas e um dia voltam à superfície, sob a forma de um esqueleto partido, coisa mineral, suporte da vida (mas sem vida).

4. Deambulo agora sozinho. E feliz. Sem ponta de cinismo o confesso: a arte de viajar em grupo é saber fugir ao grupo. É saber escapar ao rebanho que pasta onde os guias querem que paste. É escolher o meu rumo, as minhas pausas, as minhas demoras. É poder ler, até ao fim, todas as placas que me aparecerem à frente, sem ter que aturar os remoques dos apressados, que querem sempre «acelerar um bocadinho para chegarmos a tempo» ao autocarro ou ao almoço. Desta vez, nem sei como, tive sorte. Consegui livrar-me com bons modos e agora deambulo sozinho. Agora vejo. Aqui ficava o Forum – harmoniosas as suas colunas, ainda intactas. Aqui eram as termas, ali os lagares de azeite, mais adiante o Capitólio. Admiro sobretudo os mosaicos com cenas mitológicas (Orfeu, Baco, os trabalhos de Hércules, as caçadas de Diana) que transformavam em obras de arte o chão das casas mais ricas. Como a de Euphebus.

5. Na casa de Euphebus, junto aos mosaicos, recordei-me de uma pequena história que Roland Barthes conta em «A Câmara Clara», o seu último livro. Vem logo na primeira página: «Um dia, há muito tempo, encontrei uma fotografia do irmão mais novo de Napoleão, Jerôme (1852). Disse então para comigo, com um espanto que, desde então, nunca consegui reduzir: "Vejo os olhos que viram o Imperador." Por vezes falava desse espanto, mas, como ninguém parecia partilhá-lo nem sequer compreendê-lo (a vida é feita assim, de pequenas solidões), esqueci-o.» Em Volubilis, eu não vi os olhos que viram o imperador. Mas apercebi-me, na casa de Euphebus, que estava a tocar em mosaicos que outros homens, há dois milénios, também tocaram. Homens que viram talvez, num dia de festa, Caracalla ou Diocletes. E foi então que compreendi verdadeiramente – ou seja: melancolicamente (a vida é feita assim, de pequenas solidões) – o espanto de Barthes.

6. Afasto-me das ruínas uns 500 metros e observo-as à distância. Quero compreender porque me parecem, apesar de tudo, tão belas. Penso: uma ruína é a arquitectura que se cansou de existir. Apenas isso. Só que os animais, as árvores ou as pessoas, quando se cansam de existir, morrem. As casas não. As casas não morrem. As casas cansam-se de existir e transformam-se em ruínas. Isto é: ficam para contar a história do seu falhanço, da sua queda. São fantasmas resignados, miragens, assombrações. A beleza das ruínas está, talvez, nesta sua condição trágica: desaparecer, permanecendo. Já não ser tudo, mas ser ainda um pouco. Se as ruínas são belas é porque no ar se desenha, invisível, a memória do que foram.

15:34  
NO QUARTO DOS STRAUB
1. No princípio, há um homem de costas que fala de laranjas. O plano é muito belo, vê-se água, a linha do cais, navios na distância, tudo a preto e branco, num enquadramento tão perfeito que podíamos olhá-lo durante mil anos. Esse homem – melhor seria dizer essa voz – acaba de chegar e dialoga com um camponês que está encostado a uma parede, muito vertical e revoltado («Ninguém as quer!», diz ele, referindo-se às laranjas). Estas são as primeiras imagens de «Sicília!», de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Mas também são, percebemos agora, as primeiras imagens de «Où Gît Votre Sourire Enfoui?», de Pedro Costa, retrato em movimento (não tenho coragem de lhe chamar outra coisa) do casal Straub-Huillet. Existe contudo, entre os dois, uma diferença importante. No filme de Pedro Costa – obra que estreou, dia 11, as renovadas instalações da Cinemateca – as imagens de «Sicilia!» andam para a frente e para trás, os gestos suspendem-se, as palavras saem e voltam a entrar na boca do camponês. O ecrã que vemos, já não há dúvidas quanto a isso, é o visor de uma moviola durante o processo de montagem. Ouve-se Danièle, depois Jean-Marie, frases tensas de quem procura o sítio certo para cortar um plano. Aqui, diz ela; ali, diz ele. A diferença: um fotograma. Um fotograma é a diferença entre os seus olhares. Há, a separá-los, um vinte e quatro avos de segundo. Dito de outro modo: eles vêem exactamente a mesma coisa, embora não coincidam ponto por ponto. «Se a realização é um olhar, a montagem é um batimento de coração», escreveu Jean-Luc Godard, num texto publicado nos Cahiers do Cinéma, em 1956. Foi o fotograma fugidio que separa os Straub (esse quase inaudível batimento de coração) que Pedro Costa filmou, como quem testemunha um assombro.

2. É preciso dizer que esta obra vem no seguimento de outro filme magnífico e inclassificável: «No Quarto da Vanda». Já não estamos, como é óbvio, no surreal universo do Bairro das Fontainhas, com as suas casas em demolição, as figuras humanas destruídas pela droga e pela «vida», o caos de miséria que afinal é um cosmos, a luz que bate na parede como numa tela de Vermeer e essa Vanda, rosto-enigma em grande plano, sempre à procura do «pó» que sobra nas páginas amarelas. É tudo outra coisa menos o olhar de Pedro Costa, a sua disponibilidade para compreender o que está para além da realidade mas ainda aquém da ficção. O quarto dos Straub, melhor seria dizer de Jean-Marie-Danièle (assim mesmo, com os nomes colados), é a sala de montagem. E a câmara está ao fundo, quieta, sem interferir. Eles trabalham como se ela não existisse. Danièle mexe na moviola, corta a película, volta a colar, experimenta. Aquele é o seu território, o seu mister, o tempo de um ofício que exige concentração. Por isso, quando Jean-Marie se distrai (e a distrai) com filosofias e abstracções, zanga-se. Eleva a voz, impõe ordem, exige silêncio. E Straub, resignado, levanta-se, vai dar uma volta no corredor, fuma um cigarro, tosse não sei quantas vezes, encosta-se à ombreira da porta, reflecte em voz alta (sobre o cinema, sobre Hitchcock, sobre a criação ou o génio), improvisa um aforismo e volta a sentar-se junto à moviola, para discutir o que ela entretanto fez. O «punctum» do filme nunca está nos Straub (vemo-los afastados, de costas ou na penumbra). O «punctum» está no ecrã da moviola. O centro é ali, naquele palco imaterial onde eles lutam contra uma matéria que lhes resiste. Aliás, se «Où Gît…» também é, de certa maneira, uma aula de cinema, é-o no sentido em que revela a forma única de produção dos Straub. O seu cinema conjuga um rigor estético absoluto com um método de trabalho «artesanal», em que não se utilizam quaisquer «truques» de estúdio, nem manipulações do som. É um cinema da reflexão e da palavra (tanto poética como política). Pedro Costa mostra-nos isso muito bem. Os Straub a reflectirem sobre os textos de que partem (agora Vittorini; com ecos de Pavese). E a defenderem, sempre, a necessidade de uma nova utopia, de um novo comunismo. Não haja ilusões: quase 40 anos após o primeiro filme, ambos continuam visceralmente «não reconciliados».

3. Recupero velhas entrevistas de Jean-Marie Straub. Frases soltas. Esta: «Não temos vontade de fazer "grandes obras". Tentamos fazer coisas que tenham muita paciência e muita energia». Ou esta, a prolongar a citação de JLG, lá atrás: «Os filmes em que não se sente mais bater o coração do autor (…) são como pontes que desabam quando são atravessadas por gente ou cadeiras nas quais não nos podemos sentar sem risco de morte». Ou ainda: «Os filmes não têm interesse se não tiverem alguma coisa que arda em cada plano». Estas frases podiam ser de Pedro Costa, agora. Também ele procura, obsessivamente, o sorriso que se perde dentro de um olhar e o fogo que dá sentido a cada imagem.

4. Este é um filme que decorre em dois espaços. A sala de montagem, lugar de criação. E um cinema, lugar de exposição das obras mais antigas. A «narrativa» oscila entre estes dois pólos: a génese e a síntese. Vemos, alternadamente, o casal a montar «Sicilia!» (o presente) e Jean-Marie a apresentar «A Morte de Empédocles» ou «Crónica de Anna Magdalena Bach» (o passado). Lá mais para o fim, os dois pólos unem-se. No mesmo cinema da retrospectiva (um ciclo?), é exibido «Sicilia!». O presente transforma-se em passado e abre caminho para os filmes futuros (como o espantoso «Operai, Contadini», também revelado na reabertura da Cinemateca). Enquanto isso, no hall, Jean-Marie Straub espreita para o interior da sala, como o pai ansioso pelo nascimento do filho. Sabemos que o filme está a acabar porque se ouve, vindo lá de dentro, o final do andamento lento do quarteto de cordas op. 132 de Beethoven. Straub senta-se nos degraus e baixa a cabeça, gozando talvez a melancolia que sucede ao júbilo da obra feita. A música desvanece-se e Jean-Marie, generoso, oferece a Pedro Costa, com um gesto (a mão que se deixa cair), o tempo exacto para o último corte.

15:33 13.1.03  
O REGRESSO
Voltar à pátria nem sempre é fácil, como todos sabemos desde a história do velho Ulisses. Mas se o grego tinha sérios obstáculos a separá-lo de Ítaca (da insistência amorosa de Calipso às manhas de Circe, passando pelo canto tentador das sereias e pela brutalidade monocular do ciclope Polifemo), nós estamos condenados a odisseias de trazer por casa, pequeninas e prosaicas, sem fulgores nem heroísmos. Querem um exemplo? No passado domingo, numa das elegantes naves do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, esperei oito horas e 45 minutos para fazer o check-in. Sim, leu bem, oito-horas-e-quarenta-e-cinco-intermináveis-minutos à espera, no meio do caos, sem compreender sequer as verdadeiras razões de um tamanho atraso. A realidade é esta: mais do que a determinação, o músculo ou a astúcia de Ulisses, aquilo de que realmente precisamos hoje é da infinita paciência de Penélope e da fé inabalável de Telémaco.
Mas já lá vamos, à odisseia de trazer por casa. Antes, houve a neve. Sábado de manhã, sem que ninguém a esperasse, ela começou a cair, do céu cor de cinza, em flocos quase demasiado perfeitos, cinematográficos. Uma neve fina e delicada, bailando no ar ao sabor dos golpes de vento, pousando sobre todas as coisas: estátuas, automóveis, árvores do passeio – nuas, negras, agora com qualquer coisa de espectral – e também sobre as pessoas de passo rápido, muito agasalhadas, estreando luvas de lã e sorrisos de uma felicidade antiga (porque infantil). A neve estendeu o seu manto sobre as ruas de Paris, ainda iluminadas pelas montras de Natal. E ficou. E resistiu ao calor da cidade. No bosque de Vincennes, paisagem branca como um quadro de Brueghel, havia crianças a correr, pais a moldar bonecos muito redondos e bolas de neve espessa que lancei ao meu irmão, à queima-roupa, como se ainda tivessemos, respectivamente, dez e seis anos.
Pois bem. Foi justamente a neve, a bendita neve, mais o gelo e os cinco graus negativos que enregelaram Paris, a provocar o cancelamento de uma grande parte dos voos previstos para aquela manhã. Depois, houve um efeito de cascata. Com os sucessivos atrasos, milhares de passageiros viram as suas viagens adiadas para o dia seguinte e muitos deles (os que não puderam pagar mais uma noite de hotel) foram mesmo obrigados a dormir nos corredores do aeroporto Charles de Gaulle.
Quando cheguei a Roissy, às 9h15 de domingo, tranquilamente preparado para seguir no voo das 10h20, compreendi logo que algo não estava bem. A partir do balcão 1 do sector 2F, estendia-se uma longa fila. Uma longa fila parada. Olhei à volta: passageiros aturdidos, funcionários nervosos, placards electrónicos desfasados da realidade. Hmmm, aqui há coisa. E havia. Ainda pensei que fosse mais uma das mediáticas operações de prevenção anti-terrorista – o célebre programa «Vigipirate» do ministro Sarkozy – a complicar o normal funcionamento da vida quotidiana. Mas não. Desta vez, Ben Laden e a Al Qaeda, ou um qualquer dos seus sucedâneos fundamentalistas, nada tinham a ver com o assunto. O terrorismo era de outro tipo. Meteorológico, para variar. Foi essa, pelo menos, a explicação oficial dada mais tarde.
Muito mais tarde, diga-se, porque nas primeiras horas ninguém entendia o que estava realmente a acontecer. Corriam, boca a boca, todo o tipo de rumores. Que os aviões não partiam por causa dos ventos laterais. Que havia uma greve algures no aeroporto (primeiro eram os bagagistas, depois os pilotos, por fim o pessoal da manutenção). Que havia milhares de pessoas à espera desde a véspera e com prioridade no registo. Que a Air France não queria fretar mais aviões. Que o mais certo era ficarmos presos em Paris, sabe-se lá por quanto tempo. Ao meu lado, um homem baixinho abanava a cabeça, incrédulo. Às tantas, perguntou-me se sabia onde é que se podiam apanhar autocarros para Lisboa. Quando percebi que falava a sério, avisei-o: «Olhe que a viagem dura pelo menos três dias!» Ele encolheu os ombros: «Eu sei isso, amigo, eu sei isso, mas a gente deve preparar-se sempre para o pior».
Entretanto, a Air France remetia-se ao mais absoluto e escandaloso dos silêncios. Nem um aviso, nem uma só informação útil emitida pelos altifalantes, nada. Para sorte deles, no balcão 1 só havia portugueses e alguns espanhóis em trânsito para Barcelona. A 50 metros, no balcão 2, vi um grupo de turcos aos gritos, com os braços no ar, e o «Libération» noticiou, no dia seguinte, que houve tumultos provocados pelos furiosos passageiros do voo para Havana. Menos sanguíneos, fechados na nossa lusa resignação, nós lá íamos esperando e desesperando. À minha frente, uma rapariga brasileira que mora em Cascais, simpatiquíssima, teve tempo para me contar a vida toda, incluindo os planos para o futuro: dar aulas de dança, casar com o namorado de sempre (um craque financeiro) e ter «um montão de filhos». Atrás de mim, sentada em cima das malas, uma menina brincava com a Minnie de peluche, comprada na EuroDisney, enquanto o irmão mais velho se aborrecia de morte, sem nada para fazer. O pai, esse, ia controlando o movimento dos chicos-espertos, passageiros retardatários que tentavam ultrapassar, à má fila, os extenuados madrugadores.
Foi só por volta das três da tarde que compreendemos o busílis da questão. Uma vez que o nosso voo fora utilizado para transportar quem devia ter partido na véspera, ficámos todos em lista de espera, dependentes das vagas nos voos seguintes. Começava então a lotaria, sendo que a sorte, como sempre, nada quis comigo. No avião das quatro, em que era suposto entrar, fui ultrapassado «in extremis» pela família do pai vigilante, prioritária por causa das crianças. OK, pensei, passem lá, mas depressa que já vem aí uma funcionária jovem, de voz quebrada pelo stress, a anunciar mais um atraso de hora e meia, porque são poucas as equipas disponíveis para retirar o gelo acumulado nas asas dos aviões.
Concluindo: às 17h55, depois de quase nove horas em pé, a assistir aos efeitos perversos das políticas económicas neo-liberais (aplica-se a «flexibilidade» e a sub-contratação nas grandes empresas públicas e o resultado é este: descontrolo, desleixo, péssimo serviço), após quase nove horas de um tormento que a neve e o mau tempo não podem justificar, sentei-me finalmente no banco 21D de um Airbus superlotado, sabendo que Lisboa, a Ítaca possível, esperava por mim na distância.
Fechei os olhos. E nesse momento, no instante exacto em que as rodas largaram a pista, pareceu-me ouvir, em uníssono, um suspiro de alívio. O alívio de quem escapa de um labirinto ou do inferno. Alívio que nem as turbulências e os pequenos poços de ar da viagem (ridículas imitações de Cila e Caríbdis) foram capazes de perturbar.

17:33 12.1.03  
CURTA-METRAGEM
1. (FADE IN; GRANDE PLANO) Primeiro, vê-se a capa de um livro que está pousado numa mesa. Luz rasa, vinda de uma janela aberta para o azul do céu, acima dos bosques. A mesa é de madeira, antiga, atravessada por sulcos irregulares, hieróglifos feitos talvez pelo passar do tempo (os anos como lâminas), talvez pelas navalhas rombas de homens que já morreram. A capa do livro mostra um desenho esfumado: o deserto púrpura com montanhas ao fundo e sobre as montanhas, imensa, a lua. Dentro do círculo da lua, ao alto, um nome: Tonino Guerra. Mais abaixo, em letras maiúsculas, o título: HISTÓRIAS PARA UMA NOITE DE CALMARIA. Emergindo do pó púrpura do deserto, o nome do tradutor (Mário Rui de Oliveira) e a chancela da editora: Assírio & Alvim. No silêncio, cresce a música de Nino Rota para o filme «Amarcord». Depois, um par de mãos pega no livro e começa a procurar um texto. As folhas agitam-se, tombam umas sobre as outras a uma velocidade vertiginosa, quase que se soltam, o ruído assemelha-se a um bater de asas. Por fim, a agitação cessa. Na página 78 desenha-se um poema de 10 versos: «Onde vais?». (ZOOM IN; A IMAGEM DESFOCA-SE LENTAMENTE) Sobre a música de Nino Rota, agora menos intensa, a voz off de um homem maduro: «A primeira palavra que ouvi/ na minha vida/ foi "onde vais?"/ Num aposento sentados/ em sacos de milho/ eu e minha mãe.// Tinha apenas um ano/ e não sabia ainda/ o que eram as palavras/ e onde me poderiam levar.»

2. (TRAVELLING) Um homem caminha pela paisagem da sua infância. Tem 82 anos, chama-se Tonino Guerra e a voz off vai explicando as muitas etapas de uma vida tecida, como teia de aranha, entre as palavras e as imagens. O nascimento em Santarcangelo di Romagna, aldeiazinha perdida da província de Forlì. A meninice entre nuvens de poeira, em estradas de terra batida, ajudando os pais que subiam até Pennabili para vender fruta, ou a brincar nas margens do Marecchia, atrás dos pequenos pássaros, do brilho das penas e do seu canto. A figura da mãe, analfabeta, capaz dos maiores sacrifícios; isto é, do mais profundo, do mais silencioso amor. A cultura rude do campo, quando nas leiras ainda eram os bois que puxavam o arado. E a pobreza, a fome, os invernos, a neve. E a guerra, o cativeiro no campo de concentração de Troisdorf (Alemanha), onde escreveu os primeiros poemas em romanholo, o dialecto que nunca mais abandonaria. E os primeiros livros, a vida em Roma nos anos 50, o contacto com o cinema, o encontro decisivo com Antonioni. Os anos a passar e com eles o aperfeiçoamento de uma arte difícil: escrever para o olhar de outrém. Profissão: argumentista. De Antonioni, sempre, mas também de Fellini, de Tarkowski, de Wenders, de Angelopoulos. A câmara, intimidada pelos nomes destes gigantes, limita-se a acompanhar o passeio do homem pela paisagem da sua infância. As águas do rio, as encostas cobertas de árvores, os pássaros pousados sobre as ruínas de uma velha igreja. O homem não fala. Deambula agora pelas instalações que criou, com outros artistas, em Pennabili (onde passou a viver desde 1989). São pequenos museus ao ar livre, uma outra forma de poesia. Reparem nos nomes: Horto dos Frutos Esquecidos, Estrada dos Relógios Solares, Jardim Petrificado, Santuário dos Pensamentos.

3. (EXTERIOR/DIA) A propósito das «Histórias...», mas igualmente de «O Livro das Igrejas Abandonadas» (Assírio & Alvim, 1997), alguém recorda uma frase de Italo Calvino sobre a escrita de Tonino Guerra: «Há sempre um conto em cada uma das suas poesias; há sempre uma poesia em cada um dos seus contos». Esse alguém, leitor apaixonado destas obras (pode ser, por exemplo, o jornalista que assina, no DNA, a crónica «Escrita Automática»), vai dissertando sobre a delicadeza dos textos e as imagens fortíssimas que deles emanam ou sobre a absoluta precisão do estilo - a forma sublime de contar a mais longa das histórias com o mínimo de palavras. Enquanto fala, o leitor apaixonado anda em círculo, cita exemplos, lê excertos e atrás de si, enquanto a câmara faz uma panorâmica de 360 graus, surgem cenários que reproduzem os exemplos e excertos por ele evocados. Vemos as montanhas do Uzbequistão (uma vermelha; outra branca) e entre elas a árvore onde os peregrinos penduram desejos escritos em pedaços de tecido, agitados ao vento como frutos. Vemos a enorme nuvem de pó que traz, durante três dias, o caos e o esquecimento. Vemos ruelas de lama seca em Samarcanda e o vapor que se ergue de uma taça de chá verde. Vemos o mosteiro habitado por dois eunucos chineses que se desejaram em silêncio. Vemos o convento, em forma de margarida, onde a luz nos vitrais dizia as horas. Vemos uma floresta de árvores ocas e musicais, algures nos confins do Turquemenistão. Vemos o espelho que guardou, como um tesouro, a vida de uma família em tempos por ele reflectida. E vemos, belíssima, uma cerejeira carregada de flores, à espera do camponês que dela tratava, para só então morrer, oferecendo-lhe na morte uma chuva de pétalas brancas. Vemos tudo isto. Vemos.


4. (INTERIOR/NOITE) Há um foco de luz sobre a mesa de madeira antiga. Sob o foco está papel branco, uma caneta de aparo, um tinteiro. A mão que folheou o livro (há quanto tempo?) pega na caneta e escreve. A sala está em silêncio. Ouve-se apenas o som do aparo a deslizar, áspero, no papel. É impossível ler o que a mão escreve. Passam alguns minutos. O silêncio volta a ser só silêncio, sem mais nada. A mão sai de campo. O plano mantém-se: a folha debaixo do foco de luz, meia dúzia de linhas, a tinta que seca. Ouve-se, de novo, a voz off de um homem maduro. Diz o título: «A história sem fim». Lê a dedicatória: «A Tonino Guerra». Continua: «No centro da Praça de S. Marcos, um velho, com o sobretudo rasgado e uns sapatos sem atacadores, espalha milho no chão. Os donos dos cafés e os polícias conhecem-no, sabem que é inofensivo, e por isso deixam-no repetir, todas as manhãs, aquele ritual. Ele chega, olha para as nuvens que pairam sobre a laguna, observa o voo dos pombos sobre o Gran Canale e lança para o chão, em círculo, o milho que traz em dois cartuchos de papel pardo. Há 50 anos, numa manhã de Novembro, ele soltou, naquele preciso lugar, um pombo que levava, presa a uma das patas, uma minúscula bolsa de couro. Lá dentro, num papel dobrado, uma história de um só parágrafo, sem fim. É a resposta a essa história que ele aguarda, todos os dias, em todos os pombos que debicam o seu milho. Mas hoje, do céu negro, ele só pode esperar chuva gélida. E relâmpagos.» A voz cala-se, a luz esmorece. (FADE OUT)


15:36  
OS LIVROS DO DESASSOSSEGO
1. Aqui vai uma confissão. No final do ano, eu nunca escrevo aquelas utópicas listas de boas intenções que nascem – todos o sabemos – para serem esquecidas na segunda semana de Janeiro. Mas faço, hélas, outro tipo de listas, igualmente inúteis: o «top-10» dos melhores filmes do ano anterior ou a lista exaustiva dos livros que espero ler no ano seguinte. Se a primeira não oferece grandes dificuldades (é só uma questão de memória cinéfila), a segunda está viciada à partida, porque revela sempre, mas sempre, um excesso de confiança nas minhas capacidades de leitura. Basta dizer que não abdico de lá colocar, cheio de fé, pelo menos dois ou três dos grandes clássicos ainda – vergonhosamente – por conhecer no verdadeiro sentido da palavra: uns anos é o Homero todo, o «Quarteto de Alexandria» do Durrell, o «Quixote», mais o «Ulisses» do Joyce (devo ser dos poucos portugueses a admitir esta lacuna…); de outras vezes é o «Fausto» de Goethe, «Os Irmãos Karamazov», a «Montanha Mágica», ou (porque não?) «Os Lusíadas» sem o peso da escola. Como é óbvio, nunca cumpro nem um décimo daquilo a que me proponho e chego ao fim do ano com um terrível sentimento de frustração.
Desta vez, cansado de me auto-flagelar, optei pelo mais estrito pragmatismo. Tenho ali uma pilha de livros do Didier Daeninckx, outra com as primeiras obras do Ian McEwan, vários romances do Philip Roth, do Saul Bellow, do Don DeLillo e do Coetzee, poemas do Kavafis, Yeats, Robert Frost e Pavese para reler, contos do Tchéckhov, mais todos os portugueses publicados em 2002 e que ainda estão à espera. Se houver tempo para resgatar das sombras um clássico tipo «Guerra e Paz», óptimo. Se não houver, paciência. Podem acusar-me de jogar à defesa. Eu chamo-lhe lucidez. Será que é desta que chego a Dezembro com a consciência tranquila?

2. A angústia do leitor, em pânico diante dos milhares de livros que vão ficando por ler, não é nova. Sempre existiu. Só que o aumento exponencial da oferta nos últimos anos – com o «boom» do mercado livreiro e o fenómeno das mega-livrarias «on-line» – veio agravar a situação. Há mesmo quem fale de «ansiedade da leitura», como se de um distúrbio psicológico se tratasse. Já muito se escreveu sobre o tema (Abel Barros Baptista, por exemplo, dedica-lhe um ensaio brilhante: «A Infelicidade pela Bibliografia») e o problema pode resumir-se a uma questão física. Uma questão de tempo. Mesmo se não fizéssemos mais nada senão ler, a «ansiedade» permaneceria. Como diz Harold Bloom, em «The Western Canon», uma vida inteira de leitura, 24 horas por dia, não chegaria para conhecer nem sequer uma selecção dos maiores autores da tradição ocidental. Ou seja, mesmo ignorando olimpicamente o resto do mundo, nunca teremos tempo para conhecer a fundo a nossa cultura.
A única solução lógica é admitir as nossas limitações e seguir em frente. Até porque não é só o passado que nos persegue. É também o futuro. São todas as obras-primas que hão-de chegar nas próximas décadas, aos magotes (sou um optimista), para nos inquietarem e pedirem, lá dos cumes da glória literária, a nossa atenção. Convenhamos que isto é um cenário esmagador. Há milhões de livros atrás de nós, milhões de livros à nossa frente e nem sabemos, nesta linha ténue do presente, por onde começar tão ciclópica tarefa. Mas Sísifo não desistiu, pois não? Por que haveremos nós de desistir?
Quanto ao fardo da culpa, não faz sentido carregá-lo. Vivemos na era da imagem, da síntese, da velocidade. É preciso compreender que as nossas vidas «modernas», carregadinhas de stress e de obrigações, não abrem muitos espaços para os modos lentos da leitura, para os seus caprichos e rituais. Se não quisermos ser eremitas afastados do mundo (mas com conta aberta na Amazon), temos que encarar a realidade e pedir tréguas. Não somos perfeitos. Não conseguimos ler tudo. Resta-nos o consolo de saber que mais ninguém consegue.

3. Uma questão prática: se perdemos muito tempo com aspectos da nossa vida que não controlamos (ou não conseguimos controlar), onde é que podemos recuperar esse tempo perdido para a leitura? Falo por mim: nas viagens de metro (mesmo em hora de ponta, por entre mil braços e pernas), na fila para o Multibanco, nos elevadores, nos intervalos do cinema e até, devo confessá-lo, nos engarrafamentos de pára-arranca ou nos percursos a pé. Na verdade, invejo as pessoas que esperam nos consultórios a olhar para ontem, de mãos nos bolsos, ou a folhear revistas cor-de-rosa de há seis meses. Invejo-as, a sério. Elas ignoram o que é este sufoco, esta pressa, esta fúria, esta missão sem fim à vista. Elas são, talvez, mais felizes. Vivem, de certeza, mais tranquilas. E já que não gozam dos atormentados prazeres que os livros nos oferecem, ao menos que seja delas o reino dos céus.

4. No outro dia, ao olhar para os meus livros, essa espécie maldita que saltou das estantes e se espalha agora pelos corredores, cheguei a uma triste conclusão. Não só nunca li muitos deles como sei que nunca os lerei. É uma fatalidade, porque todos os dias chegam novos inquilinos, à procura do seu espaço. O que eu não sei é se eles, os livros, compreendem a minha impotência. Em certo sentido, sou uma espécie de paxá rodeado de 3000 concubinas, umas mais atractivas do que outras, mas todas exigentes e a pedir exclusividade.
Além disso, desconfio que os muitos livros que nunca lerei, aqueles que vão sendo adiados para «quando houver tempo», formam uma espécie de irmandade, de sociedade secreta. Alimentam rancores e sentem ciúmes, sobretudo quando me vêem tocar o corpo de outros livros que não mereceriam receber, em vez deles, tais carícias. Cheios de razão, amuam, zangam-se, encarquilham-se, amarelecem, ganham manchas de humidade, fazem birra. Devem odiar-me quando fico aparvalhado em frente à TV ou horas a fio na Internet. Aliás, não duvido que me rogam pragas, baixinho, pelas costas. Um dia destes, se me distrair, sei que eles vão vingar-se, nem quero imaginar como, de todas as minhas fraquezas e traições.
Para ser sincero, eu até já sinto qualquer coisa no ar. Há umas semanas, quando passava junto de uma das estantes, o volume do Proust, com aquele seu impressionante arcaboiço (mais de 2400 páginas, um quilo e meio de peso, os sete livros da «Recherche» juntinhos, em papel-bíblia), estremeceu ligeiramente e lançou-me ameaças surdas. É verdade: eu senti-as mesmo, como um bafo no meu pescoço. Por isso, nunca fiando, o melhor é ganhar método e disciplina na leitura. Se desperdiçar as férias de verão com devaneios frívolos, em Setembro os livros, os meus adorados livros, fazem-me a folha.

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10 x 15
Eu estava parado em frente ao quiosque, mesmo à saída da estação de metro, no meu exercício matinal de ler as primeiras páginas dos jornais e as capas das revistas (exercício que já foi um vício feliz mas que se converteu, com o tempo, em masoquismo). O rapaz aproximou-se, tocou-me ao de leve no ombro e pediu-me, numa mistura de italiano com linguagem gestual, que lhe tirasse uma fotografia. Não só a ele, explicou. A ele e a uma rapariga muito tímida (também italiana, percebi; talvez namorada). Colocaram-se os dois naquela pose desconfortável de quem não sabe o que fazer com as mãos, a pose de quem olha para a máquina fotográfica como se esta fosse uma espingarda e eu, lisboeta gentil, um pelotão de fuzilamento. Quando me preparava para disparar, o rapaz agitou-se muito e apontou para a estátua do Marquês de Pombal. Ele não queria como pano de fundo uma nesga do Parque Eduardo VII e o vulto dos carros que entopem a Rotunda a qualquer hora do dia. Ele queria, com toda a legitimidade, o céu de nuvens e na brancura, recortado, o perfil setecentista do homem que reconstruiu Lisboa após o terramoto. Não sem esforço, lá me baixei e dobrei e inclinei até descobrir o ângulo ideal. Eles juntaram-se um pouco mais. E sorriram. Um sorriso fixo, à espera da imortalidade possível: as cores imóveis de uma fotografia em dez por quinze.

***

Aquele sorriso recordou-me outro sorriso. O de um casal que vi durante um jantar no restaurante «Chez Ali», perto de Marraquexe. Eles estavam os dois sozinhos numa mesa enorme, rodeados de pratos gigantes cheios de carne de borrego, legumes cozidos e cuscuz. Estavam sentados em almofadas bordadas à mão, debaixo dos tectos de pano das tendas (imitações das que se montam no deserto), a ver os grupos de bailarinos sucedendo-se a um ritmo infernal, os batuques e os trajos regionais sobrepondo-se uns aos outros, vozes estridentes e alaúdes a impedirem qualquer conversa. Eles estavam ali, no meio do ruído falsamente alegre, lavando as mãos com água de rosas, à espera da sobremesa demasiado doce, perdidos na algazarra folclórica.
Convém explicar que o «Chez Ali» é um lugar bizarro. Como quase tudo em Marrocos, está organizado para ser uma armadilha turística, uma ratoeira onde vão caindo, sem pestanejar, hordas de ocidentais com as carteiras cheias de dólares e euros. No parque de estacionamento, há sempre dezenas de autocarros aguardando as excursões de reformados franceses ou alemães, velhotes obesos e trôpegos que juntaram um pé-de-meia, depois de cinquenta anos a trabalharem na «campagne» ou numa fábrica da Mercedes. E o que lhes é oferecido, no fundo, é o que eles esperam de um país tão a sul. Ou seja, todos os lugares-comuns do exotismo. Lá estão as quedas de água a imitar a cabeça de uma serpente, as fachadas sumptuosas de um monumental pseudo-palácio árabe (digno de Las Vegas), as muitas centenas de empregados, certamente mal pagos, formigando em torno das dezenas de restaurantes com decorações douradas para encher o olho, lá estão as trupes de bailarinos que circulam pelo recinto, os mestres de cerimónia desfazendo-se em salamaleques e a grande arena, onde após o jantar se realiza, todas as noites, um espectáculo «mágico», com cavaleiros acrobatas, odaliscas contorcendo-se na dança do ventre e outros cavaleiros que aparecem lá do fundo, a galope, gritando muito e disparando tiros de pólvora seca, tudo a acabar com fogo-de-artifício, ao som da «Guerra das Estrelas».
O casal, sozinho numa mesa enorme, não falava. Ele não olhava nos olhos dela. Ela não olhava nos olhos dele. Assim, de longe, pareceram-me novos e bonitos, ainda na casa dos trinta, com ar de quem enriqueceu depressa. Vendo bem, podiam ser italianos, como os outros que vim a encontrar, semanas depois, junto à estátua do Marquês. Sim, tinham mesmo aquela aura de beleza auto-consciente dos italianos. Só que não falavam. Havia nos gestos deles a marca de um desconforto, de um abismo impossível de partilhar. Mas subitamente, quando um empregado mais solícito apontou para a máquina fotográfica, uma Leica pousada na toalha de linho, aproximaram as cabeças, ele pôs a mão no ombro dela e, pela primeira vez naquela noite, sorriram. Um sorriso aberto e fixo, igual a todos os sorrisos fixos do mundo.

***

Há um filme em cartaz neste momento – «Câmara Indiscreta» («One Hour Photo»), de Mark Romanek, com Robin Williams – em que às tantas uma voz «off» diz qualquer coisa como isto: «Nas fotografias que vamos guardando ao longo da vida, só registamos os momentos felizes. Ninguém fotografa o que não quer recordar.» Isto é verdade. Os nossos álbuns estão cheios de festas de aniversário, copos-d’água, férias inesquecíveis, amigos jogando à bola, paisagens idílicas e almoços familiares, mas nunca, ou raramente, fotografamos o lado feio da vida (os funerais, os desastres de automóvel, as pernas engessadas, o lixo no quintal). Quem contemple a nossa existência fotografada em 10 x 15 – como faz o personagem de Robin Williams com uma típica família americana (juntando, numa parede imensa, os fragmentos de nove anos daquelas vidas alheias e aparentemente perfeitas) – descobrirá que vivemos num paraíso. Mas um paraíso ilusório. Porque, na verdade, o lado negro que fica fora de campo não deixa de existir. E mesmo os sorrisos fixos, como o do casal sozinho em Marraquexe, podem esconder a mais subterrânea das tristezas.

***

Carreguei no botão, a máquina disparou e o rapaz agradeceu a minha disponibilidade, com a mesma mistura de italiano e linguagem gestual. Depois, continuei a ler as «gordas», cruzamento amargo de marés negras e corrupção, pedofilia e «Big Brother», enquanto eles seguiram o seu percurso por Lisboa, «una città molto bella». Presumo que tenham pedido a outros transeuntes dois minutos de paciência e uma fotografia, de sorriso fixo, em frente à Torre de Belém, ao Castelo de São Jorge, à Casa dos Bicos. Presumo ainda que o rolo de 36 imagens terá sido levado para Itália, onde o revelaram e o transformaram em rectângulos coloridos (com dez por quinze centímetros) que mãos cuidadosas guardaram num álbum, entre folhas de cartolina e outras, mais finas, de papel de seda. Um álbum que os filhos e os netos de cada um deles (ou dos dois) um dia verão com um misto de nostalgia e incredulidade. «Vocês já foram assim, tão novos, a sorrir numa cidade estrangeira?» E nenhum dos filhos e netos suspeitará sequer que fui eu a enquadrar esse sorriso, com o Marquês ao fundo, numa distante manhã de Novembro.

15:36  
AS PALAVRAS MAIS FRÁGEIS
No ecrã da televisão está um navio a afundar-se. É um petroleiro imenso, chamado «Prestige» (nome ridículo para quem transporta o que transporta), um gigante a afundar-se ao largo da Costa da Morte e a espalhar uma mancha de fuelóleo que há-de ser, temem as autoridades, uma das maiores tragédias ecológicas na história da península. Passou-se isto no último fim-de-semana e eu, por mero acaso, estava na Galiza, em Mondoñedo (perto de Lugo), onde pude ver a ansiedade dos galegos frente às imagens da desgraça. Já houve outras marés negras no passado e por isso eles sabem as consequências que o desastre terá na economia da região – ou do «país», como muitos insistem em chamar-lhe. Impedidos de sair para o mar, os pescadores do cabo Finisterra temem pelo seu futuro. E os habitantes de Mondoñedo – cidade antiquíssima que já foi capital do reino (quando havia reino) e que ainda se estende pela verdura de um vale batido pela chuva (Álvaro Cunqueiro apelidou-a, num verso, «cidade deitada no chão como uma mulher grávida e silenciosa») – os habitantes de Mondoñedo, dizia, estão solidários. Solidários e impotentes, diante dos televisores acesos no calor das tascas, onde em dias menos tristes se bebem, caída a noite, copos de vinho tinto, para animar os amigos antes da «cea».
Podia escrever sobre isto: a catástrofe natural, Álvaro Cunqueiro, a Galiza, Mondoñedo ou o que fui lá fazer (fica para outra altura). Acontece que hoje não quero falar da realidade concreta do mundo. Hoje quero apenas falar das palavras mais frágeis. As que não se pronunciam nos telejornais nem são capazes de descrever a viscosidade do crude. As palavras mais frágeis. Palavras de vidro que existem dentro dos poemas. Palavras que se partem e desfazem no ar e sobem às alturas e explodem e são cinza e lume vivo e neve e vento que arde junto ao rosto. Palavras que encontro no primeiro livro de Joaquim Cardoso Dias («O Preço das Casas», Gótica), um pequeno volume que só foi publicado agora, no fim de Outubro, mas que comecei a ler há muitos anos, no tempo em que o «DN Jovem» era a alegria das terças-feiras, feita de papel e textos escritos por nós, ainda às cegas, a tentar perceber o que é isso da literatura.
Nesse tempo, princípio dos anos 90, sabíamos que aquelas folhas editadas pelo Manuel Dias, com um esmero e entusiasmo infinitos, poderiam trazer – por entre as vozes ainda em esboço (como a minha e a de muitos outros) – o brilho de alguns textos definitivos: os contos do José Riço Direitinho, as parábolas do Agualusa, as prosas perfeitas do Alexandre Andrade ou os poemas do Joaquim Cardoso Dias (alguns dos quais estão, intocados, neste «O Preço das Casas»). Os versos do rapaz de Castelo Branco eram súbitos clarões de uma beleza estranha, oblíqua, impalpável. E talvez por isso muita gente os aprendia de cor, com um espanto próximo do que mereciam os monstros sagrados (como Herberto ou Sophia).
Mas, depois, os anos foram passando e o livro do rapaz de Castelo Branco, o primeiro livro que todos esperávamos ansiosamente, não chegou a aparecer. Quem o conhece de perto (e eu conheço) sabe porquê: há nele uma insegurança primordial, uma exigência e um recato que não são deste tempo, deste Portugal onde reinam os egos medíocres e hipertrofiados. O Joaquim é, se a expressão faz sentido, um poeta à moda antiga. Hipersensível, delicadíssimo, poético mesmo nas coisas mais prosaicas da vida. Sei, por exemplo, que ele cultiva frésias no quintal, em cada primavera, e as envia por correio, muito bem embrulhadas, para outro poeta à moda antiga, Eugénio de Andrade, que fica triste se elas não chegam ou se atrasam. Sei também que trocava cartas quase todos os dias com o Al Berto, amigo a quem dedicou, ainda antes de se conhecerem, um dos seus melhores poemas («Set of Blades», no fim do qual pôs a frase: «este é, talvez, o poema da página 566 de "O Medo"»).
Ao longo dos anos, o círculo de amigos e admiradores – houve quem dissesse que era o «melhor poeta português ainda inédito» – insistiram muito para que publicasse. Mas ele foi adiando sempre a sua estreia literária. «Ainda não chegou a hora», explicava. E nem o persuasivo Manuel Hermínio Monteiro o conseguiu levar, como queria, para a Assírio & Alvim. Agora, depois de muitos vagares e hesitações, o livro existe. Finalmente. Tem um título que faz lembrar Ruy Belo (poeta a quem o autor pediu emprestados os versos da epígrafe), reúne muitos dos poemas já conhecidos (do «DN Jovem», de revistas, de antologias) e foi dedicado, talvez com uma pontinha de remorso, ao «pai» da «Rosa do Mundo».
Se quisermos resumir tudo numa palavra, esta é uma poesia que se move «com a velocidade de uma doença fixa»: o amor. O amor total, armadilhado, maldito, necessário, improvável. O amor que é um fio de luz que aproxima (ou afasta) dois corpos. O amor que leva à «cegueira dos afectos», à loucura e à perdição. O amor que está no centro de tudo, como um aleph terrível e sem sentido, o caos que consome toda a energia do universo. O amor que é júbilo, entrega, súplica e desespero. O amor (ou a sua ausência) como única realidade possível. Sim, todos os poemas deste livro são sobre o amor (mesmo os que não parecem ser). E todos se dirigem a um «tu sem nome», que é visto como um bem inatingível («queria tanto saber/ mostrar-te o meu coração») ou um mal incurável («já não tenho comprimidos para te esquecer»). Cada poema é um espelho partido, um turbilhão de imagens fragmentadas que se expandem e entrechocam, uma deriva sem princípio nem fim.
Joaquim Cardoso Dias escreve desassombradamente sobre o que existe de mais íntimo na experiência humana: a dor, o desejo, o medo, a solidão. E não teme o que outros temeriam: dizer a palavra amo-te muitas vezes, narrar o silêncio de um corpo abandonado, repetir que chora baixinho. Há em tudo isto uma enorme violência emocional e uma desmesura que nunca deixa de ser lírica. Veja-se o exemplo de «How try say», um poema muito breve: «odeio-te/ corto os pulsos/ escrevo o teu nome num frasco de mel// já não sei ouvir se me estás a ouvir».
«O Preço das Casas» é um belíssimo e magoado livro de poemas. E é, também, um paradoxo. Na literatura portuguesa, poucas vezes alguém se terá exposto tanto com tamanho pudor.

15:36  
ÚLTIMA AULA, ENTRE ÁRVORES
1. No cerimonial que acompanha a derradeira lição de um professor ilustre, há sempre algo de profundamente melancólico – para não dizer fúnebre. Sabem como é: um anfiteatro repleto de vultos silenciosos (o silêncio como sinónimo de reverência, de respeito), o grande quadro de ardósia ao fundo e o velho mestre transmitindo, com pausas estudadas, o que resta da sua sapiência. Há um lado triste nesta solenidade toda, uma atmosfera de velório, um cheiro a cera e coroa de flores. É como se o abandono da cátedra fosse o capítulo final de uma obra fechada, o adeus definitivo e sem retorno. Após uma vida inteira de estudo, criação e magistério, o mestre é carinhosamente empurrado para a reforma: isto é, para a suave decadência e, nalguns casos, para o esquecimento. Talvez exagere um pouco no retrato, mas foi sempre assim que entendi esta espécie de homenagens «pré-póstumas» (como diria Robert Musil) aos eméritos professores das nossas faculdades.
Por isso, quando um e-mail amigo me avisou da jubilação do Prof. Fernando Catarino, no passado dia 9 (sábado), temi o pior. Não o imaginava de toga, na penumbra de um salão nobre, a declamar um discurso muito ensaiado. Foi então que li melhor o «programa» e pude serenar. Atingido o limite de idade (70 anos), o docente do Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências de Lisboa (Universidade Clássica) despedir-se-ia da vida académica com uma aula sobre «As plantas na sua adaptação ao meio ambiente». Só que, atenção, uma aula dada ao ar livre, no Jardim Botânico do Museu de História Natural (que tem sido um dos centros da sua vida e de cuja direcção também se vê forçado a abdicar). Uma aula no Jardim, circulando entre as «suas» árvores? Quem conheça o Prof. Catarino, sabe que esta era a única despedida possível.

2. Às 9 e 30 da manhã, junto ao edifício da antiga Escola Politécnica, acotovela-se uma razoável multidão. Várias centenas de pessoas – alunos, ex-alunos, outros professores, amigos – acordaram mais cedo para ouvir este homem que fala, no cimo da escadaria de pedra, como se estivesse no campo, arrancando folhas às árvores para explicar, com gestos abertos, alguns dos mais fascinantes segredos da Botânica. A assistência conhece-o e por isso sabe que a sua última aula só podia ser igual às outras todas: um fluxo de conhecimentos que se vão encaixando uns nos outros; um permanente vaivém entre teorias gerais e casos concretos; uma espécie de festa do saber à solta, livre de quaisquer rédeas, sempre com muitos apartes, parêntesis e desvios.
Estas interrupções, como qualquer ex-aluno recordará, instalam um certo caos no seu discurso e levam-no a perder, várias vezes, o fio à meada. No fim, porém, chegamos sempre à conclusão de que aprendemos muito mais enquanto andávamos perdidos, por atalhos e bifurcações, do que no conforto aborrecido da linha recta. Em pé no topo da escadaria de pedra, com a multidão atenta às modulações da sua voz, Fernando Catarino está no seu elemento e demonstra porque razão é considerado um comunicador nato: sabe dominar o tempo das frases, as pausas, os silêncios, os momentos de descompressão e humor.
Mas pode um cientista ser também um «entertainer»? Pode, claro que pode. Nalguns casos até deve, quando é a única maneira de cativar uma audiência relutante. Sem pôr em causa o rigor científico, o Prof. Catarino sempre soube divertir os seus alunos e não veio mal ao mundo por causa disso – antes pelo contrário. No sábado, aliás, ele próprio alertou para o duplo sentido da palavra «jubilação». Confiram no dicionário: quer dizer «aposentação honrosa de professor catedrático» mas também «grande alegria, júbilo, contentamento». Significa uma coisa e a outra. Ou então as duas em simultâneo, como pude constatar no fim da cerimónia, ao ver tanta gente a sorrir e a comer castanhas assadas, por entre as árvores do Jardim...

3. Era inevitável. No meio da multidão, encontrei vários antigos colegas de curso, todos estudantes de Biologia que se tornaram mesmo biólogos e que toleram, nem sei porquê, um miserável trânsfuga como eu. Relembrámos, é claro, as aulas de Biologia Vegetal do Prof. Catarino, no primeiro ano. Começavam às oito da manhã em ponto, o que exigia um sacrifício absurdo a quem vinha de longe e era obrigado a atravessar o Tejo num cacilheiro. Depois de vencidos o sono, o autocarro, o rio e o eléctrico, lá me sentava nos vetustos bancos de madeira, cobertos de tatuagens azuis desenhadas com BIC cristal. Lembro-me do Catarino a enfrentar os nossos 300 pares de olhos aturdidos, explicando o conceito de «black box». Lembro-me de tirar fotocópias do Jensen (era assim que apelidávamos os livros de estudo, pelos apelidos dos seus autores) e de sublinhar as sebentas da Open University na pastelaria Cister, quando as conversas com a Carlota ou com a Adelaide não me levavam para outro lado. E lembro-me, sobretudo, das saídas de campo. As míticas e épicas saídas de campo. O Prof. Catarino a abrir caminho, à força, na vegetação densa da Matinha de Queluz. Ou na Arrábida, subindo as encostas com um passo rapidíssimo que não conseguíamos acompanhar, enquanto a vegetação à nossa volta ganhava nomes em latim e se tornava, de repente, uma coisa ordenada e lógica. Lembro-me ainda de um fim de tarde em que nos sentámos todos, lá no alto, no lugar onde se vê o Tejo de um lado e o Sado do outro. O professor sacou de um livro que não era o Jensen. E leu-nos Sebastião da Gama e Camões.

4. No fim da última aula, depois de ter passado em frente da enorme «Ficus», a árvore emblemática do Jardim, com quem fala todos os dias; depois de nos ter mostrado uma cesta cheia de «Phalus impudicus» (um fungo que faz jus ao nome que Lineu lhe atribuiu); depois de ter evocado os seus mestres (o Prof. Resende, o Prof. Serra) e elogiado os seus discípulos («os currículos deles já são muito melhores do que o meu»); depois dos agradecimentos e dos momentos de comoção; o Prof. Catarino disse, com a sua voz inconfundível, que se reforma mas vai «continuar por aí para as curvas». As suas curvas. Vai descansar, ler, viajar e devolver à família o tempo que a sua carreira lhe roubou. Depois, sem pressas, continuará a fazer o que melhor sabe: divulgação científica, com rigor e um entusiasmo «à la» David Attemborough. Projectos não faltam, nomeadamente um guia definitivo do Jardim Botânico. Sobre isto tudo e as memórias do seu percurso (que não cabem numa crónica), havemos de falar um dia destes, ali mesmo, no mais belo labirinto verde de Lisboa. E eu prometo aos leitores do DNA que levarei comigo, nesse dia, o gravador.

15:35  
A INVENÇÃO DA MÚSICA
1. Primeiro aviso: este texto não é uma crítica literária. É uma crónica sobre dois livros – «Uma Casa na Escuridão» (romance) e «A Casa, a Escuridão» (poesia) – publicados em simultâneo no final de Outubro, pela Temas e Debates. Segundo aviso: o autor dos dois livros, José Luís Peixoto, é um dos meus melhores amigos. Quando um dos nossos melhores amigos publica um livro (ou dois, é a mesma coisa) há sempre um dilema. Falamos ou não falamos sobre o que ele escreveu? Para mim, o dilema desfaz-se desta maneira: se me entusiasmei mesmo com o que li, se fiquei convencido de que a obra é importante e se me sinto capaz de a defender, falo; mas se o livro me desiludiu e não sei como o dizer (sem magoar), calo. Entre o silêncio e o equívoco, é sempre preferível o silêncio. Terceiro aviso: o facto de eu gostar muito destes livros é independente do facto de conhecer muitíssimo bem o seu autor (às vezes até nos pequenos gestos). Os dois factos são independentes, sublinho; eu é que não consigo separá-los. Por isso, num texto que se recusa a ser uma crítica literária, decidi manter essas duas esferas – a da leitura e a da amizade – assim mesmo: inseparáveis.

2. É preciso compreender que «Uma Casa na Escuridão» não é, para mim, apenas mais um romance que se lê e arruma na estante. Desde o final de 2000 – quando discutimos pela primeira vez a estrutura do livro, numa viagem de carro, para o Porto – assisti a muitos momentos da génese desta obra. Lembro-me do Zé Luís a ler uma página acabada cinco minutos antes, emocionadíssimo na varanda de um sexto andar da Av. 5 de Outubro, a noite muito escura sobre os telhados de Lisboa. Lembro-me de o ver à volta do texto, trabalhando-o, num monte alentejano perto de Beja (era verão), com os Rammstein aos berros na aparelhagem. Lembro-me dele, sentado a escrever os poemas de «A Casa, a Escuridão», num apartamento T0 da rua Bleiweisova, em Zagreb, entre pilhas de livros e restos do almoço, a chuva fustigando a janela e eu sentado no sofá, a fazer planos para a viagem de comboio até Ljubljana. Lembro-me de comprar um pequeno livro com quadros do Caspar David Friedrich na livraria Algoritam, ainda em Zagreb, e o Zé Luís a folheá-lo, a abrir muito os olhos e a dizer «é esta, é esta a imagem que quero na capa do livro» – e ela lá está: um portão de ferro que dá para as sombras da morte. Lembro-me de avançar pela leitura do manuscrito (uma pilha de folhas em cima da minha mesa), de fazer notas e sugestões, elogios e críticas, de sublinhar certas passagens, de caçar gralhas. Ao reler o livro, agora, foram também essas memórias que reli.

3. «Uma Casa na Escuridão» é um livro que transporta, como um fardo, o peso de «Nenhum Olhar», esse magnífico romance de estreia que deu ao José Luís Peixoto, desde logo, uma posição de destaque na literatura portuguesa contemporânea. O segundo romance é sempre um risco, porque desaparece a complacência dos críticos e porque alguns destes, ainda antes de lerem o livro, já afiam as suas facas. Depois de uma glória tão súbita – «Nenhum Olhar» venceu o Prémio Saramago, foi finalista do Prémio APE e está traduzido em várias línguas – era compreensível uma certa precaução. Em vez disso, JLP olhou em frente e não teve medo de caminhar, o tempo todo, no fio da navalha. A sua escrita está sempre à beira de se desfazer. É uma teia de aranha – sólida apesar da aparência frágil – tecida sobre um abismo muito negro. É a desmesura que fica na fronteira instável entre o sublime e o banal. «Uma Casa na Escuridão» pode ser lido de muitas formas: como uma parábola, como uma sucessão de pesadelos ou como a história de um mundo que é pura «cosa mentale», delírio de um espírito perturbado. Ou pode ser simplesmente «um espelho de escuridão a reflectir apenas escuridão». Ou, ainda, a narrativa da impossibilidade das coisas mais belas e puras. O amor. A inocência. Quarto aviso: quem veja nesta obra apenas a laboriosa reprodução de um estilo (assente nas já famosas repetições de palavras, frases e ideias) ou quem veja nesta obra apenas uma gratuita galeria de horrores (um horror muitas vezes no limite do suportável), não vê nada.

4. Admito que depois da cena final apocalíptica – como apocalíptico e niilista era o desfecho do primeiro romance – o leitor possa ficar como que encandeado pelo lado sombrio da história. Após a leitura, ninguém consegue esquecer a visão dos invasores, com as suas barbas até à cintura e roupas de metal, homens selvagens que falam uma língua só de vogais e mutilam e violam sem que saibamos porquê. É impossível não lembrar a morte horrenda do editor, o suicídio da mãe, o massacre das crianças ou o grupo dos mutilados (um sem mãos, outro sem pernas e braços, outro sem coração). Mas, no meio de tanto negrume, dentro do mês da noite e no silêncio da grande casa coberta de hera e cheia de gatos, há também momentos de luz que ganham, talvez pela escuridão que os cerca, maior brilho. É o caso da amizade absoluta entre o narrador e o príncipe de calicatri. Ou a história de amor – tão bela, tão triste – entre o príncipe de calicatri e a escrava miriam. Ou a invenção da música. No país bizarro deste romance, onde a escravatura e as armas arcaicas coexistem com auto-estradas e esferográficas, onde há filas à porta das livrarias mas os editores são mais desprezados que os ladrões, neste país assolado pela violência mais extrema, não existia a música. Um dia, alguém a inventa «como uma flor/ a florir desmedida, como uma cidade secreta/ a levantar-se do chão». A música é uma arma contra o caos. Talvez a única que subsiste, mesmo após a morte de tudo. E a escrita de José Luís Peixoto, desde o primeiro livro («Morreste-me»), é também uma invenção da música. A música das palavras contra o caos do mundo.

5. Releio os dois livros. O romance e os poemas. São duas linhas paralelas, atravessando o mesmo universo e as mesmas personagens. São talvez gémeos siameses como Moisés e Elias (os irmãos de «Nenhum Olhar», unidos pelo dedo mindinho). Cada um destes livros poderia dizer o que diz, sobre a mãe, o narrador de «Uma Casa na Escuridão»: «Éramos dois espelhos virados um para o outro. Éramos, cada um de nós, um espelho que reflectia o espaço infinito do interior de outro espelho. Entre nós, não havia distância porque éramos atravessados um pelo outro. Fazíamos parte de um lugar infinito que era igual em cada um de nós». É para esse lugar infinito, cheio de cintilações e sobressaltos, que José Luís Peixoto convoca os seus leitores.


15:35 10.1.03  
KURSK
1. Em Julho de 1988, ainda havia no mundo dois blocos, dois sistemas económicos, duas super-potências. O muro de Berlim ainda dividia a Europa (embora Gorbachev já estivesse no poder, agitando palavras mágicas como «glasnot» e «perestroika»). Os atletas da URSS ainda ganhavam o maior número de medalhas olímpicas (só de ouro: 55) nos Jogos disputados em Seoul. Ainda se falava de guerra fria, de equilíbrio geo-estratégico, de dissuasão nuclear. E eu contemplava, todos os dias, na imensidão azul do Báltico, a elegância portentosa do Sedov e do Kruzenshtern, dois navios-escola que eram o orgulho da Marinha soviética. Lembro-me sobretudo do Sedov, um monstro branco de quatro mastros e 117 metros de comprimento (a merecer registo no Guiness), um verdadeiro gigante dos mares, sobretudo quando içava ao mesmo tempo todas as velas e mais parecia uma nuvem imensa a pairar à flor das águas. Lembro-me particularmente bem do Sedov porque o Creoula – um lugre português de «apenas» 67 metros, com uma inexperiente mas esforçadíssima tripulação de jovens aprendizes – ficou atracado atrás dele, em Copenhaga, no intervalo entre duas regatas da «Cutty Sark Tall Ship Race» daquele ano. Nós, adolescentes portugueses que nunca antes estivéramos cinco dias sem ver terra, marinheiros de água doce a aprender tudo do princípio (o que é uma tempestade, o que são ondas de dez metros), olhávamos admirados para a disciplina e organização dos grumetes soviéticos. Quando subíamos ao convés pelas oito da manhã, para nos perfilarmos na parada, eles já esfregavam com afinco as placas de metal dourado, ou trepavam aos mastros em segundos, ou enrolavam cabos com uma perícia e velocidade espantosas. Eram todos altos, eram todos louros, eram todos impossivelmente fortes e musculosos. Para nos humilharem, faziam o pino e flexões e piruetas e mortais encarpados. Só lhes faltava o pó de talco nas mãos e camisas vermelhas a dizer CCCP para serem cópias fiéis, ou mesmo clones, dos ginastas que subiam ao pódio e ouviam o hino, a milhares de quilómetros de distância. Numa prova de remo, em que tivemos a infeliz ideia de participar, vimo-los a distanciarem-se nas águas paradas do porto de Copenhaga (ainda hoje suspeito que recorreram a um motor invisível) enquanto nos limitávamos à acesa disputa do penúltimo lugar, com a tripulação feminina do navio inglês «Winston Churchill», a quem ganhámos por uma unha negra. Quando deixámos a Dinamarca, em direcção ao Mar do Norte, reparei na popa arredondada do Sedov. Numa placa impecavelmente polida, estava escrito o porto de origem: Murmansk.

2. Antes de entrar no submarino nuclear Kursk, para cinco dias de manobras militares, o oficial Dmitri Kolesnikov escreveu a Olga, uma professora de Biologia com quem casara três meses antes, um poema tão breve e ingénuo quanto sincero e premonitório: «Se chegar o tempo de morrer, embora tente não pensar nisso, quero ser capaz de dizer, minha querida eu amo-te». Quando Olga recebeu a mensagem, no dia 12 de Agosto de 2000, esse abstracto «tempo de morrer» passara a ser uma realidade concreta. No fundo do mar de Barents, após ter sobrevivido às duas explosões violentíssimas que mataram 95 tripulantes e danificaram irreversivelmente o submarino, Kolesnikov esperava cada vez menos o milagre de uma salvação «in extremis» e cada vez mais a lenta sombra da morte. Fechado com outros 22 sobreviventes no compartimento 9, um dos poucos onde a água não chegou, era ele o chefe que restava depois da catástrofe, o único que podia dar ordens àqueles homens silenciosos, condenados a resistir ao frio, ao desânimo e aos gases venenosos. Mesmo na escuridão total, mesmo escrevendo às cegas, o oficial Kolesnikov (nome que parece saído de um romance de Dostoievsky) continuou a redigir relatórios sumários do que se passava, anotando as horas exactas («13h15», «13h34») no canto superior direito das folhas e guardando o caderno numa pasta à prova de água, para que alguém um dia pudesse refazer – pelo menos em parte – a história do naufrágio. O bom soldado é o soldado capaz de ser zeloso até ao fim, mesmo quando a esperança desapareceu e já nada importa.

3. Há dois anos, em Agosto, eu estava de férias. Dividia-me entre as tardes ventosas na praia de Melides, a leitura dos muitos livros que haviam sobrado do inverno anterior e o sublime pato assado da D. Antónia (uma especialidade da «Caverna do Tigre», um improvável restaurante de estrada que merece, da minha parte e de alguns amigos, frequentes e jubilosas peregrinações gastronómicas). Estava de férias quando o acidente se deu. Ávidos de notícias, os jornais e televisões falaram do Kursk e do destino dos seus marinheiros durante dias, a todas as horas. Eu vi, eu ouvi, eu li, eu imaginei. O Kursk pertencia à base de Murmansk, sede da Frota do Norte. Murmansk. Foi então que me lembrei do Sedov. Lembrei-me dos grumetes a fazerem o pino e a simularem exercícios nas argolas que não havia. Alguns daqueles marinheiros podiam agora fazer parte da tripulação do Kursk. Engoli em seco e senti-me subitamente minúsculo, como o Creoula ao pé do gigantesco navio – branco, tão branco – que chegava a parecer, com as velas enfunadas, uma nuvem a pairar à flor das águas.

4. Quando os mergulhadores conseguiram entrar no Kursk e recuperar os corpos, vários meses após o acidente, descobriram o caderno de notas num dos bolsos de Kolesnikov. Dois anos depois da tragédia, ainda não se sabe exactamente como morreram os 23 homens. Há quem diga que resistiram oito horas, há quem fale em cinco dias. As últimas palavras do homem com nome de personagem de Dostoievsky, escritas quando o oxigénio se esgotava, foram para os familiares mais próximos. Depois de enviar cumprimentos à sogra (presume-se que sem ironia), dirigiu-se a «todos» com um pedido: «Não desesperem». Olga gostava de obedecer mas é incapaz. O mundo deixou de existir naquele dia de Agosto. E como naquele dia, as palavras do poema ainda ardem nas suas mãos, nos seus olhos, no seu coração afundado.

16:27  
O FESTIVAL
Eu estava sentado na terceira fila. Por baixo de mim, a dureza do banco de madeira, a ser mais um degrau da grande plateia erguida na Escola D. António da Costa, desde há muitos anos o «coração» do Festival de Teatro de Almada. Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite. À minha volta, o silêncio do público. O silêncio de quem está preso ao que se passa em cima do palco e gosta de se sentir assim: preso. À minha frente, o palco. O palco iluminado. Luzes de projectores como se fossem o sol na Inglaterra do séc. XVI. O palco sem nada. Nenhum cenário, nada, nem sequer uma cadeira. Só um homem e a sua mala. Um homem mais a sua mala (de vez em quando pousada no chão; de vez em quando aberta para tirar, lá de dentro, um pano ou uma máscara). E as palavras. As palavras de Tubal – a personagem – ditas por Manel Barceló, o actor.
Eu não conhecia Tubal e creio que o público silencioso – muitas cabeças no escuro, à minha volta – também não. Porque Tubal é uma das mais obscuras personagens de Shakespeare, com um papel ainda menos importante, no enredo do «Mercador de Veneza», do que o de Rosencrantz e Guildenstern na trama de «Hamlet». Antes de ser resgatada por este brilhante monólogo de Gareth Armstrong, Tubal era uma sombra fugaz que durava oito réplicas. Oito frases num diálogo com Shylock, o judeu que empresta dinheiro a António, o mercador, exigindo uma libra da carne deste como penhor. Tubal não é apenas o melhor amigo de Shylock. «Sou o único», diz com orgulho, uma e outra vez. É talvez por ser seu amigo que tenta mostrar-nos outra imagem do «judeu maldoso», livrando-o do labéu diabólico e aproveitando para fazer a exegese desta peça de Shakespeare (devidamente enquadrada na restante obra do bardo, bem como no contexto do teatro isabelino), isto enquanto narra as desventuras e tragédias da História dos judeus na Europa.
Estava portanto sentado na terceira fila, contemplando Tubal a desmultiplicar-se em narrativas dentro de narrativas, transfigurando-se em 43 personagens diferentes – actores, bispos, soldados, o próprio rei – quando aquilo aconteceu. E não sei sequer explicar o que cabe na palavra «aquilo». Foi talvez uma frase dita num murmúrio, um gesto brusco, uma risada, o som da enorme mala a poisar nas tábuas. Foi qualquer coisa que accionou subitamente os mecanismos da memória, uma versão teatral da madalena de Proust. Sei apenas que me ausentei por momentos dali, da terceira fila. E regressei aos meus 12 anos.
Em 1984, eu tinha 12 anos e assisti ao primeiro Festival de Teatro de Almada. Era outra coisa, muito mais pequena, muito mais modesta. Um palco diminuto, ao fundo do Beco dos Tanoeiros, cadeiras de café em ferro (emprestadas daqui e dali), cem pessoas no máximo a assistir, mais as que espreitavam das janelas. Grupos amadores, erros e ingenuidades, uma alegria imensa de ver o mundo a ganhar forma sobre o palco. Depois, fui crescendo e o Festival também. Recordo todos os lugares por onde passou, por onde passámos: o Pátio do Prior do Crato (sempre à cunha; e mais ainda quando lá foi o Mário Viegas), o Largo da Boca do Vento (com as primeiras companhias estrangeiras), o Palácio da Cerca (inclinado sobre Lisboa, recebendo as brisas frescas que sobem do Tejo), o Teatro Municipal e, por fim, a Escola D. António da Costa. A minha antiga escola, a escola onde fiz o ensino preparatório. Abre-se uma memória dentro da memória e revejo as tropelias, as corridas, os cromos com as caras feias dos futebolistas, o jogo do alho, o cerco às raparigas (na fase dos apalpões), as conversas com o meu amigo Prakash Pratapsi Udeshi, um matulão indiano que viera de Moçambique (às vezes ainda tomava banho com leite de cabra, dizia ele) e que foi o meu adversário, vencido, na final do campeonato escolar de xadrez.
Recordo-me depois dos espectáculos que me marcaram. E foram tantos. De alguns perdi as referências: aqueles quatro actores que simulavam um quarteto de cordas (como se chamava a peça? de onde vinham eles?) ou o grupo que interpretou magistralmente a peça «O Aumento», de Georges Perec. De outros lembro-me bem: o actor Rafael «El Brujo» Alvarez a levar ao rubro o Palácio da Cerca, com o seu esfomeado «Lazarillo de Tormes»; os «Touros, Majas y otras Zarandajas», do colectivo Margen (Oviedo), a incendiarem as ruas de Almada; a hipnótica «Viagem ao Centro da Terra» no comboio transfigurado dos chilenos La Troppa; a poesia de Lorca dita por Núria Espert; as principais peças das grandes companhias portuguesas; ou os trabalhos recentes dos melhores encenadores europeus (Peter Brook, Joan Font, Bernard Sobel; a lista é longa).
Em todos estes anos – sou testemunha credível, porque não falhei uma edição que fosse – há uma figura que permanece no centro das operações e é a própria essência do Festival, mesmo quando se esconde atrás das cortinas para dar a ribalta aos actores. É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos. Chama-se Joaquim Benite e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras. Quando o encontro, junto ao portão da escola, dando as boas-vindas aos espectadores, orgulhoso das peças que lhes vai oferecer logo a seguir, percebo que nem todos os caminhos da cultura estão condenados a terminar no deserto da frustração. Eu vi a barba deste homem a ficar branca com o passar do tempo, esse rio feito de júbilos, sustos, dúvidas, esperanças, inquietações. Mas vi também que o brilho dos seus olhos nunca esmoreceu. É hoje mais intenso do que nunca.
Intenso como a voz – agora triste, agora carregada de melancolia – do actor Manel Barceló, aliás Tubal. A peça está a terminar e ele acaba de explicar-nos a forma repentina como Shylock desaparece dos diálogos finais do «Mercador de Veneza». O judeu, vencido no tribunal, mergulha no seu próprio infortúnio, cai na sombra da perdição. E eu desperto da minha viagem no tempo, enquanto Tubal se afasta com a sua mala, desaparecendo aos poucos na penumbra do palco. À minha volta, o silêncio do público desfaz-se. Aplausos, pessoas de pé, mais aplausos. Eu continuo na terceira fila, levanto-me, grito «bravo». Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite.

16:25  
OUTROS FUTEBÓIS
Quando Pierluigi Collina, o árbitro italiano da careca reluzente, apitou para o fim do Brasil-Alemanha, senti uma espécie de alívio. OK, está tudo decidido, o Brasil ganhou (era isso que a FIFA queria, não era?), «sayonara» e até à próxima. Após um mês de massacre mediático, com jogos e resumos a todas as horas, mais as reportagens, as conferências de imprensa e os «fait divers», podemos finalmente voltar à normalidade. É que o nosso mundo tem a forma de uma bola de futebol, mas não é uma bola de futebol. Aliás, indiferente aos golos de Ronaldo e à euforia verde e amarela, continuou a girar em torno do sol, exactamente à mesma velocidade e com os mesmos problemas que tinha antes da arrancada feliz do Brasil, em direcção à glória do pentacampeonato.
Durante uns dias, estou certo, sofreremos ainda a ressaca da obsessão colectiva com o pontapé na bola, esta loucura universal que degenerou, por cá, naquilo que sabemos: uma patética esquizofrenia da derrota – tão feia, tão boçal, tão fatalista e tão vergonhosa que o melhor mesmo é esquecê-la (tentando, pelo menos desta vez, aprender com os erros). Mas depois, aos poucos, regressará a realidade que ficou suspensa, em segundo plano, provavelmente ainda mais crua e brutal. E não restarão cortinas de fumo para encobrir o cenário de uma crise económica cuja verdadeira dimensão ninguém consegue entrever, apesar dos muitos sinais: as falências em série nos EUA, a desorientação política de uma Europa incapaz de resolver o problema da imigração (já para não falar das fronteiras internas que «reaparecem» da pior maneira), a instabilidade bolsista ou os nossos 3,9% de défice.
Não pretendo com isto menosprezar a importância do futebol enquanto fenómeno global. Um desporto só consegue prender aos ecrãs da TV metade da população do planeta – mesmo a horas impróprias, devido aos fusos horários – se existir, na essência do jogo, um qualquer efeito aglutinador que não podemos ignorar. É fácil dizer que o futebol é o novo «ópio do povo», um gigantesco negócio (com potenciais ramificações mafiosas) ou um substituto pagão dos ritos religiosos. Mas isso implica esquecer que este desporto atravessa transversalmente as sociedades, atraindo todo o tipo de pessoas, do torneiro mecânico ao exegeta de Wittgenstein, do aristocrata falido ao comunista que ajuda a erguer, todos os anos, a Festa do Avante.
Como escreveu o antropólogo Christian Bromberger, num livro esclarecedor logo no título («Football, la bagatelle la plus sérieuse du monde», Bayard Éditions), este jogo «apresenta-se, sob a aparência de um divertimento fútil, como uma das matrizes simbólicas mais profundas do nosso tempo». As suas regras e os seus rituais permitem-lhe «uma pluralidade de leituras e metáforas (da exaltação das virtudes nacionais à glorificação do trabalho de equipa), de reacções emocionais (do riso à angústia) e de modos de participação (do fervor ruidoso à mera contemplação estética)». Talvez como em nenhum outro desporto, oscila-se aqui «entre o trágico e o cómico, a festa e a guerra, o serão mundano e o esforço militante». E talvez como em nenhum outro espectáculo, podemos ir da epopeia à farsa e do desastre à redenção, em apenas 90 minutos.
O futebol é popular e universal (ia dizer democrático) porque imita a vida. Tal como ela, é aleatório, imprevisível, por vezes cruel. Há bolas que batem na trave, «penalties» falhados no último minuto, injustiças que o tempo não apaga. O futebol, apesar das tácticas e dos treinos científicos e dos investimentos milionários dos grandes clubes, nunca deixa de ser o território de todas as possibilidades. A lógica prevalece quase sempre, mas também se verga, quando a equipa amadora vence um «grande», quando os craques pagos a peso de ouro falham no momento decisivo, ou quando certos jogadores medianos se mostram capazes de uma súbita jogada de génio. A famosa expressão segundo a qual «a bola é redonda e há 11 jogadores de cada lado» pode ser uma evidência redundante, mas não deixa por isso de ser verdadeira. Aliás, é curioso constatar que a linguagem futebolística, tantas vezes pobre e repetitiva, corresponde na perfeição àquilo que o futebol acaba por ser: um imenso lugar comum (às vezes irresístivel; às vezes insuportável).
E isto traz-me de volta ao princípio, ao Mundial anémico a que tivemos direito este ano. Durante a final, ainda tentei enumerar os momentos altos da prova mas não consegui fixar nenhum. Pior, tive muitas saudades de outros tempos: 1982 (lembram-se da meia-final França-RFA, digna de Homero?); 1986 (a geometria variável dos passes de Maradona, mais aquele segundo golo à Inglaterra – ó deuses, que maravilha!); e 1998 (os «bleus» de Zidane como um mecanismo quase perfeito).
Na Coreia e no Japão, registo algumas surpresas agradáveis (Senegal; Turquia) mas a verdade é que a prova se esvaziou, em termos de qualidade técnica e emoção, após o abandono precoce da França e da Argentina, os dois únicos legítimos favoritos. O balanço é penoso: houve pouco futebol, pouca magia, pouca criatividade, poucas inovações tácticas e demasiados erros dos árbitros. Salvam-se as revelações: o turco Hasan Sas (para mim, o melhor jogador do torneio), o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, o senegalês Fadiga, o mexicano Torrado e o espanhol Joaquín. De resto, só vi jogadores fraquinhos e vedetas exaustas (às voltas com os seus contratos publicitários e os penteados extravagantes). Não espanta por isso que o Brasil tristonho e sortudo de Scolari – muito mais eficaz do que «artista» (Ronaldo foi uma sombra de si mesmo, embora uma sombra goleadora) – tenha chegado e sobrado para ganhar o penta à pior Alemanha de sempre (quando o melhor jogador é o guarda-redes, está tudo dito).
O futebol vai continuar a ser um fenómeno global. Um negócio. Um escape. Um lugar de catarse, de partilha ou de alienação. Mas, até 2006 (onde renascerá como espectáculo vibrante, espero eu), era bom que o reduzíssemos de novo à sua insignificância. Até porque é impossível que um mês inteiro de pontapé na bola, com 64 jogos e alguns prolongamentos, não sature até o mais indefectível dos adeptos. Por mim, vou fazer um jejum prolongado. Não nego que gosto de ver uma bola a entrar, seguindo uma trajectória em arco, no ângulo superior direito da baliza. Mas a vida, a vida que me interessa verdadeiramente, não está ali. Nunca esteve. Está em lugares mais íntimos, mais obscuros, mais secretos. E assim me calo, porque isso já são outros futebóis.

16:25 9.1.03  
DEPOIS DE ZAGREB
Primeiro, nuvens. A trajectória descendente do avião, o aeroporto tão pequeno – minúsculo – para quem chega de Frankfurt. Uma mulher-polícia carimba o passaporte, mão rápida, cara fechada, nem uma palavra. Ao fundo, um escudo com quadrados vermelhos e brancos, ostensivo, lembra aos viajantes que acabam de chegar à Croácia, país independente e deveras orgulhoso da sua emancipação (separou-se das restantes repúblicas juguslavas em 1991). Ainda no aeroporto, transformo os euros em kunas, a divisa que veio substituir o dinar. Reparo que nas notas há perfis de matemáticos, músicos, enciclopedistas; as moedas inclinam-se mais para a botânica e para a zoologia. Olho à volta, atento à disposição dos objectos, às sinalizações, ao modo como as pessoas se vestem, à forma como falam ou cruzam os braços. Tudo isto me faz lembrar Portugal nos anos 80, antes da CEE e dos fundos comunitários (um Portugal que ainda existe – convém não esquecer – dentro do outro: o de 2002).
Arranca o autocarro, 17 quilómetros até ao centro da cidade, pelo caminho uma via rápida, as altas torres de Novi Zagreb e o Sava, estreito como o Sena em Paris. É esta a primeira surpresa. Imaginei o rio atravessando Zagreb, um rio onde as casas se pudessem debruçar. Nada disso. Ao contrário de Lisboa, a cidade ignora o Sava e vira-se antes para Sljeme, a bela montanha que a cinge, do lado norte, à maneira de um colo protector e maternal. Dizem-me que a vista de Zagreb, lá de cima, é um assombro. Mas quando subi no teleférico, um dia antes do regresso, só vi a brancura absoluta do nevoeiro, tão denso que ocultava por completo as copas das árvores, apenas uns metros abaixo. Por um instante, Zagreb voltou a ser imprecisa («Za-greb», duas sílabas arredondando-se na boca). E voltou a ser um mistério, um segredo, uma incógnita que o vazio branco – ao separar-nos do mundo – escondia.
Nessa altura, porém, a minha imaginação já fora contaminada pela cidade concreta, pela sua arquitectura, as suas formas, a sua luz. Dentro do teleférico, balançando sobre as árvores invisíveis e as ténues manchas de neve, refiz o percurso do primeiro dia. Depois do Sava, a estação dos comboios, com a estátua do rei Tomislav e os pináculos da catedral, lá muito ao longe. É ali que começa o núcleo (cultural, histórico, turístico e comercial) de Zagreb. As praças, amplas e elegantes, acolhem espaços verdes, jardins geométricos, muitas árvores. Os prédios são quase todos do séc. XIX, belíssimos exemplos de um estilo neo-clássico, todo ele frontispícios imponentes, colunatas, baixos-relevos, frisos trabalhados. E se fosse preciso confirmar a influência duradoura, política mas também estética, do Império Austro-Húngaro, bastaria atentar no tom amarelo-torrado dos grandes edifícios públicos (teatros, museus, ministérios). É como se a sombra dos Habsburgo nunca tivesse abandonado estes quarteirões. É como se ainda pudéssemos deparar, em qualquer esquina, com senhores de jaqueta, monóculo e bigode retorcido, acompanhando meninas de pulsos finos, sombrinha e cãozinho felpudo pela trela.
Em certo sentido, Zagreb aspira a ser Viena numa escala menor. Uma Viena melancólica, onde não faltam sinais de abandono, para não dizer decadência. Quem percorra as ruas com vagar, encontra facilmente paredes marcadas pelo tempo (ou pela incúria humana), fachadas enegrecidas, um pó antigo colado às coisas. Descobre isso, é certo, mas também uma tranquilidade que é cada vez mais rara nas grandes capitais europeias. Aqui, não há engarrafamentos no centro histórico, não há carros em segunda fila, não há arrumadores exigindo trocos. Nem sequer há turistas aos molhos, descendo dos autocarros, fotografando a esmo. Nas tardes soalheiras, as ruas enchem-se de esplanadas, as pessoas têm tempo para beber café umas com as outras, a atmosfera é leve, parece que se respira melhor.
Há também o centro do centro, um coração para onde tudo converge. A Trg Bana Josipa Jelacica (Trg é Praça). Por aqui passam os eléctricos azuis que são o principal meio de transporte de Zagreb; aqui combinam encontro os amigos quando querem ir a algum lado; aqui se juntam multidões para receber os heróis desportivos nacionais (a selecção de futebol, sobretudo, mas também a esquiadora Janica Kostelic, vencedora de quatro medalhas nas últimas Olímpiadas de Inverno); aqui se ouve a música do «Titanic», tocada em flauta de pã por dois peruanos; aqui se ergue a estátua equestre do general Jelacic (brandindo o sabre curvo, como se ainda comandasse as tropas croatas que derrotaram os húngaros, em 1848); aqui se abrem os caminhos que vão dar à parte alta da cidade. Subindo uns degraus, entra-se no mercado de Dolac, com as suas pirâmides de fruta. Depois, mais para cima, estende-se a zona dos bilhetes-postais: a catedral neo-gótica (reconstruída em 1880, depois de um sismo), a Igreja de S. Marcos (em cujas telhas se desenha, colorido, o escudo da cidade) e a estátua de S. Jorge a cavalo, com o dragão derrotado aos pés.
Neste momento, hesito. Não sei se devo convocar para este texto o que se passou fora de Zagreb. A viagem, num Opel Astra alugado, até Plitvice, reserva natural em que se sucedem lagos e cascatas, lagos e cascatas, lagos e cascatas – quase provocando, em quem a visita, uma «overdose» de beleza. A estrada para a fronteira, cheia de curvas e ameixeiras em flor. Já do outro lado, a cidade muçulmana de Bihac, onde ainda há buracos de balas nas paredes e se sentem os traumas da guerra (debaixo de uma oliveira, ouvi duas meninas cantando em bósnio, num tom inocente, estes versos terríveis: «Podes violar-me/ Podes matar-me/ A mim, tanto me faz»). Também não sei quantas frases mereceria o comboio para a Eslovénia, avançando debaixo de chuva, através de uma luz cinzenta. Nem quantas linhas ficaram por escrever sobre a visão crepuscular de Ljubljana, com o castelo lá no alto, um rio manso e a famosa ponte tripla.
Estou de novo em Zagreb, na esplanada do café Mala Kavana. A imagem que guardo da cidade, apercebo-me, é um somatório de fragmentos, alguns dos quais já não cabem nesta crónica. O museu Mimara, por exemplo, com a sua extraordinária colecção de pintura (Velásquez, Goya, Delacroix, Turner, Caravaggio, Renoir, El Greco, Canaletto, Manet, entre outros). Ou o cenário político pós-Tudjman: a complexa transição para a democracia, sufocada pelo peso do nacionalismo.
Quando ele olha para mim, faço um sinal ao empregado. Peço mais uma bica, um «kava espresso», o último antes do regresso a Portugal. Anoto algumas palavras no caderno preto. Imagino Lisboa. Em quantos fragmentos se divide a memória que tenho dela? Guardo a caneta no bolso do casaco. Pago o café. Apanho o eléctrico n.º 6. Em casa dos meus amigos (o português que escreve e a croata que lê), a bagagem já está preparada para o embarque.

19:42  
ANTES DE ZAGREB
Zagreb. Za-greb, Za-greb. Gosto de brincar com a palavra, arredondá-la dentro da boca. Za-greb, Za-greb. Como numa ladainha, como no lento soletrar daquele homem de nome duplo, Humbert Humbert, aquele ser trágico que Nabokov colocou à entrada de um romance magnífico, repetindo a palavra mágica, «Lolita, Lo-li-ta», desde logo em estado de perdição, desde logo suspenso sobre o abismo, desde logo ávido de uma luz impossível. Recomeço: Za-greb, Za-greb. Será que podemos embriagar-nos (ou enlouquecer) com o mistério de um nome, com a miragem de um corpo, de uma forma, de um segredo, de uma cidade? Quando murmuro Zagreb (inclinando a língua para trás: «Za-greb, Za-greb»), quando arredondo a palavra dentro da boca, qual é a realidade que se esboça na página em branco da minha memória, a memória vazia de um sítio que não conheço?
É preciso voltar atrás. É preciso dizer que escrevo na véspera de partir. Amanhã deixo Lisboa (mas não te esqueças, leitor: este «amanhã» já é passado, no presente da tua leitura). Amanhã chego a Zagreb. Haverá primeiro um avião a subir no azul do céu, através das nuvens, um avião com comida de plástico e hospedeiras sorridentes a repetirem pela enésima vez - coitadas - os mesmos gestos mecânicos na direcção das saídas de emergência. Depois, a espera em Frankfurt, essa encruzilhada de metal e vidro, essa Babel esmagadora. Depois, outro avião, outras hospedeiras - coitadas - a sorrir muito, talvez o mesmo azul do céu. Depois, Zagreb. Za-greb. E dois amigos à espera: um português que escreve e uma croata que lê (livros; mas também pessoas; mas também - à sua maneira - o mundo).
De Zagreb, não sei nada. Ou melhor, não sei quase nada. Sei que é a capital da Croácia, sei que tem cerca de um milhão de habitantes e um clube de futebol chamado Dínamo, sei que é atravessada pelo rio Sava. O resto é uma incógnita. E o gozo da viagem começa precisamente nessa incógnita, no que se esconde atrás do que não sei. Quem viaja, hoje em dia, tende a acumular demasiada informação sobre os sítios que visita. Antes da partida, compram-se roteiros e guias, consulta-se a Internet, fazem-se listas de museus ou monumentos «obrigatórios». Para quê? O que se ganha em segurança e conforto, perde-se em surpresa, em mistério, em espanto.
Quando visitei Berlim, por exemplo, lembro-me da sensação estranha de andar na rua à procura dos ícones que faziam parte do mito da cidade dividida: o muro (ou o que dele sobrou), os Trabants, a avenida Unter den Linden, o Reichstag, a Porta de Brandenburgo. No fundo, já conhecia tudo aquilo. Em Roma, a mesma coisa: a imagem do Coliseu que levava comigo, quis confrontá-la com a realidade de pedra (e a realidade de pedra triunfou). Noutra altura, vi punks junto a Picadilly Circus e esquilos no Hyde Park - o contrário é que seria estranho, não é? - mas para saber que estes são «clichés» londrinos não precisava de sair de Portugal. Eis um paradoxo curioso: todos nós, mesmo quando visitamos Paris ou Viena pela primeira vez, sentimos que já «estivemos» em Viena e em Paris. Porquê? Porque em todas as grandes cidades europeias há sempre uma rua qualquer, uma ponte, uma estátua, que faz parte do nosso património visual colectivo. Já as vimos muitas vezes, mesmo quando não sabemos se foi num filme ou num postal.
Zagreb, pelo contrário, é território virgem, intocado. Não conheço o nome de uma única das suas praças ou avenidas. Ignoro como são os seus bairros, as suas igrejas, as suas esplanadas. E quero que fique assim, numa espécie de limbo, pelo menos até amanhã. Não quero levar imagens dentro da cabeça. Não quero ir aos pontos turísticos - nem fugir deles. Quero descobrir Zagreb como quem abre os olhos devagarinho. Quero aproximar-me de Zagreb como Marco Polo se aproximava das urbes fantásticas de Kublai Kan (Armilla, Valdrada, Ersília, Aglaura, Zenóbia, Eudóxia, Bersabeia, Diomira...), descritas por Italo Calvino em «As Cidades Invisíveis». Ou seja, quero inventar Zagreb, a minha Zagreb. Agora, ela ainda pode ser o que eu quiser que ela seja. Um sonho, uma esperança, um arabesco desenhado no ar, uma utopia. Sim, há uma Zagreb secreta, com prédios e pombos e carros e pessoas, a nascer ao mesmo tempo que faço a mala. Uma Zagreb que cresce dentro da minha expectativa, como a borboleta dentro da crisálida.
Amanhã, logo à saída do aeroporto, temo que essa Zagreb se comece a diluir na Zagreb que os meus amigos, o português que escreve e a croata que lê, conhecem. Temo que no momento de desfazer a mala - como será o quarto onde arrumarei a roupa, os livros, o caderno preto? - já só reste a Zagreb real. Uma Zagreb de sílabas duríssimas, que não se parte («Za-greb») nem se arredonda na boca. De uma delas vos darei conta, espero, depois de regressar. Ou das duas, misturadas.

19:41  
DESCIDA AO INFERNO
A primeira vez que me deparei com uma fotografia de James Nachtwey foi na exposição «World Press Photo» relativa ao ano de 1994. Merecedora do prémio principal, a imagem era simplesmente terrível. Mostrava, visto de perfil, um homem negro com a cabeça cheia de cicatrizes e um pedaço da orelha arrancado por uma catana. Lugar do crime: o Ruanda, durante o período em que a etnia hutu chacinou mais de 800.000 tutsis, recorrendo a armas brancas – uma espécie de macabra «solução final», feita de lâminas afiadas e mutilações. Ironicamente, o homem da foto não pertencia sequer ao campo das «vítimas»; era um hutu que foi atacado pelo seu próprio povo, ao recusar-se a participar na matança.
Aquele perfil onde permaneciam as marcas do sofrimento (reparem bem: as feridas sararam, mas os olhos ainda reflectem o terror), aquele símbolo do que existe de mais absurdo nos conflitos humanos, ficou gravado na minha memória durante muito tempo. Lembro-me de pensar que uma só imagem – este rosto, por exemplo – pode dizer mais sobre a realidade de uma guerra do que meses a fio de emissões da CNN, com os seus repórteres em directo, os seus mapas, as suas análises palavrosas e o seu jornalismo muito formatado, muito americano.
Vou até mais longe. Para mim, a fotografia, na sua procura utópica de um «momento decisivo» que dá sentido ao mundo, na sua imobilidade e rigidez, consegue atingir-nos num qualquer ponto sensível – talvez seja um nervo recôndito, não sei – a que as imagens em movimento, por razões que desconheço, raramente chegam. A arte do fotógrafo, e mais ainda do fotojornalista, está na capacidade de isolar, na vertigem do tempo em que as coisas se passam, o instante essencial. Esse instante exacto em que o soldado republicano de Robert Capa salta, de braços abertos, numa trincheira espanhola, ignorando que se tornará um dos ícones da História do séc. XX. Ou aquele preciso instante em que uma mãe argelina se transforma numa «mater dolorosa» de dimensão bíblica. O instante que é só da fotografia, porque o turbilhão das 24 imagens por segundo não o respeita, antes o devora e anula.
Reencontrei a cabeça martirizada do hutu na exposição «Inferno», patente na Culturgest até 30 de Março. E é mesmo de uma descida aos infernos que se trata. Aliás, na edição em livro deste trabalho, há uma epígrafe com os três primeiros versos do III Canto do «Inferno» de Dante: «Per me si va ne la città dolente,/ per me si va ne l’etterno dolore,/ per me si va tra la perduta gente» («Por mim se chega à cidade dolente,/ por mim se chega à eterna dor,/ por mim se chega à perdida gente»). A citação faz sentido porque o fotógrafo não se limita a mostrar de forma distanciada a «eterna dor». Ele envolve-se nos dramas que capta, ele não tem um olhar neutro, ele toma posição e coloca-se do lado dos mais fracos, do lado da «perduta gente».
No começo da exposição, as palavras do poeta florentino foram trocadas por uma frase de Conrad (retirada d’«O Coração das Trevas») mas, se ainda lá tivessem lugar, o melhor era escolher o nono verso do mesmo canto: «Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate» («Deixai toda a esperança, vós que entrais»). Porque neste inferno – revelado por Nachtwey de forma violenta, crua, quase obscena – a esperança é um luxo a que ninguém se pode dar. Há coisas mais importantes do que a esperança, neste mundo bizarro, mau e feio: procurar comida ou abrigo, escapar das balas, sobreviver. Um mundo que nos afronta, choca e perturba. A nós, ocidentais com a consciência pesada por já termos visto estes cenários e estas pessoas, na indiferença mórbida dos telejornais. Agora, face aos corpos esquálidos dos somalis, face àquela criança morta e embrulhada num sudário feito de sacos vazios da ajuda alimentar, é impossível não sentir uma secreta vergonha por termos frigoríficos cheios de comida. Aliás, por termos frigoríficos, ponto final.
A geografia deste mundo tão cruel inclui praticamente todos os focos de tragédia que se acenderam (e apagaram e voltaram a acender) na última década. Guiados pelo olhar de Nachtwey, percorremos a Europa de Leste industrial pós-soviética, a África do Sul, os orfanatos da Roménia (onde ficaram, condenadas ao abandono mais abjecto, crianças com deficiências graves ou SIDA), o Sudão, a Chechénia (impressionante o retrato de um rapazinho órfão, de cabeça rapada, numa rua de Grozny em escombros), os Balcãs (como esquecer a morgue improvisada junto a um minarete destruído pela artilharia sérvia? como ignorar aquele tenebroso camião cheio de mortos?), a Indonésia, o Afeganistão (já em ruínas, mas ainda com talibãs e mulheres de burka), as prisões americanas, o Ruanda.
É aqui, no fim da viagem, que reencontro o hutu e as suas cicatrizes. Mas também outras visões do horror. As facas de mato caídas por terra. Campos de refugiados varridos pela cólera. A abominação da morte sem porquê. Cadáveres empilhados. Imensas valas comuns. Uma imitação do Holocausto. Um inferno dentro do inferno. São fotografias que gritam, fotografias que doem. Como é que se pode chegar a isto? Algumas pessoas viram a cara, recusam a evidência do mal, como se só agora despertassem para o facto de que esta não é uma exposição de arte, apesar da beleza paradoxal de algumas das imagens. Nachtwey tem sentido estético, conhece a geometria do enquadramento perfeito, mas não é um artista. É um repórter, uma testemunha, alguém que sabe ver. Mais importante ainda, alguém que sabe dar a ver. Para que os outros se inquietem, se indignem e reajam.
Depois do embate final com a realidade mais sórdida, não há um ponto de fuga nem uma porta de saída imediata para toda aquela angústia. Quem quiser escapar ao caleidoscópio do sofrimento humano, tem que refazer o caminho no sentido inverso, até à porta de entrada, enfrentando novamente as AK-47 das milícias croatas, as grades nos berços dos «filhos» de Ceausescu, o rosto duro das mulheres chechenas, os jovens do Soweto aos pulos num trampolim ou a ferrugem cancerígena de um complexo metalúrgico polaco. Se alguns visitantes olham para o chão e aceleram o passo, a verdade é que o regresso forçado ao ponto de partida tem pelo menos uma vantagem: permite o reencontro com aquela que é, em minha opinião, a melhor das fotografias expostas.
O cenário é a cidade de Port-au-Prince, no Haiti, em 1994. Numa rua estreita, um apoiante de Jean Bertrand Aristide foi morto a tiro e está caído no passeio, junto a um muro com palavras que o tempo foi apagando. É muito cedo ou muito tarde, a luz quase horizontal alonga as sombras humanas que se estendem para a direita, no mesmo sentido do sangue que escorre na calçada – o sangue que parece um rio escuro visto de muito alto, talvez de um avião. Isto é o que compreendemos à primeira vista. Só depois, quando nos habituamos à imagem (da mesma forma que nos habituamos ao escuro), é que vemos o vulto. E o vulto é a cabeça de uma criança que ocupa um quarto da fotografia e olha para nós; ou melhor, olha para a objectiva da máquina fotográfica. Não sei o que me leva a dizer que se trata de uma criança, mas sei que é uma criança, embora só se distinga um contorno de escuridão (escuridão absoluta, breu, noite do corpo) e o brilho dos olhos. É um rosto que existe na sua ausência. Um rosto escondido no coração das trevas. Um rosto que nos avisa e nos condena. Um rosto que não esquecemos, mesmo quando voltamos para casa, para o telejornal e para a CNN.

19:41 8.1.03  
30 ANOS
1. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. No eléctrico, à mesa de um café, numa esquina qualquer, alguém desdobrou as folhas enormes do «Diário de Notícias». E leu. No topo da primeira página, os caracteres góticos do cabeçalho, o preço (1$50), o número da edição (38.068), o nome do director (Fernando Fragoso) e o anúncio das máquinas de costura Vigorelli («as melhores do mundo»). Na segunda página, alguns avisos: a Joalharia Mergulhão lembra aos seus Exmos. Clientes (com maiúscula) que passa a encerrar aos sábados de tarde; enquanto o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreram, em combate na Guiné, um soldado e um primeiro-cabo. Há também muita publicidade a espectáculos: no cinema Vox, «O Mensageiro», de Joseph Losey, vencedor da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, está há nove semanas em cartaz; o Teatro Villaret acolhe «Tartufo», com Raul Solnado no papel principal, às 21 e 23 horas; e quem não gostar de Molière pode sempre ir ao Capitólio, onde José Viana encabeça o elenco da revista «Ora Bolas P’ró Pagode». Na secção cultural, Natércia Freire escreve sobre Fernanda Botelho, João Gaspar Simões sobre Fernando Namora e João Bigotte Chorão sobre Maria Eulália de Macedo. Do folhetim «Um Gesto de Amor», escrito por Daniel Gray, publica-se o 28.º capítulo. Mas é lá mais para diante, nos anúncios das últimas páginas, que está um retrato do país. Lado a lado, a grande empresa de urbanização que procura um topógrafo para trabalhar no Algarve e o particular que vende palha. Os andares de duas a três assoalhadas (a partir de 260 contos) e a requisição de um ardina para distribuir jornais ao domicílio. Repito: alguém leu isto tudo, numa esquina qualquer, à mesa de um café, no eléctrico. Talvez a meio da manhã, no exacto instante em que nasceu uma criança, milhares de quilómetros para norte. Ou no momento preciso em que foi lançada uma sonda da NASA, rumo a Júpiter e mais além.

2. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. Em Cabo Kennedy, depois de vários adiamentos por causa do mau tempo, a sonda Pioneer-10 é enviada para o Espaço no topo de um foguetão Atlas Centauro. Custou 68 milhões de dólares, mede 3 metros (se contarmos com as antenas), pesa 270 quilos e carrega 11 instrumentos científicos. Pela primeira vez, um objecto fabricado pelo Homem aponta para um destino mais longínquo do que Marte. Os cientistas, apesar de temerem que a Cintura de Asteróides seja intransponível, sonham com a chegada da Pioneer-10 a Júpiter. Se sobreviver, a frágil estrutura que viaja a 44.579 kms/h poderá enviar informações preciosas sobre os limites exteriores do sistema solar. Há mesmo quem ponha a hipótese de um eventual contacto com extraterrestres. Presa à chapa da sonda, uma placa de alumínio com banho de ouro, concebida por Carl Sagan, mostra um homem (a mão direita levantada em sinal de boa vontade) e uma mulher, cujas formas correspondem a uma média computorizada da compleição física da espécie humana. A escala é conferida pelo desenho da própria sonda, ao lado daquele casal que faz lembrar Adão e Eva. No canto superior esquerdo, a representação de um átomo de Hidrogénio, o elemento mais comum no Universo, prova que conhecemos a matéria das estrelas. E os vários símbolos dispostos na base do esquema, representando o Sol e os planetas que giram à sua volta, explicam de onde partiu esta «casca de noz». A placa é o nosso espelho. É uma súmula, um gesto de aproximação, a primeira palavra de um diálogo. É também um mapa a indicar o caminho até este canto do cosmos onde existe vida, inteligência, civilização. Compreensivelmente, nada se diz sobre a outra face dos seres humanos: a cupidez, o ódio, a barbárie. Afinal, se os extraterrestres alguma vez descobrirem a sonda, não vamos querer assustá-los, pois não? A verdade é que ninguém espera uma resposta. O tempo de vida previsto para a missão é muito curto. Três anos, na melhor das hipóteses.

3.
Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. A minha mãe está deitada, a barriga enorme, o suor, as contracções. Na sala, vários alunos tomam notas. O médico-obstetra, talvez o mais conceituado da Maternidade de Port Royal, em Paris, decidiu fazer do parto uma aula. Porque este não é um caso simples – a cabeça do bebé, muito grande, tem dificuldade em sair. É demasiado estreito, o corpo da mulher. E por isso sofrem. Os dois. Aida contrai os músculos, uma e outra vez, e outra ainda, sente o filho dentro de si, o movimento dele, o esforço dele. A dor cresce como um incêndio, alastra, concentra-se num ponto, reflui e depois regressa. A dor. Cada vez mais intensa. A dor. De olhos fechados, Aida pensa só no filho que vem aí, através da carne. E ao pensar nele a dor fica como que suspensa. Já não importa. Tal como não importa o que ficou para trás. A estupidez de uma injecção que retardou o nascimento até de manhã, para que médico e alunos pudessem aparecer de camisa lavada e pequeno-almoço tomado a horas. A travessia da noite, olhos postos na lua. A espera longa, longa, longa, sem líquido amniótico, o feto em risco de sufocar. A rudeza das enfermeiras. Tudo isso já não interessa. Aida pensa no filho, os músculos contraídos, uma e outra vez, e outra ainda. A respiração ofegante. O suor na testa. O grito. O seu grito. Depois um outro, mais ténue. O grito do filho. O meu grito. Eu, tão pequeno. Ali, sobre a barriga exausta. Espreitando entre os seios, Aida vê a cabeça ainda achatada do filho, onde já desponta uma espiral de cabelo, um caracol. E antes de o levarem, antes de me levarem, sente os batimentos daquele coração pequenino, tão perto do seu.

4.
Passaram 30 anos. Dentro de um «Diário de Notícias» muito diferente, na página nove do suplemento com nome de código genético, narram-se factos ocorridos num mesmo dia: 2/3/1972. Seria fácil estabelecer ligações entre o nascimento de uma criança e a viagem de uma sonda até aos confins do universo. A criança que acaba de nascer não sabe nada, parte para o desconhecido, para a incerteza. À sua maneira, ela também é uma sonda – só que avança no tempo, enquanto a outra avança no espaço. Ocorre-me a ideia de unir os dois rumos, de filosofar sobre o destino de um homem versus o destino do Homem. Mas não vou por aí, embora a coincidência me perturbe. E a perturbação acentua-se porque a sonda, o primeiro objecto construído por humanos a sair do sistema solar, resistiu muito mais do que estava previsto. Ainda hoje, cinco anos após o encerramento oficial da missão, ela mantém-se «viva» e em contacto com a Terra, apesar da distância quase infinita (mais de 10.000 milhões de quilómetros) e das 22 horas que os sinais de rádio levam a chegar ao nosso planeta. Ainda hoje, continua a afastar-se, em direcção a uma estrela vermelha, da constelação do Touro, que alcançará (se não se desfizer pelo caminho) dentro de dois milhões de anos. A Pioneer-10 passou por Marte quando eu ainda mamava (três meses), por Júpiter quando eu ainda pedia colo (ano e meio), por Saturno quando andava na pré-primária (quatro anos) e abandonou o sistema solar quando comecei a escrever poemas (16 anos). Onde estará quando nascer o meu primeiro filho? E quando eu morrer?

20:10  
CINCO ALÍNEAS
a) Isto foi mais complicado do que eu supunha. Isto, a crónica. Talvez por ser a primeira, não sei. As outras, as seguintes, aguardo-as sem sobressaltos. Serão textos cosidos à realidade, reflexos do tempo a passar ou aproximações a coisas que ainda nem sequer imagino. Mas a primeira crónica, esta que lês agora, admito que foi arrancada a ferros. Porquê? Excesso de zelo. Não queria inaugurar a página com um texto normal, sobre um tema da actualidade. O euro, a política em tempos pré-eleitorais, o novo ano (ainda por cima capicua), a neve em Atenas ou o homem que ficou preso debaixo de um carro, durante cinco dias. Nada disso. Desejava que a primeira prosa fosse uma espécie de manifesto, uma declaração de intenções; mas sem ser um manifesto, menos ainda uma declaração de intenções. Há dilemas que nos lançam na loucura e no pânico (não necessariamente por esta ordem). Resultado: começos e recomeços, versões e aversões, euforias e desânimos, notas rabiscadas em envelopes, fragmentos para aqui e para ali, ideias soltas surgindo a meio do duche, uma lista de títulos possíveis no bolso do casaco e o desespero metafísico, provocado pela aproximação do prazo limite de entrega, a causar arrepios sucessivos na espinha. Ah, e muitas folhas amachucadas no caixote do lixo. Será que este parágrafo também lá vai acabar?

b) A memória tem destas coisas. Subitamente, lembro-me das casas que visitei quando ainda ignorava que seriam, mais tarde, a minha casa. Apartamentos vazios, por alugar. Com um rapaz enfastiado a repetir gestos de uma exasperante rotina: «esta assoalhada é muito boa, garanto-lhe que o sol bate toda a manhã», «isto é o corredor, isto é a casa de banho», «o quarto já tem ligação à TVCabo, está a ver a tomada?», «os contadores do gás e da água ficam aqui», «as paredes foram pintadas há pouco tempo». A casa vazia é um espaço de hipóteses. Ainda estamos a descobrir vestígios de quem lá morou antes – as manchas de humidade no tecto da cozinha, o prego que susteve um quadro, a zona sem pó que desenha a silhueta de um móvel – e já imaginamos as nossas coisas a entrarem por ali adentro, a criarem uma nova geometria, a preencherem aquela ausência. Será melhor encostar a cama deste lado ou daquele? O roupeiro caberá ao canto? Onde é que ponho o espelho? E o frigorífico? E o sofá? Em que sala é que monto as estantes? A casa continua vazia mas a cabeça sobrepõe-lhe os cortinados, as cadeiras, os livros. É nesse momento que a casa se torna nossa – mesmo se pagamos renda ao fim do mês. (silêncio). Agora sim, agora compreendo o porquê desta memória. A página de um jornal também é um espaço onde nos deixam habitar.

c) Volto atrás. Procuro no caixote do lixo. Encontro uma folha engelhada. Aliso-a. Recupero algumas frases. «Olha bem. Estás no centro da arena. À frente, o touro. Bicho enorme, tão escuro, pata a esgravatar furiosa, areia levantada em câmara lenta. O touro é a metáfora perfeita para tudo o que quiseres: a morte, o medo, a solidão. Ou para este pânico do passo em frente, este terror de agitar o pano vermelho ao mundo e vê-lo em movimento, um fulgor súbito que passa rente ao corpo, cornos afiados raspando muito ao de leve a tua mão direita. A mão que escreve». A mão que escreve e hesita, a mão que escreve e faz rasuras, a mão que amarfanha o papel. Mais à frente: «Estás no centro da arena. Esta página. Temes talvez o silêncio que as coisas têm antes de serem coisas. O silêncio da planície calada, quando as nuvens escurecem e depois chega a tempestade. Mas já não há regresso. Algo se pôs em marcha, mais forte do que tu». A mão que escreve hesita outra vez. Risca, recupera.

d) E a questão do nome? Outro fragmento, a mesma voz. «Haverá quem pense logo nos surrealistas e nas torrentes de palavras que eles deixavam correr à solta, acreditando na força do acaso e nas associações férteis que nascem do inconsciente. Deixa-os estar. Escrita Automática pode ser tantas coisas. Pode ser, por exemplo, uma escrita que existe para além de ti, que te usa apenas como meio de descer ao papel. Ou então a escrita que nasce de um impulso tão forte que se torna imperioso. Ou ainda a escrita que nasce de forma instantânea, imediata, em resposta a um acontecimento, a uma imagem, a uma recordação, a um gesto». A mão que escreve continua a procurar entre os fragmentos. A mão que escreve hesita. Depois, corta e cola. «Tens milhares de pequenas coisas à espera de serem registadas: uma expressão dita por alguém na plataforma do metro, um rosto enigmático à saída do cinema, uma tarde de vento num bairro antigo, uma braçada de flores, um verso perdido, uma morte cruel, talvez um olhar onde caiba toda a luz ou toda a angústia. De que é que estás à espera?»

e) A mão que escreve descobre o rasto de si mesma. A imagem no espelho. «É a tua mão que desenha o touro que só existe dentro da cabeça. É a tua mão que desenha as sombras e as espirais de poeira. É a tua mão que inventa uma arena na página branca. É a tua mão que treme e se exalta. É a tua mão que antecipa as frases ainda por existir. É a tua mão que escreve. É a tua mão que te liberta». A mão que escreve hesita uma última vez. Junta tudo. Paira sobre as folhas. Depois, decide-se. E escreve, na margem: a) b) c) d) e).

20:09  
RAIO X
Os factos são conhecidos. No seguimento das operações militares no Afeganistão, os EUA capturaram centenas de homens armados, suspeitos de serem talibãs ou membros da Al-Qaeda. Durante as últimas semanas, 158 desses homens foram transferidos para a base naval americana de Guantánamo, em Cuba. A bordo de um C-130, fizeram 12.000 quilómetros – uma viagem que dura mais de 20 horas – acorrentados de pés e mãos, com vendas nos olhos, máscaras no rosto (temia-se um surto de tuberculose) e sedativos no sangue, para acalmar possíveis ímpetos.
Chegados a Cuba, tinham à sua espera um campo de detenção constituído por «celas» individuais: uma área de dois metros por dois metros e meio, com chão de cimento, paredes em rede e tecto de metal ondulado. Magnânimos, os militares americanos deram-lhes ainda um colchão de espuma, um cantil, dois baldes para fazerem as necessidades, um par de chinelos, duas toalhas, sabonete e um volume do Al-Corão. A fé e a higiene ficaram asseguradas, mas no interior de uma gaiola, à mercê dos elementos e dos mosquitos. Uma gaiola? Talvez até pior do que isso: uma jaula. Para animais perigosos, pois então, feras enraivecidas, bestas demoníacas, «monstros» que é melhor deixar longe da vista, atrás de vedações, arame farpado e altas torres de vigilância.
Isto não vos faz lembrar nada? A mim, infelizmente, faz. E não só a mim. Quando se conheceram os detalhes das condições degradantes em que estão a viver os prisioneiros de Guantánamo, surgiram muitas vozes críticas – das óbvias (Amnistia Internacional) às menos evidentes (o gabinete do até aqui «alinhadíssimo» Tony Blair). É que as fotografias não mentem: vimos homens de joelhos, vergados, com o típico uniforme prisional laranja e algemas tanto nos pés como nas mãos. Falta saber ao abrigo de que lei, de que mandato, de que ordem júridica. Ou já nada disso é necessário? Será que entrámos na verdadeira era do «quero, posso e mando» ao jeito de Washington? E, já agora, alguém sabe onde é que pára a ONU? Por muito confuso que esteja o cenário internacional, convinha esclarecer uma coisa em relação aos prisioneiros de Guantánamo. É que eles até podem ser os maiores criminosos do mundo, podem ser assassinos frios, potenciais homens-bomba, fundamentalistas da pior espécie. Têm, ainda assim, direito à sua dignidade de seres humanos. Ou não?
Neste caso, os EUA, cujo sistema judicial defende a presunção de inocência até ao limite (chegando a salvar criminosos por causa da «dúvida razoável»), decidiram ser implacáveis. Trouxeram os «terroristas» do outro lado do mundo e nem sequer lhes fazem uma acusação ou lhes permitem sentar-se no banco dos réus. Enquanto se preparam novos tribunais militares, ao abrigo da lei de excepção «anti-terrorista», os talibãs vegetam numa espécie de limbo. As autoridades americanas consideram-nos «combatentes ilegais». Quer isto dizer, muito simplesmente, que não ficam ao abrigo da Convenção de Genebra, destinada apenas aos «prisioneiros de guerra». Quer isto dizer também, muito simplesmente, que podem sofrer todo o tipo de torturas e sevícias, humilhações e interrogatórios, sem o mínimo respeito pelos mais básicos direitos humanos.
Se excluirmos o secretário de Estado, Colin Powell, toda a Administração Bush tem agido de forma miserável. Donald Rumsfeld, secretário da Defesa, em visita às instalações, teve o desplante de afirmar que ali nada se passava de anormal. Dick Cheney, o vice-presidente, foi ainda mais longe: disse que os presos «são pessoas muito más» (sic) e que estão a ser tratados «mais humanamente do que merecem». Quanto ao Presidente, ainda não se pronunciou (pelo menos no momento em que escrevo). Presume-se, no entanto, que assina por baixo o que os outros defendem. Como já demonstrou no seu estilo de «cowboy», G. W. Bush não gosta de talibãs porque são clones mais ou menos fiéis de Ben Laden. Piores do que os talibãs, aliás, só mesmo os aperitivos «pretzel», esses famosos terroristas metódicos, capazes de asfixiarem o homem mais poderoso do mundo quando ele se senta, no seu escritório da Casa Branca, a ver tranquilamente um jogo de futebol americano na TV.
Mas voltemos a Guantánamo. A «prisão» foi baptizada com um estranho nome: Campo Raio X. Ignoro onde foram os militares buscar a designação. Talvez ao facto deste complexo improvisado resultar do somatório de celas abertas, expostas, transparentes. Ali vê-se tudo, nada se esconde. Tal e qual como no Raio X. Podemos até imaginar um médico, em Guantánamo, olhando as chapas a contraluz: «Está a ver aqui e ali as manchas de cor laranja? São as metástases do cancro, a encarnação do mal. Mas fique tranquilo, ainda havemos de acabar com elas».
Se virmos bem, o campo Raio X é ele próprio, na sua essência, uma radiografia da América. Por detrás do arame farpado, da intransigência militar e da arrogância política, está o rosto de um país que não sabe lidar com as suas feridas. Um país movido pela vingança cega: olho por olho, bomba por bomba. Um país que teve toda a razão do mundo no dia 11 de Setembro, mas que a partir desse momento, em Kandahar ou em Guantánamo, insiste em perdê-la.

20:09

 
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