Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
12.1.03  
CURTA-METRAGEM
1. (FADE IN; GRANDE PLANO) Primeiro, vê-se a capa de um livro que está pousado numa mesa. Luz rasa, vinda de uma janela aberta para o azul do céu, acima dos bosques. A mesa é de madeira, antiga, atravessada por sulcos irregulares, hieróglifos feitos talvez pelo passar do tempo (os anos como lâminas), talvez pelas navalhas rombas de homens que já morreram. A capa do livro mostra um desenho esfumado: o deserto púrpura com montanhas ao fundo e sobre as montanhas, imensa, a lua. Dentro do círculo da lua, ao alto, um nome: Tonino Guerra. Mais abaixo, em letras maiúsculas, o título: HISTÓRIAS PARA UMA NOITE DE CALMARIA. Emergindo do pó púrpura do deserto, o nome do tradutor (Mário Rui de Oliveira) e a chancela da editora: Assírio & Alvim. No silêncio, cresce a música de Nino Rota para o filme «Amarcord». Depois, um par de mãos pega no livro e começa a procurar um texto. As folhas agitam-se, tombam umas sobre as outras a uma velocidade vertiginosa, quase que se soltam, o ruído assemelha-se a um bater de asas. Por fim, a agitação cessa. Na página 78 desenha-se um poema de 10 versos: «Onde vais?». (ZOOM IN; A IMAGEM DESFOCA-SE LENTAMENTE) Sobre a música de Nino Rota, agora menos intensa, a voz off de um homem maduro: «A primeira palavra que ouvi/ na minha vida/ foi "onde vais?"/ Num aposento sentados/ em sacos de milho/ eu e minha mãe.// Tinha apenas um ano/ e não sabia ainda/ o que eram as palavras/ e onde me poderiam levar.»

2. (TRAVELLING) Um homem caminha pela paisagem da sua infância. Tem 82 anos, chama-se Tonino Guerra e a voz off vai explicando as muitas etapas de uma vida tecida, como teia de aranha, entre as palavras e as imagens. O nascimento em Santarcangelo di Romagna, aldeiazinha perdida da província de Forlì. A meninice entre nuvens de poeira, em estradas de terra batida, ajudando os pais que subiam até Pennabili para vender fruta, ou a brincar nas margens do Marecchia, atrás dos pequenos pássaros, do brilho das penas e do seu canto. A figura da mãe, analfabeta, capaz dos maiores sacrifícios; isto é, do mais profundo, do mais silencioso amor. A cultura rude do campo, quando nas leiras ainda eram os bois que puxavam o arado. E a pobreza, a fome, os invernos, a neve. E a guerra, o cativeiro no campo de concentração de Troisdorf (Alemanha), onde escreveu os primeiros poemas em romanholo, o dialecto que nunca mais abandonaria. E os primeiros livros, a vida em Roma nos anos 50, o contacto com o cinema, o encontro decisivo com Antonioni. Os anos a passar e com eles o aperfeiçoamento de uma arte difícil: escrever para o olhar de outrém. Profissão: argumentista. De Antonioni, sempre, mas também de Fellini, de Tarkowski, de Wenders, de Angelopoulos. A câmara, intimidada pelos nomes destes gigantes, limita-se a acompanhar o passeio do homem pela paisagem da sua infância. As águas do rio, as encostas cobertas de árvores, os pássaros pousados sobre as ruínas de uma velha igreja. O homem não fala. Deambula agora pelas instalações que criou, com outros artistas, em Pennabili (onde passou a viver desde 1989). São pequenos museus ao ar livre, uma outra forma de poesia. Reparem nos nomes: Horto dos Frutos Esquecidos, Estrada dos Relógios Solares, Jardim Petrificado, Santuário dos Pensamentos.

3. (EXTERIOR/DIA) A propósito das «Histórias...», mas igualmente de «O Livro das Igrejas Abandonadas» (Assírio & Alvim, 1997), alguém recorda uma frase de Italo Calvino sobre a escrita de Tonino Guerra: «Há sempre um conto em cada uma das suas poesias; há sempre uma poesia em cada um dos seus contos». Esse alguém, leitor apaixonado destas obras (pode ser, por exemplo, o jornalista que assina, no DNA, a crónica «Escrita Automática»), vai dissertando sobre a delicadeza dos textos e as imagens fortíssimas que deles emanam ou sobre a absoluta precisão do estilo - a forma sublime de contar a mais longa das histórias com o mínimo de palavras. Enquanto fala, o leitor apaixonado anda em círculo, cita exemplos, lê excertos e atrás de si, enquanto a câmara faz uma panorâmica de 360 graus, surgem cenários que reproduzem os exemplos e excertos por ele evocados. Vemos as montanhas do Uzbequistão (uma vermelha; outra branca) e entre elas a árvore onde os peregrinos penduram desejos escritos em pedaços de tecido, agitados ao vento como frutos. Vemos a enorme nuvem de pó que traz, durante três dias, o caos e o esquecimento. Vemos ruelas de lama seca em Samarcanda e o vapor que se ergue de uma taça de chá verde. Vemos o mosteiro habitado por dois eunucos chineses que se desejaram em silêncio. Vemos o convento, em forma de margarida, onde a luz nos vitrais dizia as horas. Vemos uma floresta de árvores ocas e musicais, algures nos confins do Turquemenistão. Vemos o espelho que guardou, como um tesouro, a vida de uma família em tempos por ele reflectida. E vemos, belíssima, uma cerejeira carregada de flores, à espera do camponês que dela tratava, para só então morrer, oferecendo-lhe na morte uma chuva de pétalas brancas. Vemos tudo isto. Vemos.


4. (INTERIOR/NOITE) Há um foco de luz sobre a mesa de madeira antiga. Sob o foco está papel branco, uma caneta de aparo, um tinteiro. A mão que folheou o livro (há quanto tempo?) pega na caneta e escreve. A sala está em silêncio. Ouve-se apenas o som do aparo a deslizar, áspero, no papel. É impossível ler o que a mão escreve. Passam alguns minutos. O silêncio volta a ser só silêncio, sem mais nada. A mão sai de campo. O plano mantém-se: a folha debaixo do foco de luz, meia dúzia de linhas, a tinta que seca. Ouve-se, de novo, a voz off de um homem maduro. Diz o título: «A história sem fim». Lê a dedicatória: «A Tonino Guerra». Continua: «No centro da Praça de S. Marcos, um velho, com o sobretudo rasgado e uns sapatos sem atacadores, espalha milho no chão. Os donos dos cafés e os polícias conhecem-no, sabem que é inofensivo, e por isso deixam-no repetir, todas as manhãs, aquele ritual. Ele chega, olha para as nuvens que pairam sobre a laguna, observa o voo dos pombos sobre o Gran Canale e lança para o chão, em círculo, o milho que traz em dois cartuchos de papel pardo. Há 50 anos, numa manhã de Novembro, ele soltou, naquele preciso lugar, um pombo que levava, presa a uma das patas, uma minúscula bolsa de couro. Lá dentro, num papel dobrado, uma história de um só parágrafo, sem fim. É a resposta a essa história que ele aguarda, todos os dias, em todos os pombos que debicam o seu milho. Mas hoje, do céu negro, ele só pode esperar chuva gélida. E relâmpagos.» A voz cala-se, a luz esmorece. (FADE OUT)


15:36  
OS LIVROS DO DESASSOSSEGO
1. Aqui vai uma confissão. No final do ano, eu nunca escrevo aquelas utópicas listas de boas intenções que nascem – todos o sabemos – para serem esquecidas na segunda semana de Janeiro. Mas faço, hélas, outro tipo de listas, igualmente inúteis: o «top-10» dos melhores filmes do ano anterior ou a lista exaustiva dos livros que espero ler no ano seguinte. Se a primeira não oferece grandes dificuldades (é só uma questão de memória cinéfila), a segunda está viciada à partida, porque revela sempre, mas sempre, um excesso de confiança nas minhas capacidades de leitura. Basta dizer que não abdico de lá colocar, cheio de fé, pelo menos dois ou três dos grandes clássicos ainda – vergonhosamente – por conhecer no verdadeiro sentido da palavra: uns anos é o Homero todo, o «Quarteto de Alexandria» do Durrell, o «Quixote», mais o «Ulisses» do Joyce (devo ser dos poucos portugueses a admitir esta lacuna…); de outras vezes é o «Fausto» de Goethe, «Os Irmãos Karamazov», a «Montanha Mágica», ou (porque não?) «Os Lusíadas» sem o peso da escola. Como é óbvio, nunca cumpro nem um décimo daquilo a que me proponho e chego ao fim do ano com um terrível sentimento de frustração.
Desta vez, cansado de me auto-flagelar, optei pelo mais estrito pragmatismo. Tenho ali uma pilha de livros do Didier Daeninckx, outra com as primeiras obras do Ian McEwan, vários romances do Philip Roth, do Saul Bellow, do Don DeLillo e do Coetzee, poemas do Kavafis, Yeats, Robert Frost e Pavese para reler, contos do Tchéckhov, mais todos os portugueses publicados em 2002 e que ainda estão à espera. Se houver tempo para resgatar das sombras um clássico tipo «Guerra e Paz», óptimo. Se não houver, paciência. Podem acusar-me de jogar à defesa. Eu chamo-lhe lucidez. Será que é desta que chego a Dezembro com a consciência tranquila?

2. A angústia do leitor, em pânico diante dos milhares de livros que vão ficando por ler, não é nova. Sempre existiu. Só que o aumento exponencial da oferta nos últimos anos – com o «boom» do mercado livreiro e o fenómeno das mega-livrarias «on-line» – veio agravar a situação. Há mesmo quem fale de «ansiedade da leitura», como se de um distúrbio psicológico se tratasse. Já muito se escreveu sobre o tema (Abel Barros Baptista, por exemplo, dedica-lhe um ensaio brilhante: «A Infelicidade pela Bibliografia») e o problema pode resumir-se a uma questão física. Uma questão de tempo. Mesmo se não fizéssemos mais nada senão ler, a «ansiedade» permaneceria. Como diz Harold Bloom, em «The Western Canon», uma vida inteira de leitura, 24 horas por dia, não chegaria para conhecer nem sequer uma selecção dos maiores autores da tradição ocidental. Ou seja, mesmo ignorando olimpicamente o resto do mundo, nunca teremos tempo para conhecer a fundo a nossa cultura.
A única solução lógica é admitir as nossas limitações e seguir em frente. Até porque não é só o passado que nos persegue. É também o futuro. São todas as obras-primas que hão-de chegar nas próximas décadas, aos magotes (sou um optimista), para nos inquietarem e pedirem, lá dos cumes da glória literária, a nossa atenção. Convenhamos que isto é um cenário esmagador. Há milhões de livros atrás de nós, milhões de livros à nossa frente e nem sabemos, nesta linha ténue do presente, por onde começar tão ciclópica tarefa. Mas Sísifo não desistiu, pois não? Por que haveremos nós de desistir?
Quanto ao fardo da culpa, não faz sentido carregá-lo. Vivemos na era da imagem, da síntese, da velocidade. É preciso compreender que as nossas vidas «modernas», carregadinhas de stress e de obrigações, não abrem muitos espaços para os modos lentos da leitura, para os seus caprichos e rituais. Se não quisermos ser eremitas afastados do mundo (mas com conta aberta na Amazon), temos que encarar a realidade e pedir tréguas. Não somos perfeitos. Não conseguimos ler tudo. Resta-nos o consolo de saber que mais ninguém consegue.

3. Uma questão prática: se perdemos muito tempo com aspectos da nossa vida que não controlamos (ou não conseguimos controlar), onde é que podemos recuperar esse tempo perdido para a leitura? Falo por mim: nas viagens de metro (mesmo em hora de ponta, por entre mil braços e pernas), na fila para o Multibanco, nos elevadores, nos intervalos do cinema e até, devo confessá-lo, nos engarrafamentos de pára-arranca ou nos percursos a pé. Na verdade, invejo as pessoas que esperam nos consultórios a olhar para ontem, de mãos nos bolsos, ou a folhear revistas cor-de-rosa de há seis meses. Invejo-as, a sério. Elas ignoram o que é este sufoco, esta pressa, esta fúria, esta missão sem fim à vista. Elas são, talvez, mais felizes. Vivem, de certeza, mais tranquilas. E já que não gozam dos atormentados prazeres que os livros nos oferecem, ao menos que seja delas o reino dos céus.

4. No outro dia, ao olhar para os meus livros, essa espécie maldita que saltou das estantes e se espalha agora pelos corredores, cheguei a uma triste conclusão. Não só nunca li muitos deles como sei que nunca os lerei. É uma fatalidade, porque todos os dias chegam novos inquilinos, à procura do seu espaço. O que eu não sei é se eles, os livros, compreendem a minha impotência. Em certo sentido, sou uma espécie de paxá rodeado de 3000 concubinas, umas mais atractivas do que outras, mas todas exigentes e a pedir exclusividade.
Além disso, desconfio que os muitos livros que nunca lerei, aqueles que vão sendo adiados para «quando houver tempo», formam uma espécie de irmandade, de sociedade secreta. Alimentam rancores e sentem ciúmes, sobretudo quando me vêem tocar o corpo de outros livros que não mereceriam receber, em vez deles, tais carícias. Cheios de razão, amuam, zangam-se, encarquilham-se, amarelecem, ganham manchas de humidade, fazem birra. Devem odiar-me quando fico aparvalhado em frente à TV ou horas a fio na Internet. Aliás, não duvido que me rogam pragas, baixinho, pelas costas. Um dia destes, se me distrair, sei que eles vão vingar-se, nem quero imaginar como, de todas as minhas fraquezas e traições.
Para ser sincero, eu até já sinto qualquer coisa no ar. Há umas semanas, quando passava junto de uma das estantes, o volume do Proust, com aquele seu impressionante arcaboiço (mais de 2400 páginas, um quilo e meio de peso, os sete livros da «Recherche» juntinhos, em papel-bíblia), estremeceu ligeiramente e lançou-me ameaças surdas. É verdade: eu senti-as mesmo, como um bafo no meu pescoço. Por isso, nunca fiando, o melhor é ganhar método e disciplina na leitura. Se desperdiçar as férias de verão com devaneios frívolos, em Setembro os livros, os meus adorados livros, fazem-me a folha.

15:36  
10 x 15
Eu estava parado em frente ao quiosque, mesmo à saída da estação de metro, no meu exercício matinal de ler as primeiras páginas dos jornais e as capas das revistas (exercício que já foi um vício feliz mas que se converteu, com o tempo, em masoquismo). O rapaz aproximou-se, tocou-me ao de leve no ombro e pediu-me, numa mistura de italiano com linguagem gestual, que lhe tirasse uma fotografia. Não só a ele, explicou. A ele e a uma rapariga muito tímida (também italiana, percebi; talvez namorada). Colocaram-se os dois naquela pose desconfortável de quem não sabe o que fazer com as mãos, a pose de quem olha para a máquina fotográfica como se esta fosse uma espingarda e eu, lisboeta gentil, um pelotão de fuzilamento. Quando me preparava para disparar, o rapaz agitou-se muito e apontou para a estátua do Marquês de Pombal. Ele não queria como pano de fundo uma nesga do Parque Eduardo VII e o vulto dos carros que entopem a Rotunda a qualquer hora do dia. Ele queria, com toda a legitimidade, o céu de nuvens e na brancura, recortado, o perfil setecentista do homem que reconstruiu Lisboa após o terramoto. Não sem esforço, lá me baixei e dobrei e inclinei até descobrir o ângulo ideal. Eles juntaram-se um pouco mais. E sorriram. Um sorriso fixo, à espera da imortalidade possível: as cores imóveis de uma fotografia em dez por quinze.

***

Aquele sorriso recordou-me outro sorriso. O de um casal que vi durante um jantar no restaurante «Chez Ali», perto de Marraquexe. Eles estavam os dois sozinhos numa mesa enorme, rodeados de pratos gigantes cheios de carne de borrego, legumes cozidos e cuscuz. Estavam sentados em almofadas bordadas à mão, debaixo dos tectos de pano das tendas (imitações das que se montam no deserto), a ver os grupos de bailarinos sucedendo-se a um ritmo infernal, os batuques e os trajos regionais sobrepondo-se uns aos outros, vozes estridentes e alaúdes a impedirem qualquer conversa. Eles estavam ali, no meio do ruído falsamente alegre, lavando as mãos com água de rosas, à espera da sobremesa demasiado doce, perdidos na algazarra folclórica.
Convém explicar que o «Chez Ali» é um lugar bizarro. Como quase tudo em Marrocos, está organizado para ser uma armadilha turística, uma ratoeira onde vão caindo, sem pestanejar, hordas de ocidentais com as carteiras cheias de dólares e euros. No parque de estacionamento, há sempre dezenas de autocarros aguardando as excursões de reformados franceses ou alemães, velhotes obesos e trôpegos que juntaram um pé-de-meia, depois de cinquenta anos a trabalharem na «campagne» ou numa fábrica da Mercedes. E o que lhes é oferecido, no fundo, é o que eles esperam de um país tão a sul. Ou seja, todos os lugares-comuns do exotismo. Lá estão as quedas de água a imitar a cabeça de uma serpente, as fachadas sumptuosas de um monumental pseudo-palácio árabe (digno de Las Vegas), as muitas centenas de empregados, certamente mal pagos, formigando em torno das dezenas de restaurantes com decorações douradas para encher o olho, lá estão as trupes de bailarinos que circulam pelo recinto, os mestres de cerimónia desfazendo-se em salamaleques e a grande arena, onde após o jantar se realiza, todas as noites, um espectáculo «mágico», com cavaleiros acrobatas, odaliscas contorcendo-se na dança do ventre e outros cavaleiros que aparecem lá do fundo, a galope, gritando muito e disparando tiros de pólvora seca, tudo a acabar com fogo-de-artifício, ao som da «Guerra das Estrelas».
O casal, sozinho numa mesa enorme, não falava. Ele não olhava nos olhos dela. Ela não olhava nos olhos dele. Assim, de longe, pareceram-me novos e bonitos, ainda na casa dos trinta, com ar de quem enriqueceu depressa. Vendo bem, podiam ser italianos, como os outros que vim a encontrar, semanas depois, junto à estátua do Marquês. Sim, tinham mesmo aquela aura de beleza auto-consciente dos italianos. Só que não falavam. Havia nos gestos deles a marca de um desconforto, de um abismo impossível de partilhar. Mas subitamente, quando um empregado mais solícito apontou para a máquina fotográfica, uma Leica pousada na toalha de linho, aproximaram as cabeças, ele pôs a mão no ombro dela e, pela primeira vez naquela noite, sorriram. Um sorriso aberto e fixo, igual a todos os sorrisos fixos do mundo.

***

Há um filme em cartaz neste momento – «Câmara Indiscreta» («One Hour Photo»), de Mark Romanek, com Robin Williams – em que às tantas uma voz «off» diz qualquer coisa como isto: «Nas fotografias que vamos guardando ao longo da vida, só registamos os momentos felizes. Ninguém fotografa o que não quer recordar.» Isto é verdade. Os nossos álbuns estão cheios de festas de aniversário, copos-d’água, férias inesquecíveis, amigos jogando à bola, paisagens idílicas e almoços familiares, mas nunca, ou raramente, fotografamos o lado feio da vida (os funerais, os desastres de automóvel, as pernas engessadas, o lixo no quintal). Quem contemple a nossa existência fotografada em 10 x 15 – como faz o personagem de Robin Williams com uma típica família americana (juntando, numa parede imensa, os fragmentos de nove anos daquelas vidas alheias e aparentemente perfeitas) – descobrirá que vivemos num paraíso. Mas um paraíso ilusório. Porque, na verdade, o lado negro que fica fora de campo não deixa de existir. E mesmo os sorrisos fixos, como o do casal sozinho em Marraquexe, podem esconder a mais subterrânea das tristezas.

***

Carreguei no botão, a máquina disparou e o rapaz agradeceu a minha disponibilidade, com a mesma mistura de italiano e linguagem gestual. Depois, continuei a ler as «gordas», cruzamento amargo de marés negras e corrupção, pedofilia e «Big Brother», enquanto eles seguiram o seu percurso por Lisboa, «una città molto bella». Presumo que tenham pedido a outros transeuntes dois minutos de paciência e uma fotografia, de sorriso fixo, em frente à Torre de Belém, ao Castelo de São Jorge, à Casa dos Bicos. Presumo ainda que o rolo de 36 imagens terá sido levado para Itália, onde o revelaram e o transformaram em rectângulos coloridos (com dez por quinze centímetros) que mãos cuidadosas guardaram num álbum, entre folhas de cartolina e outras, mais finas, de papel de seda. Um álbum que os filhos e os netos de cada um deles (ou dos dois) um dia verão com um misto de nostalgia e incredulidade. «Vocês já foram assim, tão novos, a sorrir numa cidade estrangeira?» E nenhum dos filhos e netos suspeitará sequer que fui eu a enquadrar esse sorriso, com o Marquês ao fundo, numa distante manhã de Novembro.

15:36  
AS PALAVRAS MAIS FRÁGEIS
No ecrã da televisão está um navio a afundar-se. É um petroleiro imenso, chamado «Prestige» (nome ridículo para quem transporta o que transporta), um gigante a afundar-se ao largo da Costa da Morte e a espalhar uma mancha de fuelóleo que há-de ser, temem as autoridades, uma das maiores tragédias ecológicas na história da península. Passou-se isto no último fim-de-semana e eu, por mero acaso, estava na Galiza, em Mondoñedo (perto de Lugo), onde pude ver a ansiedade dos galegos frente às imagens da desgraça. Já houve outras marés negras no passado e por isso eles sabem as consequências que o desastre terá na economia da região – ou do «país», como muitos insistem em chamar-lhe. Impedidos de sair para o mar, os pescadores do cabo Finisterra temem pelo seu futuro. E os habitantes de Mondoñedo – cidade antiquíssima que já foi capital do reino (quando havia reino) e que ainda se estende pela verdura de um vale batido pela chuva (Álvaro Cunqueiro apelidou-a, num verso, «cidade deitada no chão como uma mulher grávida e silenciosa») – os habitantes de Mondoñedo, dizia, estão solidários. Solidários e impotentes, diante dos televisores acesos no calor das tascas, onde em dias menos tristes se bebem, caída a noite, copos de vinho tinto, para animar os amigos antes da «cea».
Podia escrever sobre isto: a catástrofe natural, Álvaro Cunqueiro, a Galiza, Mondoñedo ou o que fui lá fazer (fica para outra altura). Acontece que hoje não quero falar da realidade concreta do mundo. Hoje quero apenas falar das palavras mais frágeis. As que não se pronunciam nos telejornais nem são capazes de descrever a viscosidade do crude. As palavras mais frágeis. Palavras de vidro que existem dentro dos poemas. Palavras que se partem e desfazem no ar e sobem às alturas e explodem e são cinza e lume vivo e neve e vento que arde junto ao rosto. Palavras que encontro no primeiro livro de Joaquim Cardoso Dias («O Preço das Casas», Gótica), um pequeno volume que só foi publicado agora, no fim de Outubro, mas que comecei a ler há muitos anos, no tempo em que o «DN Jovem» era a alegria das terças-feiras, feita de papel e textos escritos por nós, ainda às cegas, a tentar perceber o que é isso da literatura.
Nesse tempo, princípio dos anos 90, sabíamos que aquelas folhas editadas pelo Manuel Dias, com um esmero e entusiasmo infinitos, poderiam trazer – por entre as vozes ainda em esboço (como a minha e a de muitos outros) – o brilho de alguns textos definitivos: os contos do José Riço Direitinho, as parábolas do Agualusa, as prosas perfeitas do Alexandre Andrade ou os poemas do Joaquim Cardoso Dias (alguns dos quais estão, intocados, neste «O Preço das Casas»). Os versos do rapaz de Castelo Branco eram súbitos clarões de uma beleza estranha, oblíqua, impalpável. E talvez por isso muita gente os aprendia de cor, com um espanto próximo do que mereciam os monstros sagrados (como Herberto ou Sophia).
Mas, depois, os anos foram passando e o livro do rapaz de Castelo Branco, o primeiro livro que todos esperávamos ansiosamente, não chegou a aparecer. Quem o conhece de perto (e eu conheço) sabe porquê: há nele uma insegurança primordial, uma exigência e um recato que não são deste tempo, deste Portugal onde reinam os egos medíocres e hipertrofiados. O Joaquim é, se a expressão faz sentido, um poeta à moda antiga. Hipersensível, delicadíssimo, poético mesmo nas coisas mais prosaicas da vida. Sei, por exemplo, que ele cultiva frésias no quintal, em cada primavera, e as envia por correio, muito bem embrulhadas, para outro poeta à moda antiga, Eugénio de Andrade, que fica triste se elas não chegam ou se atrasam. Sei também que trocava cartas quase todos os dias com o Al Berto, amigo a quem dedicou, ainda antes de se conhecerem, um dos seus melhores poemas («Set of Blades», no fim do qual pôs a frase: «este é, talvez, o poema da página 566 de "O Medo"»).
Ao longo dos anos, o círculo de amigos e admiradores – houve quem dissesse que era o «melhor poeta português ainda inédito» – insistiram muito para que publicasse. Mas ele foi adiando sempre a sua estreia literária. «Ainda não chegou a hora», explicava. E nem o persuasivo Manuel Hermínio Monteiro o conseguiu levar, como queria, para a Assírio & Alvim. Agora, depois de muitos vagares e hesitações, o livro existe. Finalmente. Tem um título que faz lembrar Ruy Belo (poeta a quem o autor pediu emprestados os versos da epígrafe), reúne muitos dos poemas já conhecidos (do «DN Jovem», de revistas, de antologias) e foi dedicado, talvez com uma pontinha de remorso, ao «pai» da «Rosa do Mundo».
Se quisermos resumir tudo numa palavra, esta é uma poesia que se move «com a velocidade de uma doença fixa»: o amor. O amor total, armadilhado, maldito, necessário, improvável. O amor que é um fio de luz que aproxima (ou afasta) dois corpos. O amor que leva à «cegueira dos afectos», à loucura e à perdição. O amor que está no centro de tudo, como um aleph terrível e sem sentido, o caos que consome toda a energia do universo. O amor que é júbilo, entrega, súplica e desespero. O amor (ou a sua ausência) como única realidade possível. Sim, todos os poemas deste livro são sobre o amor (mesmo os que não parecem ser). E todos se dirigem a um «tu sem nome», que é visto como um bem inatingível («queria tanto saber/ mostrar-te o meu coração») ou um mal incurável («já não tenho comprimidos para te esquecer»). Cada poema é um espelho partido, um turbilhão de imagens fragmentadas que se expandem e entrechocam, uma deriva sem princípio nem fim.
Joaquim Cardoso Dias escreve desassombradamente sobre o que existe de mais íntimo na experiência humana: a dor, o desejo, o medo, a solidão. E não teme o que outros temeriam: dizer a palavra amo-te muitas vezes, narrar o silêncio de um corpo abandonado, repetir que chora baixinho. Há em tudo isto uma enorme violência emocional e uma desmesura que nunca deixa de ser lírica. Veja-se o exemplo de «How try say», um poema muito breve: «odeio-te/ corto os pulsos/ escrevo o teu nome num frasco de mel// já não sei ouvir se me estás a ouvir».
«O Preço das Casas» é um belíssimo e magoado livro de poemas. E é, também, um paradoxo. Na literatura portuguesa, poucas vezes alguém se terá exposto tanto com tamanho pudor.

15:36  
ÚLTIMA AULA, ENTRE ÁRVORES
1. No cerimonial que acompanha a derradeira lição de um professor ilustre, há sempre algo de profundamente melancólico – para não dizer fúnebre. Sabem como é: um anfiteatro repleto de vultos silenciosos (o silêncio como sinónimo de reverência, de respeito), o grande quadro de ardósia ao fundo e o velho mestre transmitindo, com pausas estudadas, o que resta da sua sapiência. Há um lado triste nesta solenidade toda, uma atmosfera de velório, um cheiro a cera e coroa de flores. É como se o abandono da cátedra fosse o capítulo final de uma obra fechada, o adeus definitivo e sem retorno. Após uma vida inteira de estudo, criação e magistério, o mestre é carinhosamente empurrado para a reforma: isto é, para a suave decadência e, nalguns casos, para o esquecimento. Talvez exagere um pouco no retrato, mas foi sempre assim que entendi esta espécie de homenagens «pré-póstumas» (como diria Robert Musil) aos eméritos professores das nossas faculdades.
Por isso, quando um e-mail amigo me avisou da jubilação do Prof. Fernando Catarino, no passado dia 9 (sábado), temi o pior. Não o imaginava de toga, na penumbra de um salão nobre, a declamar um discurso muito ensaiado. Foi então que li melhor o «programa» e pude serenar. Atingido o limite de idade (70 anos), o docente do Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências de Lisboa (Universidade Clássica) despedir-se-ia da vida académica com uma aula sobre «As plantas na sua adaptação ao meio ambiente». Só que, atenção, uma aula dada ao ar livre, no Jardim Botânico do Museu de História Natural (que tem sido um dos centros da sua vida e de cuja direcção também se vê forçado a abdicar). Uma aula no Jardim, circulando entre as «suas» árvores? Quem conheça o Prof. Catarino, sabe que esta era a única despedida possível.

2. Às 9 e 30 da manhã, junto ao edifício da antiga Escola Politécnica, acotovela-se uma razoável multidão. Várias centenas de pessoas – alunos, ex-alunos, outros professores, amigos – acordaram mais cedo para ouvir este homem que fala, no cimo da escadaria de pedra, como se estivesse no campo, arrancando folhas às árvores para explicar, com gestos abertos, alguns dos mais fascinantes segredos da Botânica. A assistência conhece-o e por isso sabe que a sua última aula só podia ser igual às outras todas: um fluxo de conhecimentos que se vão encaixando uns nos outros; um permanente vaivém entre teorias gerais e casos concretos; uma espécie de festa do saber à solta, livre de quaisquer rédeas, sempre com muitos apartes, parêntesis e desvios.
Estas interrupções, como qualquer ex-aluno recordará, instalam um certo caos no seu discurso e levam-no a perder, várias vezes, o fio à meada. No fim, porém, chegamos sempre à conclusão de que aprendemos muito mais enquanto andávamos perdidos, por atalhos e bifurcações, do que no conforto aborrecido da linha recta. Em pé no topo da escadaria de pedra, com a multidão atenta às modulações da sua voz, Fernando Catarino está no seu elemento e demonstra porque razão é considerado um comunicador nato: sabe dominar o tempo das frases, as pausas, os silêncios, os momentos de descompressão e humor.
Mas pode um cientista ser também um «entertainer»? Pode, claro que pode. Nalguns casos até deve, quando é a única maneira de cativar uma audiência relutante. Sem pôr em causa o rigor científico, o Prof. Catarino sempre soube divertir os seus alunos e não veio mal ao mundo por causa disso – antes pelo contrário. No sábado, aliás, ele próprio alertou para o duplo sentido da palavra «jubilação». Confiram no dicionário: quer dizer «aposentação honrosa de professor catedrático» mas também «grande alegria, júbilo, contentamento». Significa uma coisa e a outra. Ou então as duas em simultâneo, como pude constatar no fim da cerimónia, ao ver tanta gente a sorrir e a comer castanhas assadas, por entre as árvores do Jardim...

3. Era inevitável. No meio da multidão, encontrei vários antigos colegas de curso, todos estudantes de Biologia que se tornaram mesmo biólogos e que toleram, nem sei porquê, um miserável trânsfuga como eu. Relembrámos, é claro, as aulas de Biologia Vegetal do Prof. Catarino, no primeiro ano. Começavam às oito da manhã em ponto, o que exigia um sacrifício absurdo a quem vinha de longe e era obrigado a atravessar o Tejo num cacilheiro. Depois de vencidos o sono, o autocarro, o rio e o eléctrico, lá me sentava nos vetustos bancos de madeira, cobertos de tatuagens azuis desenhadas com BIC cristal. Lembro-me do Catarino a enfrentar os nossos 300 pares de olhos aturdidos, explicando o conceito de «black box». Lembro-me de tirar fotocópias do Jensen (era assim que apelidávamos os livros de estudo, pelos apelidos dos seus autores) e de sublinhar as sebentas da Open University na pastelaria Cister, quando as conversas com a Carlota ou com a Adelaide não me levavam para outro lado. E lembro-me, sobretudo, das saídas de campo. As míticas e épicas saídas de campo. O Prof. Catarino a abrir caminho, à força, na vegetação densa da Matinha de Queluz. Ou na Arrábida, subindo as encostas com um passo rapidíssimo que não conseguíamos acompanhar, enquanto a vegetação à nossa volta ganhava nomes em latim e se tornava, de repente, uma coisa ordenada e lógica. Lembro-me ainda de um fim de tarde em que nos sentámos todos, lá no alto, no lugar onde se vê o Tejo de um lado e o Sado do outro. O professor sacou de um livro que não era o Jensen. E leu-nos Sebastião da Gama e Camões.

4. No fim da última aula, depois de ter passado em frente da enorme «Ficus», a árvore emblemática do Jardim, com quem fala todos os dias; depois de nos ter mostrado uma cesta cheia de «Phalus impudicus» (um fungo que faz jus ao nome que Lineu lhe atribuiu); depois de ter evocado os seus mestres (o Prof. Resende, o Prof. Serra) e elogiado os seus discípulos («os currículos deles já são muito melhores do que o meu»); depois dos agradecimentos e dos momentos de comoção; o Prof. Catarino disse, com a sua voz inconfundível, que se reforma mas vai «continuar por aí para as curvas». As suas curvas. Vai descansar, ler, viajar e devolver à família o tempo que a sua carreira lhe roubou. Depois, sem pressas, continuará a fazer o que melhor sabe: divulgação científica, com rigor e um entusiasmo «à la» David Attemborough. Projectos não faltam, nomeadamente um guia definitivo do Jardim Botânico. Sobre isto tudo e as memórias do seu percurso (que não cabem numa crónica), havemos de falar um dia destes, ali mesmo, no mais belo labirinto verde de Lisboa. E eu prometo aos leitores do DNA que levarei comigo, nesse dia, o gravador.

15:35  
A INVENÇÃO DA MÚSICA
1. Primeiro aviso: este texto não é uma crítica literária. É uma crónica sobre dois livros – «Uma Casa na Escuridão» (romance) e «A Casa, a Escuridão» (poesia) – publicados em simultâneo no final de Outubro, pela Temas e Debates. Segundo aviso: o autor dos dois livros, José Luís Peixoto, é um dos meus melhores amigos. Quando um dos nossos melhores amigos publica um livro (ou dois, é a mesma coisa) há sempre um dilema. Falamos ou não falamos sobre o que ele escreveu? Para mim, o dilema desfaz-se desta maneira: se me entusiasmei mesmo com o que li, se fiquei convencido de que a obra é importante e se me sinto capaz de a defender, falo; mas se o livro me desiludiu e não sei como o dizer (sem magoar), calo. Entre o silêncio e o equívoco, é sempre preferível o silêncio. Terceiro aviso: o facto de eu gostar muito destes livros é independente do facto de conhecer muitíssimo bem o seu autor (às vezes até nos pequenos gestos). Os dois factos são independentes, sublinho; eu é que não consigo separá-los. Por isso, num texto que se recusa a ser uma crítica literária, decidi manter essas duas esferas – a da leitura e a da amizade – assim mesmo: inseparáveis.

2. É preciso compreender que «Uma Casa na Escuridão» não é, para mim, apenas mais um romance que se lê e arruma na estante. Desde o final de 2000 – quando discutimos pela primeira vez a estrutura do livro, numa viagem de carro, para o Porto – assisti a muitos momentos da génese desta obra. Lembro-me do Zé Luís a ler uma página acabada cinco minutos antes, emocionadíssimo na varanda de um sexto andar da Av. 5 de Outubro, a noite muito escura sobre os telhados de Lisboa. Lembro-me de o ver à volta do texto, trabalhando-o, num monte alentejano perto de Beja (era verão), com os Rammstein aos berros na aparelhagem. Lembro-me dele, sentado a escrever os poemas de «A Casa, a Escuridão», num apartamento T0 da rua Bleiweisova, em Zagreb, entre pilhas de livros e restos do almoço, a chuva fustigando a janela e eu sentado no sofá, a fazer planos para a viagem de comboio até Ljubljana. Lembro-me de comprar um pequeno livro com quadros do Caspar David Friedrich na livraria Algoritam, ainda em Zagreb, e o Zé Luís a folheá-lo, a abrir muito os olhos e a dizer «é esta, é esta a imagem que quero na capa do livro» – e ela lá está: um portão de ferro que dá para as sombras da morte. Lembro-me de avançar pela leitura do manuscrito (uma pilha de folhas em cima da minha mesa), de fazer notas e sugestões, elogios e críticas, de sublinhar certas passagens, de caçar gralhas. Ao reler o livro, agora, foram também essas memórias que reli.

3. «Uma Casa na Escuridão» é um livro que transporta, como um fardo, o peso de «Nenhum Olhar», esse magnífico romance de estreia que deu ao José Luís Peixoto, desde logo, uma posição de destaque na literatura portuguesa contemporânea. O segundo romance é sempre um risco, porque desaparece a complacência dos críticos e porque alguns destes, ainda antes de lerem o livro, já afiam as suas facas. Depois de uma glória tão súbita – «Nenhum Olhar» venceu o Prémio Saramago, foi finalista do Prémio APE e está traduzido em várias línguas – era compreensível uma certa precaução. Em vez disso, JLP olhou em frente e não teve medo de caminhar, o tempo todo, no fio da navalha. A sua escrita está sempre à beira de se desfazer. É uma teia de aranha – sólida apesar da aparência frágil – tecida sobre um abismo muito negro. É a desmesura que fica na fronteira instável entre o sublime e o banal. «Uma Casa na Escuridão» pode ser lido de muitas formas: como uma parábola, como uma sucessão de pesadelos ou como a história de um mundo que é pura «cosa mentale», delírio de um espírito perturbado. Ou pode ser simplesmente «um espelho de escuridão a reflectir apenas escuridão». Ou, ainda, a narrativa da impossibilidade das coisas mais belas e puras. O amor. A inocência. Quarto aviso: quem veja nesta obra apenas a laboriosa reprodução de um estilo (assente nas já famosas repetições de palavras, frases e ideias) ou quem veja nesta obra apenas uma gratuita galeria de horrores (um horror muitas vezes no limite do suportável), não vê nada.

4. Admito que depois da cena final apocalíptica – como apocalíptico e niilista era o desfecho do primeiro romance – o leitor possa ficar como que encandeado pelo lado sombrio da história. Após a leitura, ninguém consegue esquecer a visão dos invasores, com as suas barbas até à cintura e roupas de metal, homens selvagens que falam uma língua só de vogais e mutilam e violam sem que saibamos porquê. É impossível não lembrar a morte horrenda do editor, o suicídio da mãe, o massacre das crianças ou o grupo dos mutilados (um sem mãos, outro sem pernas e braços, outro sem coração). Mas, no meio de tanto negrume, dentro do mês da noite e no silêncio da grande casa coberta de hera e cheia de gatos, há também momentos de luz que ganham, talvez pela escuridão que os cerca, maior brilho. É o caso da amizade absoluta entre o narrador e o príncipe de calicatri. Ou a história de amor – tão bela, tão triste – entre o príncipe de calicatri e a escrava miriam. Ou a invenção da música. No país bizarro deste romance, onde a escravatura e as armas arcaicas coexistem com auto-estradas e esferográficas, onde há filas à porta das livrarias mas os editores são mais desprezados que os ladrões, neste país assolado pela violência mais extrema, não existia a música. Um dia, alguém a inventa «como uma flor/ a florir desmedida, como uma cidade secreta/ a levantar-se do chão». A música é uma arma contra o caos. Talvez a única que subsiste, mesmo após a morte de tudo. E a escrita de José Luís Peixoto, desde o primeiro livro («Morreste-me»), é também uma invenção da música. A música das palavras contra o caos do mundo.

5. Releio os dois livros. O romance e os poemas. São duas linhas paralelas, atravessando o mesmo universo e as mesmas personagens. São talvez gémeos siameses como Moisés e Elias (os irmãos de «Nenhum Olhar», unidos pelo dedo mindinho). Cada um destes livros poderia dizer o que diz, sobre a mãe, o narrador de «Uma Casa na Escuridão»: «Éramos dois espelhos virados um para o outro. Éramos, cada um de nós, um espelho que reflectia o espaço infinito do interior de outro espelho. Entre nós, não havia distância porque éramos atravessados um pelo outro. Fazíamos parte de um lugar infinito que era igual em cada um de nós». É para esse lugar infinito, cheio de cintilações e sobressaltos, que José Luís Peixoto convoca os seus leitores.


15:35 10.1.03  
KURSK
1. Em Julho de 1988, ainda havia no mundo dois blocos, dois sistemas económicos, duas super-potências. O muro de Berlim ainda dividia a Europa (embora Gorbachev já estivesse no poder, agitando palavras mágicas como «glasnot» e «perestroika»). Os atletas da URSS ainda ganhavam o maior número de medalhas olímpicas (só de ouro: 55) nos Jogos disputados em Seoul. Ainda se falava de guerra fria, de equilíbrio geo-estratégico, de dissuasão nuclear. E eu contemplava, todos os dias, na imensidão azul do Báltico, a elegância portentosa do Sedov e do Kruzenshtern, dois navios-escola que eram o orgulho da Marinha soviética. Lembro-me sobretudo do Sedov, um monstro branco de quatro mastros e 117 metros de comprimento (a merecer registo no Guiness), um verdadeiro gigante dos mares, sobretudo quando içava ao mesmo tempo todas as velas e mais parecia uma nuvem imensa a pairar à flor das águas. Lembro-me particularmente bem do Sedov porque o Creoula – um lugre português de «apenas» 67 metros, com uma inexperiente mas esforçadíssima tripulação de jovens aprendizes – ficou atracado atrás dele, em Copenhaga, no intervalo entre duas regatas da «Cutty Sark Tall Ship Race» daquele ano. Nós, adolescentes portugueses que nunca antes estivéramos cinco dias sem ver terra, marinheiros de água doce a aprender tudo do princípio (o que é uma tempestade, o que são ondas de dez metros), olhávamos admirados para a disciplina e organização dos grumetes soviéticos. Quando subíamos ao convés pelas oito da manhã, para nos perfilarmos na parada, eles já esfregavam com afinco as placas de metal dourado, ou trepavam aos mastros em segundos, ou enrolavam cabos com uma perícia e velocidade espantosas. Eram todos altos, eram todos louros, eram todos impossivelmente fortes e musculosos. Para nos humilharem, faziam o pino e flexões e piruetas e mortais encarpados. Só lhes faltava o pó de talco nas mãos e camisas vermelhas a dizer CCCP para serem cópias fiéis, ou mesmo clones, dos ginastas que subiam ao pódio e ouviam o hino, a milhares de quilómetros de distância. Numa prova de remo, em que tivemos a infeliz ideia de participar, vimo-los a distanciarem-se nas águas paradas do porto de Copenhaga (ainda hoje suspeito que recorreram a um motor invisível) enquanto nos limitávamos à acesa disputa do penúltimo lugar, com a tripulação feminina do navio inglês «Winston Churchill», a quem ganhámos por uma unha negra. Quando deixámos a Dinamarca, em direcção ao Mar do Norte, reparei na popa arredondada do Sedov. Numa placa impecavelmente polida, estava escrito o porto de origem: Murmansk.

2. Antes de entrar no submarino nuclear Kursk, para cinco dias de manobras militares, o oficial Dmitri Kolesnikov escreveu a Olga, uma professora de Biologia com quem casara três meses antes, um poema tão breve e ingénuo quanto sincero e premonitório: «Se chegar o tempo de morrer, embora tente não pensar nisso, quero ser capaz de dizer, minha querida eu amo-te». Quando Olga recebeu a mensagem, no dia 12 de Agosto de 2000, esse abstracto «tempo de morrer» passara a ser uma realidade concreta. No fundo do mar de Barents, após ter sobrevivido às duas explosões violentíssimas que mataram 95 tripulantes e danificaram irreversivelmente o submarino, Kolesnikov esperava cada vez menos o milagre de uma salvação «in extremis» e cada vez mais a lenta sombra da morte. Fechado com outros 22 sobreviventes no compartimento 9, um dos poucos onde a água não chegou, era ele o chefe que restava depois da catástrofe, o único que podia dar ordens àqueles homens silenciosos, condenados a resistir ao frio, ao desânimo e aos gases venenosos. Mesmo na escuridão total, mesmo escrevendo às cegas, o oficial Kolesnikov (nome que parece saído de um romance de Dostoievsky) continuou a redigir relatórios sumários do que se passava, anotando as horas exactas («13h15», «13h34») no canto superior direito das folhas e guardando o caderno numa pasta à prova de água, para que alguém um dia pudesse refazer – pelo menos em parte – a história do naufrágio. O bom soldado é o soldado capaz de ser zeloso até ao fim, mesmo quando a esperança desapareceu e já nada importa.

3. Há dois anos, em Agosto, eu estava de férias. Dividia-me entre as tardes ventosas na praia de Melides, a leitura dos muitos livros que haviam sobrado do inverno anterior e o sublime pato assado da D. Antónia (uma especialidade da «Caverna do Tigre», um improvável restaurante de estrada que merece, da minha parte e de alguns amigos, frequentes e jubilosas peregrinações gastronómicas). Estava de férias quando o acidente se deu. Ávidos de notícias, os jornais e televisões falaram do Kursk e do destino dos seus marinheiros durante dias, a todas as horas. Eu vi, eu ouvi, eu li, eu imaginei. O Kursk pertencia à base de Murmansk, sede da Frota do Norte. Murmansk. Foi então que me lembrei do Sedov. Lembrei-me dos grumetes a fazerem o pino e a simularem exercícios nas argolas que não havia. Alguns daqueles marinheiros podiam agora fazer parte da tripulação do Kursk. Engoli em seco e senti-me subitamente minúsculo, como o Creoula ao pé do gigantesco navio – branco, tão branco – que chegava a parecer, com as velas enfunadas, uma nuvem a pairar à flor das águas.

4. Quando os mergulhadores conseguiram entrar no Kursk e recuperar os corpos, vários meses após o acidente, descobriram o caderno de notas num dos bolsos de Kolesnikov. Dois anos depois da tragédia, ainda não se sabe exactamente como morreram os 23 homens. Há quem diga que resistiram oito horas, há quem fale em cinco dias. As últimas palavras do homem com nome de personagem de Dostoievsky, escritas quando o oxigénio se esgotava, foram para os familiares mais próximos. Depois de enviar cumprimentos à sogra (presume-se que sem ironia), dirigiu-se a «todos» com um pedido: «Não desesperem». Olga gostava de obedecer mas é incapaz. O mundo deixou de existir naquele dia de Agosto. E como naquele dia, as palavras do poema ainda ardem nas suas mãos, nos seus olhos, no seu coração afundado.

16:27  
O FESTIVAL
Eu estava sentado na terceira fila. Por baixo de mim, a dureza do banco de madeira, a ser mais um degrau da grande plateia erguida na Escola D. António da Costa, desde há muitos anos o «coração» do Festival de Teatro de Almada. Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite. À minha volta, o silêncio do público. O silêncio de quem está preso ao que se passa em cima do palco e gosta de se sentir assim: preso. À minha frente, o palco. O palco iluminado. Luzes de projectores como se fossem o sol na Inglaterra do séc. XVI. O palco sem nada. Nenhum cenário, nada, nem sequer uma cadeira. Só um homem e a sua mala. Um homem mais a sua mala (de vez em quando pousada no chão; de vez em quando aberta para tirar, lá de dentro, um pano ou uma máscara). E as palavras. As palavras de Tubal – a personagem – ditas por Manel Barceló, o actor.
Eu não conhecia Tubal e creio que o público silencioso – muitas cabeças no escuro, à minha volta – também não. Porque Tubal é uma das mais obscuras personagens de Shakespeare, com um papel ainda menos importante, no enredo do «Mercador de Veneza», do que o de Rosencrantz e Guildenstern na trama de «Hamlet». Antes de ser resgatada por este brilhante monólogo de Gareth Armstrong, Tubal era uma sombra fugaz que durava oito réplicas. Oito frases num diálogo com Shylock, o judeu que empresta dinheiro a António, o mercador, exigindo uma libra da carne deste como penhor. Tubal não é apenas o melhor amigo de Shylock. «Sou o único», diz com orgulho, uma e outra vez. É talvez por ser seu amigo que tenta mostrar-nos outra imagem do «judeu maldoso», livrando-o do labéu diabólico e aproveitando para fazer a exegese desta peça de Shakespeare (devidamente enquadrada na restante obra do bardo, bem como no contexto do teatro isabelino), isto enquanto narra as desventuras e tragédias da História dos judeus na Europa.
Estava portanto sentado na terceira fila, contemplando Tubal a desmultiplicar-se em narrativas dentro de narrativas, transfigurando-se em 43 personagens diferentes – actores, bispos, soldados, o próprio rei – quando aquilo aconteceu. E não sei sequer explicar o que cabe na palavra «aquilo». Foi talvez uma frase dita num murmúrio, um gesto brusco, uma risada, o som da enorme mala a poisar nas tábuas. Foi qualquer coisa que accionou subitamente os mecanismos da memória, uma versão teatral da madalena de Proust. Sei apenas que me ausentei por momentos dali, da terceira fila. E regressei aos meus 12 anos.
Em 1984, eu tinha 12 anos e assisti ao primeiro Festival de Teatro de Almada. Era outra coisa, muito mais pequena, muito mais modesta. Um palco diminuto, ao fundo do Beco dos Tanoeiros, cadeiras de café em ferro (emprestadas daqui e dali), cem pessoas no máximo a assistir, mais as que espreitavam das janelas. Grupos amadores, erros e ingenuidades, uma alegria imensa de ver o mundo a ganhar forma sobre o palco. Depois, fui crescendo e o Festival também. Recordo todos os lugares por onde passou, por onde passámos: o Pátio do Prior do Crato (sempre à cunha; e mais ainda quando lá foi o Mário Viegas), o Largo da Boca do Vento (com as primeiras companhias estrangeiras), o Palácio da Cerca (inclinado sobre Lisboa, recebendo as brisas frescas que sobem do Tejo), o Teatro Municipal e, por fim, a Escola D. António da Costa. A minha antiga escola, a escola onde fiz o ensino preparatório. Abre-se uma memória dentro da memória e revejo as tropelias, as corridas, os cromos com as caras feias dos futebolistas, o jogo do alho, o cerco às raparigas (na fase dos apalpões), as conversas com o meu amigo Prakash Pratapsi Udeshi, um matulão indiano que viera de Moçambique (às vezes ainda tomava banho com leite de cabra, dizia ele) e que foi o meu adversário, vencido, na final do campeonato escolar de xadrez.
Recordo-me depois dos espectáculos que me marcaram. E foram tantos. De alguns perdi as referências: aqueles quatro actores que simulavam um quarteto de cordas (como se chamava a peça? de onde vinham eles?) ou o grupo que interpretou magistralmente a peça «O Aumento», de Georges Perec. De outros lembro-me bem: o actor Rafael «El Brujo» Alvarez a levar ao rubro o Palácio da Cerca, com o seu esfomeado «Lazarillo de Tormes»; os «Touros, Majas y otras Zarandajas», do colectivo Margen (Oviedo), a incendiarem as ruas de Almada; a hipnótica «Viagem ao Centro da Terra» no comboio transfigurado dos chilenos La Troppa; a poesia de Lorca dita por Núria Espert; as principais peças das grandes companhias portuguesas; ou os trabalhos recentes dos melhores encenadores europeus (Peter Brook, Joan Font, Bernard Sobel; a lista é longa).
Em todos estes anos – sou testemunha credível, porque não falhei uma edição que fosse – há uma figura que permanece no centro das operações e é a própria essência do Festival, mesmo quando se esconde atrás das cortinas para dar a ribalta aos actores. É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos. Chama-se Joaquim Benite e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras. Quando o encontro, junto ao portão da escola, dando as boas-vindas aos espectadores, orgulhoso das peças que lhes vai oferecer logo a seguir, percebo que nem todos os caminhos da cultura estão condenados a terminar no deserto da frustração. Eu vi a barba deste homem a ficar branca com o passar do tempo, esse rio feito de júbilos, sustos, dúvidas, esperanças, inquietações. Mas vi também que o brilho dos seus olhos nunca esmoreceu. É hoje mais intenso do que nunca.
Intenso como a voz – agora triste, agora carregada de melancolia – do actor Manel Barceló, aliás Tubal. A peça está a terminar e ele acaba de explicar-nos a forma repentina como Shylock desaparece dos diálogos finais do «Mercador de Veneza». O judeu, vencido no tribunal, mergulha no seu próprio infortúnio, cai na sombra da perdição. E eu desperto da minha viagem no tempo, enquanto Tubal se afasta com a sua mala, desaparecendo aos poucos na penumbra do palco. À minha volta, o silêncio do público desfaz-se. Aplausos, pessoas de pé, mais aplausos. Eu continuo na terceira fila, levanto-me, grito «bravo». Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite.

16:25  
OUTROS FUTEBÓIS
Quando Pierluigi Collina, o árbitro italiano da careca reluzente, apitou para o fim do Brasil-Alemanha, senti uma espécie de alívio. OK, está tudo decidido, o Brasil ganhou (era isso que a FIFA queria, não era?), «sayonara» e até à próxima. Após um mês de massacre mediático, com jogos e resumos a todas as horas, mais as reportagens, as conferências de imprensa e os «fait divers», podemos finalmente voltar à normalidade. É que o nosso mundo tem a forma de uma bola de futebol, mas não é uma bola de futebol. Aliás, indiferente aos golos de Ronaldo e à euforia verde e amarela, continuou a girar em torno do sol, exactamente à mesma velocidade e com os mesmos problemas que tinha antes da arrancada feliz do Brasil, em direcção à glória do pentacampeonato.
Durante uns dias, estou certo, sofreremos ainda a ressaca da obsessão colectiva com o pontapé na bola, esta loucura universal que degenerou, por cá, naquilo que sabemos: uma patética esquizofrenia da derrota – tão feia, tão boçal, tão fatalista e tão vergonhosa que o melhor mesmo é esquecê-la (tentando, pelo menos desta vez, aprender com os erros). Mas depois, aos poucos, regressará a realidade que ficou suspensa, em segundo plano, provavelmente ainda mais crua e brutal. E não restarão cortinas de fumo para encobrir o cenário de uma crise económica cuja verdadeira dimensão ninguém consegue entrever, apesar dos muitos sinais: as falências em série nos EUA, a desorientação política de uma Europa incapaz de resolver o problema da imigração (já para não falar das fronteiras internas que «reaparecem» da pior maneira), a instabilidade bolsista ou os nossos 3,9% de défice.
Não pretendo com isto menosprezar a importância do futebol enquanto fenómeno global. Um desporto só consegue prender aos ecrãs da TV metade da população do planeta – mesmo a horas impróprias, devido aos fusos horários – se existir, na essência do jogo, um qualquer efeito aglutinador que não podemos ignorar. É fácil dizer que o futebol é o novo «ópio do povo», um gigantesco negócio (com potenciais ramificações mafiosas) ou um substituto pagão dos ritos religiosos. Mas isso implica esquecer que este desporto atravessa transversalmente as sociedades, atraindo todo o tipo de pessoas, do torneiro mecânico ao exegeta de Wittgenstein, do aristocrata falido ao comunista que ajuda a erguer, todos os anos, a Festa do Avante.
Como escreveu o antropólogo Christian Bromberger, num livro esclarecedor logo no título («Football, la bagatelle la plus sérieuse du monde», Bayard Éditions), este jogo «apresenta-se, sob a aparência de um divertimento fútil, como uma das matrizes simbólicas mais profundas do nosso tempo». As suas regras e os seus rituais permitem-lhe «uma pluralidade de leituras e metáforas (da exaltação das virtudes nacionais à glorificação do trabalho de equipa), de reacções emocionais (do riso à angústia) e de modos de participação (do fervor ruidoso à mera contemplação estética)». Talvez como em nenhum outro desporto, oscila-se aqui «entre o trágico e o cómico, a festa e a guerra, o serão mundano e o esforço militante». E talvez como em nenhum outro espectáculo, podemos ir da epopeia à farsa e do desastre à redenção, em apenas 90 minutos.
O futebol é popular e universal (ia dizer democrático) porque imita a vida. Tal como ela, é aleatório, imprevisível, por vezes cruel. Há bolas que batem na trave, «penalties» falhados no último minuto, injustiças que o tempo não apaga. O futebol, apesar das tácticas e dos treinos científicos e dos investimentos milionários dos grandes clubes, nunca deixa de ser o território de todas as possibilidades. A lógica prevalece quase sempre, mas também se verga, quando a equipa amadora vence um «grande», quando os craques pagos a peso de ouro falham no momento decisivo, ou quando certos jogadores medianos se mostram capazes de uma súbita jogada de génio. A famosa expressão segundo a qual «a bola é redonda e há 11 jogadores de cada lado» pode ser uma evidência redundante, mas não deixa por isso de ser verdadeira. Aliás, é curioso constatar que a linguagem futebolística, tantas vezes pobre e repetitiva, corresponde na perfeição àquilo que o futebol acaba por ser: um imenso lugar comum (às vezes irresístivel; às vezes insuportável).
E isto traz-me de volta ao princípio, ao Mundial anémico a que tivemos direito este ano. Durante a final, ainda tentei enumerar os momentos altos da prova mas não consegui fixar nenhum. Pior, tive muitas saudades de outros tempos: 1982 (lembram-se da meia-final França-RFA, digna de Homero?); 1986 (a geometria variável dos passes de Maradona, mais aquele segundo golo à Inglaterra – ó deuses, que maravilha!); e 1998 (os «bleus» de Zidane como um mecanismo quase perfeito).
Na Coreia e no Japão, registo algumas surpresas agradáveis (Senegal; Turquia) mas a verdade é que a prova se esvaziou, em termos de qualidade técnica e emoção, após o abandono precoce da França e da Argentina, os dois únicos legítimos favoritos. O balanço é penoso: houve pouco futebol, pouca magia, pouca criatividade, poucas inovações tácticas e demasiados erros dos árbitros. Salvam-se as revelações: o turco Hasan Sas (para mim, o melhor jogador do torneio), o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, o senegalês Fadiga, o mexicano Torrado e o espanhol Joaquín. De resto, só vi jogadores fraquinhos e vedetas exaustas (às voltas com os seus contratos publicitários e os penteados extravagantes). Não espanta por isso que o Brasil tristonho e sortudo de Scolari – muito mais eficaz do que «artista» (Ronaldo foi uma sombra de si mesmo, embora uma sombra goleadora) – tenha chegado e sobrado para ganhar o penta à pior Alemanha de sempre (quando o melhor jogador é o guarda-redes, está tudo dito).
O futebol vai continuar a ser um fenómeno global. Um negócio. Um escape. Um lugar de catarse, de partilha ou de alienação. Mas, até 2006 (onde renascerá como espectáculo vibrante, espero eu), era bom que o reduzíssemos de novo à sua insignificância. Até porque é impossível que um mês inteiro de pontapé na bola, com 64 jogos e alguns prolongamentos, não sature até o mais indefectível dos adeptos. Por mim, vou fazer um jejum prolongado. Não nego que gosto de ver uma bola a entrar, seguindo uma trajectória em arco, no ângulo superior direito da baliza. Mas a vida, a vida que me interessa verdadeiramente, não está ali. Nunca esteve. Está em lugares mais íntimos, mais obscuros, mais secretos. E assim me calo, porque isso já são outros futebóis.

16:25 9.1.03  
DEPOIS DE ZAGREB
Primeiro, nuvens. A trajectória descendente do avião, o aeroporto tão pequeno – minúsculo – para quem chega de Frankfurt. Uma mulher-polícia carimba o passaporte, mão rápida, cara fechada, nem uma palavra. Ao fundo, um escudo com quadrados vermelhos e brancos, ostensivo, lembra aos viajantes que acabam de chegar à Croácia, país independente e deveras orgulhoso da sua emancipação (separou-se das restantes repúblicas juguslavas em 1991). Ainda no aeroporto, transformo os euros em kunas, a divisa que veio substituir o dinar. Reparo que nas notas há perfis de matemáticos, músicos, enciclopedistas; as moedas inclinam-se mais para a botânica e para a zoologia. Olho à volta, atento à disposição dos objectos, às sinalizações, ao modo como as pessoas se vestem, à forma como falam ou cruzam os braços. Tudo isto me faz lembrar Portugal nos anos 80, antes da CEE e dos fundos comunitários (um Portugal que ainda existe – convém não esquecer – dentro do outro: o de 2002).
Arranca o autocarro, 17 quilómetros até ao centro da cidade, pelo caminho uma via rápida, as altas torres de Novi Zagreb e o Sava, estreito como o Sena em Paris. É esta a primeira surpresa. Imaginei o rio atravessando Zagreb, um rio onde as casas se pudessem debruçar. Nada disso. Ao contrário de Lisboa, a cidade ignora o Sava e vira-se antes para Sljeme, a bela montanha que a cinge, do lado norte, à maneira de um colo protector e maternal. Dizem-me que a vista de Zagreb, lá de cima, é um assombro. Mas quando subi no teleférico, um dia antes do regresso, só vi a brancura absoluta do nevoeiro, tão denso que ocultava por completo as copas das árvores, apenas uns metros abaixo. Por um instante, Zagreb voltou a ser imprecisa («Za-greb», duas sílabas arredondando-se na boca). E voltou a ser um mistério, um segredo, uma incógnita que o vazio branco – ao separar-nos do mundo – escondia.
Nessa altura, porém, a minha imaginação já fora contaminada pela cidade concreta, pela sua arquitectura, as suas formas, a sua luz. Dentro do teleférico, balançando sobre as árvores invisíveis e as ténues manchas de neve, refiz o percurso do primeiro dia. Depois do Sava, a estação dos comboios, com a estátua do rei Tomislav e os pináculos da catedral, lá muito ao longe. É ali que começa o núcleo (cultural, histórico, turístico e comercial) de Zagreb. As praças, amplas e elegantes, acolhem espaços verdes, jardins geométricos, muitas árvores. Os prédios são quase todos do séc. XIX, belíssimos exemplos de um estilo neo-clássico, todo ele frontispícios imponentes, colunatas, baixos-relevos, frisos trabalhados. E se fosse preciso confirmar a influência duradoura, política mas também estética, do Império Austro-Húngaro, bastaria atentar no tom amarelo-torrado dos grandes edifícios públicos (teatros, museus, ministérios). É como se a sombra dos Habsburgo nunca tivesse abandonado estes quarteirões. É como se ainda pudéssemos deparar, em qualquer esquina, com senhores de jaqueta, monóculo e bigode retorcido, acompanhando meninas de pulsos finos, sombrinha e cãozinho felpudo pela trela.
Em certo sentido, Zagreb aspira a ser Viena numa escala menor. Uma Viena melancólica, onde não faltam sinais de abandono, para não dizer decadência. Quem percorra as ruas com vagar, encontra facilmente paredes marcadas pelo tempo (ou pela incúria humana), fachadas enegrecidas, um pó antigo colado às coisas. Descobre isso, é certo, mas também uma tranquilidade que é cada vez mais rara nas grandes capitais europeias. Aqui, não há engarrafamentos no centro histórico, não há carros em segunda fila, não há arrumadores exigindo trocos. Nem sequer há turistas aos molhos, descendo dos autocarros, fotografando a esmo. Nas tardes soalheiras, as ruas enchem-se de esplanadas, as pessoas têm tempo para beber café umas com as outras, a atmosfera é leve, parece que se respira melhor.
Há também o centro do centro, um coração para onde tudo converge. A Trg Bana Josipa Jelacica (Trg é Praça). Por aqui passam os eléctricos azuis que são o principal meio de transporte de Zagreb; aqui combinam encontro os amigos quando querem ir a algum lado; aqui se juntam multidões para receber os heróis desportivos nacionais (a selecção de futebol, sobretudo, mas também a esquiadora Janica Kostelic, vencedora de quatro medalhas nas últimas Olímpiadas de Inverno); aqui se ouve a música do «Titanic», tocada em flauta de pã por dois peruanos; aqui se ergue a estátua equestre do general Jelacic (brandindo o sabre curvo, como se ainda comandasse as tropas croatas que derrotaram os húngaros, em 1848); aqui se abrem os caminhos que vão dar à parte alta da cidade. Subindo uns degraus, entra-se no mercado de Dolac, com as suas pirâmides de fruta. Depois, mais para cima, estende-se a zona dos bilhetes-postais: a catedral neo-gótica (reconstruída em 1880, depois de um sismo), a Igreja de S. Marcos (em cujas telhas se desenha, colorido, o escudo da cidade) e a estátua de S. Jorge a cavalo, com o dragão derrotado aos pés.
Neste momento, hesito. Não sei se devo convocar para este texto o que se passou fora de Zagreb. A viagem, num Opel Astra alugado, até Plitvice, reserva natural em que se sucedem lagos e cascatas, lagos e cascatas, lagos e cascatas – quase provocando, em quem a visita, uma «overdose» de beleza. A estrada para a fronteira, cheia de curvas e ameixeiras em flor. Já do outro lado, a cidade muçulmana de Bihac, onde ainda há buracos de balas nas paredes e se sentem os traumas da guerra (debaixo de uma oliveira, ouvi duas meninas cantando em bósnio, num tom inocente, estes versos terríveis: «Podes violar-me/ Podes matar-me/ A mim, tanto me faz»). Também não sei quantas frases mereceria o comboio para a Eslovénia, avançando debaixo de chuva, através de uma luz cinzenta. Nem quantas linhas ficaram por escrever sobre a visão crepuscular de Ljubljana, com o castelo lá no alto, um rio manso e a famosa ponte tripla.
Estou de novo em Zagreb, na esplanada do café Mala Kavana. A imagem que guardo da cidade, apercebo-me, é um somatório de fragmentos, alguns dos quais já não cabem nesta crónica. O museu Mimara, por exemplo, com a sua extraordinária colecção de pintura (Velásquez, Goya, Delacroix, Turner, Caravaggio, Renoir, El Greco, Canaletto, Manet, entre outros). Ou o cenário político pós-Tudjman: a complexa transição para a democracia, sufocada pelo peso do nacionalismo.
Quando ele olha para mim, faço um sinal ao empregado. Peço mais uma bica, um «kava espresso», o último antes do regresso a Portugal. Anoto algumas palavras no caderno preto. Imagino Lisboa. Em quantos fragmentos se divide a memória que tenho dela? Guardo a caneta no bolso do casaco. Pago o café. Apanho o eléctrico n.º 6. Em casa dos meus amigos (o português que escreve e a croata que lê), a bagagem já está preparada para o embarque.

19:42  
ANTES DE ZAGREB
Zagreb. Za-greb, Za-greb. Gosto de brincar com a palavra, arredondá-la dentro da boca. Za-greb, Za-greb. Como numa ladainha, como no lento soletrar daquele homem de nome duplo, Humbert Humbert, aquele ser trágico que Nabokov colocou à entrada de um romance magnífico, repetindo a palavra mágica, «Lolita, Lo-li-ta», desde logo em estado de perdição, desde logo suspenso sobre o abismo, desde logo ávido de uma luz impossível. Recomeço: Za-greb, Za-greb. Será que podemos embriagar-nos (ou enlouquecer) com o mistério de um nome, com a miragem de um corpo, de uma forma, de um segredo, de uma cidade? Quando murmuro Zagreb (inclinando a língua para trás: «Za-greb, Za-greb»), quando arredondo a palavra dentro da boca, qual é a realidade que se esboça na página em branco da minha memória, a memória vazia de um sítio que não conheço?
É preciso voltar atrás. É preciso dizer que escrevo na véspera de partir. Amanhã deixo Lisboa (mas não te esqueças, leitor: este «amanhã» já é passado, no presente da tua leitura). Amanhã chego a Zagreb. Haverá primeiro um avião a subir no azul do céu, através das nuvens, um avião com comida de plástico e hospedeiras sorridentes a repetirem pela enésima vez - coitadas - os mesmos gestos mecânicos na direcção das saídas de emergência. Depois, a espera em Frankfurt, essa encruzilhada de metal e vidro, essa Babel esmagadora. Depois, outro avião, outras hospedeiras - coitadas - a sorrir muito, talvez o mesmo azul do céu. Depois, Zagreb. Za-greb. E dois amigos à espera: um português que escreve e uma croata que lê (livros; mas também pessoas; mas também - à sua maneira - o mundo).
De Zagreb, não sei nada. Ou melhor, não sei quase nada. Sei que é a capital da Croácia, sei que tem cerca de um milhão de habitantes e um clube de futebol chamado Dínamo, sei que é atravessada pelo rio Sava. O resto é uma incógnita. E o gozo da viagem começa precisamente nessa incógnita, no que se esconde atrás do que não sei. Quem viaja, hoje em dia, tende a acumular demasiada informação sobre os sítios que visita. Antes da partida, compram-se roteiros e guias, consulta-se a Internet, fazem-se listas de museus ou monumentos «obrigatórios». Para quê? O que se ganha em segurança e conforto, perde-se em surpresa, em mistério, em espanto.
Quando visitei Berlim, por exemplo, lembro-me da sensação estranha de andar na rua à procura dos ícones que faziam parte do mito da cidade dividida: o muro (ou o que dele sobrou), os Trabants, a avenida Unter den Linden, o Reichstag, a Porta de Brandenburgo. No fundo, já conhecia tudo aquilo. Em Roma, a mesma coisa: a imagem do Coliseu que levava comigo, quis confrontá-la com a realidade de pedra (e a realidade de pedra triunfou). Noutra altura, vi punks junto a Picadilly Circus e esquilos no Hyde Park - o contrário é que seria estranho, não é? - mas para saber que estes são «clichés» londrinos não precisava de sair de Portugal. Eis um paradoxo curioso: todos nós, mesmo quando visitamos Paris ou Viena pela primeira vez, sentimos que já «estivemos» em Viena e em Paris. Porquê? Porque em todas as grandes cidades europeias há sempre uma rua qualquer, uma ponte, uma estátua, que faz parte do nosso património visual colectivo. Já as vimos muitas vezes, mesmo quando não sabemos se foi num filme ou num postal.
Zagreb, pelo contrário, é território virgem, intocado. Não conheço o nome de uma única das suas praças ou avenidas. Ignoro como são os seus bairros, as suas igrejas, as suas esplanadas. E quero que fique assim, numa espécie de limbo, pelo menos até amanhã. Não quero levar imagens dentro da cabeça. Não quero ir aos pontos turísticos - nem fugir deles. Quero descobrir Zagreb como quem abre os olhos devagarinho. Quero aproximar-me de Zagreb como Marco Polo se aproximava das urbes fantásticas de Kublai Kan (Armilla, Valdrada, Ersília, Aglaura, Zenóbia, Eudóxia, Bersabeia, Diomira...), descritas por Italo Calvino em «As Cidades Invisíveis». Ou seja, quero inventar Zagreb, a minha Zagreb. Agora, ela ainda pode ser o que eu quiser que ela seja. Um sonho, uma esperança, um arabesco desenhado no ar, uma utopia. Sim, há uma Zagreb secreta, com prédios e pombos e carros e pessoas, a nascer ao mesmo tempo que faço a mala. Uma Zagreb que cresce dentro da minha expectativa, como a borboleta dentro da crisálida.
Amanhã, logo à saída do aeroporto, temo que essa Zagreb se comece a diluir na Zagreb que os meus amigos, o português que escreve e a croata que lê, conhecem. Temo que no momento de desfazer a mala - como será o quarto onde arrumarei a roupa, os livros, o caderno preto? - já só reste a Zagreb real. Uma Zagreb de sílabas duríssimas, que não se parte («Za-greb») nem se arredonda na boca. De uma delas vos darei conta, espero, depois de regressar. Ou das duas, misturadas.

19:41  
DESCIDA AO INFERNO
A primeira vez que me deparei com uma fotografia de James Nachtwey foi na exposição «World Press Photo» relativa ao ano de 1994. Merecedora do prémio principal, a imagem era simplesmente terrível. Mostrava, visto de perfil, um homem negro com a cabeça cheia de cicatrizes e um pedaço da orelha arrancado por uma catana. Lugar do crime: o Ruanda, durante o período em que a etnia hutu chacinou mais de 800.000 tutsis, recorrendo a armas brancas – uma espécie de macabra «solução final», feita de lâminas afiadas e mutilações. Ironicamente, o homem da foto não pertencia sequer ao campo das «vítimas»; era um hutu que foi atacado pelo seu próprio povo, ao recusar-se a participar na matança.
Aquele perfil onde permaneciam as marcas do sofrimento (reparem bem: as feridas sararam, mas os olhos ainda reflectem o terror), aquele símbolo do que existe de mais absurdo nos conflitos humanos, ficou gravado na minha memória durante muito tempo. Lembro-me de pensar que uma só imagem – este rosto, por exemplo – pode dizer mais sobre a realidade de uma guerra do que meses a fio de emissões da CNN, com os seus repórteres em directo, os seus mapas, as suas análises palavrosas e o seu jornalismo muito formatado, muito americano.
Vou até mais longe. Para mim, a fotografia, na sua procura utópica de um «momento decisivo» que dá sentido ao mundo, na sua imobilidade e rigidez, consegue atingir-nos num qualquer ponto sensível – talvez seja um nervo recôndito, não sei – a que as imagens em movimento, por razões que desconheço, raramente chegam. A arte do fotógrafo, e mais ainda do fotojornalista, está na capacidade de isolar, na vertigem do tempo em que as coisas se passam, o instante essencial. Esse instante exacto em que o soldado republicano de Robert Capa salta, de braços abertos, numa trincheira espanhola, ignorando que se tornará um dos ícones da História do séc. XX. Ou aquele preciso instante em que uma mãe argelina se transforma numa «mater dolorosa» de dimensão bíblica. O instante que é só da fotografia, porque o turbilhão das 24 imagens por segundo não o respeita, antes o devora e anula.
Reencontrei a cabeça martirizada do hutu na exposição «Inferno», patente na Culturgest até 30 de Março. E é mesmo de uma descida aos infernos que se trata. Aliás, na edição em livro deste trabalho, há uma epígrafe com os três primeiros versos do III Canto do «Inferno» de Dante: «Per me si va ne la città dolente,/ per me si va ne l’etterno dolore,/ per me si va tra la perduta gente» («Por mim se chega à cidade dolente,/ por mim se chega à eterna dor,/ por mim se chega à perdida gente»). A citação faz sentido porque o fotógrafo não se limita a mostrar de forma distanciada a «eterna dor». Ele envolve-se nos dramas que capta, ele não tem um olhar neutro, ele toma posição e coloca-se do lado dos mais fracos, do lado da «perduta gente».
No começo da exposição, as palavras do poeta florentino foram trocadas por uma frase de Conrad (retirada d’«O Coração das Trevas») mas, se ainda lá tivessem lugar, o melhor era escolher o nono verso do mesmo canto: «Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate» («Deixai toda a esperança, vós que entrais»). Porque neste inferno – revelado por Nachtwey de forma violenta, crua, quase obscena – a esperança é um luxo a que ninguém se pode dar. Há coisas mais importantes do que a esperança, neste mundo bizarro, mau e feio: procurar comida ou abrigo, escapar das balas, sobreviver. Um mundo que nos afronta, choca e perturba. A nós, ocidentais com a consciência pesada por já termos visto estes cenários e estas pessoas, na indiferença mórbida dos telejornais. Agora, face aos corpos esquálidos dos somalis, face àquela criança morta e embrulhada num sudário feito de sacos vazios da ajuda alimentar, é impossível não sentir uma secreta vergonha por termos frigoríficos cheios de comida. Aliás, por termos frigoríficos, ponto final.
A geografia deste mundo tão cruel inclui praticamente todos os focos de tragédia que se acenderam (e apagaram e voltaram a acender) na última década. Guiados pelo olhar de Nachtwey, percorremos a Europa de Leste industrial pós-soviética, a África do Sul, os orfanatos da Roménia (onde ficaram, condenadas ao abandono mais abjecto, crianças com deficiências graves ou SIDA), o Sudão, a Chechénia (impressionante o retrato de um rapazinho órfão, de cabeça rapada, numa rua de Grozny em escombros), os Balcãs (como esquecer a morgue improvisada junto a um minarete destruído pela artilharia sérvia? como ignorar aquele tenebroso camião cheio de mortos?), a Indonésia, o Afeganistão (já em ruínas, mas ainda com talibãs e mulheres de burka), as prisões americanas, o Ruanda.
É aqui, no fim da viagem, que reencontro o hutu e as suas cicatrizes. Mas também outras visões do horror. As facas de mato caídas por terra. Campos de refugiados varridos pela cólera. A abominação da morte sem porquê. Cadáveres empilhados. Imensas valas comuns. Uma imitação do Holocausto. Um inferno dentro do inferno. São fotografias que gritam, fotografias que doem. Como é que se pode chegar a isto? Algumas pessoas viram a cara, recusam a evidência do mal, como se só agora despertassem para o facto de que esta não é uma exposição de arte, apesar da beleza paradoxal de algumas das imagens. Nachtwey tem sentido estético, conhece a geometria do enquadramento perfeito, mas não é um artista. É um repórter, uma testemunha, alguém que sabe ver. Mais importante ainda, alguém que sabe dar a ver. Para que os outros se inquietem, se indignem e reajam.
Depois do embate final com a realidade mais sórdida, não há um ponto de fuga nem uma porta de saída imediata para toda aquela angústia. Quem quiser escapar ao caleidoscópio do sofrimento humano, tem que refazer o caminho no sentido inverso, até à porta de entrada, enfrentando novamente as AK-47 das milícias croatas, as grades nos berços dos «filhos» de Ceausescu, o rosto duro das mulheres chechenas, os jovens do Soweto aos pulos num trampolim ou a ferrugem cancerígena de um complexo metalúrgico polaco. Se alguns visitantes olham para o chão e aceleram o passo, a verdade é que o regresso forçado ao ponto de partida tem pelo menos uma vantagem: permite o reencontro com aquela que é, em minha opinião, a melhor das fotografias expostas.
O cenário é a cidade de Port-au-Prince, no Haiti, em 1994. Numa rua estreita, um apoiante de Jean Bertrand Aristide foi morto a tiro e está caído no passeio, junto a um muro com palavras que o tempo foi apagando. É muito cedo ou muito tarde, a luz quase horizontal alonga as sombras humanas que se estendem para a direita, no mesmo sentido do sangue que escorre na calçada – o sangue que parece um rio escuro visto de muito alto, talvez de um avião. Isto é o que compreendemos à primeira vista. Só depois, quando nos habituamos à imagem (da mesma forma que nos habituamos ao escuro), é que vemos o vulto. E o vulto é a cabeça de uma criança que ocupa um quarto da fotografia e olha para nós; ou melhor, olha para a objectiva da máquina fotográfica. Não sei o que me leva a dizer que se trata de uma criança, mas sei que é uma criança, embora só se distinga um contorno de escuridão (escuridão absoluta, breu, noite do corpo) e o brilho dos olhos. É um rosto que existe na sua ausência. Um rosto escondido no coração das trevas. Um rosto que nos avisa e nos condena. Um rosto que não esquecemos, mesmo quando voltamos para casa, para o telejornal e para a CNN.

19:41 8.1.03  
30 ANOS
1. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. No eléctrico, à mesa de um café, numa esquina qualquer, alguém desdobrou as folhas enormes do «Diário de Notícias». E leu. No topo da primeira página, os caracteres góticos do cabeçalho, o preço (1$50), o número da edição (38.068), o nome do director (Fernando Fragoso) e o anúncio das máquinas de costura Vigorelli («as melhores do mundo»). Na segunda página, alguns avisos: a Joalharia Mergulhão lembra aos seus Exmos. Clientes (com maiúscula) que passa a encerrar aos sábados de tarde; enquanto o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreram, em combate na Guiné, um soldado e um primeiro-cabo. Há também muita publicidade a espectáculos: no cinema Vox, «O Mensageiro», de Joseph Losey, vencedor da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, está há nove semanas em cartaz; o Teatro Villaret acolhe «Tartufo», com Raul Solnado no papel principal, às 21 e 23 horas; e quem não gostar de Molière pode sempre ir ao Capitólio, onde José Viana encabeça o elenco da revista «Ora Bolas P’ró Pagode». Na secção cultural, Natércia Freire escreve sobre Fernanda Botelho, João Gaspar Simões sobre Fernando Namora e João Bigotte Chorão sobre Maria Eulália de Macedo. Do folhetim «Um Gesto de Amor», escrito por Daniel Gray, publica-se o 28.º capítulo. Mas é lá mais para diante, nos anúncios das últimas páginas, que está um retrato do país. Lado a lado, a grande empresa de urbanização que procura um topógrafo para trabalhar no Algarve e o particular que vende palha. Os andares de duas a três assoalhadas (a partir de 260 contos) e a requisição de um ardina para distribuir jornais ao domicílio. Repito: alguém leu isto tudo, numa esquina qualquer, à mesa de um café, no eléctrico. Talvez a meio da manhã, no exacto instante em que nasceu uma criança, milhares de quilómetros para norte. Ou no momento preciso em que foi lançada uma sonda da NASA, rumo a Júpiter e mais além.

2. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. Em Cabo Kennedy, depois de vários adiamentos por causa do mau tempo, a sonda Pioneer-10 é enviada para o Espaço no topo de um foguetão Atlas Centauro. Custou 68 milhões de dólares, mede 3 metros (se contarmos com as antenas), pesa 270 quilos e carrega 11 instrumentos científicos. Pela primeira vez, um objecto fabricado pelo Homem aponta para um destino mais longínquo do que Marte. Os cientistas, apesar de temerem que a Cintura de Asteróides seja intransponível, sonham com a chegada da Pioneer-10 a Júpiter. Se sobreviver, a frágil estrutura que viaja a 44.579 kms/h poderá enviar informações preciosas sobre os limites exteriores do sistema solar. Há mesmo quem ponha a hipótese de um eventual contacto com extraterrestres. Presa à chapa da sonda, uma placa de alumínio com banho de ouro, concebida por Carl Sagan, mostra um homem (a mão direita levantada em sinal de boa vontade) e uma mulher, cujas formas correspondem a uma média computorizada da compleição física da espécie humana. A escala é conferida pelo desenho da própria sonda, ao lado daquele casal que faz lembrar Adão e Eva. No canto superior esquerdo, a representação de um átomo de Hidrogénio, o elemento mais comum no Universo, prova que conhecemos a matéria das estrelas. E os vários símbolos dispostos na base do esquema, representando o Sol e os planetas que giram à sua volta, explicam de onde partiu esta «casca de noz». A placa é o nosso espelho. É uma súmula, um gesto de aproximação, a primeira palavra de um diálogo. É também um mapa a indicar o caminho até este canto do cosmos onde existe vida, inteligência, civilização. Compreensivelmente, nada se diz sobre a outra face dos seres humanos: a cupidez, o ódio, a barbárie. Afinal, se os extraterrestres alguma vez descobrirem a sonda, não vamos querer assustá-los, pois não? A verdade é que ninguém espera uma resposta. O tempo de vida previsto para a missão é muito curto. Três anos, na melhor das hipóteses.

3.
Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. A minha mãe está deitada, a barriga enorme, o suor, as contracções. Na sala, vários alunos tomam notas. O médico-obstetra, talvez o mais conceituado da Maternidade de Port Royal, em Paris, decidiu fazer do parto uma aula. Porque este não é um caso simples – a cabeça do bebé, muito grande, tem dificuldade em sair. É demasiado estreito, o corpo da mulher. E por isso sofrem. Os dois. Aida contrai os músculos, uma e outra vez, e outra ainda, sente o filho dentro de si, o movimento dele, o esforço dele. A dor cresce como um incêndio, alastra, concentra-se num ponto, reflui e depois regressa. A dor. Cada vez mais intensa. A dor. De olhos fechados, Aida pensa só no filho que vem aí, através da carne. E ao pensar nele a dor fica como que suspensa. Já não importa. Tal como não importa o que ficou para trás. A estupidez de uma injecção que retardou o nascimento até de manhã, para que médico e alunos pudessem aparecer de camisa lavada e pequeno-almoço tomado a horas. A travessia da noite, olhos postos na lua. A espera longa, longa, longa, sem líquido amniótico, o feto em risco de sufocar. A rudeza das enfermeiras. Tudo isso já não interessa. Aida pensa no filho, os músculos contraídos, uma e outra vez, e outra ainda. A respiração ofegante. O suor na testa. O grito. O seu grito. Depois um outro, mais ténue. O grito do filho. O meu grito. Eu, tão pequeno. Ali, sobre a barriga exausta. Espreitando entre os seios, Aida vê a cabeça ainda achatada do filho, onde já desponta uma espiral de cabelo, um caracol. E antes de o levarem, antes de me levarem, sente os batimentos daquele coração pequenino, tão perto do seu.

4.
Passaram 30 anos. Dentro de um «Diário de Notícias» muito diferente, na página nove do suplemento com nome de código genético, narram-se factos ocorridos num mesmo dia: 2/3/1972. Seria fácil estabelecer ligações entre o nascimento de uma criança e a viagem de uma sonda até aos confins do universo. A criança que acaba de nascer não sabe nada, parte para o desconhecido, para a incerteza. À sua maneira, ela também é uma sonda – só que avança no tempo, enquanto a outra avança no espaço. Ocorre-me a ideia de unir os dois rumos, de filosofar sobre o destino de um homem versus o destino do Homem. Mas não vou por aí, embora a coincidência me perturbe. E a perturbação acentua-se porque a sonda, o primeiro objecto construído por humanos a sair do sistema solar, resistiu muito mais do que estava previsto. Ainda hoje, cinco anos após o encerramento oficial da missão, ela mantém-se «viva» e em contacto com a Terra, apesar da distância quase infinita (mais de 10.000 milhões de quilómetros) e das 22 horas que os sinais de rádio levam a chegar ao nosso planeta. Ainda hoje, continua a afastar-se, em direcção a uma estrela vermelha, da constelação do Touro, que alcançará (se não se desfizer pelo caminho) dentro de dois milhões de anos. A Pioneer-10 passou por Marte quando eu ainda mamava (três meses), por Júpiter quando eu ainda pedia colo (ano e meio), por Saturno quando andava na pré-primária (quatro anos) e abandonou o sistema solar quando comecei a escrever poemas (16 anos). Onde estará quando nascer o meu primeiro filho? E quando eu morrer?

20:10  
CINCO ALÍNEAS
a) Isto foi mais complicado do que eu supunha. Isto, a crónica. Talvez por ser a primeira, não sei. As outras, as seguintes, aguardo-as sem sobressaltos. Serão textos cosidos à realidade, reflexos do tempo a passar ou aproximações a coisas que ainda nem sequer imagino. Mas a primeira crónica, esta que lês agora, admito que foi arrancada a ferros. Porquê? Excesso de zelo. Não queria inaugurar a página com um texto normal, sobre um tema da actualidade. O euro, a política em tempos pré-eleitorais, o novo ano (ainda por cima capicua), a neve em Atenas ou o homem que ficou preso debaixo de um carro, durante cinco dias. Nada disso. Desejava que a primeira prosa fosse uma espécie de manifesto, uma declaração de intenções; mas sem ser um manifesto, menos ainda uma declaração de intenções. Há dilemas que nos lançam na loucura e no pânico (não necessariamente por esta ordem). Resultado: começos e recomeços, versões e aversões, euforias e desânimos, notas rabiscadas em envelopes, fragmentos para aqui e para ali, ideias soltas surgindo a meio do duche, uma lista de títulos possíveis no bolso do casaco e o desespero metafísico, provocado pela aproximação do prazo limite de entrega, a causar arrepios sucessivos na espinha. Ah, e muitas folhas amachucadas no caixote do lixo. Será que este parágrafo também lá vai acabar?

b) A memória tem destas coisas. Subitamente, lembro-me das casas que visitei quando ainda ignorava que seriam, mais tarde, a minha casa. Apartamentos vazios, por alugar. Com um rapaz enfastiado a repetir gestos de uma exasperante rotina: «esta assoalhada é muito boa, garanto-lhe que o sol bate toda a manhã», «isto é o corredor, isto é a casa de banho», «o quarto já tem ligação à TVCabo, está a ver a tomada?», «os contadores do gás e da água ficam aqui», «as paredes foram pintadas há pouco tempo». A casa vazia é um espaço de hipóteses. Ainda estamos a descobrir vestígios de quem lá morou antes – as manchas de humidade no tecto da cozinha, o prego que susteve um quadro, a zona sem pó que desenha a silhueta de um móvel – e já imaginamos as nossas coisas a entrarem por ali adentro, a criarem uma nova geometria, a preencherem aquela ausência. Será melhor encostar a cama deste lado ou daquele? O roupeiro caberá ao canto? Onde é que ponho o espelho? E o frigorífico? E o sofá? Em que sala é que monto as estantes? A casa continua vazia mas a cabeça sobrepõe-lhe os cortinados, as cadeiras, os livros. É nesse momento que a casa se torna nossa – mesmo se pagamos renda ao fim do mês. (silêncio). Agora sim, agora compreendo o porquê desta memória. A página de um jornal também é um espaço onde nos deixam habitar.

c) Volto atrás. Procuro no caixote do lixo. Encontro uma folha engelhada. Aliso-a. Recupero algumas frases. «Olha bem. Estás no centro da arena. À frente, o touro. Bicho enorme, tão escuro, pata a esgravatar furiosa, areia levantada em câmara lenta. O touro é a metáfora perfeita para tudo o que quiseres: a morte, o medo, a solidão. Ou para este pânico do passo em frente, este terror de agitar o pano vermelho ao mundo e vê-lo em movimento, um fulgor súbito que passa rente ao corpo, cornos afiados raspando muito ao de leve a tua mão direita. A mão que escreve». A mão que escreve e hesita, a mão que escreve e faz rasuras, a mão que amarfanha o papel. Mais à frente: «Estás no centro da arena. Esta página. Temes talvez o silêncio que as coisas têm antes de serem coisas. O silêncio da planície calada, quando as nuvens escurecem e depois chega a tempestade. Mas já não há regresso. Algo se pôs em marcha, mais forte do que tu». A mão que escreve hesita outra vez. Risca, recupera.

d) E a questão do nome? Outro fragmento, a mesma voz. «Haverá quem pense logo nos surrealistas e nas torrentes de palavras que eles deixavam correr à solta, acreditando na força do acaso e nas associações férteis que nascem do inconsciente. Deixa-os estar. Escrita Automática pode ser tantas coisas. Pode ser, por exemplo, uma escrita que existe para além de ti, que te usa apenas como meio de descer ao papel. Ou então a escrita que nasce de um impulso tão forte que se torna imperioso. Ou ainda a escrita que nasce de forma instantânea, imediata, em resposta a um acontecimento, a uma imagem, a uma recordação, a um gesto». A mão que escreve continua a procurar entre os fragmentos. A mão que escreve hesita. Depois, corta e cola. «Tens milhares de pequenas coisas à espera de serem registadas: uma expressão dita por alguém na plataforma do metro, um rosto enigmático à saída do cinema, uma tarde de vento num bairro antigo, uma braçada de flores, um verso perdido, uma morte cruel, talvez um olhar onde caiba toda a luz ou toda a angústia. De que é que estás à espera?»

e) A mão que escreve descobre o rasto de si mesma. A imagem no espelho. «É a tua mão que desenha o touro que só existe dentro da cabeça. É a tua mão que desenha as sombras e as espirais de poeira. É a tua mão que inventa uma arena na página branca. É a tua mão que treme e se exalta. É a tua mão que antecipa as frases ainda por existir. É a tua mão que escreve. É a tua mão que te liberta». A mão que escreve hesita uma última vez. Junta tudo. Paira sobre as folhas. Depois, decide-se. E escreve, na margem: a) b) c) d) e).

20:09  
RAIO X
Os factos são conhecidos. No seguimento das operações militares no Afeganistão, os EUA capturaram centenas de homens armados, suspeitos de serem talibãs ou membros da Al-Qaeda. Durante as últimas semanas, 158 desses homens foram transferidos para a base naval americana de Guantánamo, em Cuba. A bordo de um C-130, fizeram 12.000 quilómetros – uma viagem que dura mais de 20 horas – acorrentados de pés e mãos, com vendas nos olhos, máscaras no rosto (temia-se um surto de tuberculose) e sedativos no sangue, para acalmar possíveis ímpetos.
Chegados a Cuba, tinham à sua espera um campo de detenção constituído por «celas» individuais: uma área de dois metros por dois metros e meio, com chão de cimento, paredes em rede e tecto de metal ondulado. Magnânimos, os militares americanos deram-lhes ainda um colchão de espuma, um cantil, dois baldes para fazerem as necessidades, um par de chinelos, duas toalhas, sabonete e um volume do Al-Corão. A fé e a higiene ficaram asseguradas, mas no interior de uma gaiola, à mercê dos elementos e dos mosquitos. Uma gaiola? Talvez até pior do que isso: uma jaula. Para animais perigosos, pois então, feras enraivecidas, bestas demoníacas, «monstros» que é melhor deixar longe da vista, atrás de vedações, arame farpado e altas torres de vigilância.
Isto não vos faz lembrar nada? A mim, infelizmente, faz. E não só a mim. Quando se conheceram os detalhes das condições degradantes em que estão a viver os prisioneiros de Guantánamo, surgiram muitas vozes críticas – das óbvias (Amnistia Internacional) às menos evidentes (o gabinete do até aqui «alinhadíssimo» Tony Blair). É que as fotografias não mentem: vimos homens de joelhos, vergados, com o típico uniforme prisional laranja e algemas tanto nos pés como nas mãos. Falta saber ao abrigo de que lei, de que mandato, de que ordem júridica. Ou já nada disso é necessário? Será que entrámos na verdadeira era do «quero, posso e mando» ao jeito de Washington? E, já agora, alguém sabe onde é que pára a ONU? Por muito confuso que esteja o cenário internacional, convinha esclarecer uma coisa em relação aos prisioneiros de Guantánamo. É que eles até podem ser os maiores criminosos do mundo, podem ser assassinos frios, potenciais homens-bomba, fundamentalistas da pior espécie. Têm, ainda assim, direito à sua dignidade de seres humanos. Ou não?
Neste caso, os EUA, cujo sistema judicial defende a presunção de inocência até ao limite (chegando a salvar criminosos por causa da «dúvida razoável»), decidiram ser implacáveis. Trouxeram os «terroristas» do outro lado do mundo e nem sequer lhes fazem uma acusação ou lhes permitem sentar-se no banco dos réus. Enquanto se preparam novos tribunais militares, ao abrigo da lei de excepção «anti-terrorista», os talibãs vegetam numa espécie de limbo. As autoridades americanas consideram-nos «combatentes ilegais». Quer isto dizer, muito simplesmente, que não ficam ao abrigo da Convenção de Genebra, destinada apenas aos «prisioneiros de guerra». Quer isto dizer também, muito simplesmente, que podem sofrer todo o tipo de torturas e sevícias, humilhações e interrogatórios, sem o mínimo respeito pelos mais básicos direitos humanos.
Se excluirmos o secretário de Estado, Colin Powell, toda a Administração Bush tem agido de forma miserável. Donald Rumsfeld, secretário da Defesa, em visita às instalações, teve o desplante de afirmar que ali nada se passava de anormal. Dick Cheney, o vice-presidente, foi ainda mais longe: disse que os presos «são pessoas muito más» (sic) e que estão a ser tratados «mais humanamente do que merecem». Quanto ao Presidente, ainda não se pronunciou (pelo menos no momento em que escrevo). Presume-se, no entanto, que assina por baixo o que os outros defendem. Como já demonstrou no seu estilo de «cowboy», G. W. Bush não gosta de talibãs porque são clones mais ou menos fiéis de Ben Laden. Piores do que os talibãs, aliás, só mesmo os aperitivos «pretzel», esses famosos terroristas metódicos, capazes de asfixiarem o homem mais poderoso do mundo quando ele se senta, no seu escritório da Casa Branca, a ver tranquilamente um jogo de futebol americano na TV.
Mas voltemos a Guantánamo. A «prisão» foi baptizada com um estranho nome: Campo Raio X. Ignoro onde foram os militares buscar a designação. Talvez ao facto deste complexo improvisado resultar do somatório de celas abertas, expostas, transparentes. Ali vê-se tudo, nada se esconde. Tal e qual como no Raio X. Podemos até imaginar um médico, em Guantánamo, olhando as chapas a contraluz: «Está a ver aqui e ali as manchas de cor laranja? São as metástases do cancro, a encarnação do mal. Mas fique tranquilo, ainda havemos de acabar com elas».
Se virmos bem, o campo Raio X é ele próprio, na sua essência, uma radiografia da América. Por detrás do arame farpado, da intransigência militar e da arrogância política, está o rosto de um país que não sabe lidar com as suas feridas. Um país movido pela vingança cega: olho por olho, bomba por bomba. Um país que teve toda a razão do mundo no dia 11 de Setembro, mas que a partir desse momento, em Kandahar ou em Guantánamo, insiste em perdê-la.

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