Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
13.1.03  
O REGRESSO
Voltar à pátria nem sempre é fácil, como todos sabemos desde a história do velho Ulisses. Mas se o grego tinha sérios obstáculos a separá-lo de Ítaca (da insistência amorosa de Calipso às manhas de Circe, passando pelo canto tentador das sereias e pela brutalidade monocular do ciclope Polifemo), nós estamos condenados a odisseias de trazer por casa, pequeninas e prosaicas, sem fulgores nem heroísmos. Querem um exemplo? No passado domingo, numa das elegantes naves do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, esperei oito horas e 45 minutos para fazer o check-in. Sim, leu bem, oito-horas-e-quarenta-e-cinco-intermináveis-minutos à espera, no meio do caos, sem compreender sequer as verdadeiras razões de um tamanho atraso. A realidade é esta: mais do que a determinação, o músculo ou a astúcia de Ulisses, aquilo de que realmente precisamos hoje é da infinita paciência de Penélope e da fé inabalável de Telémaco.
Mas já lá vamos, à odisseia de trazer por casa. Antes, houve a neve. Sábado de manhã, sem que ninguém a esperasse, ela começou a cair, do céu cor de cinza, em flocos quase demasiado perfeitos, cinematográficos. Uma neve fina e delicada, bailando no ar ao sabor dos golpes de vento, pousando sobre todas as coisas: estátuas, automóveis, árvores do passeio – nuas, negras, agora com qualquer coisa de espectral – e também sobre as pessoas de passo rápido, muito agasalhadas, estreando luvas de lã e sorrisos de uma felicidade antiga (porque infantil). A neve estendeu o seu manto sobre as ruas de Paris, ainda iluminadas pelas montras de Natal. E ficou. E resistiu ao calor da cidade. No bosque de Vincennes, paisagem branca como um quadro de Brueghel, havia crianças a correr, pais a moldar bonecos muito redondos e bolas de neve espessa que lancei ao meu irmão, à queima-roupa, como se ainda tivessemos, respectivamente, dez e seis anos.
Pois bem. Foi justamente a neve, a bendita neve, mais o gelo e os cinco graus negativos que enregelaram Paris, a provocar o cancelamento de uma grande parte dos voos previstos para aquela manhã. Depois, houve um efeito de cascata. Com os sucessivos atrasos, milhares de passageiros viram as suas viagens adiadas para o dia seguinte e muitos deles (os que não puderam pagar mais uma noite de hotel) foram mesmo obrigados a dormir nos corredores do aeroporto Charles de Gaulle.
Quando cheguei a Roissy, às 9h15 de domingo, tranquilamente preparado para seguir no voo das 10h20, compreendi logo que algo não estava bem. A partir do balcão 1 do sector 2F, estendia-se uma longa fila. Uma longa fila parada. Olhei à volta: passageiros aturdidos, funcionários nervosos, placards electrónicos desfasados da realidade. Hmmm, aqui há coisa. E havia. Ainda pensei que fosse mais uma das mediáticas operações de prevenção anti-terrorista – o célebre programa «Vigipirate» do ministro Sarkozy – a complicar o normal funcionamento da vida quotidiana. Mas não. Desta vez, Ben Laden e a Al Qaeda, ou um qualquer dos seus sucedâneos fundamentalistas, nada tinham a ver com o assunto. O terrorismo era de outro tipo. Meteorológico, para variar. Foi essa, pelo menos, a explicação oficial dada mais tarde.
Muito mais tarde, diga-se, porque nas primeiras horas ninguém entendia o que estava realmente a acontecer. Corriam, boca a boca, todo o tipo de rumores. Que os aviões não partiam por causa dos ventos laterais. Que havia uma greve algures no aeroporto (primeiro eram os bagagistas, depois os pilotos, por fim o pessoal da manutenção). Que havia milhares de pessoas à espera desde a véspera e com prioridade no registo. Que a Air France não queria fretar mais aviões. Que o mais certo era ficarmos presos em Paris, sabe-se lá por quanto tempo. Ao meu lado, um homem baixinho abanava a cabeça, incrédulo. Às tantas, perguntou-me se sabia onde é que se podiam apanhar autocarros para Lisboa. Quando percebi que falava a sério, avisei-o: «Olhe que a viagem dura pelo menos três dias!» Ele encolheu os ombros: «Eu sei isso, amigo, eu sei isso, mas a gente deve preparar-se sempre para o pior».
Entretanto, a Air France remetia-se ao mais absoluto e escandaloso dos silêncios. Nem um aviso, nem uma só informação útil emitida pelos altifalantes, nada. Para sorte deles, no balcão 1 só havia portugueses e alguns espanhóis em trânsito para Barcelona. A 50 metros, no balcão 2, vi um grupo de turcos aos gritos, com os braços no ar, e o «Libération» noticiou, no dia seguinte, que houve tumultos provocados pelos furiosos passageiros do voo para Havana. Menos sanguíneos, fechados na nossa lusa resignação, nós lá íamos esperando e desesperando. À minha frente, uma rapariga brasileira que mora em Cascais, simpatiquíssima, teve tempo para me contar a vida toda, incluindo os planos para o futuro: dar aulas de dança, casar com o namorado de sempre (um craque financeiro) e ter «um montão de filhos». Atrás de mim, sentada em cima das malas, uma menina brincava com a Minnie de peluche, comprada na EuroDisney, enquanto o irmão mais velho se aborrecia de morte, sem nada para fazer. O pai, esse, ia controlando o movimento dos chicos-espertos, passageiros retardatários que tentavam ultrapassar, à má fila, os extenuados madrugadores.
Foi só por volta das três da tarde que compreendemos o busílis da questão. Uma vez que o nosso voo fora utilizado para transportar quem devia ter partido na véspera, ficámos todos em lista de espera, dependentes das vagas nos voos seguintes. Começava então a lotaria, sendo que a sorte, como sempre, nada quis comigo. No avião das quatro, em que era suposto entrar, fui ultrapassado «in extremis» pela família do pai vigilante, prioritária por causa das crianças. OK, pensei, passem lá, mas depressa que já vem aí uma funcionária jovem, de voz quebrada pelo stress, a anunciar mais um atraso de hora e meia, porque são poucas as equipas disponíveis para retirar o gelo acumulado nas asas dos aviões.
Concluindo: às 17h55, depois de quase nove horas em pé, a assistir aos efeitos perversos das políticas económicas neo-liberais (aplica-se a «flexibilidade» e a sub-contratação nas grandes empresas públicas e o resultado é este: descontrolo, desleixo, péssimo serviço), após quase nove horas de um tormento que a neve e o mau tempo não podem justificar, sentei-me finalmente no banco 21D de um Airbus superlotado, sabendo que Lisboa, a Ítaca possível, esperava por mim na distância.
Fechei os olhos. E nesse momento, no instante exacto em que as rodas largaram a pista, pareceu-me ouvir, em uníssono, um suspiro de alívio. O alívio de quem escapa de um labirinto ou do inferno. Alívio que nem as turbulências e os pequenos poços de ar da viagem (ridículas imitações de Cila e Caríbdis) foram capazes de perturbar.

17:33

 
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