Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
4.2.03  


TEMA E VARIAÇÕES
1. Mãos; rosto. O homem coloca as mãos no piano como quem entra em água fria. Faz uma careta, retesa os músculos do pescoço, franze a testa, abana a cabeça. Os dedos são pequenos animais assustados, tocando nas teclas a medo, como se os sons fossem feitos de vidro ou houvesse dentro do piano uma caldeira prestes a explodir. O que se ouve é Schubert, uma peça pequena, pura, perfeita. As mãos etéreas; o rosto a contorcer-se na procura do pianissimo. São as mesmas mãos que depois se abatem sobre o teclado, imitando a tempestade de Liszt, os dedos agora acesos como relâmpagos. O que se ouve é a música no momento em que nasce, em que renasce, séculos depois de ter sido escrita, nas mãos e no rosto de Alfred Brendel, um dos maiores pianistas vivos, talvez o maior.

2. As mãos escondidas (fora do plano); no rosto um sorriso irónico. Brendel tenta explicar o inexplicável: «Na minha família não havia músicos nem interesses intelectuais, não fui uma criança prodígio, não leio bem à primeira vista, não toco tão depressa quanto outros pianistas, não tenho memória fotográfica e no entanto…» E no entanto é um dos maiores pianistas vivos, talvez o maior. Um pianista que foi progredindo lentamente, passo a passo, década a década, numa espécie de ascenção metódica, como se alcançar o cume onde só chegam uns quantos intérpretes (Rubinstein, Schnabel, Richter, Kempff, Benedetti-Michelangeli, Gieseking, Pollini, poucos mais) não fosse uma necessidade mas uma evidência. Vejam as suas mãos cheias de adesivos, pairando sobre o teclado como quem acaricia um gato. Vejam o seu rosto, a máscara de um júbilo secreto quando ouve uma gravação antiga de Cortot. Agora as mãos vagueiam (fora do plano) e ele mantém o sorriso enquanto recorda a infância no hotel da família, na ilha de Krk (Adriático), a ouvir discos na grafonola, a imitar os cantores de opereta, e depois em Zagreb, no cinema gerido pelo pai, onde eram projectados durante a guerra filmes da propaganda nazi. Brendel caminha agora pelas ruas da Zagreb de agora e numa praça aponta para uma janela de 1940, a janela onde um dia viu uma menina que dançava e depois escreveu-lhe uma música e ela dançou essa música e ele, 60 anos depois, ainda se recorda perfeitamente de cada gesto e nem tenta esconder que a memória pode ser assim, feliz.

3. As mãos arqueadas sobre as teclas; o rosto inclinado para a pauta. Schubert de novo, «Viagem de Inverno», a paisagem agreste de «Rast» na voz escura do barítono Matthias Goerne. Os dois ensaiam, experimentam, procuram o sentido profundo das frases, tanto as poéticas como as musicais. Tomam notas, Matthias repete a melodia que vai crescendo como uma espiral, Brendel tem os óculos de massa na ponta do nariz. Agora, o barítono fala do privilégio de trabalhar com um músico completo, em vez de um acompanhante. Goerne não o diz, mas fica implícito que também ele considera este homem – capaz de iluminar as canções de «Winterreise», como antes iluminou as sonatas do mesmo compositor (a D. 960, sobretudo) – um dos maiores pianistas vivos. Talvez o maior.

4. As mãos enérgicas; o rosto jovem, sem rugas. As imagens antigas mostram-nos um corpo que já não existe assim. Onde havia fogo, audácia, vitalidade, todos os caminhos por desbravar, existe agora uma sabedoria dos pequenos detalhes, uma forma de minúcia que não esquece, nunca, os contornos da estrutura maior. Vemos o cartaz do primeiro concerto, em Graz. Coisa arrojada: um programa sobre «A Fuga no repertório pianístico», de Bach a Liszt, incluindo uma sonata com dupla fuga, composta pelo próprio Brendel, na altura ainda um imberbe rapazito de 17 anos. Esse gosto pelas formas polifónicas, pela coexistência de várias vozes em simultâneo, permaneceu ao longo da sua vida. Ainda na juventude, arriscou a pintura. Mas agora, quando revê os seus quadros na galeria de um amigo que prometera destruí-los (promessa incumprida, como a de Max Brod a Kafka), fica horrorizado. Paisagens, o mar, crepúsculos. «São ainda piores do que eu imaginava.» Já na escrita, tem mais confiança. Começou pelo ensaísmo sobre música e descobriu, mais tarde, a poesia – por vezes satírica ou auto-irónica. Também se dedica ao estudo da arquitectura barroca e colecciona máscaras, em casa, junto às fotos dos seus ídolos musicais. Algumas são disformes e Brendel explica porquê: «Gosto dos monstros criados pela imaginação. Dos monstros reais, não. Desses tenho medo.»

5. As mãos fazem escalas, oitava acima, oitava abaixo; o rosto projecta-se todo na dança diabólica dos dedos. Estamos num palco, a plateia vazia, tempo de ensaio, véspera de grande concerto e Brendel avisa o afinador: «Tem aqui muito trabalho para fazer.» Há quem aprecie a luta contra um piano que não conhece, eventualmente mal afinado. Brendel, pelo contrário, aprecia o rigor. O piano tem que estar tão preparado para o concerto como ele está. Não pode haver falhas nem traições. Nada que altere a leitura que o pianista fez de uma dada obra, a leitura que respeita o seu carácter, a sua coerência estética, a sua «personalidade». E é justamente porque as obras têm uma vida própria que Brendel regressa ciclicamente às mesmas, como quem revê amigos (sabendo que hão-de estar diferentes, tantos anos depois). Foi assim com Beethoven, por exemplo, cuja integral das sonatas para piano (32) gravou três vezes. Mas, além dos regressos, há também novos caminhos que se abrem. Como Mozart: «Diz-se que as suas sonatas são demasiado difíceis para os adultos e demasiado fáceis para as crianças. Se não as tocasse agora (aos 70 anos), nunca mais as tocaria.» Antes, num café de Viena, já dissera a um amigo: «Continuarei a subir aos palcos enquanto puder. Até porque tenho a sensação de que ainda consigo, por vezes, ir mais longe do que alguma vez fui.»

Coda. O tema desta crónica – o mote das suas inábeis variações – é o que nasce das mãos (e se espelha no rosto) daquele que é considerado um dos maiores pianistas vivos, talvez o maior. Tudo o que aqui se escreveu foi visto e ouvido (sobretudo ouvido) no documentário «Alfred Brendel, Man and Mask», um retrato do artista e do homem que a RTP2 exibiu na noite do passado domingo. Numa altura em que o telelixo volta a estar em foco (por causa do «Bombástico» e de outros programas igualmente abjectos), talvez fosse bom, por uma questão de sanidade mental colectiva, reabrir o debate sobre o que é um verdadeiro serviço público. Por mim, depois de ver esta magnífica co-produção da BBC e da ZDF, não tenho dúvidas. É isto.

(esta crónica foi publicada no DNA de 01/02/2003)


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