Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
11.2.03  


LEITURA FURIOSA
1. Eu estava à espera de outra reacção. Esperava que houvesse um primeiro momento de silêncio, de embaraço, aquele compreensível receio de quebrar o gelo. Mas não houve nada disso. Eles sentaram-se, apresentaram-se – eu sou o Francisco, eu sou o Raul, eu sou o Leonel, eu sou o Mário, eu sou o Serafim – e depois começaram a falar, palavras atrás de palavras, histórias ramificando-se noutras histórias, a vida de repente a revelar todas as suas faces: a tristeza, o desespero, a esperança, a dignidade. Eu perguntava pouco, ouvia tudo e enchia páginas com anotações rápidas. Do grupo, destacavam-se três vozes: o Francisco, nascido em Alcains, que veio novo para Lisboa, restaura móveis e sabe latim; o Leonel, que foi jogador de futebol (primeiro no Belenenses, depois no Estrela da Amadora) e mais tarde programador fabril na Sorefame; e o Serafim, que nasceu na Cedofeita, trabalhou no teatro em Évora, foi emigrante na Suíça e agora quer montar um espectáculo de fantoches, feitos por ele, à mão. Passaram as horas, passou o almoço servido ali mesmo, no Centro de Apoio Social de S. Bento, passaram os momentos em que cada um deles explicou o porquê da queda, quase sempre um desamor que os atirou para a miséria do álcool e para as noites sem tecto. Sabendo que eu escreveria, depois, um texto sobre eles, insistiram muito numa ideia: «a nossa vida pode ter descambado, mas nós não somos coitadinhos». Quem o disse foi Leonel – barba espessa, casaco, colete, gravata a preceito. O mesmo que no fim escreveu, com marcador roxo, numa página em branco: «as pessoas são aquilo que valem a cada instante e depois disso não valem para nada». Com letra tremida, Raul também quis resumir numa frase aquela sexta-feira: «é importante dar valor às pessoas que têm muitas estórias a contar». Nós damos valor, Raul, podes ficar descansado.

2. Este nós refere-se a todas as pessoas que participaram na «Leitura Furiosa», durante três dias – 31 de Janeiro, 1 e 2 de Fevereiro – em Lisboa (Abril em Maio) e Amiens (Associação Cardan). Convém talvez explicar, a quem não saiba, que a ideia nasceu há dez anos e pretende ser «um momento de encontro entre os zangados (com a leitura, a escrita, o mundo…) e os escritores». As coisas processam-se assim: na sexta-feira, as pessoas «zangadas» com a leitura – em Lisboa eram refugiados (africanos, da Mongólia, da Bielorrússia) e sem-abrigo portugueses – partilham experiências com cinco escritores que se comprometem a escrever, até à manhã do dia seguinte, um texto inspirado em tudo o que ouviram; no sábado, os textos são traduzidos e os escritores visitam, com os seus grupos, uma livraria e uma biblioteca; finalmente, no domingo, os textos são editados num jornal (em Lisboa foi o «Público») e lidos por actores numa sessão aberta (em Lisboa foi na Abril em Maio).

3. Depois de uns quantos e-mails e telefonemas da Eduarda Dionísio, ficou combinado que eu seria, em 2003, um dos cinco escribas. Na noite de sexta-feira, após mais de quatro horas a falar com o Serafim, o Mário, o Leonel, o Raul e o Francisco, escrevi «Uma coisa com arestas». O texto não podia ter mais de 3000 caracteres e cabe, completo, no interior desta crónica. Ei-lo: «A conversa é isto, o silêncio a partir-se dentro de um círculo, esta coisa com arestas, palavras a levantarem-se em remoinho, a saírem de cinco bocas, cinco vozes sentadas à volta de uma mesa, uma delas a dizer todas as pessoas aqui têm problemas, estamos sempre a um passo do abismo, por isso mais vale dar a cara, cada um por si não vale nada, zero vezes zero é zero, outra voz se levanta e diz já fomos todos sem-abrigo, já dormimos na rua, dentro de contentores e caixotes, debaixo de tílias que deixam cair uma espécie de visco que se agarra à roupa, outra voz diz já apanhámos beatas junto à paragem dos autocarros e perto dos elevadores, são os melhores sítios porque as pessoas com a pressa de partir deitam os cigarros para o chão, só meio fumados, outra voz diz eu já arrumei carros, eu já reguei flores no jardim da Casa Pia, na minha aldeia fui sacristão, tocava os sinos para a missa duas vezes por dia, depois vim para Lisboa trabalhar, aprendi um ofício, agora sou pintor dourador de móveis, faço restauros, vou à igreja mas primeiro passo pela «capela», a «capela» é a taberna, ri-se uma das primeiras vozes, e entra por dentro da conversa o álcool, a bebida, a voz que ria pára de rir, diz a bebida é um refúgio que arranjamos para esquecer uma dor, mas a dor não desaparece, aumenta, é construir uma infelicidade sobre outra infelicidade, às vezes as pessoas tentam desviar-se dos problemas mas os problemas vêm atrás delas, no meu caso foi a bebida que me afastou de tudo, eu lia muito, devorava livros, ia logo ver o fim para saber como as histórias acabavam, eu cá não leio porque fico com dores de cabeça, interrompe a voz mais calada de todas para logo voltar ao seu pousio, e ao lado a voz que tocava sinos a dizer que o livro foi sempre o Livro, eu quando lia a Bíblia era em latim, laudamus Te, glorificamus Te, olha-se para trás e o tempo vem a correr, do outro lado da mesa é já a infância, eu lembro-me de ter quatro anos e da minha mãe trabalhar num alfaiate e de me prenderem à máquina de costura com a linha de alinhavar, as outras vozes respondem, eu lembro-me de comer pão escuro, pão de centeio, eu lembro-me da fábrica do meu pai, uma ourivesaria com barras de ouro a fundir, eu lembro-me de uma fotografia com os meus dois irmãos, ao pé da árvore de Natal, tinha os dedos cruzados assim e pensava em como havia de ficar a imagem, eu lembro-me da minha mãe a sachar milho e agora de um saco saem fantoches, robertos cabeçudos, cabe tudo dentro de uma caixa, diz a voz que traz camisa de cerimónia, e os bonecos continuam a sair do saco, têm nomes, há o Patareco, o Patátá, o polícia e os três meninos que encontram um cigarro aceso e não sabem como apagá-lo, as suas cabeças duras são feitas de papel colado, os brincos são dobradiças pequenas, os olhos foram feitos com desperdícios de madeira, havia ainda tanto para dizer mas de cada vez que te lembras, esqueces-te, a conversa é isto, uma coisa com arestas, um círculo que se fecha.»

4. No domingo à tarde, estas palavras foram lidas na antiga biseladora dos Anjos, juntamente com as prosas de Filomena Barona Beja, Armando Silva Carvalho, Jacinto Lucas Pires, Miguel Castro Caldas e alguns dos textos redigidos, em Amiens, pelos autores franceses. No final, o Francisco, homem de meia-idade, baixo, corpulento, mãos de trabalho, sempre a tratar-me por «sr. professor», veio agradecer-me, com água nos olhos, a referência aos sinos da sua aldeia. «Ficou bonito, assim.» E eu, comovido com a comoção dele, não soube o que responder.

(esta crónica foi publicada no DNA de 08/02/2003)



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