Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
Archives
<< current













 
This is where you stick random tidbits of information about yourself.



























ESCRITA AUTOMÁTICA
 
17.2.03  


O RISCO BRILHANTE
1. De repente fez-se silêncio. Calaram-se as conversas, as gargalhadas, o tilintar das chávenas, a correria das crianças, o som irritante do moinho de café, os toques dos telemóveis, as pancadas secas do empregado que deita fora as borras (tonc, tonc, tonc) antes de tirar mais uma bica para a mesa junto à janela, calaram-se todos aqueles sons amalgamados – um bruaá com estridências metálicas que as paredes de azulejo ampliam – e o silêncio foi tão completo que até as moscas tiveram pudor de morrer, electrocutadas, naquelas infernais maquinetas que emitem uma cor roxa e assassina. O café ficou mudo, suspenso, de olhos postos na TV. Alguém pediu que se aumentasse o som. Um homem ao balcão acendeu um cigarro e enquanto isso no ecrã azul, azul como o céu azul do Texas, um risco branco, muito brilhante, avançava com uma lentidão resignada. Era uma tarde de sábado e os olhos das pessoas só conseguiam ver aquele risco de fogo no céu. Não era preciso ouvir as vozes dos jornalistas, nem ler as palavras que passavam, rápidas, no rodapé da imagem, para perceber o horror que só a morte confere às coisas. Cinco minutos depois, começaram a renascer os ruídos, as conversas ainda em surdina, os pi-pi, pi-pi, pi-pi dos telemóveis («’tás a ver o acidente do vaivém?»), as correrias das crianças e as primeiras bicas para quem só agora chegou, lançando perguntas - «o que é que aconteceu?; «o que é aquela coisa a arder?»; «já estão em guerra no Iraque?» -, perguntas que fazem ricochete na indiferença do empregado que se encosta à máquina registadora, com o pano da loiça, ainda húmido, pendurado no ombro. Quem lhe responde é uma mulher que devorou dois pastéis de nata e uma meia-de-leite: «Está a ver o fumo branco? Pois, pois. Aquela nave dos americanos, shutle ou lá o que é, esmangaritou-se toda, veja bem, iam lá dentro sete pessoas, coitadas, não se salva nenhuma. É o que eu sempre digo: nós estamos muito bem aqui, não temos nada que ir lá para cima. Depois dá nisto. Quem os mandou sair cá da Terra?» E aquele «Terra» dito por uma mulher que não é de Lisboa (a pronúncia trai raízes nortenhas, talvez minhotas), aquele «Terra» dito assim, num tom próximo da censura, aquele «Terra» é como se não tivesse maiúscula.

2. Eu fiquei no meu canto, com a bica deixada a meio, já fria. O risco brilhante continuava a atravessar o céu azul, agora decomposto noutros riscos quase paralelos, deixados pelos pedaços da nave destruída que caem a uma velocidade espantosa e desenham, no céu azul do Texas, melancólicos rastos brancos como os que deixavam os foguetes rebentados cedo demais, nas férias da minha infância, em São Pedro do Sul, com o meu avô a levar-me pela mão junto ao rio Vouga e a proteger-me das canas que tombavam lá do alto, após o estrondo. Peço outro café e a memória rebobina-se, «fast forward», até 1986. Era no tempo em que as partidas do «space-shutle» ainda mereciam transmissões directas na RTP1 e comentários do Eurico da Fonseca. Eu já estava atrasado para uma aula na Alliance Française quando os motores projectaram a sua gigantesca cauda de chamas, o Challenger parecia uma aviãozinho de brincar às cavalitas de um foguetão imenso, 5, 4, 3, 2, 1, 0, e lá partiu ele rumo à estratosfera e mais além. Mas de repente a explosão, um silêncio e rastos brancos. O nó na garganta. Na aula da Alliance Française, por uma vez, não fizemos ditado, nem conjugámos verbos no «passé simple», nem cantámos (fraternalmente desafinados) «Ne me quitte pas», a mais triste da canções de Jacques Brel.

3. No mesmo ano, o ano em que Maradona reinventou o futebol no México, houve um nome que me fez olhar insistentemente para o céu: Halley. O mítico cometa Halley estava de regresso ao nosso canto do sistema solar, após uma visita (em 1910) que despertara toda a sorte de medos irracionais. Os cometas, já se sabe, nunca foram bem vistos, porque as crenças os associam a grandes tragédias. Em 1986, as pessoas sabiam que o cometa passaria longe da Terra e o pânico foi substituído pelo entusiasmo de assistir a um fenómeno raro, daqueles a que só se assiste uma vez na vida. Comprei vários números da «Science & Vie», cartas do céu, guias completos com as melhores áreas de observação e cheguei a «namorar» um telescópio que teria sido um desperdício nas mãos deste astrónomo amador - tão amador que mal sabia distinguir, numa noite estrelada, constelações tão óbvias como as Ursas (Maior e Menor). A verdade é esta: nunca vi o Halley, com a sua esplendorosa cabeleira de fogo, a não ser em fotografias. Recordo-me que certa tarde, quando atravessava com os meus pais os Pirenéus, , julguei ver, no céu vermelho do crepúsculo, o rasto do cometa. Foi um engano, uma ilusão provocada por um meteorito que entrava, naquele preciso instante, na atmosfera terrestre. Há duas semanas, no café que se calou de súbito, eu quis acreditar que aquele rasto branco também era um engano. Talvez um cometa inesperado, por qualquer razão saído das rotas habituais. Mas nunca uma nave em queda livre, desfazendo-se em mil pedaços, com sete astronautas lá dentro, sem direito à mínima esperança. Nos últimos minutos, ao perceberem a iminência do desastre, talvez tenham repetido as célebres palavras da Apollo 13: «Houston, we have a problem». Só que Houston, desta vez, nada podia fazer.

4. Se pensarmos objectivamente, o choque que estas tragédias espaciais produzem é sobretudo simbólico. A comoção colectiva não nasce do número de mortos, até porque só nas estradas dos EUA (e nas nossas...) morrem, todos os dias, muito mais do que sete pessoas. Acontece que a perda de alguém num acidente de viação, embora não menos terrível (em termos absolutos), tem um efeito limitado. Afecta a família da vítima, os seus amigos, alguns conhecidos, pouco mais. Quando homens e mulheres perdem a vida num desastre espacial, o cículo da dor amplia-se. Já não abrange apenas os seus familiares e amigos. O círculo da dor passa a abranger toda a Humanidade. Porque é em nosso nome que eles sobem até às esferas celestes, em máquinas infinitamente complexas e por isso infinitamente perigosas. Basta que uma coisa minúscula corra mal (uma fuga num depósito de combustível, uma placa reflectora que se solta) para que tudo corra mal. Na sua longa e exigente formação, os astronautas aprendem a viver com este risco imenso. Sempre que partem, eles sabem que podem não voltar. A equipagem do Columbia sabia isso. A do Challenger também. Como saberão, no futuro, as tripulações que prosseguirem esta aventura extraordinária. A aventura da espécie humana.

(esta crónica foi publicada no DNA de 15/02/2003)




21:34

 
This page is powered by Blogger.
Site Meter