Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
Archives
<< current













 
This is where you stick random tidbits of information about yourself.



























ESCRITA AUTOMÁTICA
 
28.2.03  
PENSO, BLOGO, EXISTO
Há uma revolução em curso na internet e tem um nome: blog. É provável que os menos atentos ao que se passa na Web só tenham ouvido a palavra esta semana, quando a imprensa clássica anunciou, com algum destaque, a compra pelo gigante Google – «rei» dos motores de busca – da pequena Pyra Labs, a empresa responsável pelo mais popular «interface» desta nova forma de comunicação: o Blogger. Mas em que se traduz afinal este conceito revolucionário, comparado por muitos analistas ao advento da TV?
O melhor é começar pelo princípio. De que falamos ao certo quando falamos de um blog? Dito da maneira mais simples, um blog – abreviatura de web-log – é uma página na internet onde se podem colocar facilmente mensagens escritas ou imagens, por ordem cronológica e com actualização regular (nos casos mais sérios, várias vezes por dia). Cada blogger que mantém um espaço destes pode fazer dele o que muito bem entender: um diário íntimo, um jornal de parede, um museu de glórias pessoais, uma tribuna para discussão de ideias, um púlpito para polémicas, um ponto de encontro ou um muro das lamentações. O blog molda-se à personalidade de quem o criou. E é aí que começa a revolução. Pela primeira vez, qualquer pessoa tem acesso a uma ferramenta informática simples que lhe permite comunicar ao resto do mundo o que quiser, como quiser e quando quiser. Até agora, a publicação de um texto escrito dependia sempre da existência de um jornal e da ultrapassagem de uma série de barreiras e filtros editoriais – que o digam os leitores opinativos habituados a enviar cartas para os jornais de referência. É essa distância, é esse Rubicão que desaparece com os blogs. Em teoria, cada pessoa pode fazer, para si ou para um público virtualmente infinito, o seu próprio jornal. Ou o seu próprio livro (disponível 24 horas por dia, on-line).
Claro que tudo isto já se fazia antes, mas a manutenção de sites pessoais era muitas vezes paga e nem sempre expedita. A grande vantagem deste novo sistema é a sua rapidez. Quem se dirigir à «home-page» do Blogger (www.blogger.com), sai de lá com uma página impecável em três minutos. Depois, a actualização é tão simples que até o mais inexperiente dos internautas consegue fazer um brilharete. Ninguém precisa de conhecer as subtilezas da linguagem HTML e mesmo o «design» da página pode ser escolhido, com um toque do rato, de um vasto catálogo de «roupagens» disponíveis. A bem dizer, só não cria o seu blog quem não quer.
Aliás, os números falam por si. Desde 1999, quando o software ficou disponível, já aderiram ao conceito 500.000 pessoas no mundo todo. A blogosfera, como alguns chamam à comunidade dos bloggers, está em plena expansão, tanto à escala planetária como no nosso país. Vale a pena consultar o index actualizado do «Blogs em Portugal» (http://blogsempt.blogspot.com) e verificar que surgem páginas todos os dias e para todos os gostos (da política à literatura, passando pelo cinema ou pelo desporto). Como seria de esperar, mais de 95% destes blogs têm um interesse muito reduzido. Abundam os devaneios poéticos (quase sempre assustadores), as «private jokes» e os corações destroçados carpindo as suas mágoas «no frio desta noite infinita». É tudo uma questão de procurar bem e não desistir dos 5% de blogs que merecem uma visita diária. O panorama nacional ainda é muito pobre mas já há várias páginas de referência (quase todas mantidas por jornalistas). E como remetem continuamente umas para as outras, seja pela via da polémica ou do elogio, não é difícil separá-las do joio da irrelevância umbiguista.
Interessa-me agora enumerar aqueles que são, no meu entender, os melhores atributos e os principais riscos deste novo «media». Do lado das vantagens, além das já referidas (o acesso rápido e a actualização simples), gostava de destacar a possibilidade que os blogs oferecem, aos cidadãos comuns, de exercerem o seu sentido crítico. Abolidos os intermediários, as opiniões passam a circular directamente do produtor para o consumidor e caberá a cada um escolher as «vozes» que deseja ouvir, ampliando-se assim consideravelmente uma oferta que estava limitada aos «opinion-makers» oficiais, com dia certo para publicarem a crónica no jornal. O trunfo dos bloggers é não terem «dead-lines». Podem escrever a qualquer hora e comentar, em directo (ou quase), o que se vai passando no mundo: um desastre, declarações de guerra, a morte de um escritor.
O problema é que esta capacidade de responder instantaneamente a um estímulo é uma faca de dois gumes. Por um lado, permite uma intervenção directa sobre a realidade em estado bruto, sem influências nem manipulações. Ao tomarmos uma posição, ao formularmos uma ideia, ainda não lemos nem ouvimos o que disse X ou Z. Estamos por isso mais perto de uma verdade pessoal, não formatada pelo pensamento alheio. Mas também mais perto do erro. Sem criar distâncias, olhando para a espuma dos dias quando as coisas «ainda fervem», é mais fácil sucumbir às precipitações e aos equívocos. Ainda assim, para os disparates imperdoáveis há sempre remédio, porque todos os textos podem ser editados em qualquer altura. Quanto ao resto, o tempo encarregar-se-á de fazer o seu papel de juiz.
Se é óbvio que uma certa impunidade pode conduzir a pontuais abusos de linguagem ou provocações gratuitas, não é menos certo que esses «danos colaterais» são um preço baixo que se paga pela liberdade de discutir e polemizar. Aliás, esses entusiasmos e eventuais excessos são perfeitamente compreensíveis e acabam por ser corrigidos pela própria lógica interna da blogosfera. O diálogo entre os blogs e os comentários que os leitores fazem aos textos são as formas ideais, porque não censórias, de auto-regulação.
Por fim, convém não esquecer que a característica fundamental dos blogs se prende com a possibilidade de fazer links para outras páginas (há mesmo blogs só com links). Na maioria dos casos, o link é uma sugestão comentada, uma pista para navegar na Web, muitas vezes de um blog para outro blog e deste segundo blog para um terceiro, etc. Cria-se assim um imenso ecossistema de páginas interligadas, onde a informação flui de uma forma imediata e extraordinariamente flexível.
Quer isto dizer que os blogs podem substituir os jornais? Não, pelo menos por enquanto. Mas podem perfilar-se, nalguns casos, como uma alternativa. Já há de resto quem leia certos blogs portugueses todas as manhãs, antes mesmo, por exemplo, das crónicas de Eduardo Prado Coelho (Público) e de Vasco Pulido Valente (DN).

(esta crónica foi publicada no DNA de 01/03/2003)



21:57  


O IRAQUE PONTO POR PONTO
O homem atravessou a pequena multidão – dezenas de pessoas acotovelando-se na sala principal da livraria Ler Devagar, na antevéspera da manif contra a guerra – e aproximou-se do ecrã. Tinha pinta de espião moderno (já formado na era da pós-Guerra Fria), ar solene e uma pasta a abarrotar de documentos. O rosto era pedra bruta. Gestos, só os estritamente necessários. Dado o sinal, as luzes do tecto decresceram e ele pousou um molho de folhas sobre a mesa, com o sorriso condescendente de quem pensa que a verdade (quando é a «nossa» verdade, claro) não precisa de ser explicada. O público, silencioso, aguardava a revelação.
Que revelação? Bom, talvez seja melhor voltar um pouco atrás, mais concretamente à mensagem que muitos dos espectadores acotovelados leram na Internet. E que dizia: «O governo norte-americano decidiram enviar agentes – que neste momento se encontram em várias capitais europeias – para esclarecer os sectores mais cépticos da opinião pública em relação às provas apresentadas por Colin Powell nas Nações Unidas. Esse cepticismo tem por base um mal-entendido. Apesar da advertência prévia, feita a partir das assessorias da Casa Branca, de que as imagens deveriam ser olhadas como se fossem quadros do pintor pontilhista Seurat, a desconfiança permaneceu. Depois de um estudo aturado, chegou-se à conclusão que, de facto, apenas alguns dirigentes do velho continente conhecem este pintor do séc. XIX. Os portugueses podem considerar-se com sorte: Mr. Barroso é um dos que mostrou compreender que estas imagens demonstram uma monstruosa conspiração em marcha.»
Se bem se recordam, as palavras e as fotos de satélite apresentadas por Powell – vagas e pouco conclusivas – só convenceram quem já estava convencido de que o regime de Saddam escondeu, não se sabe bem onde, armas de destruição maciça. Já as imagens exibidas pelo agente americano, tranquilo no manuseio do Powerpoint, revelaram uma outra realidade – avassaladora, brutal e capaz de transformar em «falcão» o mais pacifista dos pacifistas. Seguindo à letra o conselho das tais assessorias (personificadas por Richard Haass, director de estratégia política do Departamento de Estado americano), o homem fez-nos olhar para os dados recolhidos no terreno como se estivéssemos, de facto, a ver uma tela de Georges Seurat. O que no ecrã pareciam quadros do grande pintor que morreu cedo (31 anos), eram afinal mapas das instalações secretas de Hussein ou provas irrefutáveis das suas malfeitorias. Por exemplo, «La Grande Jatte», com aqueles burgueses todos sentados na relva junto ao rio, é de um bucolismo enganador. Círculos e rectângulos vermelhos, sobrepostos na imagem, mostraram claramente que por detrás das árvores se esconde uma fábrica de material químico. E a torre Eiffel? Nada menos do que uma rampa de lançamento de mísseis. E a rapariga que se maquilha nos bastidores de um teatro, com pó de arroz? Não é pó de arroz, é anthrax.
A sala desatou a rir, muitas vezes à gargalhada. O agente era um actor, claro. E toda a performance, que também parodiou a «conversa» entre os oficiais iraquianos (recorrendo a um dos mais absurdos diálogos dos irmãos Marx) só pretendia desmontar o esquema de justificação «culturalista» dos americanos, quando confrontados com a escassez material das suas provas. Na ausência da tão falada «smoking gun», Richard Haass decidiu reduzir desde logo as expectativas. Se comparou as «provas» aos quadros de Seurat foi porque, nas suas palavras, «o que nós vamos revelar são “pontos” de actividade dos iraquianos, a partir dos quais qualquer pessoa inteligente conseguirá deduzir que eles estão a esconder alguma coisa e a complicar o trabalho dos inspectores».
Dito por outras palavras, tal como num quadro pontilhista, a imagem não nasce aqui de uma realidade concreta (as linhas, os planos, os contornos; que é como quem diz as fábricas, as ogivas, os mísseis) mas sim de indícios que se vão associando uns aos outros. Ou seja, cada «prova» por si, como cada «ponto de cor» por si, nada vale. É a leitura do conjunto que lhes dá sentido, coerência, a sensação de um todo harmónico. De resto, foi o próprio Seurat que resumiu toda a sua teoria estética numa frase: «A Arte é Harmonia».
Mas o problema é que há nesta argumentação um tremendo equívoco. O trabalho sobre a cor, em Seurat, nasce da descoberta por parte de um químico, Chevreul, do princípio do «contraste simultâneo», segundo o qual duas cores complementares, se colocadas lado a lado, viam aumentada a sua «luminosidade». Seurat levou este princípio ainda mais longe ao estudar o efeito de «mistura óptica» («mélange optique») que está relacionado com a capacidade de resolução do olho humano. Se não forem demasiado pequenos ou distantes, dois pontos de tinta sobre uma tela são vistos como entidades separadas. No entanto, se os pontos forem mais reduzidos ou se a distância para eles aumentar, o olho do observador deixa de os distinguir e passa a ver uma mancha que é a soma das duas cores. Em vez de misturar pigmentos, Seurat juntava pontos de cores primárias e construía com eles mosaicos que, vistos de longe, sugerem paisagens ou corpos de pessoas e animais, mas não correspondem, na superfície da tela, a uma realidade inteligível (em «close up», tudo se reduz a um borrão destituído de forma ou significado, um caos de acumulações crómaticas sem «leitura»).
Resumindo, a arte de Seurat, em si mesma um prodígio, só resulta porque nos engana, porque ilude os nossos mecanismos de percepção. E o equívoco, a ironia, está aqui. De todos os exemplos que se podem ir buscar à História da Arte, Richard Haass escolheu precisamente o mais inadequado. Ao comparar as «provas» de Powell aos quadros do mestre pontilhista, o que Haass admitiu, involuntariamente, foi que o «mosaico» criado para encher o olho das opiniões públicas, por esse mundo fora, tem pouca, ou nenhuma, sustentação no terreno.
Ao aperceber-me deste «faux pas» do Tio Sam (e logo, «mon dieu», com um «comedor de queijo»), recordei de imediato, não sei porquê, uma das obras-primas do pobre Georges. É «Le Cirque», uma tela que está no museu de Orsay e mostra um palhaço, um acrobata e uma bailarina a cavalo – feéricos – tentando convencer uma plateia abúlica. Uma plateia que já viu, pressente-se, melhores espectáculos.
Não estou a sugerir, longe de mim tal ideia, que o palhaço de cabelo vermelho é Powell e a ONU um circo. Mas lá dizia o outro: a vida imita a arte. E vice-versa.

(esta crónica foi publicada no DNA de 22/02/2003)


21:56

 
This page is powered by Blogger.
Site Meter