Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
14.3.03  


A GUERRA QUE AÍ VEM

Quando me sentei em frente do computador, para redigir esta crónica, já trazia na cabeça a primeira frase. Era qualquer coisa do género: «No momento em que escrevo (terça-feira, 11 de Março) a guerra no Iraque ainda não começou, mas nada me garante que no dia de publicação do DNA (sábado, 15 de Março) ela já não esteja em marcha». O que eu pretendia sublinhar com a frase, entretanto posta de parte, era um dos paradoxos desta guerra: desde Outubro do ano passado que o conflito no Golfo Pérsico está prestes a rebentar e não rebenta. A Administração Bush já fez vários ultimatos, já anunciou várias «últimas oportunidades», mas acaba por esticar sempre o prazo, uma e outra vez. Porquê? No meu entender, por duas razões essenciais.
Primeiro, esta guerra não será tão «fácil» como a de 1991, porque implica entrar em Bagdad, último reduto de Saddam e das suas tropas mais fiéis. Fazer uma tempestade no deserto, com caças último modelo e bombardeiros «invisíveis», é uma coisa; lutar rua a rua contra uma resistência urbana, tipo guerrilha, é muito mais complicado (ameaçando mesmo reavivar os fantasmas do Vietname). Sobretudo, a conquista de Bagdaad não poderá ser feita de forma «limpa», sem vítimas a abrir os telejornais. A segunda razão para a prudência dos americanos prende-se com a consciência de que a margem de erro é cada vez mais reduzida. Depois do sucesso no Afeganistão, o Iraque será provavelmente a segunda etapa de uma «Guerra Infinita» contra o «terrorismo internacional e os seus apoiantes». Há mais «Estados-pária» à espera de vez: a Coreia do Norte, a Síria, o Irão. Ao aplicarem a sua força esmagadora, os EUA têm que fazer jus ao estatuto de hiper-potência. Por isso, o ataque só será desferido quando houver a certeza de uma vitória fulminante e decisiva. Mais do que os impasses no Conselho de Segurança da ONU, ou as evoluções positivas do trabalho dos inspectores, o que está a atrasar a guerra é a impossibilidade de recorrer à Turquia (pelo menos por enquanto) como base para uma demolidora «frente Norte».
Com tudo isto passaram-se vários meses, durante os quais foi possível traçar infinitos cenários, imaginar o futuro desenho do Iraque e do Médio Oriente, equacionar os possíveis sucessores de Saddam e até os efeitos geoestratégicos deste conflito num mundo cada vez mais unipolar. A verdade é esta: a segunda guerra do Iraque já existe, já existiu, ainda antes de se disparar o primeiro tiro. Ela foi de tal maneira antecipada que acabou por ganhar uma aura de «acontecimento absoluto». Isto é, um acontecimento por acontecer que analisamos como se já tivesse acontecido.
No fundo, estamos perante a apoteose de um fenómeno que se acentuou após o 11 de Setembro: a aceleração da História. Com a mediatização extrema que a tecnologia vem permitindo (televisão global, internet, etc), anula-se a distância entre o facto histórico e a leitura que dele se pode fazer. A História tornou-se actualidade pura, instantânea, imediata. A História já não é contada por alguém, é vista em directo. Não se passou ontem, está a ser agora. E com tanta velocidade, às vezes chega mesmo a ultrapassar-se a si mesma. Uma prova: esta pré-guerra, esta ante-guerra. Quando os combates a sério tiverem início, vamos olhar para eles com uma estranha sensação de «déjà vu». E o pior é que esta memória por antecipação, construída a partir de indícios e sinais dispersos, não podia ser mais funesta.
Além de marcar aquele que será, com toda a certeza, o primeiro grande conflito do séc. XXI, esta guerra vai estilhaçar por completo a ordem mundial. Na sua luta contra o terrorismo – um inimigo volátil, imaterial, sem raízes (mais complexo e imprevisível, por isso, do que o clássico «perigo vermelho») – os EUA estão a ir, literalmente, longe demais. O conceito de «guerra preventiva», com a sua lógica retorcida, está a envenenar as relações internacionais e a pôr em causa equilíbrios frágeis, conseguidos à custa de muitas décadas de esforços diplomáticos. O estatuto de hiper-potência (militar e económica) alimentou os sonhos hegemónicos das alas mais conservadoras do partido republicano e o resultado está à vista: uma política externa de uma enorme arrogância («quem não está connosco, está contra nós») e um desejo de acção unilateral que ameaça esvaziar de sentido a ONU.
O mais grave é que estas fracturas se repercutem a muitos outros níveis (na NATO, na União Europeia) e podem conduzir o mundo para um período de grandes incertezas. O que surgirá depois destes sucessivos abanões? Uma «pax americana» ou o caos? A «pax americana» não será de certeza, porque já se percebeu que a opinião pública mundial (mesmo nos países aliados dos EUA) está maioritariamente contra a obsessão iraquiana da família Bush. E está contra, não por anti-americanismo primário, como muitos analistas querem fazer crer, mas porque esta guerra é claramente injusta. Não vou retomar aqui os muitos argumentos que desmascaram a pretensa legitimidade de uma intervenção armada, nem vou especular sobre as motivações secretas (petrolíferas ou outras) dos americanos. Relembro apenas quatro factos concretos. 1) Ao contrário do que se passou em 1991, o Iraque não invadiu nenhum país vizinho. 2) Há outros países que também violaram diversas resoluções da ONU e possuem armas de destruição maciça (Israel, Paquistão), com a subtil diferença de serem aliados estratégicos dos EUA. 3) O Iraque tem um exército enfraquecido, sofre há mais de uma década um rigoroso embargo económico, está sujeito a vigilância no seu espaço aéreo e vem colaborando, melhor ou pior, com as inspecções coordenadas pelo Sr. Blix. Ninguém duvida que Saddam é um déspota sanguinário, capaz de massacrar o seu próprio povo. Mas alguém acredita mesmo que ele é uma ameaça para o mundo? 4) Sem se ter provado a ligação do regime iraquiano à Al-Qaeda, o 11 de Setembro deixa de fazer sentido como álibi. Pior: ao produzir mártires muçulmanos, a guerra incendiará os países árabes e poderá dar origem a novas vagas de um terrorismo de grande escala.
Se bem se recordam, uns anos após o fim da primeira guerra do Golfo houve muitos segredos que vieram à tona: as armas experimentais, as doenças dos soldados, as manipulações gigantescas da comunicação social. Como será agora? De onde virão desta vez as cortinas de fumo da propaganda? Ninguém sabe ainda. Porque as verdadeiras razões e consequências de uma guerra descobrem-se sempre, infelizmente, «a posteriori». Isto é, tarde demais.

(esta crónica foi publicada no DNA de 15/03/2003)


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