Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
Archives
<< current













 
This is where you stick random tidbits of information about yourself.



























ESCRITA AUTOMÁTICA
 
22.3.03  


O GIOCONDOCLASTA

1. A minha primeira desilusão com a «grande arte» aconteceu aos dez anos, no Museu do Louvre. Numa sala apinhada de japoneses em êxtase, velhos guias repetiam, pela enésima vez, a mesma conversa sobre a delicadeza do «chiaroscuro» em Leonardo da Vinci – «talvez o maior génio de todos os tempos». Atrás da barreira nipónica, um amontoado compacto de corpos muito juntos a perfazer um semi-círculo perfeito, eu tentava, em bicos dos pés, vislumbrar o enigmático sorriso de Mona Lisa del Giocondo. Caramba, não é todos os dias que se vê, de perto, o mais famoso quadro do mundo. De perto é como quem diz. No meio de cabeças e braços e mochilas da Nike, o máximo que eu consegui vislumbrar foram reflexos na redoma anti-bala e um fragmento das mãos (a direita pousada, indolente, sobre a esquerda). Percebi então que muitas das pessoas que se acotelavam à minha frente tinham vindo a Paris só para isto: ver a «Gioconda». A «Gioconda» e a torre Eiffel. Riscados da lista estes items (ainda não havia, na altura, a EuroDisney), já poderiam passar o resto do tempo nas esplanadas e a fazer compras nas Galerias Lafayette, sem pesos na consciência de bom turista.
Ao fim de cinco minutos, houve um rasgo de esperança: a excursão japonesa batia em retirada. Mas foi sol de pouca dura. No momento em que me preparava para avançar, chegou-se à frente um grupo de adolescentes suecos. Nova barreira: mais alta, mais forte, loiríssima. Eu perdi a pouca paciência que me restava, saí dali para fora e deixei a misteriosa dama para trás. Deambulei o resto da tarde pela ala dos pintores flamengos, enormes salas cheias de naturezas mortas e quase vazias de gente.

2. Na segunda visita tive mais sorte. Não era verão. Havia uns quantos japoneses, claro, mas em número razoável – nada que impedisse o desfrute da obra-prima. E foi então que procurei a «aura» do quadro, a magia do olhar que nos «olha» de vários ângulos, o sorriso irradiante. Fiquei parado uns minutos, em frente ao quadro. À espera. Mas o quadro nada me disse. O quadro fechou-se sobre si mesmo, escondeu-se atrás do seu mito. Da grandeza anunciada, sobraram apenas as cinzas da expectativa.
Após o choque, tentei um exercício difícil: olhar para o retrato como se nunca o tivesse visto antes, como se não conhecesse a sua importância na História da Arte. Despido o olhar das referências culturais, o que é que eu via? Pois bem, via uma rapariga bonita mas com ar de sonsa, um verdadeiro pãozinho sem sal. O que salva o quadro é a paisagem por trás da moça: do lado esquerdo, a estrada que faz um «s» na terra vermelha; do lado direito, os penhascos e uma ponte romana. A verdadeira arte de Leonardo, os cumes da sua pintura, temos que os procurar noutras telas. Por exemplo, na perfeição absoluta da «Virgem nos Rochedos» (as quatro figuras iluminadas; o ermo que é uma lição de geologia) ou no espantoso «Retrato de Cecilia Gallerani (Senhora com Arminho)», em que a amante de Ludovico Sforza olha para um misterioso ponto fora do quadro, enquanto um estranho animal, de cabeça pequena e altiva, tenta escapar do seu colo e das suas mãos tão brancas.
Se tivesse vivido no final do séc. XV, era capaz de me apaixonar perdidamente por Cecilia Gallerani, escrever-lhe sonetos, bater-me em duelo por sua honra. Mas não faria nada disso por Mona Lisa, a burguesinha não-me-toques, afectada e fútil. Marcel Duchamp, o genial «blagueur», é que a topou bem. Aquele bigode ridículo, certeiro porque desmistificador, fica-lhe a matar.

3. Em meu entender, o bigode de Duchamp, acrescentado pelo artista a uma cópia perfeita do quadro de Leonardo, vai muito além da bravata artística. Acredito mesmo que é um gesto fundador de uma certa forma de iconoclastia, de resistência ao peso bruto (e tantas vezes acéfalo) da tradição. Mas não uma iconoclastia qualquer, antes uma iconoclastia dirigida a uma imagem determinada, a um alvo concreto. Chamemos-lhe, até porque já outros o fizeram antes, giocondoclastia. Quer dizer, a desmontagem sistemática da «Gioconda» – o mais totalitário dos ícones que ainda hoje assombram a nossa memória cultural.

4. Neste trabalho tão difícil quanto necessário, o principal herdeiro de Duchamp é um escritor chamado Hervé Le Tellier. Nascido em 1957, Le Tellier já foi matemático, jornalista do «L’Evénement du Jeudi» e autor de libretos. Membro do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle) desde 1992, é também colaborador de um programa de rádio («Des Papous dans la Tête», France Culture) que explora os jogos de palavras e as regras da escrita literária «oulipiana», imortalizada por figuras como Raymond Queneau, Italo Calvino, Georges Perec ou Jacques Roubaud.
Mestre do pastiche e da paródia, Le Tellier – autor de obras engraçadíssimas logo no título, como «Les amnésiques n’ont rien vécu d’ inoubliable» – instituiu para si mesmo um programa inspirado nos «Exercices de Style» de Queneau. A saber, a invenção de 100 «pontos de vista» sobre Mona Lisa, recorrendo a um mecanismo narrativo que está implícito numa das epígrafes: «São os observadores que fazem os quadros» (nem de propósito, uma frase de Duchamp).
A «Gioconda» dá assim origem a 100 quadros muito diferentes, porque as 100 personagens imaginadas por Le Tellier (ou melhor, 99, porque o último «ponto de vista» é o do leitor) nada têm a ver umas com as outras. O médico legista nunca poderia olhar para Mona Lisa da mesma forma que a cabeleireira: o primeiro vê um cadáver pronto para a autópsia; a segunda sugere os tratamentos a dar ao cabelo da cliente – madeixas? talvez um «brushing»? – enquanto actualiza os mexericos.
O resultado pode ser lido no livrinho «Joconde jusqu’à 100» (Le Castor Astral) – bem como na sequela «Joconde sur votre indulgence» – e é simplesmente brilhante. Atente-se, por exemplo, nas «Giocondas» de Marguerite Duras, do advogado, do cego, do comandante Cousteau, do charadista, do internauta, do tarado sexual, do detector de mentiras, de Bernard Pivot, do participante num concurso televisivo, do 007, do xadrezista, de Rabelais, da hospedeira ou – até – do atendedor de chamadas.
Giocondoclasta de primeira água, Le Tellier pode não converter à causa todos os seus leitores mas pelo menos diverte-os. Um divertimento que se prolonga no magnífico livro de contos eruditos publicado em 2002: «Encyclopaedia Inutilis» (Le Castor Astral). É bom não esquecer que um dos contributos mais importantes do OuLiPo foi este: mostrar que se pode fazer literatura séria com a atitude de quem está a brincar.

(esta crónica foi publicada no DNA de 22/03/2003)


19:41

 
This page is powered by Blogger.
Site Meter