Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
29.3.03  


O ANTIAMERICANISMO

É uma palavra forte, uma palavra cheia de picos, uma palavra que fica estendida na horizontal, à nossa frente, como uma cancela que nos proíbe de ir mais além. Antiamericanismo. Dezasseis letras que são uma espécie de sinal STOP, um aviso, quiçá uma ameaça. Quem condena esta guerra insensata – levada a cabo por uma coligação que espezinhou, não o esqueçamos, a ONU e o direito internacional (com o beneplácito do governo português, hospitaleiro organizador da lamentável Cimeira dos Açores) – está sujeito a dois tipos de críticas, por parte de uma feroz e cada vez mais activa opinião pública de direita: por um lado, a ideia peregrina de que a insistência numa solução pacífica sob a égide das Nações Unidas, com os inspectores a continuarem o seu trabalho no terreno, equivaleria a uma defesa implícita do regime de Saddam Hussein (argumento tão débil que nem merece resposta); e, por outro, a acusação pura e dura de antiamericanismo. A tal palavra a que se recorre para travar o debate, para esvaziar a indignação.
Parece-me que vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre esta questão semântica. Para começar, o antiamericanismo vem sempre associado à velha conversa da suposta inveja, e respectivo despeito, dos europeus (ou melhor, da rumsfeldiana «Velha Europa») perante o sucesso económico, geopolítico e militar da América – elevada, após o fim da Guerra Fria, ao estatuto de única hiperpotência. As coisas não são obviamente assim tão simples, mas a direita iracunda nunca quis saber da subtileza para nada. Se eu critico George W. Bush, pensam ele, é porque odeio visceralmente a América. Não há meio termo. Segundo esta tendência, inspirada pelos «think tanks» neo-conservadores e pelo inefável Jean-François Revel, o antiamericanismo dos europeus seria, no fundo, uma «obsessão» terrível. Terrível porque ingrata. Afinal de contas, eles sempre quiseram o nosso bem: «salvaram-nos» na II Guerra Mundial e «protegeram-nos», durante décadas, dos mísseis soviéticos. Acontece que a inocência americana, só a engole quem quer. Leiam «O Americano Tranquilo», de Graham Greene. Ou vejam o filme. Está lá tudo.
O mais curioso é que à hipotética «obsessão antiamericana» dos intelectuais europeus, há quem responda com uma nunca antes vista obsessão pró-americana. Mais papistas do que o Papa, certos cronistas defendem Bush para além de todos os limites razoáveis, como se o Presidente (eleito em circunstâncias mais do que duvidosas) fosse um profeta e a «falcoaria» de Washington o oráculo de Delfos. Ouvi-los chega a ser divertido, enquanto exemplo de uma forma distorcida de olhar para a realidade. Saem milhões de pessoas à rua em todo o mundo, manifestando-se contra a guerra? Eles apontam o dedo à multidão, vendo por toda a parte esquerdistas folclóricos, «intoxicados» pelos livros de Noam Chomsky. Alguém revela ligações perigosas entre a indústria de armamento americana e esta cada vez mais militarizada Administração? Logo respondem que são tudo calúnias, delírios, cabalas, teorias da conspiração. E que ninguém se atreva a sugerir que os EUA invadiram o Iraque também, ou sobretudo, por razões económicas (petrolíferas mas não só). Como toda a gente sabe, o impulso que move Bush é puramente filantrópico: derrubar o ditador sanguinário, reconstruir o país, implantar uma democracia e sair dali para fora. Recordo apenas que também houve quem acreditasse no «melhor dos mundos possíveis» do professor Pangloss e depois se arrependesse amargamente (interrompam o Graham Greene e leiam – com carácter de urgência – o «Candide», de Voltaire, prodigiosa história de alguém que finalmente abre os olhos e começa a ver).
Chegado aqui, tenho que vos confessar uma coisa. Se decidi abordar a questão do antiamericanismo, tema claramente empolado e que talvez nem merecesse uma crónica inteira, foi porque me dispararam as 16 letras, à queima-roupa, a propósito de um texto publicado neste mesmo espaço, sobre uma guerra que ainda não era, na altura, a triste certeza que hoje é. Reli várias vezes o e-mail mas a palavra continuou lá, cheia de picos, como uma cancela que nos proíbe de ir mais além. Antiamericanismo. Assim, sem margem para dúvidas. Segundo aquele leitor, eu sou antiamericano e não se fala mais no assunto.
Mas serei mesmo? Pior: serei antiamericano sem me dar conta de que sou? Lamento desiludir os praticantes do maniqueísmo ideológico, mas a resposta é negativa. Depois de sair do jornal, ainda nos semáforos da Av. Duque de Loulé, comecei a escrever mentalmente uma série de listas com o que amo e detesto na América, os prós e os contras, as coisas boas versus as coisas más e até mesmo um «Gosto Não Gosto» à maneira da secção do DNA. Tentarei resumir agora uma parte dessas listas.
Nos EUA, o que me desagrada acima de tudo é o primado da economia, do dinheiro e do sucesso; é o contraste entre a mais descarada ostentação de alguns e a mais desamparada miséria de muitos; é o moralismo hipócrita e o patriotismo cego que são vistos como «pilares» da sociedade; é a atmosfera de forte vigilância policial e repressão; é o culto das armas de fogo alimentado por associações como a NRA; é a pena de morte; e é o fundamentalismo religioso que tem raízes profundas na cultura americana (do «In God we trust» das notas de dólar ao «God bless America» dos discursos políticos).
Não tenho problemas em admitir: se a América fosse apenas isto, eu seria furiosamente antiamericano. Acontece que há outras Américas para além desta: a América do pensamento e da ciência (Harvard, Stanford, Berkeley, o MIT, o CalTech, a NASA); a América da natureza bruta (as Montanhas Rochosas, Yellowstone, os vulcões do Hawaii); a América das bibliotecas infinitas e dos museus de sonho; a América de Thoreau, Hemingway, Hopper, Lloyd Wright, Copland, Faulkner, Orson Welles, Pollock, Eugene O’Neill, Philip Roth, Scorsese, tantos outros; a América que luta contra si mesma e se auto-critica.
Eu nunca fui, não sou, nem serei antiamericano porque dentro desta nação paradoxal haverá sempre uma América que reconheço e admiro. Mas nada disso me impede, ainda assim, de execrar os seus líderes actuais, a sua arrogância civilizacional e as suas mais do que óbvias tentações imperialistas.

(esta crónica foi publicada no DNA de 29/03/03)



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