Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
4.4.03  


OS UCRANIANOS

Eu cruzo-me com eles nas ruas de Lisboa, oiço no metro a sua língua cheia de «k’s» e de «y’s», reconheço na fila do supermercado o seu sorriso onde às vezes brilham dentes de ouro, vejo-os pendurados nos andaimes com o olhar melancólico de quem estudou para ser engenheiro de minas ou médico ortopedista, mas agora se descobre numa terra estranha, a assentar tijolos dias a fio, sem papéis e sem futuro.
Eu sei que eles estão para nós como nós estivemos para os franceses, nos anos 60. São gente trabalhadora que ergue Expos e constrói estádios, uma mão-de-obra baratíssima, sempre disponível e pouco conflituosa, que só quer receber o magro salário ao fim do mês para enviá-lo, quase por inteiro, às famílias que em Kiev anseiam pelos euros, como Portugal ansiava pelas remessas dos homens e mulheres que atravessavam os Pirenéus em busca de uma vida melhor. A diferença é que os portugueses tinham em geral uma educação limitada (muitos eram mesmo analfabetos), enquanto os novos imigrantes de Leste só não apresentam os diplomas universitários porque ninguém lhos pede.
Pelo que leio nos jornais, sei também que os ucranianos já são mais numerosos no território português do que os angolanos e guineenses, por exemplo. Sei que há redes mafiosas que controlam o «negócio» (esta forma encapotada de escravatura), cobrando-lhes um balúrdio à vinda e outro balúrdio à ida. Sei que existe um submundo de empreiteiros sem escrúpulos a enriquecer à custa deles, por não pagarem horas extraordinárias nem descontos para a Segurança Social. Sei que há alguns casos notáveis de integração: alunos com resultados brilhantes e pessoas de todas as idades que revelam uma extraordinária fluência na nossa língua. Sei igualmente que há casos de desespero, de suicídio, de mortes criminosas em noites de álcool e navalhas.
Sei tudo isto. Mas, ao mesmo tempo, não sei nada. Porque os textos dos jornais, as reportagens da televisão, só mostram uma parte da realidade. Nunca nos mostram como eles vivem mesmo, no quotidiano, quando a câmara se desliga e já ninguém lhes pede depoimentos, dramas existenciais ou demonstrações de apego à pátria distante. Isso que nunca nos mostram – a vida como ela é, sem «voz off» – foi o que João Ribeiro e José Filipe Costa quiseram fixar num documentário, «Entre Muros», gravado em vídeo durante seis meses (Novembro de 2000 a Abril de 2001). Produzido pela Laranja Azul, o filme estreia hoje no Cine Paraíso (sito na R. do Loreto, perto do Largo Camões, em Lisboa) e pode ser visto todos os sábados, até ao fim deste mês, em três sessões (16h30; 19h00 e 21h30).
O que torna «Entre Muros» uma obra fascinante é, desde logo, a sua «perspectiva cinematográfica». Ou seja, a forma como o documentário foi pensado enquanto corpo de imagens. Os autores, em vez de ensaiarem uma qualquer abordagem sociológica do fenómeno da imigração de Leste, preferiram focar a sua câmara na experiência de dois homens, dois imigrantes que partilham a solidão e o cansaço, algures nos arredores de Lisboa. A estratégia parece-me correcta, porque através das acções, desabafos e silêncios destes homens concretos, vai sendo contada, em surdina, a história da maioria dos ucranianos que atravessaram um continente, milhares de quilómetros, para procurar a sorte no país mais ocidental da Europa (facto que é sublinhado por uma das poucas cenas de exterior, junto ao Cabo da Roca).
João Ribeiro e José Filipe Costa resumem o seu projecto de forma muito clara: «O que queríamos era construir em forma de sons e imagens este encontro, entre "eles" e "nós", fazer sentir o estado de suspensão numa terra estrangeira, à espera que venham melhores dias. A descoberta, a pausa, a dúvida, a privação, estar cá e lá ao mesmo tempo». E é isso precisamente que acontece no ecrã. Acompanhamos Serguei e Edvard no espaço que partilham: uma garagem cheia de humidade, com um frigorífico decrépito, roupa estendida e posters com mulheres nuas na parede. Se não vemos quase nada do que se passa fora daquelas quatro paredes, é porque não se passa quase nada fora daquelas quatro paredes. Eles são clandestinos, trabalhadores ilegais, devem por isso esconder-se tanto quanto possível. O único caminho que existe, fora da casa, é o que vai dar ao estaleiro de construção civil ou ao supermercado.
Há mais três compatriotas que partilham a garagem, mas o filme centra-se em Serguei Rodikov, 31 anos, ex-engenheiro numa central telefónica, e no seu primo, Edvard Onichuk, 24 anos, electricista e «disk-jockey» nas horas vagas. Ao fim de uns minutos, não é difícil perceber que são homens com motivações muito diferentes. Serguei trabalha como servente para juntar o dinheiro que lhe permita, lá na aldeia-natal, concluir as obras na sua casa (falta rebocar as paredes e pôr os azulejos). Edvard, pelo seu lado, não tem poupanças em vista e por isso pode render-se aos encantos da sociedade de consumo. Compra uma câmara de vídeo e um telemóvel.
O que vemos neste documentário começa por ser isto: as pequenas alegrias e irritações quotidianas, o jantar feito num tacho velho, a TV ligada, um telefonema rápido para os pais («pergunta como é que está o tempo!»). Mas depois há uma densidade que se instala, uma melancolia que já nos fora sugerida pelas imagens iniciais, esses planos magníficos em que um dos homens deambula frente às montras de Lisboa, enquanto ouvimos uma canção muito triste, sobre uma menina que o amor abandona pela primeira vez. A melancolia regressa com a evocação dos mortos («Quantos ucranianos já morreram em Portugal?», pergunta um dos amigos; mas ninguém sabe responder) e prolonga-se na sequência da passagem de ano, da entrada em 2001, quando a rolha do espumante salta às 22 horas portuguesas, meia-noite americana.
Importa ainda dizer que a câmara, neste filme, nunca é intrusa. É mais um corpo no meio dos corpos que se embebedam e dançam, trôpegos, no vazio. Um corpo tão cúmplice que no fim, quando os homens regressam à pátria, vai atrás deles. E então a estranheza inverte-se. Há agora amigos sorridentes, uma mesa farta e histórias do país onde os homens espetam ferros no lombo dos touros. Há imagens captadas por Edvard: casas, ruas, um homem de mão na anca que agradece os aplausos após a faena. Os familiares espantam-se, de olhos muito abertos. E alguém pergunta: «Lá as temperaturas nunca são negativas, pois não? Como é que eles aguentam?»

(esta crónica foi publicada no DNA de 05/04/03)



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