Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
14.4.03  


A FORMA DAS NUVENS

Ao começar esta crónica, feita de palavras que são como gotas de água em suspensão, imagino o texto a erguer-se nos ares, transformado em nuvem. Em nuvem, sim, coisa difusa e precária, um castelo imaterial – aéreo – levado pelo vento, essa «arquitectura do acaso» de que falava Borges num dos seus últimos poemas. Imagino o texto a fugir pela janela, heróico, mas é claro que nada disso acontece porque estas palavras nunca chegaram a ser gotas de água em suspensão, estas palavras têm raízes, o texto é matéria terrestre e as letras negras agarram-se à página, teimosas, nada querendo saber do mais alto azul.
Espero que os leitores (habituados porventura a encontrar nestas prosas uma certa ordem, uma certa lógica) me perdoem o devaneio nefelibata. Acontece que ainda não recuperei da leitura sôfrega de um voluminho de capa cinzenta, editado pela Assírio & Alvim na mítica colecção Gato Maltês. A obra, que acaba de chegar às livrarias, é «O Jogo das Nuvens» de Johann Wolfgang Goethe (com selecção, tradução e prefácio de João Barrento, o nosso germanista preferido). Mas, perguntarão os leitores, já de pé atrás com tantas delongas, o que há assim de tão espantoso neste livro? Pois bem: a prova de que não estou fora do mundo. A prova de que outros, antes de mim, partilharam o que julgava ser a mais ridícula das obsessões. A prova de que outros, antes de mim, também alimentaram uma atracção visceral pelas tais aéreas «arquitecturas do acaso».
Não sei dizer exactamente quando começou, mas foi na infância. É normal. Toda a gente passa por uma fase em que as tardes de Verão se ampliam até ao infinito e se descobre o prazer de estar deitado na relva, olhando para o céu e vendo nas nuvens as formas mais diversas: animais, muralhas, dragões, caravelas. O tempo encarrega-se de arruinar esse olhar poético sobre as coisas. Deixamos de procurar o vulto negro dos melros por entre os ramos de uma figueira. Deixamos de esconder pequenos tesouros (cromos raros, esferas de vidro) dentro de um lenço enterrado junto ao bosque, por baixo de uma pilha de seixos brancos. E deixamos de olhar para cima, deixamos de entrever nas nuvens uma impossível zoologia ou os abstractos contornos de um rosto que julgámos ter amado.
Hoje já não procuro melros, nem escondo esferas de vidro, nem sei se haverá ainda o bosque (ou mesmo a infância). Mas continuo a observar, quase em segredo, as nuvens. Tiro-lhes fotografias, dedico-lhes o meu espanto, guardo-as na memória. Colecciono-as. Assim de repente, sou capaz de recordar uma série delas, quase sempre cumulo-nimbos majestosos – a pairar sobre a linha do horizonte – ou cirrus avermelhando-se na última luz do crepúsculo. Dêem-me um desconto se acharem que exagero, mas para mim não existem, na natureza, visões mais belas do que estas.
E não apenas na natureza. Também na arte. Gosto muito de «westerns» não só por causa do andar gingão de John Wayne ou das cavalgadas loucas do mestre Ford, mas também por causa da nuvens que pairam sobre o Death Valley, reais ou pintadas no cenário. Ainda recentemente, em Paris, visitei uma exposição de John Constable, o paisagista inglês por antonomásia. Só não morri de tédio, por entre as aguarelas de Hampstead e dezenas de óleos gigantescos, com moinhos de água, carroças e montes de feno, porque havia nuvens perfeitíssimas pairando sobre todas aquelas monótonas paisagens campestres. Ou sobre o mar, na desolada visão da praia de Brighton.
Antes de continuar por aí fora, falando das nuvens com que Turner coroa os seus naufrágios (alguns ainda podem ser vistos na Fundação Gulbenkian, até 18 de Maio), o melhor é regressar a Goethe, mais concretamente ao seu interesse científico pela meteorologia. Um interesse tardio, refira-se, que surge por volta de 1815, muito depois dos estudos feitos, nas últimas décadas do séc. XVIII, sobre óptica, química, mineralogia, botânica, anatomia, etc. Embora já existissem referências aos fenómenos atmosféricos na sua «Viagem a Itália», a fascinação por este assunto só se revelou mais séria depois do Grão-Duque Carlos Augusto lhe ter dado a conhecer, em Ettersberg, o trabalho de Luke Howard – um farmacêutico inglês, meteorologista amador, que sugeriu a primeira classificação das nuvens segundo a sua forma (stratus, cumulus, cirrus e nimbus).
Para Goethe, a natureza não era um sistema fixo ou determinado, mas antes «um organismo em permanente mutação» e por isso inesgotável para quem o «observa», como nota Barrento no prefácio. As nuvens, enquanto matéria instável sujeita ao domínio de Camarupa (a divindade indiana que altera a seu bel-prazer a forma das coisas visíveis), surgem assim como uma oportunidade única de tentar compreender o que é informe e estabelecer uma ordem no que é puramente acidental.
Sublinhe-se que Goethe, embora entusiasmado com a teoria de Howard, não deixou de aplicar esta última ciência – ciência do que se perde e desfaz (da «matéria» em constante metamorfose) – os princípios básicos da sua filosofia e da sua estética, nomeadamente a ideia de um «nobre impulso» para o alto. Na «luta» entre as regiões superiores e inferiores da atmosfera, há um óbvio gradiente de pureza que vai dos baixos «stratus» (influenciados pela terra) aos altos «cirrus» (mais próximos do éter infinito, do céu puro e redentor).
Além de um «Diário das Nuvens», em que Goethe descreve minuciosamente as suas observações durante a viagem para as termas de Karlsbad (entre Abril e Maio de 1820), o livro reúne ainda uma série de textos dispersos e fragmentos, em que as nuvens servem de mote ou ilustração simbólica. Destaco os poemas dedicados a Luke Howard («Já o fiel arauto da nuvem se dissipa,/ Seu fito é o horizonte, mas aqui abdica»), além dos versos escritos para a sua derradeira e fugidia miragem: «Ulrike, então com 17 anos, nuvem diáfana que foge a Goethe, agora com 74, como um cirro-stratus translúcido subindo para as regiões mais altas da atmosfera». Cumpre-se assim a tragédia íntima: o amor, como a natureza, a escapar-lhe das mãos.

(esta crónica foi publicada no DNA de 12/04/2003)


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