Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
20.4.03  


JEREMIAS & OUTRAS LAMENTAÇÕES

1. É uma visão terrível: um homem prostrado, mordendo o pó, chorando inconsolável. O seu nome é Jeremias. Profeta na terra em escombros, figura recortada nesse passado que parece maior (ou mais intenso, ou mais antigo) só porque é bíblico, só porque a sua luz é a luz do Antigo Testamento, só porque a sua dor é a dor do Livro das Lamentações. Com humildade e pavor, temendo sempre a ira divina, Jeremias narra nos seus poemas a destruição de Jerusalém, a agonia da cidade às mãos de Nabucodonosor, o rei estrangeiro que a subjugou em 586 AC. A queda da cidade, o seu estertor, é um castigo de Deus. O pecado tornou-a «vagabunda», diz Jeremias. A punição chega e os inimigos aproveitam-se: caem muralhas, escancaram-se as entradas («omnes portae eius destructae»), morre gente nas praças, incluindo crianças pequenas e bebés em idade de mamar. As lágrimas nada conseguem impedir, os olhos fecham-se dentro das trevas, há apenas uma voz que grita o seu lamento. São palavras de Jeremias perdendo-se no ar: «Como é que uma cidade tão populosa pode estar agora tão vazia e desolada?»; «Tudo o que a filha de Sião tinha de belo foi-lhe retirado. Os seus príncipes são carneiros tresmalhados que fogem, já muito fracos e sem coragem, do inimigo que os persegue»; «O seu povo geme e procura pão»; «Do alto dos céus, o Senhor lançou fogo que me penetrou até aos ossos e me fez cair na mais completa desolação». Jeremias chora diante da ignomínia, da ruína, do opróbrio. «Ó vós que passais no caminho, considerai se há tormento maior do que o meu». Foi há 25 séculos, em Jerusalém. Podia ser hoje, em Bagdad.

2. Há uns anos, numas Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian, assisti a um desses pequenos milagres que nos reconciliam com a vida e com o mundo. Na Igreja do Loreto – salvo erro numa noite de chuva – o contra-tenor Gérard Lesne começou a cantar e de repente houve como que um clarão. Era a voz dele que ardia, nas sombras acústicas daquela bela igreja do Chiado. Uma voz que era fogo e depois cinza e depois fogo outra vez. Uma voz que ardia por dentro de uma música capaz de comover o mais cruel dos esbirros. Eu, muito dado a melancolias e ao carácter introspectivo dos adagios, fiquei de boca aberta, rendido. Naquela noite, ouvira pela primeira vez as «Leçons de Ténèbres» (creio que as «du Mercredy»), escritas há três séculos por François Couperin, a partir do texto latino das «Lamentatio Jeremiae Prophetae». Depois, estes ofícios de «Tenebrae», tocados tradicionalmente de quarta a sexta-feira, na celebração litúrgica da semana santa, passaram a ser uma das minhas obsessões estéticas – equivalente musical das nuvens (de que falei na crónica da semana passada). Aos poucos, fui descobrindo o vasto reportório inspirado pelas lamentações do profeta: de Thomas Tallis a Carlo Gesualdo, passando por Marc-Antoine Charpentier. Mas em nenhum destes compositores a beleza é tão desesperada como em Emilio de’ Cavalieri (1550-1602). As suas «Lamentationes» – única obra sacra que sobreviveu até aos nossos dias – foram ouvidas pela primeira vez em Pisa (1599). Chegaram agora até mim num disco premiadíssimo da editora Alpha, com uma interpretação estratosférica do ensemble Le Poème Harmonique, dirigido por Vincent Dumestre. Ouvi-o no dia em que a estátua de Saddam tombou.

3. Uma horas mais tarde, decidi pegar num livro de capa azul que já levara, há umas semanas, para o monte periclitante da minha mesa de cabeceira. «Lições de Trevas» (Quasi), de Fernando Guimarães, atraiu-me tanto pelo título como pelo que já conhecia do autor (por exemplo «O Anel Débil», na Afrontamento). Mas não farei comentário à obra, até porque o Pedro Mexia, aqui ao lado, se encarrega disso mesmo. Pretendo apenas partilhar com o leitor um poema, um só poema, lido na mesma noite em que escutei a voz trágica de Jeremias, elevando-se das partituras de Cavalieri, e vi as ruas de Bagdad, uma vez derrubada a estátua do ditador, mergulharem no caos e na anarquia: «Estão separadas de tudo as lágrimas. Vê-las-emos/ longe da nossa face, para que finalmente se conservem/ vazias, sem qualquer imagem reflectida. São as flores/ que não têm pétalas. Um leve caule as vem unir/ à terra que fica sob os nossos passos. Conseguimos/ encontrá-las? Sabemos que não são nossas, afastadas/ de qualquer dor, porque nada é capaz de receber/ este silêncio que se transforma na mesma água».

4. As lágrimas são as flores que não têm pétalas. Foi assim para Jeremias. É assim para a directora do Museu Arqueológico do Iraque. Vejo-a na televisão, caminhando pelas salas e confrontando-se com o saque – vitrinas partidas, portas arrombadas e a memória do país (melhor dizendo, a memória da nossa civilização) reduzida a cacos. O desespero é total. Por isso aquela mulher grita, bate com os punhos na cabeça, chora de raiva e lamenta-se amargamente. Em vão. O que não podia ter acontecido, aconteceu.

5. Já aqui escrevi o que pensei desta guerra antes de ela começar. Ao invadir o Iraque sem o aval da ONU e sem um motivo de forla maior (como foi a tragédia humanitária no Kosovo, por exemplo), os EUA e os seus aliados corriam o risco de abrir um precedente gravíssimo. Pois bem, após uma guerra muito rápida (cerca de um mês), esse precedente gravíssimo está de facto aberto, até porque não se verificou a única atenuante possível: isto é, a confirmação da «ameaça global» do Iraque. As célebres armas de destruição maciça não chegaram a aparecer (pelo menos até ao momento em que escrevo este texto) e, mesmo que apareçam, o certo é que não foram usadas.
Que fique bem claro: eu, como qualquer pessoa de bom senso, exultei com a queda de Saddam e do seu regime despótico (embora considere que as comparações com o 25 de Abril, por parte de alguns comentadores portugueses, foram no mínimo infelizes). Mas ninguém deve ter ilusões sobre o que está em causa no pós-guerra. A democracia não nasce por geração espontânea e a estratégia da Administração Bush já começa a apontar para outros países do chamado «eixo do Mal». O que está a acontecer no Afeganistão (um país ainda em ruínas e instável) pode repetir-se no Iraque.
Entretanto, a coberto da desordem que se instalou no país, sucedem-se os crimes mais impensáveis, como o saque do Museu ou o incêndio da Biblioteca Nacional. De um só golpe, o Iraque perdeu a sua identidade. Viu as «provas de que houve um dia, aqui, uma civilização» destruídas, vandalizadas ou roubadas. Viu todos os tesouros bibliográficos (incluindo preciosíssimos documentos históricos) reduzidos a cinzas. E viu os soldados americanos, tão lestos a vencer uma guerra que estava ganha à partida, assistindo a tudo de braços cruzados. Numa qualquer esquina de Bagdad, Jeremias voltou a chorar.

(esta crónica foi publicada no DNA de 19/04/2003)


19:25 14.4.03  


A FORMA DAS NUVENS

Ao começar esta crónica, feita de palavras que são como gotas de água em suspensão, imagino o texto a erguer-se nos ares, transformado em nuvem. Em nuvem, sim, coisa difusa e precária, um castelo imaterial – aéreo – levado pelo vento, essa «arquitectura do acaso» de que falava Borges num dos seus últimos poemas. Imagino o texto a fugir pela janela, heróico, mas é claro que nada disso acontece porque estas palavras nunca chegaram a ser gotas de água em suspensão, estas palavras têm raízes, o texto é matéria terrestre e as letras negras agarram-se à página, teimosas, nada querendo saber do mais alto azul.
Espero que os leitores (habituados porventura a encontrar nestas prosas uma certa ordem, uma certa lógica) me perdoem o devaneio nefelibata. Acontece que ainda não recuperei da leitura sôfrega de um voluminho de capa cinzenta, editado pela Assírio & Alvim na mítica colecção Gato Maltês. A obra, que acaba de chegar às livrarias, é «O Jogo das Nuvens» de Johann Wolfgang Goethe (com selecção, tradução e prefácio de João Barrento, o nosso germanista preferido). Mas, perguntarão os leitores, já de pé atrás com tantas delongas, o que há assim de tão espantoso neste livro? Pois bem: a prova de que não estou fora do mundo. A prova de que outros, antes de mim, partilharam o que julgava ser a mais ridícula das obsessões. A prova de que outros, antes de mim, também alimentaram uma atracção visceral pelas tais aéreas «arquitecturas do acaso».
Não sei dizer exactamente quando começou, mas foi na infância. É normal. Toda a gente passa por uma fase em que as tardes de Verão se ampliam até ao infinito e se descobre o prazer de estar deitado na relva, olhando para o céu e vendo nas nuvens as formas mais diversas: animais, muralhas, dragões, caravelas. O tempo encarrega-se de arruinar esse olhar poético sobre as coisas. Deixamos de procurar o vulto negro dos melros por entre os ramos de uma figueira. Deixamos de esconder pequenos tesouros (cromos raros, esferas de vidro) dentro de um lenço enterrado junto ao bosque, por baixo de uma pilha de seixos brancos. E deixamos de olhar para cima, deixamos de entrever nas nuvens uma impossível zoologia ou os abstractos contornos de um rosto que julgámos ter amado.
Hoje já não procuro melros, nem escondo esferas de vidro, nem sei se haverá ainda o bosque (ou mesmo a infância). Mas continuo a observar, quase em segredo, as nuvens. Tiro-lhes fotografias, dedico-lhes o meu espanto, guardo-as na memória. Colecciono-as. Assim de repente, sou capaz de recordar uma série delas, quase sempre cumulo-nimbos majestosos – a pairar sobre a linha do horizonte – ou cirrus avermelhando-se na última luz do crepúsculo. Dêem-me um desconto se acharem que exagero, mas para mim não existem, na natureza, visões mais belas do que estas.
E não apenas na natureza. Também na arte. Gosto muito de «westerns» não só por causa do andar gingão de John Wayne ou das cavalgadas loucas do mestre Ford, mas também por causa da nuvens que pairam sobre o Death Valley, reais ou pintadas no cenário. Ainda recentemente, em Paris, visitei uma exposição de John Constable, o paisagista inglês por antonomásia. Só não morri de tédio, por entre as aguarelas de Hampstead e dezenas de óleos gigantescos, com moinhos de água, carroças e montes de feno, porque havia nuvens perfeitíssimas pairando sobre todas aquelas monótonas paisagens campestres. Ou sobre o mar, na desolada visão da praia de Brighton.
Antes de continuar por aí fora, falando das nuvens com que Turner coroa os seus naufrágios (alguns ainda podem ser vistos na Fundação Gulbenkian, até 18 de Maio), o melhor é regressar a Goethe, mais concretamente ao seu interesse científico pela meteorologia. Um interesse tardio, refira-se, que surge por volta de 1815, muito depois dos estudos feitos, nas últimas décadas do séc. XVIII, sobre óptica, química, mineralogia, botânica, anatomia, etc. Embora já existissem referências aos fenómenos atmosféricos na sua «Viagem a Itália», a fascinação por este assunto só se revelou mais séria depois do Grão-Duque Carlos Augusto lhe ter dado a conhecer, em Ettersberg, o trabalho de Luke Howard – um farmacêutico inglês, meteorologista amador, que sugeriu a primeira classificação das nuvens segundo a sua forma (stratus, cumulus, cirrus e nimbus).
Para Goethe, a natureza não era um sistema fixo ou determinado, mas antes «um organismo em permanente mutação» e por isso inesgotável para quem o «observa», como nota Barrento no prefácio. As nuvens, enquanto matéria instável sujeita ao domínio de Camarupa (a divindade indiana que altera a seu bel-prazer a forma das coisas visíveis), surgem assim como uma oportunidade única de tentar compreender o que é informe e estabelecer uma ordem no que é puramente acidental.
Sublinhe-se que Goethe, embora entusiasmado com a teoria de Howard, não deixou de aplicar esta última ciência – ciência do que se perde e desfaz (da «matéria» em constante metamorfose) – os princípios básicos da sua filosofia e da sua estética, nomeadamente a ideia de um «nobre impulso» para o alto. Na «luta» entre as regiões superiores e inferiores da atmosfera, há um óbvio gradiente de pureza que vai dos baixos «stratus» (influenciados pela terra) aos altos «cirrus» (mais próximos do éter infinito, do céu puro e redentor).
Além de um «Diário das Nuvens», em que Goethe descreve minuciosamente as suas observações durante a viagem para as termas de Karlsbad (entre Abril e Maio de 1820), o livro reúne ainda uma série de textos dispersos e fragmentos, em que as nuvens servem de mote ou ilustração simbólica. Destaco os poemas dedicados a Luke Howard («Já o fiel arauto da nuvem se dissipa,/ Seu fito é o horizonte, mas aqui abdica»), além dos versos escritos para a sua derradeira e fugidia miragem: «Ulrike, então com 17 anos, nuvem diáfana que foge a Goethe, agora com 74, como um cirro-stratus translúcido subindo para as regiões mais altas da atmosfera». Cumpre-se assim a tragédia íntima: o amor, como a natureza, a escapar-lhe das mãos.

(esta crónica foi publicada no DNA de 12/04/2003)


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