Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
Archives
<< current













 
This is where you stick random tidbits of information about yourself.



























ESCRITA AUTOMÁTICA
 
28.4.03  


HISTÓRIAS DA MAFIA PÓS-MODERNA

Comecemos por uma evidência: «Os Sopranos» é o melhor programa que se pode ver, actualmente, na televisão portuguesa (segundas-feiras, às 23 horas, na RTP2). Dito por mim, que passo cada vez menos tempo em frente do pequeno ecrã da TV e cada vez mais horas diante do computador (fazendo da internet a minha segunda casa), o juízo vale o que vale. Mas pelo que oiço nos cafés e nas conversas de amigos, não devo andar muito longe da verdade. Cinco minutos de zapping chegam para perceber que a TV dos nossos dias é composta por 95% de lixo, 4% de programas razoáveis e umas quantas pérolas tresmalhadas (como o documentário sobre Francis Bacon exibido pelo «Artes e Letras» há duas semanas, algumas séries humorísticas da BBC – sobretudo «The Office» – ou o brilhante «Daily Show», com Jon Stewart, na SIC Radical). No entanto, capaz de me fazer ficar em casa, de propósito, à hora marcada – como em tempos a «Balada de Hill Street», o «Cosmos» de Carl Sagan ou a melhor sitcom de sempre («Seinfeld», claro) – só mesmo «Os Sopranos».
Para ser sincero, devo dizer que quando ouvi falar deles pela primeira vez, a propósito de uns Emmys ganhos na categoria de melhor série dramática, fiquei de pé atrás. «Os Sopranos»? Imaginei logo senhoras gordas que cantam notas sobreagudas e morrem, tragicamente, no fim das óperas de Puccini. Quando percebi que a intriga não se passa nos bastidores do Met, antes nos arrabaldes de New Jersey, entre famílias da mafia, foi pior ainda. A mafia, outra vez? Será que ainda é possível ficcionar a mafia, dissecar a mafia, descodificar a mafia, depois de tudo o que Coppola fez com «O Padrinho» (esse arquétipo mil vezes imitado)?
A resposta, recebi-a com o primeiro episódio. Sim, é possível. Mais ainda: é possível não só reiventar a forma como vemos a mafia, mas humanizá-la. Nesse fabuloso primeiro episódio, Tony Soprano (James Gandolfini), o pater familias, homem duro e capaz de assassinar um adversário (ou um traidor) à queima-roupa, sem a mínima hesitação, revela desde logo uma natureza surpreendentemente frágil. Perturbado com uma ocorrência menor da vida quotidiana (a súbita partida dos patos que tinham «invadido» a sua piscina), Tony cai num estado de profunda melancolia, pontuada por ataques de ansiedade. Não há segundas leituras possíveis: o que nos espera, ficamos a saber desde o princípio, é a história de uma família mafiosa liderada por um homem depressivo. Um homem atormentado pela mãe e pela mulher, que toma Prozac e visita a psiquiatra todas as semanas.
Como espectador, rendi-me (sem oferecer resistência) à subtil rede narrativa de David Chase, o criador da série. E tive logo a sensação, confirmada em quase todos os episódios subsequentes, de que a estrutura dramática, os movimentos de câmara, a fotografia e os diálogos – os espantosos diálogos – estão ao nível do que de melhor se faz, hoje em dia, no cinema americano. Aliás, a forma como a violência emerge, entre uma rodada de whisky no Bada Bing! e um jantar de negócios no restaurante Vesuvio, com piadas pelo meio e um jeitinho dado ao nó da gravata de seda italiana, faz por vezes lembrar os assassinos de Quentin Tarantino, capazes de discutir a diferença entre os hambúrgueres americanos e europeus, antes de mais um «serviço». E se na argúcia dos guiões, bem como no profissionalismo algo trapalhão dos «killers», há qualquer coisa de tarantinesco, o resto, salvaguardadas as devidas distâncias, é mais Scorsese.
Porque esse resto – feito de pequenos detalhes, frases soltas, atmosferas, indícios – é de certa forma um espelho da comunidade italo-americana. Melhor dizendo, da América tout court. O que torna «Os Sopranos» uma série única é essa capacidade de circunscrever um universo muito concreto e quase claustrofóbico, não deixando de mostrar como ele vai sendo contaminado pelo aparentemente longínquo mundo «normal». Veja-se, por exemplo, como na quarta temporada (a que está em curso) surgem marcas subtis do 11 de Setembro e das suas consequências, nomeadamente quando Tony percebe que pode investir, com a ajuda de um vereador corrupto, nos novos projectos imobiliários previstos para Manhattan.
Tony Soprano não é apenas o líder da famiglia, é também o chefe do clã, o eixo em torno do qual se definem complexas hierarquias e jogos de poder. Para analisar com o mínimo de rigor a galáxia de extraordinárias personagens que gravitam em torno do «boss», precisaria do espaço de que não disponho nesta crónica. Mas sempre posso dizer que o Tio Junior (Dominic Chianese), os «braços direitos» Silvio (Steve van Zandt) e Paulie (Tony Sirico), o sobrinho Christopher Moltisanti (Michael Imperioli) ou o ingénuo Bobby “Bacala” (Steven R. Schirripa) formam a mais notável galeria de figuras secundárias que me lembro de ver numa saga mafiosa.
Do lado oposto, na vida deste Al Capone dos subúrbios, estão as mulheres. E que mulheres. Livia (Nancy Marchand), a mãe terrivelmente dominadora. A quase etérea Dra. Melfi (Lorraine Bracco), que cria no seu gabinete uma espécie de ilha, onde vai crescendo um fascínio mútuo e uma tensão sexual fortíssima. E Carmela (Edie Falco), a esposa fiel mas exigente, personagem que vai ganhando, com o tempo, uma espessura que não se lhe adivinhava no início.
Mas além deste labirinto psicológico e moral, só por si merecedor de todos os encómios, há um aspecto n’«Os Sopranos» que me atrai particularmente: é a forma como estes novos mafiosos lidam com as imagens e estereótipos associados à Cosa Nostra. Isto é, riem-se deles, integrando-os na sua linguagem, numa espécie de distanciamento pós-moderno que abre infinitas possibilidades irónicas. Estes são, talvez, os primeiros mafiosos que sabem que são mafiosos e não se importam. Continuam a manter as aparências mas, lá no fundo, até se orgulham do que fazem à margem da lei. E agora que o FBI lhes montou o cerco, eu, correndo o risco de ser politicamente incorrecto, só desejo que eles, os peculiares elementos da família Soprano, nunca sejam apanhados.

(esta crónica foi publicada no DNA de 26/04/2003)


00:05

 
This page is powered by Blogger.
Site Meter