Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
17.5.03  


SEXO NA CIDADE (DE PROVÍNCIA)

Há umas semanas, ao rever na SIC Mulher um dos episódios de «Sex in the City» – uma série sobre quatro sofisticadas nova-iorquinas que procuram, na grande cidade, todo o tipo de aventuras sexuais – pus-me a imaginar como seria uma eventual adaptação portuguesa deste «conceito», inventado pela romancista Candice Bushnell. Quem seriam as actrizes? Haveria também um Mr. Big (ou melhor, um Sr. Grande)? Por onde andariam elas à procura do homem perfeito, entendido como um sinónimo de amante belo, atlético, carinhoso e rico (sobretudo rico)?
Imaginei cenas nas Docas, no Lux, nos restaurantes do Parque das Nações, nas lojas mais caras da Avenida da Liberdade e em dois bares da moda. Lisboa não é Manhattan, mas sempre se arranja qualquer coisinha. Já o elenco, necessariamente heterogéneo, levantava mais dificuldades. E daí... Que tal juntar Alexandra Lencastre, Margarida Marinho, Fernanda Serrano e a «não-alinhada» Rita Blanco? Se calhar até funcionava, nunca se sabe. Depois era só encomendar um argumento às Produções Fictícias e o resultado até podia tornar-se melhor do que a versão original – useira e vezeira num registo de humor muito americano e «trendy»; ou seja, pouco acessível a quem não tenha o privilégio de viver no Upper East Side.
Andava eu nestas congeminações um pouco frívolas, admito, quando a realidade portuguesa me caiu em cima, pronta a destruir de um só golpe tão irreais extravagâncias. Qual Docas, qual Expo, qual Alexandra Lencastre. A versão nacional do «Sexo na Cidade» não fica em Lisboa. Fica em Trás-os-Montes. E se também tem quatro protagonistas, o certo é que estas não usam rimel, não bebem Chianti e nunca sequer sonharam em usar lingerie Victoria’s Secret. Refiro-me, como é óbvio, às celebérrimas «Mães de Bragança», o grande fenómeno mediático dos últimos tempos, juntamente com a fuga de Fátima Felgueiras. Não por acaso, duas histórias ideais para colmatar, neste período de pós-guerra, a súbita baixa nos níveis da adrenalina noticiosa.
Tudo começou, se bem se recordam, com um abaixo-assinado/manifesto contra uma «onda de loucura» que se teria abatido sobre a pacata cidade transmontana, desviando os homens bragantinos dos seus lares, directamente para os braços de pérfidas prostitutas brasileiras. Segundo as quatro corajosas signatárias do documento, as raparigas de sotaque doce teriam recorrido a todo o tipo de macumbas (com pétalas de rosa, raízes de amor-perfeito, etc) para enfeitiçar os legítimos maridos. Ou, como resumiu uma das despeitadas, para lhes darem «a volta à cabeça». Solução para o problema? As bravas «Mães» nem hesitam: alguém tem que fazer alguma coisa por elas, vítimas não só de uma humilhação amorosa e sexual, mas também de outros danos irreversíveis: as poupanças que voaram, os esposos que lhes batem e «partem tudo», as famílias desfeitas. Alguém – Estado, polícia, Governo Civil – tem que repor a ordem. E, já agora, os bons costumes. Com muito menos, convenhamos, haveria quem fizesse uma telenovela de 200 episódios.
Mas se não tivemos (ainda) direito à telenovela pura e dura, a verdade é que a «informação espectáculo» revelou-se um bom sucedâneo, com o seu despudorado empolamento das notícias e a atracção incontrolável por cenas de faca e alguidar. Previsivelmente, em Bragança ergueu-se de novo o circo mediático, com dezenas de jornalistas à caça do melhor «soundbyte» ou da história mais bizarra – tudo complementado pela presença em estúdio de um investigador das Ciências Sociais, capaz de explicar, em três minutos, antes do próximo directo, as razões profundas desta «ruptura sociológica».
No meu modesto ponto de vista, o busílis da questão está na forma como se encara a sexualidade (e, já agora, as relações de poder dentro do casal). Como referiu Eduardo Prado Coelho, é sintomático que o movimento se auto-denomine «Mães de Bragança» e não «Esposas de Bragança». Ao colocarem-se no papel de mães, elas não estão apenas a negar (ou a reprimir) o seu desejo erótico. Estão a colocar-se moralmente acima das suas rivais. Elas são mães (também dos maridos?), as outras apenas mulheres. E elas são puras enquanto as outras são putas.
O mais extraordinário, porém, é que os maridos, indecisos entre os dois pólos antagónicos, nem precisam de se redimir. Eles nunca têm culpa. As «Mães» perdoam-lhes os desvarios – porque «um homem não é de ferro» – e preferem ignorar o óbvio: são os seus homens que procuram aquelas mulheres, não o contrário. Por que é que isto acontece? Não sei. Mas a persistência deste tipo de valores machistas, alimentados pelas próprias mulheres que os sofrem na pele, é no mínimo preocupante.
Além disso, as «Mães» de Bragança tendem a escamotear as suas responsabilidades no desastre. Sejamos lúcidos: se os homens fogem, em busca do «mimo» e dos «carinhos» das brasileiras, é porque certamente isso lhes faltou lá em casa. Muita gente insinua que as bragantinas ficaram para trás porque não se cuidam, porque se deixam engordar e não sabem seduzir. Talvez. Para mim, a culpa é antes da televisão. Elas obrigaram os maridos a ver, durante anos a fio, as telenovelas da Globo, não foi? Então não se queixem. Tenho a certeza que foi em frente da TV que eles começaram a fantasiar com as «garotas»...
Depois de todo o alarido, o que subsiste é um problema económico. Com as rusgas policiais e a atenção da imprensa, algumas prostitutas retiraram-se da actividade ou reduziram-na. Por arrasto, foi afectado o comércio, sobretudo o das floristas, cabeleireiras e taxistas. Há menos dinheiro a circular, menos negócio. As pessoas estão descontentes. Quando as «Mães» exigem o regresso à pátria das brasileiras, há mesmo quem sugira que se podiam juntar, umas e outras, no mesmo avião. Era da maneira que deixavam Bragança finalmente em paz. E sempre faziam companhia à desterrada Fátima Felgueiras.

(esta crónica foi publicada no DNA de 17/05/2003)


19:12 16.5.03  


SUPERMERCADO

1. Na secção de frutas, duas mulheres. Uma mais velha, outra mais nova, a mesma curva do queixo, os mesmos olhos. Vê-se logo que são mãe e filha, às compras num fim de tarde lisboeta, antes do regresso a casa. O «generation gap» é isto: saia casaco e pulseira de ouro versus jeans de marca e relógio Swatch. Agora andam as duas com sacos de plástico transparente, de um lado para o outro, a escolher as melhores peças. Arrumadas as laranjas espanholas no carrinho, a mãe insiste em levar papaias. «Olha que se faz bem ao Papa, a nós não nos há-de fazer mal». A filha encolhe os ombros, «está bem, OK, tu é que sabes», e nesse preciso instante tocam, quase em uníssono, os dois telemóveis. Seguem-se conversas paralelas: de um lado, tapetes de Arraiolos e begónias («São lindas, Carmen, são lindas»); do outro, a frequência de quinta-feira e o amuo do namorado («Não sei o que é que ele tem, Patrícia, anda esquisito»). Cinco minutos mais tarde, com os telemóveis de regresso às malinhas minúsculas, enchem-se de novo sacos de plástico transparente, agora com pêras vermelhas e bananas. A mulher mais nova murmura qualquer coisa à mais velha. Riem muito, as duas. De onde me encontro, não dá para perceber se estão a rir de uma das amigas que ligou há pouco, se das notícias sobre as «mães de Bragança» – essas vítimas do alvoroço que as prostitutas brasileiras provocaram nos homens transmontanos. É então que a filha pára, indecisa: kiwi ou abacate? (O dilema repetir-se-á, diante dos iogurtes magros: frutos do bosque ou müesli?) «Leva antes umas uvinhas», diz-lhe a mãe.

2. No balcão das carnes, as embalagens parecem todas iguais. Um rectângulo de esferovite, um bife avermelhado e uma película plástica com o autocolante que informa sobre o peso e o preço. Estão ali ao monte, às carradas, à espera de alguém que as apanhe e as coloque no carrinho, e depois em sacos com o logótipo do supermercado, e depois no porta-bagagens de um automóvel utilitário pago em 36 prestações, e depois no elevador do prédio sem jardim à porta, num subúrbio feito de betão, e finalmente numa frigideira já muito usada, com margarina, dois alhos e uma pitada de sal. Este percurso pode ser iniciado por aquela mulher que se aproxima dos expositores, como uma criança de cinco ou seis anos pela mão. Pega num naco de vitela, olha-a de vários ângulos, volta a pousar. Aproxima-se dos frangos e vira a cara. Espreita as costoletas de porco e hesita. Não é difícil imaginar as palavras que a assustam: vacas loucas, nitrofuranos, hormonas. Olha para a cabeça e abana a cabeça. A banca do peixe é já ali: robalos, linguados, raia, pargo. Mas depois aproxima-se, vê bem os preços, confirma com a empregada, abana de novo a cabeça e volta para trás.

3. O meu carrinho guina para a direita. Eu bem tento manter uma rota, tirar azimutes, seguir um rumo certo. Mas o carrinho tem vontade própria, atira-se contra as embalagens de massa italiana, contra os pacotes de detergente, contra os garrafões de água mineral e contra as pernas das outras pessoas. Pessoas que também têm, desconfio, carrinhos que guinam sempre para a direita. E se fossem só os carrinhos...

4. Há uns tempos, ouvi dizer que a secção dos congelados é um excelente local de engate. A lógica do raciocínio parece-me cristalina: 1) quem vive sozinho não tem paciência para cozinhar; 2) quem não tem paciência para cozinhar procura refeições rápidas (tipo lasanha em cinco minutos; bacalhau à Brás em sete); e 3) quem procura refeições rápidas deambula frequentemente junto às arcas frigoríficas – na mira talvez de uns douradinhos, de uns rissóis prontos a fritar ou mesmo de uma pizza esbranquiçada que fará «plop» no microondas. Corolário: é muito mais provável um solitário chocar com uma solitária, ou vice-versa, naquela zona do supermercado do que, por exemplo, na área em que se vendem hortaliças e coentros frescos. A teoria, porém, não parece aplicar-se ao dia de hoje, em que junto às arcas só vejo casais (será que os solitários saem mais tarde?), casais novos, todos ostensivamente sub-30. Um deles, então, parece saído de uma revista. Muito estilo, bronze impecável (das férias na montanha ou do solário), óculos escuros. Enchem o carrinho de couves de Bruxelas e macedónia, avançam para os gelados mais caros, escolhem filetes de maruca sem olhar ao preço. De longe, apercebo-me de um pormenor sintomático: os dois são com certeza recém-licenciados, provavelmente bem pagos (ele pode ser corretor da bolsa; ela, médica), não parecem ter angústias com a taxa de crédito à habitação nem com o pagamento mensal dos cartões, mas já não falam um com o outro. Coisa trágica, esta. Ser sexagenário com vinte e poucos anos.

5. «Então, sempre vais a Sevilha?» Quem pergunta é um homem de barriga proeminente, cabelo todo branco (o que lhe sobra), bigode à Nietsche e cachucho na mão sapuda. O amigo, apenas um pouco mais alto e sem bigode, abana a cabeça afirmativamente. «Podia lá perder uma coisa destas». Estão os dois na secção das bebidas alcoólicas, departamento dos whiskys velhos. Falam do FCP, do José Mourinho e das maravilhas que o Deco faz com uma bola de futebol. «O homem é um artista», diz o pseudo-Nietsche, com o tom de quem trata por tu as bancadas das Antas. Eu estou de passagem e finjo procurar uma garrafa de vinho moscatel, a uns dez metros de distância. Os dois amigos falam mais baixo. – Então quer dizer que ficou tudo resolvido? – Tudinho. – E o homem é mesmo de confiança? – Já te disse que a coisa está encaminhada, não temos que nos preocupar. – ’Tá bem, mas... aquilo fica mesmo para nós, não fica? – Fica, fica, garanto-te. – Então ’tá bem. Trata do cheque que eu trato do whisky. – Assim mesmo é que é falar. De pomadas percebes tu... – Pois é. E olha lá, damos o quê, afinal? Uma garrada de 12 anos? Ou de 15?

6. O meu avô materno costumava dizer que a melhor forma de conhecer um país, uma região ou uma cidade, era visitar um mercado. Na forma como se dispõem os alimentos, na frescura dos legumes, na limpeza do recinto, na cortesia ou nos maus modos dos vendedores (e dos clientes) estariam todos os indícios de como funciona uma sociedade. As suas virtudes mas também os seus defeitos. E por isso ele gostava de sair, manhã cedo, para ler um país, uma região ou uma cidade no torvelinho confuso de uma praça atravessada pelos gritos das peixeiras. Hoje, existem centros comerciais e grandes hipermercados, lugares que ele não viu e não imaginou sequer. Na fila para a caixa registadora, atrás da mãe e da filha, novamente ao telemóvel («querido, levamos uvas para o jantar»), voltei a lembrar-me do meu avô. Talvez porque continua, no fundo, a ter razão.

(esta crónica foi publicada no DNA de 10/05/2003)


22:55 12.5.03  

CONCERTO PARA TOSSE E ORQUESTRA

No passado fim-de-semana, os melómanos portugueses puderam tirar a barriga de misérias. Durante três dias, nas muitas salas do Centro Cultural de Belém, houve autênticas maratonas musicais, integradas nessa celebração cultural mais ou menos caótica, mas sempre exaltante, que é a Festa da Música. À falta do divino dom da ubiquidade, era ver as pessoas a correrem de um lado para o outro, da sala Tintoretto para a sala Caravaggio e da sala Caravaggio para a sala Tiziano, tentando encaixar numa agenda apertadíssima o máximo de concertos. Quatro por dia foi a minha dose, quase no limite do cansaço, mas acredito que outros espectadores, habituados aos grandes festivais de ópera (Bayreuth e Salzburg), tenham ido ainda mais longe, até porque o programa – com obras de compositores italianos do período que vai «de Monteverdi a Vivaldi», interpretados por músicos excepcionais (como o conjunto La Venexiana, os Tallis Scholars ou o contra-tenor espanhol Carlos Mena) – era tão bom que seria um crime desperdiçá-lo.
Pela minha parte, lá fui correndo entre as salas com nomes de pintores, atrás das melodias de Corelli ou dos cromatismos de Gesualdo. Ao longo dos 12 espectáculos, houve de tudo: interpretações sublimes e outras que nem por isso; momentos de êxtase e períodos de tédio. Constante mesmo, só a tosse. Sim, essa mesmo, a famosa «tosse dos concertos» – a mais persistente e universal das pragas culturais da humanidade.
Como diria um amigo meu, «é matemático». Assim que os músicos entram na sala e abrem as partituras, começa o cof, cof, cof. A tosse espalha-se pela plateia, numa bizarra polifonia de sons guturais, acalma depois um pouco com a subida do maestro ao palanque, mas logo retoma o seu trabalho de sapa e começa a sabotar, aqui e ali, os alicerces da peça musical que é suposto ouvir em silêncio. Claro que o silêncio absoluto não passa de uma abstracção, mas a tosse – esse pérfido animal colectivo – encarregar-se-ia de o destruir, caso por milagre ele um dia acontecesse. Basta ver a sorte normalmente reservada a esse momento mágico de suspensão que é um pianissimo. O maestro põe um dedo à frente da boca, a orquestra abranda, os arcos dos violinos mal tocam nas cordas, os dedos do pianista acariciam as teclas como se fossem flocos de neve, há um quase silêncio, um sussurro, um murmúrio e então... então lá no fundo da sala alguém pigarreia como se tivesse os brônquios em fogo, o som cavernoso sobrevoa as cabeças e assassina a sangue-frio, sem contemplações, aquele tão delicado prodígio, conseguido ao fim de infinitas horas de ensaio.
Para arruinar um andamento, uma sinfonia, às vezes todo um recital, não é preciso mais do que um primeiro ataque incontrolado. Porque uma das características da «tosse de concerto» é o seu efeito multiplicador. Se começa nas primeiras filas, rapidamente alastra pelas outras todas, como um incêndio. E não há quem a controle. Nos casos mais graves, chega mesmo a provocar a saída intempestiva dos músicos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o maestro Kurt Masur, quando dirigia há uns tempos a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque. Ou com o pianista Andras Schiff. Ao ser interrompido durante a interpretação da última sonata de Schubert (a D. 960), levantou-se calmamente e disse, em inglês, ao espectador ruidoso: «Se quiser, fazemos agora um intervalo para tossir (“coughing break”, trocadilho com “coffee break”), esteja à vontade». O homem em causa corou e saiu da sala envergonhadíssimo, enquanto Schiff voltou a sentar-se ao piano, terminando o concerto de forma triunfal.
A questão que se põe, a quem como eu nunca tosse, é esta: por que é que isto acontece? Haverá alguma explicação física, química, biológica? Será da alcatifa, do pó, de alguma bactéria que se desenvolve no veludo das cadeiras? Ou então dos próprios instrumentos, dos sons que emitem, das ondas sonoras capazes de irritar – vá-se lá saber porquê – a mucosa do sistema respiratório? Na internet, ao investigar o assunto, o máximo que encontrei foi uma elaboradíssima teoria estatística que desembocava, acreditem, no «processo homogéneo de Poisson». Não me peçam para explicar os detalhes, por favor, mas a conclusão era clara. Numa assistência de 200 pessoas, a probabilidade de que todas elas consigam manter o silêncio durante pelo menos cinco minutos é muito baixa: 0,00022. Ou seja, há uma certeza quase absoluta (99%) de que durante aquele período de cinco minutos alguém vai tossir, nem que seja uma vez.
Quer isto dizer que a tosse é uma fatalidade, contra a qual não podemos lutar? Não. Aliás, acho que há causas muito concretas que explicam o fenómeno e que podem dar-nos pistas para redução deste problema. Uma dessas causas tem a ver com o estaturo social dos concertos de música erudita. Preocupadas com o que os outros pensam e com as regras de etiqueta (não bater palmas entre os andamentos é uma delas), algumas pessoas ficam tensas, o que facilita o aparecimento da tosse nervosa. Pior ainda, o receio de tossir cria ansiedade e a ansiedade provoca a tosse que justamente se pretendia evitar. Além disso, quanto mais elitista for o meio ambiente, pior. A tosse do Scala de Milão é mais cavernosa que a do S. Carlos, a do S. Carlos é mais profunda que a da Gulbenkian, a da Gulbenkian mais cerrada que a do CCB.
A principal causa, porém, é mesmo a falta de atenção. Uma parte considerável dos espectadores nem sequer gosta daquela música – escuta Beethoven por delicadeza ou por obrigação, mas está a pensar na lista do supermercado ou no jogo do Benfica. Outra parte gosta da música mas cansa-se, distrai-se, perde o fio à meada. E tosse. Tosse porque se aborrece. A verdade, nua e crua, é esta: há uma correlação entre o grau de interesse numa dada obra e o volume de tosse que provoca. É só fazer a experiência. Depois da mozartiana «Eine Kleine Nachtmusik», ofereça-se ao público uma obra de Stockhausen. Aposto em como vai parecer que surgiu na plateia, durante a audição da segunda peça, um surto de pneumonia atípica.
A conclusão é óbvia: quem está concentrado, só tosse se estiver mesmo doente. Alguma vez viram um músico tossir em palco? Eu não.

(esta crónica foi publicada no DNA de 03/05/2003)


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