Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
25.5.03  
OS LIVROS À SOLTA

Em frente ao edifício da Escola Superior de Educação, em Benfica, estão umas trinta pessoas, todas com livros na mão e uma espécie de alegria contagiante. É sábado à tarde, o sol deixou-se de meias tintas e o céu muito azul dá pela primeira vez sentido, este ano, à palavra primavera. Ficar debaixo de um tecto, com um dia assim, seria criminoso, por isso o grupo escolhe uma sombra, estende mantas na relva e pousa os muitos livros trazidos de casa no centro de um círculo. Pessoas e livros. Pessoas que gostam de livros. Conversas sobre o que se leu e também sobre o que não se leu mas vai ser lido, mais tarde ou mais cedo. São assim os encontros dos membros do BookCrossing, realizados mensalmente em Lisboa e em todas as cidades portuguesas (Porto, Coimbra e Braga, por exemplo) onde já existem núcleos de entusiastas desta espécie de «corrente de leitura».
Para quem nunca tenha ouvido a palavra inglesa, ou desconheça o seu significado, talvez seja melhor explicar de que falamos quando falamos de BookCrossing. A história começa em Abril de 2001, quando o informático americano Ron Hornbaker consegue, em 28 dias, programar um novo site, construído em torno de uma ideia ambiciosa: «fazer do mundo inteiro uma biblioteca». E como é que isso se consegue? Simples: incentivando as pessoas a cederem «ao mundo» alguns dos seus livros, em vez de os guardarem durante anos a fio, intocados, na ordem geométrica (ou caótica) das prateleiras. Qualquer pessoa que deseje passar a outrém um livro já lido, inscreve-se no site, regista o exemplar com um número e «liberta-o» – uma bela expressão – onde muito bem entender: ao acaso (no café, num banco de autocarro, junto a um monumento) ou em locais previamente combinados, onde os leitores que procuram aquela obra em concreto sabem que a vão encontrar. O benemérito pode depois seguir o percurso do livro libertado e saber o que dele acharam os seus sucessivos e provisórios donos, porque os comentários escritos no site são enviados, por e-mail, ao «libertador». Como é óbvio, ao acompanhar o que se passa no site e no seu virtualmente infinito sistema de partilha, quem dá livros também aprende onde e como receber outros, que depois de lidos serão novamente libertados, numa espécie de trânsito babélico que tem começo mas pode não ter fim.
Neste momento, no mundo todo, existem mais de 355 mil obras inscritas e o número de membros do site não pára de aumentar. Em Portugal, a comunidade de BookCrossing nasceu em Julho de 2002, mas o crescimento exponencial só se deu após a publicação de diversos artigos sobre o tema em alguns órgãos de Comunicação Social. Se no fim de Janeiro de 2003 existiam 100 membros, em Março eram 500 e neste momento ultrapassou-se já a barreira do milhar. Além do efeito habitual do «boca a orelha», algumas pessoas aderem porque tiveram a sorte de descobrir um livro aparentemente abandonado, mas com um autocolante lá dentro (onde consta o tal número de registo e o endereço do site). Depois, uma vez compreendida a lógica deste autêntico ovo de Colombo bibliófilo, o difícil é pensar noutras coisas. Mais do que um divertimento ou uma boa acção, o BookCrossing pode rapidamente transformar-se num vício.
É o que me diz uma das participantes no encontro solarengo de Benfica, enquanto examina os livros que as outras pessoas trouxeram para esta sessão de troca directa. «O problema é parar. Eu, por exemplo, hoje não vou levar nada. Não posso. Estou de "dieta" até dar conta dos livros todos que tenho numa pilha, ainda por ler, no meu quarto». Se a maior parte destas pessoas já tinha bons hábitos de leitura, agora admitem que lêem ainda mais, até porque existe uma pressão inconsciente no sentido de «libertar» os livros o mais depressa possível, para que possam ser lidos por outras pessoas que estão, algures, à espera.
De início, havia no projecto BookCrossing uma atracção pela ideia de acaso. Era suposto largar os livros aleatoriamente, muitas vezes em locais inesperados, para que fossem descobertos, também aleatoriamente, pelo tipo de pessoas que nunca entra numa livraria. Mas a margem de risco era considerável: quem apanha o livro pode arrancar-lhe a etiqueta e juntá-lo à sua coleccção, como pode deitá-lo para o lixo ou mesmo entregá-lo nos Perdidos e Achados (já aconteceu). Além disso, os livros que saão deixados na rua, expostos aos elementos, nem sempre sobrevivem a uma noite de vendaval ou a uma bátega. E é por isso que a percentagem de livros efectivamente recolhidos ainda não ultrapassou, até agora, os 25%. Para aumentar a probabilidade de sucesso, surgiram entretanto as chamadas Crossing Zones, ou seja, locais seguros onde os cúmplices deste movimento sabem que podem deixar e levantar livros. Em Lisboa, há pelo menos duas Crossing Zones: o restaurante/bar Agito (no Bairro Alto) e a livraria Clepsidra (junto às Picoas).
Como seria de esperar, houve muita gente que não gostou do carácter comunitário do BookCrossing e menos ainda da sua estratégia de partilha, claramente nos antípodas do consumismo desenfreado que marca o nosso tempo. Em vez de um sistema assente na compra e na posse dos objectos (tantas vezes sem usufruto), propõe-se uma rede imensa de livros gratuitos, que andam por todo o lado e não pertencem a ninguém. Quer isto dizer que o negócio dos escritores e das editoras fica ameaçado, como garantem as cassandras do costume? Nem por sombras. A prática demonstra que as pessoas que aderem ao BookkCrossing tendem a adquirir mais livros do que adquiriam antes. E há mesmo quem compre em duplicado, para guardar um dos exemplares, «libertando» o outro.
É o caso da leitora compulsiva que está sentada ao meu lado e que já se candidatou, com os olhos, à volumosa e cobiçadíssima autobiografia de Gabriel García Márquez. O economista que trouxe «Viver para Contá-la», desde Setúbal, vai agora explicando a estrutura narrativa das outras duas magníficas obras que decidiu oferecer: «Desgraça», de J. M. Coetzee, e «Expiação», de Ian McEwan. E na outra ponta da roda que fizemos, sentados na relva, Luís Filipe Silva aprova a escolha daquele que é conhecido na Net pelo seu «nickname»: Prytzkov.
O Luís, além de ser um dos melhores autores portugueses de Ficção Científica, é considerado o primeiro «bookcrossista» nacional. Diz-me: «O que me atrai nisto, Zé Mário, é o sonho de uma biblioteca global, parecida com a do Borges». Eu percebo o que ele quer dizer. E concordo. No último sábado, dia de sol e cumplicidades, o BookCrossing ganhou um novo membro.

(esta crónica foi publicada no DNA de 24/05/2003)


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