Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
28.6.03  
NOTÍCIAS DA BLOGOSFERA

Há cerca de seis meses, precisamente no primeiro dia do ano, eu criei um blogue com o meu irmão. Na altura, contavam-se pelos dedos as pessoas que sabiam o que isso era. Um blogue. Hoje, provavelmente, contam-se pelos dedos as pessoas que não sabem. Em pouco tempo, a blogosfera (como é comum chamar-se ao universo dos blogues) passou de uma espécie de clandestinidade obscura para a mais iluminada das ribaltas, sem meio termo, à semelhança de tantas outras coisas em Portugal. Se de início houve uma desconfiança porventura excessiva dos media tradicionais em relação ao fenómeno, agora acontece precisamente o contrário. Estamos em plena blogomania: os jornais de referência citam os blogues e dedicam-lhes editoriais; há destaques, reportagens e perfis de «bloggers» a aparecer por todo o lado; entrevistas em programas de rádio; o diabo a sete. De repente, ter um blogue ficou «in», é giro, é moderno, confere estatuto, «está a dar». Toda a gente opina sobre a questão, mesmo quem visivelmente desconhece os meandros da blogosfera. E as polémicas sucedem-se, dos blogues contra os jornais e também, desde a semana passada, dos jornais contra os blogues (veja-se a última crónica de Pedro Rolo Duarte neste suplemento).
O clima, convenhamos, é de alguma efervescência, para não dizer histeria. E talvez seja altura de fazer um primeiro balanço, começando por constatar que o número de blogues portugueses continua a crescer de forma quase exponencial. Se no princípio do ano, quando escrevi nesta mesma página uma crónica didáctica sobre o assunto, existiam pouco mais de 100, agora já ultrapassam os 700 (conferir em http://blogsempt.blogspot.com/ e http://blogo.no.sapo.pt/), havendo quem preveja para as próximas semanas a entrada na casa dos milhares. A esta explosão quantitativa correspondeu também, como seria de esperar, uma especialização qualitativa. Se de início predominavam os blogues pessoais (diários íntimos), seguiu-se uma vaga de blogues de reflexão essencialmente política e cultural, para desembocarmos agora num leque quase ilimitado de tendências. Há, literalmente, blogues para todos os gostos: humorísticos, regionalistas, bibliófilos, de arquitectura, futebolísticos, eróticos, religiosos, gastronómicos, apócrifos, académicos, literários, rascas, eruditos, «you name it». Alguns são excelentes (sendo que a palavra «alguns» equivale, neste universo, a umas boas dezenas), outros são apenas razoáveis e muitos não têm qualquer interesse. A blogosfera, no fundo, limita-se a reflectir o que acontece em qualquer outra actividade humana. É a velha história da curva de Gauss: impera a mediania, rareia a excelência. Como em tudo. Sejamos honestos: ninguém deixa de ouvir os cantores de qualidade só porque sabe que existem os pimbas, pois não?
Uma coisa é certa: a blogosfera, com todas as suas potencialidades e limitações, veio para ficar. Talvez ainda não justifique tanta exposição mediática (sobretudo se tivermos em conta que os blogues mais frequentados registam uma média de apenas 500 visitas diárias), mas a verdade é que está a nascer ali qualquer coisa radicalmente nova, entusiasmante, criativa, paradoxal, livre e (talvez por isso) muitíssimo bela. Essa «coisa» nova, ainda em construção, ainda a emergir do magma mais ou menos caótico de centenas de vozes que se sobrepõem e contradizem, essa «coisa» nova é preciosa. Quem não perceber isto, não percebeu nada.
Devemos então glorificar acriticamente a blogosfera, como se fosse o El Dorado redentor da mediocridade geral? É claro que não. Mas devemos discuti-la com seriedade, porque é de um fenómeno sério que se trata. Pela primeira vez, a internet perfila-se como um complemento válido à imprensa clássica. Falo de complemento, sublinhe-se; não de alternativa. Ao contrário do que muita gente insinua, a blogosfera não é um «lugar» (se é que podemos falar de «lugar» na imaterialidade do ciberespaço) onde se faça jornalismo, pelo menos nos moldes tradicionais. A blogosfera é outra coisa. Umas vezes segue os temas e o «modus operandi» do jornalismo (nomeadamente nas críticas a acontecimentos culturais ou no comentário político), mas na maior parte dos casos não. Nos blogues, as notícias e as crónicas cruzam-se com apontamentos do quotidiano, divagações filosóficas, «private jokes», poemas, gestos de amizade, desabafos e toda a sorte de pequenas referências que nunca teriam lugar num jornal, embora se enquadrem perfeitamente no espírito heterodoxo e multiforme desta nova forma de comunicar. A blogosfera não é a continuação do jornalismo por outros meios (ou sequer por outro meio). A blogosfera é o que é, passe a tautologia. Ou melhor, é o que ainda não é. É o que há-de ser.
Separadas as águas entre a blogosfera e o jornalismo (por muito que aparentem ser, nos tempos que correm, irmãos siameses), levanta-se uma magna questão: devem os jornalistas profissionais escrever nos blogues? Para o director deste suplemento, a resposta só pode ser negativa porque «quando os profissionais do jornalismo se envolvem em “blogues”, estão a negar a essência do seu trabalho e a viciar o jogo da liberdade», além de embarcarem em exercícios «de vaidade pura» e de «presunção sem pai nem mãe». Depois de muito pensar sobre o assunto, e de reler os blogues escritos por jornalistas (Francisco José Viegas foi uma das últimas «aquisições»), continuo sem perceber em que medida há naqueles textos, geralmente mais espontâneos e sem as limitações editoriais que nascem do facto da imprensa ser «finita no espaço e no tempo», qualquer negação da «essência» do jornalismo. O que se passa, muito simplesmente, é que alguns jornalistas não se esgotam na sua crónica semanal e têm, na internet, um meio de publicarem tudo aquilo que lhes interessa escrever, mas que não cabe (por razões de tamanho ou temática) na lógica própria da imprensa. Será isto «viciar o jogo da liberdade»? Porquê? Como? O jogo da liberdade ficará viciado, isso sim, no dia em que se decretem quaisquer limitações no acesso à blogosfera. Quem é que estabeleceria o «numerus clausus»? E com que critérios? Na realidade, nada disto faz sentido, porque a blogosfera é virtualmente infinita. Ninguém «ocupa» o lugar de ninguém. Há espaço para toda a gente, até para os que assumidamente não gostam de blogues (esses podem escrever sobre a sua aversão, por exemplo). No limite, chegado o dia em que todos os portugueses tenham acesso à internet e saibam escrever duas frases seguidas, cada habitante deste país pode manter o seu blogue. Mas isso, claro está, é entrar no domínio das distopias.
Quanto à vaidade e presunção, o que se passa é precisamente o inverso. Entrar na blogosfera, onde não existem hierarquias e todos os «bloggers» estão em pé de igualdade, exige coragem e humildade. Coragem porque não é fácil sobreviver num meio em que as polémicas são permanentes e agressivas, a troca de argumentos exige boa preparação teórica e o nível médio da escrita é francamente elevado (já para não para falar do escrutínio apertadíssimo feito pelos leitores, nas áreas de comentário). Humildade porque nos apercebemos todos os dias que há pessoas, nomeadamente as que não têm acesso aos jornais, que sabem mais do que nós, são mais cultas do que nós, estão mais bem informadas do que nós e escrevem melhor do que nós. De resto, essa foi uma das principais lições que aprendi nestes seis meses de blogosfera, juntamente com a constatação de uma inesperada generosidade «inter pares». Mas isso já seria matéria para outra crónica.

(esta crónica foi publicada no DNA de 28/06/2003)


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EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «O ÚLTIMO OLHAR».
23:09  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «A GUERRA SEM ARGUMENTOS».
23:08  
EM BREVE, NESTE ESPAÇO, PODERÁ LER A CRÓNICA «CONVERSA INACABADA».
23:08

 
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