Aqui se reúnem crónicas publicadas, semanalmente, por José Mário Silva no DNA (suplemento de sábado do «Diário de Notícias»). E-mail: escrita_a@hotmail.com


























 
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ESCRITA AUTOMÁTICA
 
11.7.03  
UM LUGAR PARISIENSE

1. A data: 30 de Junho de 2003. A hora: 11h00. O local: Café de la Mairie (Place Saint Sulpice). O tempo: nuvens baixas, escuras. Abro o caderno preto e escrevo o que vejo: a fachada da igreja de Saint Sulpice, em obras (há andaimes do lado esquerdo); o homem que entra no café, com fato verde marinho, barbas brancas, anéis bizarros em todos os dedos da mão direita; o autocarro 70 e as três pessoas que ainda ficaram na paragem, depois dele passar; toda a sorte de chapéus-de-chuva, fechados agora que já não chove; a rapariga que veste uma camisola angora, de cor púrpura; o autocarro 96, seguido pelo 63; os stands verdes do Marché de la Bibliophilie, montados no centro da praça (escondendo a fonte); o balão de hélio que ficou preso entre os ramos de uma árvore, talvez fugido das mãos de uma criança incauta; o mendigo que carrega uma pilha de jornais ainda húmidos; uma camioneta da empresa Dupont – Sanitaire et Chauffage; o rapaz que fala ao telemóvel encostado a um plátano; o 87; a senhora com um top de padrão leopardo; a equipa de televisão italiana que entrevista um transeunte e lhe ensina um truque com cartas; a Renault Kangoo azul, com atrelado, vinda da Rue des Canettes; o par de «amoureux» que se beija cinematograficamente (comemorando talvez uma boa notícia, ou um mês de namoro); o homem que leva uma baguete na mão esquerda e uma embalagem de bolos, piramidal, na direita; o 96 e o 70; o bando de pombos que dá duas voltas à praça (dois círculos perfeitos) e depois pousa num friso da igreja, acima das colunas; o 63; a paragem de autocarro momentaneamente vazia; o rapaz de t-shirt verde oliva que está sentado noutra mesa da esplanada e toma notas num caderno preto parecido com o meu; os sinos da igreja que tocam as badaladas do meio-dia, no exacto instante em que todos os pombos da praça levantam voo e eu peço a conta.

2. Eu lembro-me de não saber ainda da existência de um escritor chamado Georges Perec (por exemplo, quando ele morreu, a 3 de Março de 1982, dez anos e um dia após o meu nascimento). Eu lembro-me das primeiras leituras dos seus livros («A Vida, Modo de Usar»; «La Disparition») e do arrepio que provoca a descoberta de um génio. Eu lembro-me das fotografias: o seu rosto vagamente mefistofélico, os gatos, as reuniões regulares da família OuLiPo (Raymond Queneau, Italo Calvino, François Le Lionnais, Jacques Roubaud, etc). Eu lembro-me das suas idiossincrasias: as palavras cruzadas, o xadrez, o hábito de prender o cigarro entre o dedo médio e o anelar. Eu lembro-me dos prodígios verbais, dos lipogramas, dos palíndromos, da capacidade de explorar até ao limite as potencialidades da língua francesa, sem se ficar nunca, ou apenas, pelo «tour de force». Eu lembro-me de ler as suas prosas com uma certa cobiça, invejoso desse cruzamento irrepetível de erudição e espírito lúdico. Eu lembro-me do livro «Je me souviens» («Eu lembro-me») em que todas as frases começam por «je me souviens». E lembro-me, agora, de um livro de capa cinzenta (editado por Christian Bourgois): «Tentative d’épuisement d’un lieu parisien».

3. O que Georges Perec procurou fazer, na sua «Tentative d’épuisement d’un lieu parisien» («Tentativa de esgotamento de um lugar parisiense»), era à partida impossível: registar tudo o que acontece num determinado local, durante uma hora, uma manhã, um dia inteiro. Ou, para usar as suas palavras, descrever «aquilo em que ninguém repara, o que não tem importância: o que se passa quando nada se passa, a não ser tempo, pessoas, automóveis e nuvens». Entre 18 e 20 de Outubro de 1974, Perec anotou meticulosamente (quase) tudo o que viu na Place Saint Sulpice. O livro resume-se, no fundo, à enumeração de pessoas, automóveis, pombos e autocarros; ao espanto diante das centenas de micro-histórias que acontecem, em simultâneo, na esplanada de um café; e a um olhar melancólico sobre o lento declínio da luz ou sobre a realidade que se escapa, fugidia, à nossa frente. Quase 30 anos depois, algumas coisas permanecem: a igreja, o quiosque, a agência de viagens, o hotel, a loja de artigos religiosos ou os autocarros, todos ainda com os mesmos números e destinos (o 96 para Montparnasse, o 63 para a Porte de la Muette, o 86 para Saint-Germain-des-Prés...). Mas muitas outras coisas desapareceram: o homem que fazia entregas de Tonygencyl, o instituto de beleza ou os Citroën 2CV de cor verde maçã. Sobretudo, eclipsaram-se dois dos três cafés em que Perec se sentava, com uma garrafa de água Vittel, a contemplar aquele pequeno cosmos. Foi por isso no único café ainda aberto, talvez muito diferente (talvez igual) ao daquela época, que me sentei em duas manhãs seguidas, para chegar à mesma conclusão do autor de «53 Jours»: Saint Sulpice, como outro lugar qualquer, é inesgotável.

4. A data: 1 de Julho de 2003. A hora: 11h00. O local: Café de la Mairie (Place Saint Sulpice). O tempo: 1/5 de céu azul, algumas nuvens ameaçadoras, um princípio de ventania. Como não chove, sento-me no canto menos protegido da esplanada e peço um café. Em cima da mesa, o caderninho preto onde anoto (quase) tudo o que vou observando: uma Toyota Hiace a entrar, de marcha-atrás, na Rue des Canettes; o autocarro 96; a senhora que está sentada à minha esquerda e fuma compulsivamente um maço de Camel, cabeça para trás, argolas de fumo saindo da boca em O; o autocarro 63 e logo depois o 87; o camião laranja da Rapid’ Meubles Demenagements; um rapaz de vinte e tal anos que escreve postais (para a namorada?) na mesa ao lado da minha; o 70; a rapariga que entra no café com um livro de 500 páginas na mão e cara de pouco sono; as pessoas na paragem de autocarro (sete, impacientes); as buzinadelas e imprecações na esquina da Rue Napoleon com a Rue du Vieux Colombier; o homem de muletas e «Le Figaro» debaixo do braço; a mulher de cabelo vermelho e saco da loja «Votre nom...»; o senhor de meia-idade que veste um casaco de camurça e tenta acender, sem sucesso, o seu cachimbo; o chapéu de marinheiro visto ao longe, junto ao quiosque (Corto Maltese?); o homem em fato-macaco azul, com manchas de tinta branca; o vento que amaina no preciso instante em que uma velhota baixinha e enrugada olha para o céu, para a nuvem negra que paira sobre a torre de Montparnasse, e diz que vai chover «trés fort»; o homem dos sacos transparentes (uma meloa, cenouras, iogurtes, latas de conservas); os operários que desarmam, no centro da praça, os stands verdes do Marché de la Bibliophilie; o balão de hélio que continua preso entre os ramos da árvore; o 63; o pombo que debica migalhas aos meus pés; as oito motas estacionadas no passeio; o vento que sopra agora com mais força e desalinha os cabelos de quem passa; as folhas verdes dos plátanos que caem como se fosse Outono; o lugar vazio onde ontem escrevia furiosamente o outro rapaz observador; o relógio que marca 11h52 quando a chuva desaba torrencial (tinha razão, a velhota) e decido ir embora, com o caderno cheio de aproximações inconsequentes, palavras perdidas, contabilidades inúteis e nem uma sombra, uma única sombra, de Perec.

(esta crónica foi publicada no DNA de 12/07/2003)

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